segunda-feira, 13 de junho de 2016

Comentários Cotidianos I



Hermenêutica da morte

Pensar sobre a própria morte se torna um tema recorrente depois que completamos quarenta anos. Elaborar uma filosofia da mortalidade ou uma hermenêutica da morte torna-se quase que uma obrigação para quem leva o pensamento a sério.
Hoje, com quarenta e cinco anos, a questão se torna, para mim, mais presente, intensa e demasiadamente existencial. Não foi por medo de morrer, entretanto, que voltei a correr à noite como maneira de exercitar meu corpo e me manter minimamente em forma. Foi, antes de tudo, uma resposta de meu corpo ao excesso de mais valia, ao inferno do trânsito, ao cansaço mental de horas de aula e às eternas questões de dinheiro.
Correr relaxa meu corpo e minha mente. Corro sozinho, cortando o bairro da Boa Vista e suas praças, aproveitando do silêncio quase sepulcral que toma as ruas do Recife. Ao estilo de um peripatético pós-moderno e solitário, corro meditando sobre as questões que me interessam ou acossam meu espírito.
Venho elaborando um projeto de pós doutorado sobre esta hermenêutica. Trata-se de ler o ser-para-a-morte de Heidegger e a impossibilidade de experienciarmos nossa própria morte segundo Wittgenstein à luz da compreensão da relação entre sono sem sonho e nada proposta pela Monadologia de Leibiniz, numa comparação com a pulsão de morte de Freud e o vazio de Winnicott.
Contudo, não é neste sentido de pensar a morte que me debruço quando corro. Meus pensamentos recentes me conduziram para cálculos sombrios e reveladores ao mesmo tempo: escuridão e iluminação a um só tempo.
Primeiramente, pensei nas mortes de meus pais. Minha mãe faleceu com 53 anos e meu pai aos 66. Somando ambas as idades, temos 119. Consideremos a média como 60. Por esperança, acrescentemos mais 2 anos. Assim, pensei que eu devo viver, a partir desta média, até os 62 anos de idade. Como tenho 45, me restam 17 anos de vida. Isso mesmo: 17 anos para viver.
Esse pensamento, inicialmente, me soou confuso, indefinido. Dois quilômetros depois de corrida, entretanto, soou-me perturbador. É como se estivéssemos numa prisão e não quiséssemos receber a liberdade. Preso ao corpo, preso ao mundo, preso à vida.
Pensei nas pessoas que amo, no futuro, nos meus projetos, nos lugares que quero conhecer, nos amigos, nas ruas, nas minhas memórias e na própria vida. De certa forma, uma tristeza quase lacônica abateu-se sobre mim. Não quero morrer, pensei apressadamente. Lembrei-me do pintor Miró se despedindo da paisagem um pouco antes de morrer e suas últimas palavras: “É uma pena”.
Pensei em Sêneca e na ideia de uma tranquilidade diante da morte. Sopesei as ideias budistas, as crenças infundadas sobre a permanência, no nada, na impossibilidade de pensar sobre o vazio eterno. A densidade que habita em tudo isto.
Mas meus cálculos se voltaram para uma ideia de Wittgenstein: se a eternidade significa a ausência do tempo, então vive eternamente quem vive seu presente. Devo viver cada momento em sua máxima intensidade ou não me reportar mais ao futuro? O que significa estar no seu presente? Devo viver o carpe diem ou viver sem desejar?
Minha escolha foi viver intensamente cada minuto da vida. Mais a corrida limpou minha mente e percebi que é impossível – num mundo capitalista – viver todos os momentos intensamente. Seria o mesmo que escolher viver intensamente no inferno. Assim, calculei quantos finais de semana sem trabalho terei na vida que me resta: 4 finais de semana, em média, por mês, 48 por ano. 48 x 17 = 816. Como cada final de semana possui dois dias, então terei 1632 dias de finais de semana em que poderei viver intensamente – e isso em relação aos quase 6205 dias que me restam. Nos dias de trabalho, precisarei criar ilhas de intensidade como correr ou beber quarta à noite.
E como serão os outros dias da semana trabalhando? Terei que criar mecanismos psicológicos, estéticos, existenciais e filosóficos que me permitam o mínimo de intensidade diante do inevitável. Então, subitamente, e quase petrificado de terror, percebi que esses cálculos estavam minando o sentido da vida – que não é ter sentido, mas ser apenas um percurso – e minorando o valor das coisas.
Diante deste fato inexorável, quase um tormento, percebi que o pensar a morte é um modo de ser sazonal. Trata-se de um reconhecimento de nossa finitude, isso é fato, mas também revela nosso amor à vida. Assim, ciente das limitações impostas por esta situação – e que situação não encontra em si mesma suas próprias limitações? – meditei sobre o modo em que nós escolhemos ser no mundo. O Sísifo de Camus veio em meu socorro. Pensei no “e daí?” de Henry Miller, nas bebedeiras de Bukowski e no absurdo de Kafka. Velhos amigos que sempre vêm em meu socorro.
Do terror e da escuridão à luz e iluminação. Percebi que a matemática é impressionante. Mas apenas isto, nada mais. Deixei de lado os cálculos e a fantasia carregada nos números.  A vida vale a pena em si mesma, por si mesma e isso já me basta. Cheguei em casa exaurido pela corrida e pela meditação sobre a morte. Olhei pela janela e vislumbrei o pátio que se estendia, naquela noite fria e solitária, ante meus olhos. Abri uma cerveja e mandei tudo para a puta que pariu.





Comentários Cotidianos II


Projeto 2020

Numa entrevista assustadora, o ex-presidente da FIESP, o senhor Benjamin Steinbruch, afirma categoricamente que a nossa CLT é anacrônica e não responde mais aos interesses dos trabalhadores. Na verdade, ele queria dizer o seguinte: “A CLT atrapalha o projeto de lucro incessante e absurdo dos empresários brasileiros”.
Marx já nos advertiu que um dos grandes perigos ideológicos do capitalismo residia na defesa dos ideais da classe dominante pela classe dominada. O senhor Steinbruch quer nos fazer crer que os seus interesses são os mesmos dos interesses dos trabalhadores.
Da maneira mais cínica possível, ele afirma que o trabalhador não precisa de uma hora para almoçar. Quinze minutos são suficientes, ele afirma. Para que férias e décimo terceiro? E por que não terceirizamos as atividades fins de uma vez por todas? A CLT, segundo esse senhor, engessa as relações de trabalho e atrapalha o desenvolvimento econômico do país.
Ele defende que as negociações devem ser feitas diretamente entre empresários e trabalhadores, ou seja, sem o intermédio de instrumentos legais. Num mundo ideal, onde os interesses dos homens fossem o próprio homem, talvez essa assertiva pudesse ser escutada. Porém, no mundo real do capitalismo, essa premissa torna-se via de mão única.
Os neoliberais de plantão – e não olvidemos os auxílios emergenciais que os Estados do mundo já fizeram para socorrer empresas particulares, bem como os subsídios estatais dados a empresas privadas estratégicas à la Keynes – citarão Mises, Hayek e Friedman como os arautos de um Estado de bem-estar universal. Esquecem-se do utilitarismo meritocrático que está por trás destas visões de mundo.  Esquecem-se que o próprio FMI afirmou que as políticas neoliberais aumentaram as desigualdades no mundo – os ex habitantes de Detroit devem entender muito bem disso. Esquecem-se do auxílio que o FED deu de U$ 15 trilhões para salvar bancos nos EUA – cadê o Estado Mínimo aqui? Esquecem-se, também, do fato inegável de que, no Brasil, a meritocracia é hereditária.
Neoliberal defende não intervenção até a crise chegar. Crise criada pelas mesmas estruturas e políticas econômicas defendidas por eles. Na crise, o socorro do Estado. Segundo Bourdieu, o neoliberalismo é um projeto que visa destruir a coletividade.
Numa quebra de braço, os trabalhadores, neste esquema ideal do senhor Steinbruch, sairão sempre perdendo. Interessante notar que a mídia brasileira não noticiou as recentes revoltas ocorridas na França quando o governo assinalou a possibilidade de redução de direitos trabalhistas. Idealismo, mídia e economia sempre de mãos dadas.
Chamo de Projeto 2020 este novo ideário da FIESP. Porque? Simples: visam conduzir o Brasil para a década de 20 do século XX.  Diante de uma elite retrógada e que pauta suas ações pela exclusão, fica difícil levar em consideração essas propostas tão esdrúxulas. Seria cômico se não fosse trágico. O fantasma do patinho amarelinho da FIESP ronda o Brasil. Sorridente e simpático, arrastando multidões de verde e amarelo, encobre a podridão sórdida que se oculta sob sua pele de cordeiro.
Nota: Coloquei abaixo vídeo com trecho da entrevista de Benjamin Steinbruch. Pontos de vistas antagônicos surgem a partir daí. Creio que um dos grandes méritos da pós-modernidade, a favor dos capitalistas, foi a desconstrução paulatina da consciência de classe. Como disse um amigo: “No Brasil, só rico tem consciência de classe”.  O antagonismo do vídeo acentua esse abismo.


Vídeo: trecho da entrevista com Benjamin Steinbruch

video

Meus Poemas


Philosophica Umbra

É na filosofia, mais que na poesia, onde encontro refrigério para minha alma.
Deve ser uma doença antiga.
Na sala, tomada pelas sombras do dia e a fumaça do café,
diviso, enfim, a melancolia que me pertence.
Habitar melancolicamente o dia
 – essa frase suspira .
Talvez algum médico, de algum lugar, possa me curar.
Não sei, e isso é grave para aquele que ama a filosofia.
Não conheço os contornos dessa imposição – uma necessidade antiga.
Deveria ter nascido na Grécia, e não aqui, pensei.
Que idiotice não querer pertencer a seu lugar
- a seu tempo
- a si mesmo (seja lá o que isso significa)
- aos limites da angústia.
Quando me retiro - e penso que o volume do oceano,
esse cheiro forte de sal e esperança, possa me salvar -
descubro novamente que não há salvação alguma.
Uma doença, só isso.
Infernalmente doente.
O peso que há em tudo
 e essa vontade diabólica de beber,
de sair do âmago do dia,
de mim mesmo e do outro.
Talvez minha doença seja antiga -
outros podem ter contraído esse vírus,
essa paralisia diante do mundo –
uma busca silenciosa por sentido.
Nenhum deus aqui,
ou sombra, ou luz,
ou esperança, ou morte,
ou amor, ou vida,
apenas a doença.
Infernalmente doente.




Poemas dos Amigos I



Arca
 Adriane Garcia.

Entre a perplexidade e o tédio
As palavras suspeitam-se entre si
De que falará a poesia? Sim! O céu é azul
A estrela brilha, a flor cheira
O amor... ah, o amor

Sob os desmoronamentos
De todas as ilusões, pé ante pé
O silêncio é que tenta atravessar o tempo
Sobreviver até o amanhã:
A esperança vaga

Que repetirá a poesia
Dos barulhos de um mundo estúpido?
Para que serve um poeta
Que se adequa aos objetos
Como uma etiqueta de preço?

Mais mil anos olharam pela escotilha
E não viram terra
Os pombos foram e voltaram
(Poucas vezes trouxeram
Um ramo

De alma.)

Poemas dos Amigos II


    
                                                             Gentil Marinheiro
                                                                Erick Marçal

Cidade do Paulista
Praia do Janga 
Onde as embarcações de nome janga flutuam no seu mar...
Um pequeno bote a céu aberto
Armadilhas feitas de aroeira e bambu arremessadas no oceano
no intuito de capturar...
Saramunetes, ariocós, ciobas e budões... 

O vento soprando
As ondas gingando a janga
De um lado a outro
Pra lá e pra cá
Pra frente e pra trás

Gentil marinheiro
Despesca o peixe de dentro da armadilha
Espumas e ondas
De um lado a outro
pra lá  e pra cá
Pra frente e pra trás

Na pele as marcas do sol
as marcas do sal
Chapéu de palha
Pés descalços

Gentil marinheiro
A terra te espera Saudade de teu povo
Herança de família
ser assim... 
Pés descalças
Chapéu de palha 

Gentil marinheiro
que despesca o peixe de dentro da armadilha...

Literatura


Creio que, inegavelmente, o tema favorito da escrita de Edgar Alan Poe foi a morte. O que há de sombrio e macabro em seus contos, poemas e ensaios é a questão da mortalidade enquanto algo sempre presente, à distância de uma mão, tão próximo e real que conduz ao abismo da impermanência, da fragilidade e da impotência.
O senhor Valdemar, personagem que é hipnotizado momentos antes de sua morte e que “vive” num limbo entre a impossibilidade de decomposição de seu corpo e extinção de sua consciência e a morte, explicita a busca de sentido para este terreno assombrado pela incapacidade de sentido. Valdemar representa o hiato do desconhecimento desta transição e o terror que a encobre.
O Corvo torna-se o símbolo gótico essencial da morte na literatura. No poema homônimo, diz Poe:

                                               Profeta, ou o que quer que sejas!
                                               Ave ou demônio que negrejas!
                                               Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
                                               Onde reside o mal eterno,
                                               Ou simplesmente náufrago escapado
                                              Venhas do temporal que te há lançado
                                             Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
                                            Tem seus lares triunfais
                                             Dize-me: existe acaso algum bálsamo no mundo?
                                             E o corvo disse: “Nunca mais”.

No insano conto O barril de Amontillado, dois beberrões brigam pelo amor de uma única mulher. O fim trágico que sucumbe a todos parece assinalar para aquela mesma impossibilidade de solução que sentimos ao ler O Processo de Kafka. Emparedado até à morte, novamente no limbo entre a vida e o fim.
O gótico que há no seu romantismo sombrio foi, inicialmente, o sinal de sua busca para agradar ao público. Creio que Poe é uma mostra de que é possível fazer literatura de alto nível e agradar ao público em geral – caso parecido com o do best-seller de Umberto Eco, O Nome da Rosa. Contudo, este estilo literário encontrou em Poe uma de suas mais rigorosas expressões. 
Para quem conhece a obra de Poe, sabe que seus temas não se concentraram apenas na morte e no sombrio: sátiras, contos de humor e estórias de detetive. Possivelmente este último estilo influenciou Conan Doyle, o pai de Sherlock Homes. Essa diversidade de temas demonstra a perseguição contínua de Poe por uma perfeição na escrita, no processo laborioso de compor seus contos e poemas. Ele mesmo afirma isso no ensaio A Filosofia da Composição. 
O fim de sua vida – encontrado com roupas que não eram suas e em estado de delirium tremens – parecia configurar toda uma vida dedicada ao inexplicável, inaudito e aterrorizante. Suas últimas palavras foram: “Deus, por favor, ajude minha pobre alma”.
Foi desta pobreza, possivelmente, de onde Poe retirou a riqueza de toda a sua obra literária. Cada um com seus terrores e assombros. Para poucos, a genialidade de transformá-los em arte. 

Artes Visuais


No dia 6 de junho deste ano, faleceu Tunga, pernambucano de Palmares e um dos mais relevantes e criativos artistas contemporâneos do Brasil. Em uma de suas últimas entrevistas, ele afirmou: “Antes de tudo, é no campo da estética em que se dá o início da obra de arte”. É neste campo em que a beleza ou a feiura podem nos atrair para visitar aquilo que se nos apresenta enquanto arte.
Sua obra se abre para que o observador possa percorrer o espaço entre a peça, o espaço, o artista, o conceito, a beleza e a si mesmo. Tunga elabora uma mitologia particular a partir de narrativas universais, fincadas na história da humanidade. A arqueologia é vista pelo artista como um depositário de elementos estéticos que conduzem à construção de um ideário artístico bastante peculiar.
Elementos como tacapes, pentes, imãs e tranças se alinham em um todo que convida não apenas à reflexão, mas a uma experiência estética que exige do olhar uma busca atenta pela beleza que se revela aos poucos, uma vez que o percurso é, em si, uma de suas marcas essenciais.
O processo de construção rigorosa do imaginário surge quando suas esculturas e instalações não se fecham num único sentido. Ao contrário, é na abertura da possibilidade de sentido – tão único, tão voltada para a história particular a partir de referências universais – que o imaginário de cada um pode erigir o sentido que suas peças instigam.
A libido – em um sentido mais junguiano do que freudiano  –  se reveste nas suas composições com um erotismo que guia suas pesquisas: os instintos confluem para um todo em que o universal e o particular se chocam numa galáxia em que orgânico e inorgânico se mesclam. Os portais psicopompos permitem a transição entre os mundos, entre a realidade e o desejo, entre a facticidade e o onírico, entre a obra e a imaginação. 
Interessante que sua contemporaneidade se dá exatamente no elemento arcaico fundamental que compõe o estrato de sua arte. Numa arqueologia da arte, Tunga se volta para a existência nutrida pelo presente e passado, pela busca e pelo encontro, pela frustração e a espera, pelo desejo e o cansaço.
Como escreveu Silas Martí para a Folha de São Paulo, “Tunga construiu uma obra plástica incontornável na arte contemporânea”. Exato e muito justo.







Citações



  
“A dificuldade real não reside nas novas ideias, mas em conseguir escapar das antigas”.
                                                                                                                                                                                                                                                     John Maynard Keynes
“A essência da filosofia liberal é a crença na dignidade do indivíduo, em sua liberdade de usar ao máximo suas capacidades e oportunidades de acordo com suas próprias escolhas, sujeito somente à obrigação de não intervir com a liberdade de outros indivíduos fazerem o mesmo”.
                                                                                                                                                                                                                                               Milton Friedman

“Como diz Hayek, o poder sindical é essencialmente o poder de privar alguém de trabalhar aos salários que estaria disposto a aceitar.”
                                                                                                           Roberto Campos

“Atormentadas pelo capital, metrópoles são também o criadouro das relações que o deixarão para trás”.
                                                                                                           David Harvey

“Eu entrei no governo com um objetivo: transformar o país de uma sociedade dependente em uma sociedade autoconfiante, de uma nação dê-para-mim em uma nação faça-você-mesmo”.
                                                              
                                                                                                        Margareth Thatcher