quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Comentários Cotidianos


Subjetividade digital ou a estranha arte de querer ser alguém.


            A busca contínua por exemplos e respostas prontas, além de uma ânsia pela corrida em busca de um desejo que deseja sempre a si mesmo, são características essenciais de nossa pós-modernidade. Escreve Bauman: “Então é a continuação da corrida, a satisfatória consciência de permanecer na corrida, que se torna o verdadeiro vício – e não algum prêmio à espera dos poucos que cruzam a linha de chegada. Nenhum dos prêmios é suficientemente satisfatório para destituir os outros prêmios que acenam e fascinam porque (por enquanto, sempre por enquanto, desesperadamente por enquanto) ainda não foram tentados. O desejo se torna seu próprio propósito não contestado e inquestionável”.
            Numa sociedade de consumo, as ofertas se multiplicam exponencialmente. O desejo se vê obrigado a repetir-se, a reinventar-se numa corrida ensandecida por realização. Mas, absurdamente, o desejo nunca se realiza, daí o loop eterno que se produz. Tal repetição conduz à histeria. Consumir transformou-se em fazer-se, a si mesmo, produto de consumo. O devorar canibal da pós-modernidade não encontra refrigério. A essência da corrida é a pressa.
Sempre que me reporto à pós-modernidade, penso em dois momentos históricos que me ajudam a compreender melhor nosso tempo: o helenismo e o renascimento. Com o primeiro, após a expansão e consolidação do império de Alexandre, o sentido grego de ser coletivo se esvaiu: o cidadão da pólis se transforma em cidadão do mundo, mas, agora, individualizado. No segundo momento, Bacon preconiza na obra Novum organum – única realização de sua Instauratio magna - a profecia da técnica. O pensamento calculador torna-se senhor do pensamento. Tal profecia revelou-se certeira com o advento de nossa tecnociência e seu alcance.
Heidegger já havia assinalado que o perigo da técnica é sua essência. Não se trata de fazer uma demonia da técnica, mas de pensar seu perigo, Não sem sentido, na sua carta “Sobre o Humanismo”, o pensador alemão remete-nos ao pensar que pensa o ser como uma tarefa fundamental: “Caso o homem encontre, ainda uma vez, o caminho para a proximidade do ser, então deve antes aprender a existir no inefável. Terá que reconhecer, de maneira igual, tanto a sedução pela opinião pública quanto a impotência do que é privado. Antes de falar, o homem deve novamente escutar, primeiro, o apelo do ser, sob o risco de, dócil a este apelo, pouco ou raramente algo lhe resta a dizer”.
Contudo, é da essência da busca incansável e da corrida interminável não escutar, mas apenas falar. Falar aqui significa: mostrar-se incansavelmente como objeto de consumo para o outro. Só assim se acredita afirmar a existência: na repetição da fala. Mas a linguagem, aqui, é, antes de tudo, a linguagem do mostrar-se em seu sentido fraco. O que isso significa?
Na pós-modernidade, a subjetividade digital se ancora na tarefa constante de afirmação da fala. Essa tarefa exige uma repetição ad infinitum das ações da existência enquanto decadência (Verfallen). Não é de se estranhar, portanto, que os sujeitos dessa subjetividade fiquem exaustos pela repetição. As redes sociais – o lugar por excelência da subjetividade digital – exigem a pressa da corrida na afirmação esquizoide do si mesmo.
Até o limiar do cansaço, os sujeitos se repetem em um teatro do grotesco. É preciso postar continuamente os lugares em que se está, a comida que se está comendo, os hobbies, as crenças, as paixões, os lutos, as viagens, as praias no verão, os exemplos seguidos, as “verdades” conquistadas, as dietas, os exercícios, as festas, os rancores, mas sempre com o si mesmo no centro desse espetáculo do terrível.
O sujeito pós-moderno acredita-se na sua reinvenção cotidiana. Mas essa reinvenção nada mais é do que repetição histérica. “Se não posto, não existo”, eis a máxima desse cartesianismo doentio. A fala, portanto, é a perda do que é essencial na linguagem.
Sempre que quero me afastar dessa histeria, me recolho aos livros – e tal afirmação possui apenas um cunho pedagógico. Nos gregos, mais especialmente em que um sopro de leveza e do verão e inverno verdadeiros ainda se faz sentir, é possível recolher-se para a escuta atenta. Com os renascentistas, é o sabor ambíguo de uma época tão revolucionária e conservadora ao mesmo tempo. Talvez seja pela vontade de afastar-me do falatório pós-moderno e sua inocuidade – entendido aqui como o espetáculo acima citado.
A busca pela linguagem originária, portanto, se faz no silêncio meditativo. Trata-se do engajamento pelo e para o ser. Novamente, Heidegger: “O pensar consuma a relação do ser com a essência do homem. O pensar não produz nem efetua essa relação. Ele apenas oferece-a ao ser, como aquilo que a ele próprio foi confiado pelo ser. Esta oferta consiste no fato de, no pensar, o ser ter acesso à linguagem. A linguagem é a casa do ser. Nesta habitação do ser mora o homem. Os pensadores e os poetas são os guardas dessa habitação”.
Pensadores e poetas. A subjetividade digital é o distanciamento metódico desse pensar. A afirmação do vazio se locupleta com a nulidade de sua repetição e dos conteúdos de suas afirmações. Cansaço, histeria, mostrar-se, afirmação e doença.
Por fim, a palavra de Heráclito: Ethos anthrópo daímon. Na tradução usual: “O modo próprio do ser é para o homem o demônio”. Lembrando o sentido de daimones para os gregos. A tradução heideggeriana: “A habitação (familiar) é para o homem o aberto para a presentificação do Deus (o não-familiar)”.

Nosso tempo terá que reaprender a escutar essas palavras.

Artes visuais





Joseph Beuys

            A arte contemporânea possui diversos problemas que merecem um olhar estético apurado:
1º Não se refere mais a escolas ou movimentos. Cada artista expressa seu universo pessoal, daí a variedade quase absurda de expressões na pós-modernidade.
2º A arte não fala daquilo que esperávamos. Ao contrário, a arte contemporânea é intertextual, multidisciplinar e portadora de tantas linguagens quanto loucuras particulares dos artistas.
3º Apesar do forte individualismo, a arte contemporânea quase sempre trata de problemas ou questões da nossa sociedade e do nosso tempo. Cria-se, assim, uma ambiguidade: universal e particular se misturam, se confundem e se escondem mutualmente.
4º A hermenêutica estética se desdobra continuamente. Trata-se de um esforço de compreender o universal que habita cada expressão individual. Novamente, a ausência de movimentos – sendo o Minimalismo e seus desdobramentos a última tentativa de elaborar uma unicidade estética na pós-modernidade – cria o caos interpretativo.
5º O caos hermenêutico possibilita que tudo seja arte e, ao mesmo tempo, que nada seja arte. A ambiguidade, mais uma vez.
6º Por fim, o uso de novas tecnologias e novos materiais acentua ainda mais a diversidade caótica da arte contemporânea.
            Joseph Beuys é um artista alemão contemporâneo – considerado um dos mais relevantes da segunda metade do século XX – que se insere nesse universo acima citado. Beuys trabalhou sua poética por meio de escultura, fluxus, happening, performance, vídeo e instalação.
            Artista inserido no universo pós guerra, Beuys elaborou uma crítica refinada aos mecanismo de poder, tornando-se um ativista ambiental – algo semelhante à Land Art. A arte, para ele, possuía uma função libertadora.
            A performance Eu Gosto da América e a América Gosta de Mim ficou mundialmente conhecida. Beuys viajou da Alemanha para os EUA e foi direto para a galeria. Lá, se envolveu com uma manta de feltro numa jaula com um coyote. Sua interação com o animal durou sete dias. A América selvagem e o avanço da industrialização e a relação do ser humano com a natureza estava na mira dessa performance.
            Sua obra mais marcante possivelmente é A Matilha de 1969. Beuys alistou-se na força aérea alemã durante a Segunda Guerra. Sofreu um acidente e foi salvo por tártaros na Crimeia que o salvaram o envolvendo em feltro, gordura e ervas. Os historiadores não sabem se essa história é verdadeira, mas é o que retrata a instalação citada. A Matilha usa uma Kombi e 24 trenós de madeira que possuem lanternas, feltro e gordura.
            Se é para se pensar em um artista contemporâneo relevante e que tem algo a dizer, Joseph Beuys é incontornável. 

Meus poemas


Sobre os leões

Sonhei que era nada.
Mas o eterno leão que me persegue
insiste, com esmero calculado,
no medo ancestral.

Meu pai, ainda esguio e vibrante,
toma em suas mãos a areia
de um tempo distante.

O terror que há em tudo isso
e a incapacidade de colher
a luz que habita poeticamente
meu mundo.

Os leões se esgueiram com ferocidade,
espreitando minhas falhas,
a geografia que consola
as crianças desvairadas.

Sempre chove nesse deserto.
É da insistência que a flor incauta
consegue permanecer.

Meus dilúvios sempre retornam.
Talvez, no assomo de uma lucidez última,
eu venha a compreender.

É assim, nas piores tardes e noites,
que os leões retornam:
sem aviso.


Poemas dos amigos


A praça azul
                                                         Samarone Lima

Estou aqui
depois de ver os fuzilados
da Praça Azul
(os últimos sorridentes
da estação).

Olho, penso que ignoro,
mastigo minha dissidência
com força de fera,
olhos de cão.

Súbito, todas as forças
se tornaram antigas.

O pranto continua a machucar
a sombra atrás de mim
meio metro à frente do meu corpo
onde morre o silêncio
em sua foz
onde morro em mim.

Estou aqui.
há pouco tempo
lavaram a Praça Azul
adornaram-a com flores circunspectas
plantaram árvores burocráticas, habituais
vindas de outro país,
outra língua, outro som.

Agora dizemos árvore e o verde sangra.

A praça, no entanto,
permanece azul,
tão fuzilada quanto.


Livros


Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdam.


Em 1508, Erasmo de Roterdam escreve ao amigo Thomas Morus dizendo que o título de sua obra que seria publicada no ano seguinte surgiu da semelhança do sobrenome do amigo com a Loucura, Mória em grego. Morus perdeu a cabeça acusado pela Inquisição enquanto Erasmo mostrava que seu tempo era tomado pela Loucura.
            A edição que possuo do livro é de 1988 – 480 anos após a referida carta. Foi um presente do amigo André Luís, o Andrezinho. Ele escreveu no livro: “Zeca, que este livro seja um pequeno símbolo de nossa amizade, e que sirva também como recordação desta data. Do amigo André. 09/04/88”. Isso é que foi um presente no meu 17º aniversário.
            O Moriae Encomium (Stulticiae Laus) revela um humanista no sentido mais amplo do termo, bem distante da violência de Lutero, Calvino ou Loyola. O realismo de seu estilo revela sua vocação intelectualista.
            A exemplo da pintura de Bosch, Erasmo imaginou o mundo governado pela Loucura. E seguindo a máxima “não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo”, elabora seu elogio da Loucura. A stulticiae, a Loucura, afirma: “Sem mim, o mundo não pode existir um instante sequer, pois tudo o que está no mundo não é feito por loucos e para loucos?”. Mais pós-moderno é impossível – e isso advindo do século XVI.
            Erasmo, que pertencia à ordem de Santo Agostinho, cita o Eclesiaste: “Ao passear, o louco supõe que todos os que encontra sejam loucos como ele”. E cita São Paulo: “Como louco, eu afirmo que sou o maior de todos”. Mas essa Loucura esconde segredos que só o leitor atento será capaz de desvendar.
            No epílogo, ele afirma duas sentenças: “Eu jamais desejaria beber com um homem que se lembrasse de tudo” e “Odeio o ouvinte de memória fiel demais”.

            Um humanista renascentista para lançar luz sobre nosso tempo. Fundamental. 

Séries


Black Mirror

            Stephen Hawking, na obra O Universo numa casca de noz, faz uma análise sombria das consequências que as novas tecnologias poderão trazer para a humanidade. Não há ética, ele afirma, capaz de parar aquilo que convencionamos chamar de avanço tecnológico.
            Recentemente, a Hanson Robotics espantou o mundo com o androide Sophia. Mais ainda quando esse mesmo robô ganhou cidadania saudita concedida por um sheik. A inteligência artificial está se tornando cada vez mais uma realidade plausível e próxima. Os geminoids se assemelham assombrosamente com os seres humanos. Será um passo para que a nanotecnologia da engenharia robótica se encontre com a engenharia biomolecular para termos o primeiro ser híbrido da história – algo como o ser mostrado no filme Morgan de Luke Scott.


(Entrevista com Sophia)

            Também estamos nos aproximando da revolução holográfica que tornará o mundo ainda mais digital. Pensar a nossa realidade será uma tarefa que terá novos elementos, novos perigos e desafios. E isso sem falar na guinada para um conservadorismo atávico que povoa nosso século de maneira assustadora. O temor se tornando uma efetividade.
            A série britânica Black Mirror trata exatamente disso: das novas tecnologias, seus avanços, o impacto em nossas vidas e o que poderá acontecer em um futuro próximo.


(Geminoid HI-4)

            A séria é uma criação de Charlie Brooke. Lemos a seguinte declaração no Wikipédia: "cada episódio tem um elenco diferente, um cenário diferente, até mesmo uma realidade diferente, mas todos se tratam da forma que vivemos agora — e da forma que podemos estar vivendo daqui a 10 minutos se formos desastrados".
            Black Mirror se tornou popular quando foi incorporada às séries da Netflix. Como disse o próprio Brooke, não há uma linearidade entre os conteúdos de cada episódio. Eles são autônomos entre si, mas possuem como pano de fundo a discussão psicológica, cultural, econômica e social que as novas tecnologias estão causando e irão causar no futuro.
            A série chegou à quarta temporada com 6 episódios. Já ganhou o International Emmy Awards na categoria Melhor Filme/Minissérie de TV (o que não significa absolutamente nada).
Brooke prometeu lançar um livro - em fevereiro desse ano - inspirado na série com novos conteúdos. A geração Matrix deu bons frutos.

            Pop cultura com bom humor e crítica social que recomendo. 

Citações



Mesmo as pessoas que dizem que tudo está predeterminado e que não podemos fazer nada para mudá-lo, olham para os dois lados antes de atravessar a rua.
                                                                                                         Stephen Hawking.

(Em sites como o Facebook) Nós temos o banco de dados mais abrangente sobre as pessoas, seus relacionamentos, nomes, endereços, localização e as conversas entre elas, seus parentes, tudo à disposição dos serviços de inteligência americanos.
                                                                                                            Julian Assange

Eu não poderia fazer isso [delatar a NSA] sem aceitar o risco de ser preso. Você não pode bater de frente contra a agência de inteligência mais poderosa do mundo e não aceitar o risco. Se eles querem pegar você, com o passar do tempo eles vão.
                                                                                                          Edward Snowden.

A organização em excesso transforma em autômatos homens e mulheres, reprime o espírito criador e elimina a própria possibilidade de liberdade. Como sempre, o único caminho seguro está no meio-termo, entre o excesso do laissez-faire, num dos topos da escala, e o controle total, no outro extremo.
                                                                                                          Aldous Huxley

A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa
                                                                                                          George Orwell