quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Livros



A Editora Guanabara lançou em 1986 uma antologia da poesia moderna grega. O responsável pela empreitada foi o competente José Paulo Paes que selecionou, traduziu os poemas diretamente do grego, elaborou um prefácio, além de textos críticos e notas. O resultado é um panorama geral do que se produziu em poesia na Grécia de Kornáros (1553-1617) a Makrópoulos que viveu no século XX. Claro que uma obra desse fôlego é sempre incompleta, mas possibilita ao leitor pensar na dimensão da riqueza da poesia grega atual e ir atrás das fontes citadas.

Creio que há quatro poetas que merecem especial destaque nesta antologia: Kaváfis, Kazantzákis, Seféris e Eggonópoulos. Claro que esse destaque é extremamente pessoal e não poderia ser diferente quando se trata de destacar que poetas merecem mais atenção dentro de uma antologia. Transcrevo, portanto, trechos destes poetas – acredito que é a única maneira possível de falar de uma antologia poética: citar trechos dos poemas.



Muros de Kaváfis


Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesar,

ergueram à minha volta altos muros de pedra.



E agora aqui estou, em desespero, sem pensar

noutra coisa: o infortúnio a mente me depreda.



E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!

Quando os ergueram, mal notei os muros, esses.



Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.

Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse.





Da Odisséia de Kazantzákis



Eu tremi ao compreender o perigo de tornar-me um deus,

Sem a fonte do coração, sem dor nem alegria de homem.

[...] Sei que Deus não tem olhos nem ouvidos, não tem coração;

Verme-dragão sem cérebro, a rojar-se no solo, ele espera,

Com angústia secreta, que nós lhe arranjemos um espírito;

Então criará para si olhos e ouvidos sob medida;

Deus é argila nos meus dedos, sou eu próprio quem o molda!



[...] O coração de um homem de verdade não diz nunca: basta!

As duas longas asas que ultrapassam, com sua dupla cólera, as fronteiras do homem:

O bárbaro, ébrio coração, e o cérebro que, a prumo sempre

Sem ebriez, contém-lhe a brida e o não deixar rolar no abismo.



Rima de Seféris


Lábios, vigias de minha paixão outrora acesa

mãos, cadeias da juventude que tão logo passa

cor de um rosto perdido em meio à natureza

árvores... pássaros... caça.



Corpo, rácimo negro sob um sol que te arde

corpo, magnífico navio, que rumo levas?

É esta a hora em que sufoca a tarde

e eu me afadigo a procurar as trevas...

(os dias roem nossa vida sem alarde).






Rosas = SO4H2 de Eggonópoulos



ouvi as lágrimas que correm

como árvores inabaláveis

mudas

e solitárias

quando a noite cai



no entanto o jardim

-digo-

com suas janelas incomensuráveis

era infinito

e seus relvados

chegavam até junto do mar

até onde começava

a areia amarela



sob essa areia

amarela

cantávamos

-me parece-

nossas canções mais belas



porém ali

nos apedrejaram

com pedras

e calhaus

às mancheias



calhaus que eram

os alvos

dentes eróticos

das mulheres

que amávamos



.

Comentários Cotidianos

        
  En passant: sobre o amor.



Escreve Clarice Lispector: “Quando fazemos tudo para que nos amem... e não conseguimos, resta-nos um último recurso, não fazer mais nada. Por isto digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado... melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não façamos esforços inúteis, pois o amor nasce ou não espontaneamente, mas nunca por força de uma imposição”. Se esta compreensão for verdadeira, então podemos afirmar que o amor é a prova cabal de que o determinisno não existe. Explico-me.

Ludwig Binswanger, em sua Danseinanalyse, “complementou” Heidegger ao indicar o lugar do amor dentro do cuidado ou cura (Sorge). Cuidado ou cura significa, na analítica existencial heideggeriana, o exercício do homem de ser que se cumpre num centro irradiador de relações em que o próprio homem se relaciona com as coisas e com os outros homens – o ser-no-mundo. A cura (Sorge) implica em ocupar-se (Bersogen) e preocupar-se (Fürsorge). Entretanto, o ser que sempre e antes de tudo está em jogo quando sou é o meu próprio ser. Quando sou, sou uma abertura para o ser, portanto para o mundo e para os outros – esta é, segundo Heidegger, a liberdade, ou seja, a junção da esfera ôntica – que de modo simplório podemos colocar como o corpo – e a esfera ontológica, o ser. E a liberdade, naturalmente, é a antinomia do determinismo. Daí Heidegger ter escolhido a palavra Dasein para indicar esse exercício que é, de fato, o próprio homem. Da, em alemão, indica aí, a espacialidade, o objetivo, enquanto sein significa o ser. Heidegger entende que o amor é o exercício ôntico do cuidado que é um existencial, portanto próprio da esfera ontológica.

Mas o amor que Lispector faz referência parece trafegar nas duas esferas: a busca pelo carinho e ternura do outro que está na esfera ôntica e o amor que, na não ação, surge, torna-se presente, a esfera ontológica. Ora, apenas o ser se presentifica. A exigência aqui é de que a não ação ou o deixar-ser sejam os guias para aquilo que queremos que se manifeste, o amor. O que se busca no amor é uma afinação com o outro que me coloca numa disposição (Befindlichkeit) especial. De fato, a própria disposição já é sempre uma afinação a priori.

Na esfera da relação com o outro, o amor me afina para um tipo específico de dedicação, envolvimento, ternura, carinho e compreensão do ser do outro. Amar sempre significa está perto, mesmo que distante, pois se está no modo de ser com o outro. Daí podermos amar de modos diferentes: os filhos, as amantes, o conhecimento, a arte, etc. Mas no modo de ser em que o amor se abre e revela esta afinação há um modo de ser muito específico que Lispector indica: deixar-ser. Não se pode exigir que o amor venha até nós numa busca tresloucada como se o amor fosse uma coisa. Neste sentido, Lispector aproxima-se daquilo que Mestre Eckhart afirmou em 1360 sobre a alma e sua busca pelo amor a Deus: o desprendimento e a serenidade.

Mas, antes que se faça qualquer juízo, é importante entender que o Deus de Eckhart é puritas essendi, ou seja, puro de todo ser, a pura Negatividade. Creio que há uma estrutura de similaridade entre a compreensão eckhartiana da Negatividade com a relação de co-pertença que Heidegger indica entre ser e nada. Sendo assim, o amor seria o lugar de manifestação desta co-pertença, ou seja, a abertura que indicaria um modo específico de afinação no modo da disposição. Se a disposição é um existencial e constitui o exercício do homem ser – e mundo e tudo só o são nesta abertura – seria deveras estranho falar em determinismo como algo exterior àquilo que permite que a concepção de exterior e interior venha à tona.

O desprendimento (Abgeschiedenheit), como explica Boff, está “em conexão com disponibilidade plena, com liberdade de e para, com desprendimento, pobreza, despreocupação, esvaziamento de si, perfeito equilíbrio interior. As descrições que Eckhart faz da Abgeschiedenheit nos revelam as distintas significações. Todas as significações não visam a si mesmas, senão abrir o homem à presença de Deus em todas as situações e estar em união com ele”. Mas se há uma similitude estrutural entre o Deus eckhartiano e a co-pertença heideggeriana, então o desprendimento pode significar, também, abertura para o ser.

Novamente Boff sobre o desprendimento: “Atitude de total abertura para o que der e vier, de libertação de imagens, de fixações e libertação para o que se antolhar à pessoa em cada momento. Para desenvolver esta atitude o homem deve esvaziar-se totalmente ao querer, no saber e no ter. Particularmente não deve querer nada, porque enquanto quer isto ou aquilo não é livre nem disponível para o que se apresentar”. Se conseguirmos esvaziar o sentido teológico desta afirmação, creio que ficará claro entender a conexão que quero estabelecer aqui.

Quanto à serenidade, Gelassenheit para Eckhart, John Caputo assim se expressa: “A raiz desta palavra, lassen, significa deixar ir, renunciar, abandonar. A alma na Gelassenheit deve renunciar a tudo que impeça o advento de Deus na alma. Mas “lassen” também significa “deixar” ou “permitir” e também sugere abertura e receptividade. Deste modo, a alma que deixou para trás todos os obstáculos para o nascimento de Deus pode, ao mesmo tempo, permitir ou deixar o Pai sustentar Seu Filho aí. O primeiro momento é negativo – renunciar as criaturas – e o segundo é positivo – permitir o nascimento do Filho”. Se escutarmos atentamente, então parece possível inferir que o amor indicado por Lispector possui parentesco com a serenidade.

O desprendimento permite que o amor se mostre, abrindo o homem para a serenidade. O não fazer mais nada de Lispector é este deixar-ser fundamental da serenidade e do desprendimento. Só se ama de verdade, então, quando estamos abertos para o próprio amor – e isso só é possível se estivermos afinados com o modo único de ser do desprendimento que indica, desde sempre, um deixar-ser.

De modo simples – e o simples é sempre o mais difícil – o amor significa atração por aquilo que queremos cuidar e receber cuidado. No amor, fincamos nosso cuidado e realizamos a atemporalidade, ou seja, vivemos o presente intensamente – daí toda impossibilidade de determinismo que significa o poder de uma causa sobre todos os efeitos no tempo. O meu querer o amor – e querer é sempre ato emocional da consciência de um ser-no-mundo – é sempre um querer o outro como o mesmo. Uma presença de agoras na eternidade que se torna fenômeno neste não fazer mais nada.

 
 
.

Meus poemas

É com o coração que se ama.


                            C’est bien avec le coeur que l´on aime, n´est-ce pas?

                                                    Samuel Beckett



Não se trata de um funeral.

                   Aqui

                        não há caixões, lápides ou mausoléus

                           ninguém está chorando e não há procissão

                               nenhuma estátua de anjo ou o cheiro forte de cadáveres

                                    nenhum epitáfio bem composto

                                          nada, absolutamente nada.

Mas, mesmo assim, hoje estou de luto

porque o amor morreu.

O não da amada possui mais peso

do que mil tradições

do que mil maldições

e é pior do que todo escárnio.


                            Algumas dores são suportáveis -

                            outras, renegadas ao inferno -

                            e a dor do amor é assim

                            rasgando a alma

                            queimando a tudo

                            deixando cinzas de tristeza.



Aqui não há um céu cinzento

nem um dia chuvoso

nem música triste.



Já disse: - Não se trata de um funeral.

O meu luto é ainda pior

pois o hiato do encontro

e a devastação da partida

instalou-se em minha vida.



Hoje, o amor morreu.

Ecoem esse grito faminto por todos os cantos

elevem suas preces e orações

bebam todas as bebidas amargas

solucem como criancinhas

procurem um ombro amigo.



                             Mas há tempos que sempre o soube

                             nesta morte, há apenas perdedores

                             um gosto de desespero em tudo

                             e a clara noção de que ainda não estamos saciados.



Nem lágrimas e nem nada

apenas um poema desgraçado

de uma alma desgraçada

e a frase mais difícil se faz presente:

“É preciso, pois, esquecer!”.



Ensinem-me este segredo, ó filósofos

alquimistas e sábios

derramem sobre minha cabeça tal sabedoria

pois me parece que, aqui, nenhuma fórmula

nenhum segredo

e nenhuma sabedoria

foi revelada.

Pois hoje, o amor morreu.


.

Escritos dos Amigos

as mãos por Pietro Wagner





tivesse agora uma tempestade nos olhos

e a cor do teu sangue como emblema

para ver-te



assim, a violência na minha vontade encontra abrigo



assim, depois que o vendaval acalmou

depois que a areia acolheu tua vida

depois e só depois,

depois com o depois do grito eterno,

assim, tu e tudo que em mim era de ti

perdido, perdi no tempo do teu corpo

quando eras este fim exposto na areia



não quero mãos, piedosas atenções, medos,

tua história, esta deixa que a loucura conte,



ali, ali onde agora estás

ali, exato, morto, pasto,

ali, ali onde me abandonaste,

quis um deus esquisito

que te visse calado

ali, ali onde agora está

a última resposta dos teus dias

ali, exatamente ali

fica teu nome e um esquecimento



                                         às três da tarde quando as ondas levantaram

                                         quando o barco em que te equilibravas jogou

                                         teu corpo nas águas e no sargaço teu sangue

                                         animado pela ventania, aquoso, agora imundo,

                                                      teu sangue manchou o mar

                                                            às três da tarde

                                                             três, era tarde

                                                                  eras



mais não peço,

quero o não do esquecimento

e a última verdade dos ventos para que te diga

adeus, agora partes sem medo e sem jangadas até onde

as colinas do mar, antes amigas, dessalgam a água para cantar

o lamento que ouvirás eternamente, teu abrigo, teu hino, tua razão, teu infinito



..

Traduções



Chuva por Shel Silverstein



Abri meus olhos

E olhei para a chuva

E ela caiu sobre minha cabeça

E inundou meu cérebro,

E tudo o que eu ouvia enquanto estava deitado em minha cama

Era a batida da chuva na minha cabeça.



Passo muito suavemente

Caminho bem devagar

Não posso erguer a mão–

Eu poderia transbordar,

Perdoem as coisas loucas e selvagens que disse –

Não sou o mesmo desde que há chuva em minha cabeça.

 
.

Artes Visuais

Christo


 Castelo.

 Costa recoberta.

Ilhas.


Depois das mudanças trazidas pelo Dadaísmo e pela Art Pop, a pós-modernidade artística enveredou por pesquisas que foram radicalizando cada vez mais suas propostas. Os artistas contemporâneos, apesar das diversas propostas (grafitagem, arte performática, videoarte, intervenções, etc), possuem como solo comum a tentativa de dirigirem suas obras e conceitos ao mundo, à natureza, ao espaço urbano e às inovações tecnológicas.

Diferentemente do que poderia se esperar, a figuração retorna, mas agora num sentido bem peculiar. Artistas minimalistas como Donald Judd, Tony Smith, Carl Andre e Robert Morris, por exemplo, extrapolam o sentido do quadro e da escultura e procuram acentuar o âmbito mínimo necessário para que a forma, a cor, a expressão e a relação com o observador permitam que algo como a obra de arte surja.

O pós-minimalismo de Richard Serra e Eva Hesse, por exemplo, amplia essa abordagem: há uma tomada de posição decisiva a favor do espaço, da relação com o ambiente (seja interno ou externo), com a incorporação do espaço – urbano ou natural – à própria obra de arte. Esse fôlego extra que o pós-minimalismo acrescenta permite que a Land Art – ou arte ambiental – possa surgir.

A Land Art combina a compreensão da intervenção, do espaço e da natureza à ideia de que a dimensão da obra de arte pode ser tão gigantesca quanto à própria natureza – e aqui nos remetemos a Walter De Maria, Robert Smithson e Richard Long – e o lugar da obra não se restringe ao espaço daquilo que o artista entendia como o material da composição, mas sim ao todo da junção entre observador, material usado, conceito e meio ambiente.

Se pesarmos na relação entre a obra e o observador, somos obrigados a entender a espacialidade desta relação quando nos deparamos com a Mona Lisa de Da Vinci ou O Passeio Noturno de Velázquez. A dimensão de cada quadro nos obriga a uma relação determinada: a espacialidade do quadro já é dada por sua dimensão.

Christo é um artista que leva ao extremo a dimensão da obra de arte em relação ao meio ambiente. Na verdade, trata-se de uma obra que rompe com a arquitetura – a arte do espaço – e o minimalismo, já que a natureza, em definitivo, também compõe a obra e sua complexidade vai além das propostas dos minimalistas.

A impermanência, a fluidez, a beleza, o grandioso e o insólito invadem a obra de Christo num intuito muito claro de dinamizar a espacialidade da obra de arte e demonstrar, de uma vez por todas, que o espaço das artes visuais pode ir além dos quadros e das galerias – ambos invenções medievais.



.

Filmes

A Ilha do Medo de Martin Scorsese


Lembro-me que o primeiro filme que assisti de Martin Scorsese foi Depois das Horas. O insólito – uma das marcas registradas deste grande diretor – é uma das coisas que sempre mais me agradou em seus filmes. Como todo bom diretor, Scorsese tem momentos muito bons e momentos mais fracos. Creio que isso é natural em qualquer expressão artística. Seja como for, sua filmografia prima por narrativas que vão se revelando gradualmente e que chegam, quase sempre, a paradoxos exasperantes.

A Ilha do Medo é um desses filmes que primam pelo paradoxo e pelo insólito. Além do mais, a ambientação numa ilha com seus penhascos soturnos, um farol ermo, um manicômio sombrio e personagens obscuros conferem ao filme uma aura ainda mais interessante, aproximando-o de Bergman e Herzog, dois diretores que admiro muito.

Leonardo DiCaprio vive o agente federal Teddy que é enviando junto com um novo parceiro – Chuck, interpretado por Mark Rufallo – para uma ilha prisional onde funciona um manicômio para presos perigosos e que sofrem de transtornos mentais.

Ele é enviado para investigar o desaparecimento de uma interna que havia matado seus três filhos afogados. A fuga misteriosa da interna, as respostas evasivas do médico responsável, do diretor do lugar e dos enfermeiros acrescentam ainda mais confusão à trama. A ânsia por descobrir o que realmente está acontecendo é mantida constantemente, o que prende o espectador do início ao fim do filme.

O roteiro de Laerta Kalogridis, baseado no romance Paciente 67 de Dennis Lehane, amarra muito bem a tensão crescente da trama ao mundo mental de cada personagem. A fotografia de Robert Richardson acentua o caráter sombrio do filme e dá mais peso ao todo da ambientação, seja em termos de espaços abertos e naturais, seja em termos de espaços fechados como o manicômio ou a casa do responsável pela ilha.

Sonho e pesadelo, realidade e loucura convivem lado a lado. A conexão que o roteiro e Scorsese dão a tais junções permite a qualidade da película. O lugar comum do suspense é suplantado pela mão do diretor que dá qualidade artística ao roteiro e extrai o melhor possível de seus atores.

O desfecho da trama é realmente insólito, mas muito plausível. Creio que uma sensação de absurdo e desespero é inevitável quando a verdade é revelada. Para aqueles que se negaram a assistir este filme de Scorsese por pensar se tratar de um filme de suspense ou terror, um aviso: deixe esse preconceito de lado – o filme realmente vale a pena e Scorsese mostra porque é um grande diretor. Apesar de alguns erros de continuidade e certa obviedade no roteiro, o filme se sustenta muito bem e faz valer todo o talento dramático de Di Caprio e a engenhosidade cinematográfica de Scorsese.

Eis o link para baixar no Blog Tup Cine:

http://tup-cine.blogspot.com/2010/03/ilha-do-medo-shutter-island-2010-ts.html


.



.

Citações

“Certa vez, atravessando um rio, ‘cura’ viu um pedaço de terra argilosa: cogitando, tomou um pedaço e começou a lhe dar forma. Enquanto refletia sobre o que criara, interveio Júpiter. A cura pediu-lhe que desse espírito à forma de argila, o que ele fez de bom grado. Como a cura quis então dar seu nome ao que tinha dado forma, Júpiter a proibiu e exigiu que fosse dado o nome. Enquanto ‘Cura’ e Júpiter disputavam sobre o nome, surgiu também a terra (tellus) querendo dar o seu nome, uma vez que havia fornecido um pedaço de seu corpo. Os disputantes tomaram Saturno como árbitro. Saturno pronunciou a seguinte decisão, aparentemente equitativa: ‘Tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito e tu, terra, por teres dado o corpo, deves receber o corpo. Como, porém, foi a ‘cura’ quem primeiro o formou, ele deve pertencer à ‘cura’ enquanto viver. Como, no entanto, sobre o nome há disputa, ele deve se chamar ‘homo’, pois foi feito de húmus (terra)”


Higino

In: Fábulas.

.

Contos

Fest


Minha cabana, encravada no cimo desta montanha que tem vida própria, foi erguida por mim mesmo e isso, de uma maneira muito sutil, deixa-me orgulhoso. Trata-se de uma pequena cabana de madeira, com duas belas janelas sempre abertas, uma cozinha que contém todos os mantimentos necessários, uma sala com flores e cadeiras de madeira, um quarto que se abre sempre para o sol da manhã e um terraço onde costumo passar minhas tardes mais felizes apenas folheando as páginas de algum manuscrito ou, mais simplesmente, contemplando a vegetação sempre robusta desta região sagrada. Quando o sol deixa-me mais disposto, trago minhas ferramentas para cá e começo a trabalhar na madeira no intuito de elaborar algum utensílio para a casa ou esculpir, quando meu espírito está assolado por um sentimento infinito de compaixão e paz, o rosto de algum deus familiar. O rio que singra pacificamente lá embaixo parece sempre assinalar que nunca devo ter pressa para nada. Observo os pássaros, os animais que vem ter à minha porta em busca de alguma comida e sinto o refrigério perene do espírito benfazejo da floresta ou da própria montanha. Sempre os agradeço por terem permitido que eu tenha vindo residir num lugar tão magnífico. O céu, com nuvens carregadas, porta um constante azul que atenua a solidão devastadora que habita eternamente a montanha. Minha esposa, assim como eu, adora lavar as mãos no rio e absorver o aroma circular das flores, da terra e dos animais. Lembro-me quando numa tarde despojada, era o dia de Thor, sentei-me numa enorme pedra que margeia o rio e a contemplei correndo até mim: seus cabelos em chamas balançavam numa comunhão única com os deuses dos ventos e seu sorriso, tão largo, tão puro em sua beleza, chegavam até mim como uma clarividência, como relâmpagos campestres de um verão devastador. O sol, meu irmão de todos os dias, brindava sua beleza com uma luz magistral. Fiquei concentrado em sua beleza para que aquela cena jamais desaparecesse dos círculos de meus olhos. Esculpi, também, seu belo rosto numa madeira centenária e decidimos, juntos, colocá-la na principal parede de nossa sala. Quando eu saía para a cidade e retornava fatigado, ela sempre se predispunha a tomar de minha espada, livrando-me de mais este peso, colaborando sempre para minha paz e minha celebração com os deuses. A montanha seguia com seu poder, visitada por deuses e banhada pelas mãos do Altivo. Se os círculos de Norengord estavam em retorno, eu poderia divisá-los em meus sonhos. O pequeno martelo que havia erguido minha cabana fora um presente de meu pai, símbolo de meu laço com os deuses e da proteção infalível que os mesmos me concederam. Quando eu abraçava Jezebel com força e sentia toda a rigidez e beleza de seu corpo, como se estivesse navegando os rios distantes da cidade de meus ancestrais, e enquanto ela alisava meus longos cabelos de fogo e ouro, podíamos, juntos, ver as Valkírias perambulando pela cabana, sobrevoando os céus de nossa terra, mas tudo como indício de um pacto de amor, redenção particular com a terra. Ó minha mãe, ó fértil senhora que a todos se doa, fonte sublime dos deuses, deixe-me banhar em teus seios e beber de teus rios, deixe-me, ó sagrada mãe, beijar-te como terra, amar-te como fogo e cantar tua beleza nos ventos que vão a todas as direções. Sagrada és tu! Jezebel envolvia-me num terno abraço. Bebíamos água pura e comíamos pão e algumas frutas. Ela ria quando eu contava sobre as moradas dos deuses e perguntava-me, colocando as mãos sobre os lábios, como eu sabia de tudo aquilo. Quando a neve tornava denso o ar, congelando os rios, vestindo de branco as montanhas, colocando as árvores para dormir, Jezebel e eu dormíamos envoltos com peles, colados um no outro. Ríamos de tudo o que nos levasse aos extremos. Certa noite, quando os deuses das tempestades acordaram, iluminando o céu com sua presença, Jezebel sentiu medo e perguntou-me o que ela faria quando eu tivesse que fazer a viagem definitiva para o outro lado. Fiquei em silêncio por alguns instante, mas, como era de costume, senti a presença superior de Thor e não temi pela escuridão nem pela densidade intransponível daquela noite. Afirmei que estaria sempre onde ela estivesse, que seria uma falta muito grande da minha parte, perante ela e os deuses, deixar uma mulher tão bela desamparada. Isso seria impossível, eu disse, até mesmo os deuses permitirão que eu fique ao seu lado. E, acrescentei, se você partir muito antes de mim, permanecerei casto por seu amor até o fim e quando as tardes e os dias forem longos, e nem o sol, a montanha e os deuses conseguirem consolar mais minha tristeza e solidão, já estarei desde já pronto, celebrando em todos os dias a sua beleza num altar que construirei com a madeira mais pura, escolhida na mais funda e abençoada floresta. Celebrarei tudo e a todos e agradecerei aos deuses por saber que você, esteja onde estiver, também estará celebrando comigo a beleza única de estarmos sempre juntos, bebendo da água mais pura, comendo do pão mais saboroso e colhendo as frutas mais frescas. Sim, continuei, estaremos sempre juntos, e os deuses irão rir conosco e também celebrarão nosso amor, colocando, no altar que eu haverei de construir, seu nome esculpido em pedra. Colocarei flores e farei um hino em homenagem à sua beleza, à sua bondade e candura. E se, no fim de tudo, nem mesmo os deuses conseguirem aplacar minha tristeza, dormirei pensando em ti para que meus sonhos levem meu espírito até tua morada e aí, unidos, celebraremos, mais uma vez, o nosso amor que não pode morrer por mão nenhuma. Ela abraçou-me com mais força e rimos.


.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Comentários Cotidianos


De um velho fantasma conhecido de todos nós.

Um velho e conhecido espectro ainda assombra e ronda o mundo: Karl Marx. Apesar de ateu confesso – Marx entendia que seu materialismo dialético conduzia naturalmente ao ateísmo - Marx nunca deixou de lado seu ranço judeu. Parece que os estruturalistas tinham razão: é preciso entender o inconsciente individual (Freud) ao lado do inconsciente cultural coletivo (Mauss). Marx amalgama muito bem estas duas esferas em seu pensamento que parece ter como fundamento os paradigmas religiosos do judaísmo. Nos seus Manuscritos Econômicos Filosóficos, Marx afirma que a “inveja geral e constituída em poder não é senão a forma oculta em que a cobiça se estabelece e, simplesmente, se satisfaz de outra maneira”. A base deste desvio de conduta está na propriedade privada. No comunismo, segundo Marx, teremos a expressão positiva da superação da propriedade privada. Numa carta para Engels, ele afirma que estabelecido o comunismo no mundo, ele trabalharia de dia, pescaria à tarde e escreveria crítica à noite. O sonho de um comunista é ser, de fato, um pequeno burguês. Estranho paradoxo para alguém que afirma que o matrimônio é uma forma da propriedade privada exclusiva. Ainda bem que a Antropologia e a Psicanálise vieram esclarecer nossas mentes sobre esses pontos.

Não há como negar que O Capital é uma obra prima do pensamento econômico e filosófico ocidental. A análise de Marx para a divisão da mais valia em capital e renda e sua compreensão do salário são geniais. Mas parece que o velho Delfim Neto tinha mesmo razão: Marx era um comunista que entendia muito de capitalismo e Keynes era um capitalista que entendia muito de socialismo. O pecado de Marx não reside em suas análises do capitalismo (que numa era de informação e de globalização, onde o trabalho se fragmenta e se torna mais trabalho intelectual, é necessário elaborar novas críticas – críticas estas que surgiram na Escola de Frankfurt e seguiram com o marxismo estruturalista de Althusser). O pecado de Marx foi querer ser, ao modo de um bom judeu, profeta!

As dez medidas sugeridas por Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista são, de fato, interessantes e é claro que o capitalismo teve que se moldar e melhorar as relações patrão-empregado após a vitória do “comunismo” na antiga URSS, China e Cuba. Vargas e a CLT brasileira são um exemplo disso. A dança dos momentos históricos da política latino americana reflete esse combate: melhoria nas relações de trabalho, ditadura militar e, por fim, com a queda do Muro de Berlim, a abertura democrática. Quase todos os países da América Latina passaram pelas mesmas mudanças em tempos bem semelhantes.

Mas o problema – ou pecado, já que estamos falando de um judeu – centra-se em dois pontos fundamentais: 1. Crença de que houve uma sociedade humana “universal” e primeva em que não havia propriedade privada e grassava uma paz geral e 2. Crença de que, no futuro, o comunismo estabeleceria a paz universal entre os homens. Ora, esses são pontos bíblicos: o Jardim do Éden e o Paraíso pós morte. No meio do caminho, o mundo e o trabalho. Não é de se estranhar que todos os defensores do comunismo foram, são e serão sempre moralistas.

No final de Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, Engels esbraveja, após afirmar que no comunismo o homem será, por fim, dono de sua própria existência social: a realização deste ato, que redimirá o mundo, é a missão histórica do proletariado moderno. Os anjos do senhor são os trabalhadores modernos que, seguindo as diretrizes da revolução do proletariado, trarão para a humanidade aquele estado inicial de paz, alegria e prosperidade próprias do Jardim do Éden.

Creio que há dois fatores esquecidos aqui: 1. Todos aqueles que acreditaram ou acreditam nesta profecia estão, de modo evidente, transferindo suas responsabilidades para um poder superior capaz de governar suas vidas e conduzi-las à paz prometida – o coletivo é sempre melhor do que o individual e 2. Só podem ser preguiçosos descarados ou líderes sádicos, já que tudo se resume a uma diretriz universal que a tudo guia e todos os que forem contra devem estar errados e devem arder nas profundezas do inferno. Deveríamos escutar melhor o Grande Inquisidor de Dostoiévski: se não formos cristãos e entendermos que há algo a aprender com aquele senhor nonagenário, então entenderemos a marca de Caim naqueles que sabem dizer não ou sim na hora certa. Hesse compreendeu isso muito bem. Se podemos acusar Heidegger de endossar o Nazismo, por que ninguém nunca criticou Camus e Sartre por endossar as atrocidades de Stalin?

Este espectro ainda paira entre nós. Mas ele possui raízes ainda mais profundas: na covardia do indivíduo e na manipulação daqueles que usam esta mesma covardia a seu favor. Pedindo licença a meu amigo Pietro Wagner – que mais que ninguém cobrava o retorno desta pouca lida coluna – para citar o verso inteiro de Adriano (Pietro colocou o primeiro verso como título de um poema seu): “Animula, vagula, blandula, /Hospes comesque corporis, /Quae nunca bibis in loca? / Pallidula, rigida, nudula / Nec, ut soles, dabis jocos”. Ou seja: “Alminha vagabunda e folgazã / Hóspede e companheira do corpo. / Onde irás agora / Pálida, fria, nua /Privada dos costumados passatempos?”.

No caso dos comunistas ou aqueles que se dizem de esquerda num mundo em que tudo é centro, irão sempre atrás de mais uma utopia para acreditar e dar sentido a suas vidas. Folgazã demais.


 
.

Meus poemas

                                                    
                                                  De um dilúvio possível





Não se pode proibir que ele, desavisado,

destrua as muralhas da cidade

galgue as escadarias fortificadas

dome o coração dos homens e das mulheres.



Nenhum homem nascido possui tal poder

nenhum deus pessoal é maior -

e as torrentes da natureza

ele as doma todas, com sua doce brisa.



Os estandartes foram elevados

a música soa reverente

os reis baixam suas cabeças

e os olhos o procuram, sedentos.



Sua aparência é desconhecida

mas todos o sabem e oram

para um deus mais próximo

que possa revelar seus encantos.



Mas ele, sempre impávido,

a tudo conduz e rege

sorrateiro e sincero

com mil braços e mil bocas.



Os poetas e alquimistas tentaram decifrá-lo

compondo uma algaravia de símbolos

e fórmulas mágicas capaz de contê-lo

e revelar seus segredos.



Maior do que todos, o amor invade a cidade

doma todos os corações, ouve a música

sabe-se superior aos reis e segue,

habitando o coração dos amantes.



Eis tua casa maior, ó amor divino,

o coração esfacelado deste teu servo

pois, ao longe, o sorriso da amada

já anuncia um dilúvio prenhe de primaveras.



.

Contos

A mística da escuridão e da verdade


Talvez esta seja a mais terrível de todas as verdades. Talvez pior do que a morte e a loucura – isto é algo que cada um poderá decidir por si. Muitas coisas deveriam permanecer ocultas, mas há um poder nas coisas, no Universo que obriga tudo a se revelar. A revelação é a base da verdade e, ao mesmo tempo, da escuridão, daquilo que permanece velado e à espreita. Podemos não querer enxergar as coisas como elas são, mas o tempo e o movimento infinito do mundo nos obrigarão, um dia, a encarar tudo à luz da certeza.

Há um célebre princípio hermético que afirma que assim como é em cima, é embaixo. Esta lei rege todas as coisas e participa de tudo. No ritmo do retorno de todos os fenômenos, na repetição cadenciada dos acontecimentos, o que é gigante é guiado por esta lei, pela mesma obrigação em que participa tudo o que é infinitamente pequeno. Para os hermetistas, se o sol e os planetas obedecem a determinado princípio, então este mesmo princípio estará presente no meu corpo ou em qualquer célula do mesmo. Não há escapatória: a lei é imparcial e onipresente. E isto nos lembra o famoso fragmento de Anaximandro: tudo está em tudo e nada existe isolado. Ad infinitum, diriam os mais atentos.

Esta constatação – desta terrível verdade – surgiu através de outra busca (já que toda verdade é quase sempre derivada de uma busca) e seu resultado, ao menos para mim, foi de um impacto tão tremendo que levei muito tempo até tomar coragem de narrar o que se segue. Podem me acusar do que quiserem; já não ligo, diante de tais fatos, para nenhum julgamento e posso apenas lamentar que esta verdade seja tão desconhecida da maioria das pessoas que quase nada pode ser feito. A alcunha de louco, fantasista, visionário ou místico pode ser usada, mas isto é o que menos importa neste momento. Os fatos se revelaram com tal potência ante mim que me sinto na obrigação de, ao menos, tentar externar o que aprendi sobre tudo o que segue.

Um verão impiedoso invadia as ruas do Recife. A cidade parecia derreter diante de tão grande fúria. Eu vestia uma bermuda longa, tênis com meias e uma camisa de botão branca para ajudar no meu confronto com o calor. Johannes Dean, um americano que já estava no Brasil há quinze anos, me acompanhava, bem como Alexandra, a linda menina de cabelos ruivos; Diogo “Zapata” – sempre de calças jeans, sandálias de couro e camisa de algodão; Vincent, com seus olhos pintados, roupa escura e longos cabelos bem tratados; Anna Bella, a gordinha de óculos e portadora de um sorriso eterno e Clarice, a professora de piano. Estávamos caminhando pela avenida Conde da Boa Vista em direção ao estacionamento onde pegaríamos o carro de Joahannes e a moto de Vincent. Fomos eu, Joahannes, Alexandra, Anna e Clarice no carro, enquanto Zapata e Vincent seguiram de moto.

Era domingo e poucas pessoas caminhavam pelas ruas. Isto era ótimo, já que o Recife é quase sempre tomado por uma multidão enlouquecida que aumenta ainda mais o calor das ruas. Os prédios, todos cinzas e altos, pareciam corroborar esta paz provisória que habitava nossa capital. Seguimos em silêncio até o bairro de Apipucos, a área nobre e burguesa da cidade. Cruzamos a lagoa e quase todos demonstraram certo bem estar ao contemplar suas águas calmas. Olhei em meu relógio e comentei que já era meio-dia em ponto.

- Chegaremos bem na hora do almoço – comentou Anna.

- Vocês acham que isto chateará o velho Antônio? – questionou Clarice.

- Você se preocupa demais – disse.

- Ele não liga para estas coisas, apenas que estejamos todos lá – acrescentou Joahannes com seu sotaque engraçado.

- É verdade – tranquilizou Anna – Além do mais, sua esposa disse que nos prepararia uma deliciosa peixada.

Pensei no peixe, no odor da cebola, do alho, pimentão, coentro, tomate, azeite e pimenta. Seguimos até o portão imenso de sua casa. Vicent já estava na calçada esperando por nós. Zapata estava ao seu lado fumando um cigarro. Anna saiu do carro, dirigiu-se calmamente até o interfone e tocou duas vezes. Logo em seguida, após ela dizer algo, o portão se abriu e adentramos a casa. Palmeiras seguiam ao lado da estrada de pedra. Papoulas, roseiras, musaendros e colônias compunham não apenas as cores da entrada da casa, mas também o seu cheiro particular. Tratava-se de uma mansão em estilo colonial, com um imenso terraço em L, largas colunas de madeira e cadeiras de bambu serpenteando a construção. Antônio, com sua longa barba branca e sua corriqueira expressão de calma, nos recepcionou da melhor maneira possível.

- Sejam todos bem vindos – ele disse – Vamos logo para a cozinha que Clara já vai servir o nosso almoço.

- Como ela está? – perguntei.

- Muito bem... muito bem... – ele disse – Vamos, vamos logo entrando.

Uma grande cozinha, tomada pelo odor volumoso de peixe e pimenta, se abriu ante nós. Aquela casa nos transmitia uma paz especial, quase como se estivéssemos circulando pelas alas de um antigo mosteiro. Uma forte lembrança de um velho passeio que fiz ao mosteiro dos franciscanos em Olinda veio à tona: azulejos portugueses, pinturas vermelhas, escuras, um órgão secular e paz, muita paz em todos os aposentos. Eu estava quase que hipnotizado por aquele clima quando Clara, a esposa de Antônio, nos convidou a sentar. Era uma verdadeira celebração.

- Vocês sabem que os rosacruzes modernos sempre benzem o que comem? – perguntou Vicent para todos.

- Sim, sim – respondeu Alexandra – Você não sabe que Zapata é rosacruz?

- É verdade?

- Sim, é verdade – respondeu Zapata.

- E qual é o segredo dos rosacruzes, meu velho? – perguntou Vincent.

- O segredo é simples – ele suspendeu suas palavras no ar – Torne-se um.

Todos riram de sua resposta. Clara começou a nos servir. Além da peixada, havia arroz, salada verde, farofa de ovo e suco de abacaxi e limão. Antônio não permitia que bebida alcoólica entrasse em sua casa e todos respeitavam isso. Comemos tranquilamente. A pergunta inicial de Vincent nos fez enveredar pelo assunto das Escolas de Mistério.

- A magia sexual é uma coisa muito perigosa – opinou Antônio – Não que isto seja um juízo moral, não é nada disso, mas é preciso que o indivíduo esteja muito centrado para não se perder em meio às suas práticas.

- Mas você está falando da magia branca ou negra? – inquiriu Clarice com seus grandes olhos verdes e sua pele negra como a noite.

- Branca, é claro. A magia negra é algo tão vil e baixo que não merece nem mesmo comentários. Talvez apenas uma advertência, e nada mais.

- Discordo – disse Vincent – Cada um deve saber o que lhe serve ou não. Todo o resto é julgamento moral, são os códigos sociais que adquirimos no seio de uma determinada cultura.

- Acredito que você mudará sua opinião após nossos trabalhos de hoje, caro Vincent – a voz de Antônio soou tão firme e branda a um só tempo que todos estremeceram um pouco.

- Quer dizer que nosso encontro de hoje tratará de magia sexual? – todos perguntaram.

- Não exatamente. Estudaremos a energia sutil e seu uso. Neste Universo, em que um canibalismo cósmico generalizado é a regra, saber captar, armazenar e usar energia é uma arte. Tudo – em sua essência – se baseia nisso. Precisamos, constantemente, nos alimentar, seja de comida, bebida, arte, diversão, seja lá o que for; estamos nos alimentando e gastando a energia ganha todo o tempo.

- Mas não há as escolas que ensinam magia sexual negra? – continuou Vincent.

- É verdade – respondi para entrar na conversa – Mas o que impede que um ignorante seja instrutor de outro ignorante? A escolha de um caminho, quando estamos tratando desta área, muitas vezes repousa na busca por prazer, poder ou diversão. A busca sincera pelo conhecimento – em que o indivíduo combate constantemente sua vaidade – não é uma coisa simples e fácil. Tomar ciência da natureza de nossa busca, muitas vezes, é mais difícil do que seguí-la.

- Concordo – riu Antônio – Por isso que há sempre uma parcela de filosofia e misticismo nestes caminhos. A razão deve andar de mãos dadas com nosso coração. São irmãos que se completam.

- E a questão da energia? – perguntou Zapata no claro intuito de nos fazer retornar ao princípio de nossa conversa.

- Podemos pensar na energia como algo palpável – disse Antônio – A ciência tenta entender o que ela realmente é. A matéria já não responde totalmente por esta busca. A energia parece fundar a matéria e ir além dela. Não se trata apenas de movimento, de trocas atômicas, de um estado latente. É algo ainda maior. Pensemos num ser humano – Antônio sempre gostou de usar exemplos bem claros para suas explanações – Você pode correr daqui até Olinda se for um maratonista. Seu corpo manuseia muito bem a energia retida em suas células, seja lá o que isso for. Mas Anna, por exemplo, morreria tentando chegar lá.

Todos rimos de sua comparação.

- Vamos para o terraço conversar lá – propôs Clara quando todos terminaram de comer.

- Ótima ideia – todos concordaram. Seguimos para o terraço e nos espreguiçamos nas cadeiras de bambu com confortáveis almofadas sobre seus assentos.

- Bem – continuou Antônio – Neste caso, parece muito claro como a energia é gasta: através de um esforço físico. Mas e o estresse mental? Será que a recuperação de um cansaço físico é o mesmo que a recuperação de um cansaço mental? Não nos parece que uma pessoa estafada mentalmente leva muito mais tempo para se recuperar?

- Sim, parece – concordou Joahannes.

- Veja quando você está ansioso para que algo ocorra de certo jeito e esta coisa transcorre de modo completamente diferente. Não há aí uma perda considerável de energia?

- Sim, sim – ajuntei.

- Mas esta energia é a mesma que a energia da corrida? Ora, claro que não. Ambas, entretanto, possuem algo em comum: são mentais.

- Como assim? – disse Vincent.

- Sabemos que o Universo é mental, já estudamos isto há três anos, não?

- Estudamos – ele respondeu.

- Então... mental não quer dizer a mente objetiva ou subjetiva do homem, mas sim tudo o que é consciência e memória, e tudo no Universo é consciência e memória, certo? Como a energia pode ser mental? Seria ela um tipo de consciência? Então teríamos duas palavras para falar da mesma coisa? O que vocês acham?

- E assim com relação à memória também – ajuntou Clara.

- Também – Antônio respondeu rindo.

Ficamos alguns segundos em silêncio. Nos entreolhamos e rimos um pouco. “Esta é uma questão difícil”, disse Zapata. “Muito difícil”, acrescentou Alexandra que parecia um pouco sonolenta devido ao seu processo digestivo. “E então?”, Antônio disse.

- Me parece – começou Vincent – que tanto a consciência quanto a memória são processos e estados. Como processo, tenho consciência ou memória de algo ou de mim mesmo, de meu ser. Enquanto estado, é o ser que se mostra enquanto consciência, ele sabe que é. O saber, portanto, é o mesmo que o ser e isto também quanto ao sentir.

- Mas aí teríamos várias palavras para falar do ser, não? – falou Joahannes.

- Justamente – arguiu Vincent – o ser é múltiplo e uno a um só tempo. Este é o grande absurdo. Ele participa de tudo e nada é, ou seja, ele é o próprio nada, já que o ser não pode ser coisa alguma. Mas sem o múltiplo nem pensar ser existiria. As coisas encontram seu fundamento no ser que nada é.

Todos riram desta afirmação filosófica de Vincent. O grande absurdo de tudo ser uno e múltiplo, o paradoxo, a grande aporia de tudo isto é algo realmente intrigante. Platão, no seu Diálogo O Sofista, havia dito na boca do estrangeiro que há uma forma única manifesta por toda parte através de muitas formas, cada qual existindo isoladamente, depois que há uma multiplicidade de formas diferentes entre si e envolvidas exteriormente por uma forma única e, por fim, uma forma única que é manifestada através de numerosos todos e legada a uma unidade. Kant, na sua célebre Crítica da Razão Pura, afirmou que o ser é simplesmente a posição de uma coisa, não sendo um predicado real, sendo o real aquilo que contém o simplesmente possível. Heidegger, em Ser e Tempo, avança na idéia de que o ser e o nada são o mesmo numa comum pertença, indo um pouco além ou aquém de Hegel quando este afirma a igualdade entre os dois termos. Em filosofia, nada se resolve, tudo é sempre um ir além. E continuamos.

- E a energia? – sabiamente perguntou Antônio.

- Para mim – concluiu Vincent – é o movimento da memória e da consciência. Sem movimento não há energia.

- Além do mais – disse Johannes – parece-me que a energia é uma unidade que se funde com outras unidades e adquire novas formas.

- Seriam os pacotes de energia de Planck? – perguntou Alexandra.

- Sim, só que no nível das sete esferas da Mente – prosseguiu Antônio - Não podemos nos desvencilhar desta idéia norteadora. Se só houvesse um nível em tudo – o Uno estacionário, o não-movimento – não haveria movimento e, portanto não haveria energia. O movimento do ser é a energia... o movimento da Mente. Mas só há movimento sobre o que é imóvel. Os níveis falam da estrutura de algo que em si mesmo é móvel e imóvel a um só tempo, mas sempre resguardando a natureza de cada um, sem participação, ao menos neste caso.

- Isto está muito complicado para mim – confessou Zapata – Como podemos pensar em um ser que é movimento e inércia a um só tempo? Isto não só é absurdo, como ilógico. Tudo bem, nada aqui tem relação com a lógica – nosso mundo é realmente ilógico – mas como posso me assegurar que este modo de pensar é seguro? Nada me garante isto.

- Você está certo, Diogo – respondeu Antônio – Mas só há, para cada um de nós, uma única certeza.

- Qual é?

- A da nossa impecabilidade com aquilo que nos propomos. Poderemos discutir a verdade e o ser a vida toda e ser pecáveis frente aquilo que nos propomos. E poderemos jamais discutir estas coisas e ser impecáveis com nós mesmos. Trata-se, apenas, de uma escolha. E aqui a questão se complica se você me pergunta se somos livres ou não, se podemos decidir algo ou se já está tudo determinado. Sentir o caminho certo a trilhar é algo difícil, mas quando ele surge, parece que nada pode nos deter. É simplesmente incrível. Naquilo que temos amor, naquilo que nos dedicamos de coração há energia transbordante, já que tudo é mental, e escassez naquilo que não gostamos de fazer.

- Ah! – exclamou Alexandra – por isso você sempre nos exortou a fazermos aquilo que gostamos, não?

- Parece que sim. Não podemos dizer a um aluno do ensino médio o conteúdo de uma filosofia profunda ou os meandros contemporâneos da física quântica. Sua mente não está pronta ainda. Temos que entender que não são as coisas que nos escolhem, mas nós que as escolhemos.

- E o conteúdo de nossos trabalhos de hoje – falou Clarice rompendo seu silêncio – O que você nos reservou?

- Bem, acredito que agora vocês estão prontos para ver o que eu tenho para lhes mostrar. Por mais absurdo que seja o que vocês verão, procurem manter a mente tranquila e o espírito livre. Não se preocupem tanto. Só posso dizer que todas as crenças de vocês sobre o que é real ou não irá desaparecer a partir de agora. Espero realmente que todos estejam preparados.

Todos nós possuíamos uma grande confiança na seriedade de propósitos de Antônio e ficamos um pouco apreensivos. De fato, foi a primeira vez que o vi assim tão ansioso quanto ao nosso bem-estar. Que revelação tremenda seria essa? Haveria mais escuridão neste mundo do que luz? Há sentimento pior do que ser enganado, de ter passado a vida inteira acreditando numa mentira? Esta idéia de canibalismo cósmico – já preconizada por G. O. Mebes – fincou-se com força na minha mente. Eu quase não conseguia pensar em outra coisa e não sabia exatamente o porquê disso.

- Bem – disse Antônio com uma voz mais tranquila – Vamos começar.

Todos se ajeitaram em seus assentos. Clara surgiu com uma bandeja com copos e uma jarra de água. Todos se serviram.

- Primeiro – instruiu Antônio – vamos respirar profundamente. Procurem deixar a mente relaxada. Respirem calmamente. Relaxem o corpo todo.

Depois de alguns minutos, começamos a entoar um mantra escrito pelo próprio Antônio e a balançar nosso corpo para frente e para trás. Após dez minutos, Clara surgiu trazendo uma bandeja com nove copos americanos cheios até a metade com um chá feito à base de Mariri e Chacrona. Tratava-se de uma beberagem alucinógena. Bebemos em silêncio. Ao fundo, percebemos que a música suave de Elomar – o cantador bahiano – tocava advinda do som da sala. Me senti leve, relaxado e em paz.

- Concentrem sua atenção no plexo solar. Imaginem que uma luz rosa purifica esta área de seu corpo – disse Antônio com voz firme.

Nas escolas místicas, há a idéia de que nosso Universo, sendo mental, está dividido em diversas esferas interconectadas e só através do desenvolvimento de nossas glândulas – aquilo que o Oriente chama de Chakras – é que podemos ter acesso a este nível de realidade. Aleister Crowley fez vários trabalhos neste sentido. Em sua magia, ele denominava estes níveis de Aetyrs. Este trabalho foi desenvolvido pela magia goética e enochiana de John Dee e Edward Kelly, atingiu Mathers e Yates e chegou até nós. Entre os rosacruzes, há a idéia de que nosso Universo pode ser representado por um imenso teclado – o que eles chamam de Teclado Espírito – e que a Mente se manifesta em 144 níveis diferentes de vibração. É crença – ou conhecimento – dos rosacruzes de que um dia iremos descobrir que de fato há 144 elementos atômicos na Natureza. Nossa consciência objetiva, portanto, terá que adentrar todas estas teclas e, só assim, estar apta a conhecer o Todo. A iluminação, para um rosacruz, significa a junção de sua consciência com aquilo que eles denominam Consciência Cósmica. A Franco-Maçonaria há muito que perdeu as chaves para este conhecimento e só se articulam – como nos diz Papus – na esfera terrena. Não há nenhuma ligação mais com o invisível – e isto me lembra uma carta de Blavatsky sobre o tema.

Mas o fato era que estávamos ali para conhecer uma dessas esferas. Em termos cabalísticos, poderíamos dizer que viajaríamos pelas Sephiroth, as manifestações de Deus. Mas uma viagem desta natureza pode nos levar a lugares realmente insólitos. Para os leigos – para os homens que acreditam que o Universo é uma simples manifestação física – é impossível até mesmo imaginar que há um mundo paralelo. Trata-se de uma terrível ignorância, uma vez que eles vivem apenas uma ínfima parcela da realidade. E, o mais estranho de tudo, são muito arrogantes e prepotentes diante de sua pretensa sabedoria. Mas cada um recebe o que merece, e isto é um fato.

- Vamos nos concentrar no centro de nossas cabeças – continuou Antônio – Nas glândulas pituitária e pineal. Imaginem seus corpos como uma esfera de luz.

Durante alguns minutos, Antônio foi nos dando instruções e guiando nossa mente pelas esferas do real. Meu corpo caminhava por um campo muito vasto. Eu tentava manter o ritmo cadenciado de minha respiração. Contemplei meus amigos e percebi que todos estavam com as feições mudadas. Havia certa calma e apreensão ao mesmo tempo. “Vamos seguindo”, ordenou Antônio. O terraço de sua casa desaparecera por completo. Havia apenas o campo imenso. Foi então que vi várias pessoas caminhando por ali, centradas em suas vidas. Eram pessoas como eu. Pareciam absortas em seus afazeres. Então, algo se descortinou ante mim e pude ver mais além daquela manifestação. Havia diversos seres pairando sobre estas pessoas. Não se tratava, de modo algum, de obssessores como estes são entendidos pelo Espiritismo. Eram seres de outra espécie. Não eram humanos. Eu muito bem poderia classificá-los como alienígenas. Percebi que eles poderiam mudar de forma ao bel prazer, ou seja, poderiam assumir a forma de um cachorro, um gato, uma árvore ou até mesmo de uma pessoa. Havia certa malignidade irradiando de seus corpos etéreos. Foi então que, além de ver, eu entendi e me espantei. Estes seres – que algumas tradições denominam Fagos – estavam cultivando aquelas pessoas. Os seres humanos que caminhavam por ali eram suas fontes de alimentação. Pude notar, com bastante assombro, que eles se alimentavam como vampiros, sugando a energia das pessoas através do campo de ação de suas auras.

Assim como nós criamos gado, estes seres criavam humanos. E este imenso campo em que eles estavam sendo mantidos era o nosso planeta, a Terra. Fiquei apavorado. Quase todos os homens eram mantidos sob a tutela destes seres. Apenas uns poucos escapavam de sua ânsia por mais energia. Estes poucos, pude constatar, eram os Iniciados. Os outros, as pessoas comuns, eram incitadas em seu dia-a-dia a terem as mais diversas emoções e quanto mais descontroladas elas fossem, mais energia era produzida para alimentá-los. Depois de anos se alimentando de tão absurdo repasto, quando as pessoas já não conseguiam em suas vidas produzir energia suficiente para alimentá-los, eram imediatamente sacrificadas, assim como fazemos com nossas vacas quando estas não produzem mais leite. Na morte dos homens, mulheres e crianças, estes seres se alimentavam da energia desprendida de suas células em decomposição. Era terrível.

- Pelo amor de Deus – gritou Clarice – Isso não é possível!

- Tenham calma – Antônio falou para todos – respirem fundo e tenham confiança. Estamos protegidos.

Mas era um fato: todos nós estávamos aterrorizados. Nós, os seres humanos, que sempre acreditamos ser a mais alta expressão do Cósmico, a imagem e semelhança do Criador, nada mais éramos do que gado para outros seres. Todos, nas suas vidas cotidianas, com seus afazeres e preocupações, produziam energia para alimentar estes seres absurdos. O que tudo isto significava? O que havia por trás de tudo isto? Não estaríamos ficando loucos e perdendo de uma vez por toda a razão?

Então, como que por um passe de mágica, uma comissão destes seres aproximou-se de mim. Havia duas cadelas da raça dobermann ao meu lado e seres que se assemelhavam a humanos.

- Você – disse uma das cadelas – poderá se associar a nós, se assim o quiser.

- Mas terá que ser iniciado em nossa Ordem. E para isto é necessário que participe do sacrifício – disse a outra cadela.

Um homem alto, de pele muito escura e olhos em chamas aproximou-se de mim com um sorriso sarcástico nos lábios.

- Não adianta – ele disse – nunca irão acreditar em você. Você não é o primeiro a chegar até nós e não será o último. Alguns se associaram a nós e se tornaram aquilo que vocês ridiculamente chamam de vampiros. Outros, imbuídos daquilo que vocês chamam de boas intenções, tentaram alertar os outros de nossa presença – neste ponto, ele soltou uma estrondosa gargalhada – mas são tentativas vãs. Nenhum ser no cósmico se presta melhor ao desequilíbrio do que vocês, humanos.

Eu o encarava sem medo. Não sei como, mas me senti extremamente poderoso naquele momento. Então entendi: aquilo que a Tradição chama de Fraternidade Branca ou Egrégora nada mais era do que homens e mulheres cientes do Todo e dos desdobramentos do real. Cientes de si mesmos e do Universo, poderiam trafegar em qualquer esfera e auxiliar aqueles que comungassem com seus ideais. Lembrei-me do filme Matrix e do Inferno de Dante e senti vontade de vomitar. Antônio estava, agora, ao meu lado. Pude ver como havia muita luz ao seu redor e isto me acalmou. Os seres infernais circulavam por todos os lugares, mas não conseguiam chegar muito perto de mim. Então me lembrei do pentagrama que carregava no pescoço. Certas formas geométricas – e isto não soube porquê – criavam campos ao redor daquele que o carrega, um campo benéfico de proteção. Achei tudo aquilo um pouco ridículo, já que eu mesmo não acreditava nestas coisas. Mas é preciso uma mente aberta para encarar a verdade.

Talvez a verdade fosse uma metáfora: somos o céu do inferno e o inferno do céu. Senti-me triste por participar de uma esfera tão pouco desenvolvida e tão ignorante de sua realidade. Vi meus amigos observando aquele imenso pasto. Zapata permanecia sereno, assim como Joahannes. Vi que dois ou mais seres daquela espécie estavam grudados em Vincent. Anna chorava copiosamente e Clarice berrava em pânico. Alexandra, para minha surpresa, também possuía muita luz e estava ao lado de Antônio e Clara. Eu queria voltar e esquecer tudo aquilo. Mas como esquecer cena tão monstruosa? Passamos duas horas contemplando o desenrolar daquela aberração. Por fim, quando todos estávamos exaustos, Antônio nos convidou para voltar.

- Vamos, meus irmãos, já vimos o bastante.

No terraço, após o retorno às nossas consciências objetivas, nos sentimos aliviados por estarmos de volta ao nosso mundo comum. O hábito é uma condição imperiosa em nossas mentes. A música de Elomar ainda tocava na sala. Eram seis horas. Fiquei espantado com a velocidade com que o tempo havia passado.

- Estes seres – explicou Antônio – os Fagos, se alimentam de nós. Libertar-se da ilusão é, também, libertar-se desta condição. Só um Iniciado pode transpor este limiar absurdo e ir além da ilusão, tornando-se senhor de si mesmo, adquirindo o domínio de sua vida. Somos escravos, meus irmãos, e não sabemos disso. Na nossa vida diária, gastamos nossas energias com as coisas mais ridículas possíveis. Somos vaidosos, ciumentos, implicantes, mesquinhos, egoístas e vis. E tudo isso, quando nós acreditamos que somos o centro do Universo e que tudo gira em torno de nós, nada mais é do que uma grande armadilha. Vejam uma vaca no curral, por exemplo. Nós, os homens, amarramos um bezerro ao seu lado e ela libera leite, acreditando estar alimentado seu filhote. Mas na verdade, nós estamos ludibriando a vaca para nos alimentarmos dela. Assim estes seres fazem todos os dias conosco. Nos ludibriam, fazendo-nos acreditar senhores de tudo, a coisa mais importante do mundo e o mundo, por si só, não segue este ritmo, daí nossos conflitos, nossos desequilíbrios e nossas perdas energéticas. Vocês entendem, agora, a seriedade do que estamos fazendo? E, o que é pior, como vocês se preocupam com tantas bobagens?

Estávamos atônitos e em completo silêncio. Duvido muito que alguém conseguisse dizer algo naquele instante. Todos haviam contemplado a mesma realidade e isto era terrível. Como a verdade pode ser amarga, eu pensei. Eu, Vincent e Alexandra ainda tomamos um banho de piscina na casa de Antônio à noite. Por volta da meia-noite nos despedimos e fomos embora, ansiosos pelo nosso próximo encontro. Trinta dias nos separavam de novas descobertas. Mas nem todos voltaram. O impacto de uma cena tão violenta quanto aquela não era para todo mundo. Anna Bella tornou-se evangélica. Certo dia, quando a encontrei na rua, no centro do Recife, ela esquivou-se e evitou falar comigo. Clarice afundou-se no mundo da música e, apesar de ainda manter contato com nosso grupo, não permitia que falássemos mais sobre estes assuntos com ela. Vicent desgarrou-se completamente e desapareceu de vez. Zapata me disse que certa vez o encontrara no Recife Antigo à noite. Ele estava mais denso do que nunca, Zapata disse. Só usava roupas negras e suas feições estavam adquirindo parentesco com algo doentio. Assim, eu, Zapata, Joahannes e Alexandra continuamos no grupo de Antônio. Percebemos que o conhecimento não era realmente algo fácil e que exigia uma busca intensa, uma força de vontade descomunal e uma crença inabalável em si mesmo.

Meditei por alguns dias e entendi que se o Universo é realmente mental, então ele também deve ser movimento, impermanência e ilusão. Assim, toda aquela experiência possuía como transfundo a essência desta mesma ilusão; e só o conhecimento pode nos libertar dela. Lembrei-me do mestre Boehme e então entendi. O verdadeiro desprendimento, a verdadeira busca, o coração puro. Como tudo aquilo era, agora, claro para mim. Senti-me muito bem de saber-me pertencente a uma corrente poderosa. Mas o trabalho é sempre muito árduo e nos caminhos tortuosos que o mundo coloca sempre ante nós, e isto eu soube após anos de batalha, é muito fácil perder-se. Havia, então, uma única palavra-chave: vontade! Assim como é em cima é embaixo! E achei aquilo tudo muito justo.



.

Escritos Filosóficos

Filo de Alexandria e a gênese da Negatividade



Para que possamos inserir o conceito de Negatividade dentro do âmbito da Filosofia – a partir de um salto que tem sua origem no Misticismo – devemos, antes de tudo, traçar com clareza o percurso que este mesmo conceito percorre de sua nascente, ou seja, o nascimento e consolidação do judaísmo através da elaboração do Pentateuco e o impacto que as idéias fundamentais e principais do judaísmo ganham através de uma leitura mui pessoal dos filósofos que mantiveram contato com as mesmas até sua inserção como modo de interpretação metafísica e ontológica da realidade a partir de uma abordagem estritamente filosófica. Essa passagem, evidente, não surge como um rompimento brusco, mas se dá de modo gradativo e, por ter sua fonte alicerçada no Misticismo, muitas vezes mantém traços que a liga muito mais à esfera do Misticismo do que à Filosofia em si mesma.

O ponto de partida natural para tal articulação consiste na própria Bíblia. Este texto se desenvolve em seu todo estrutural por durante dez séculos ou mais. Trata-se de uma coleção, “os livros” (em grego se diz ta biblia) que apresentam diversos gêneros literários: narrativa histórica, códigos de leis, poesia, cartas, pregações, orações e romance. No seu desenvolver-se histórico, a Bíblia de livros diversos torna-se um único texto ( agora, em grego, torna-se he biblia, no singular). Essa coleção traduz o anseio de homens que possuíam uma convicção em comum, aquela que pode ser compreendida como uma busca por Deus enquanto criador de tudo o que é. Estes homens possivelmente compuseram aquele povo que por volta de 1200 a . C. estavam envolvidos com os movimentos que agitaram o Oriente Próximo e que são conhecidos como o povo hebreu. Este mesmo povo, também alcunhado de povo de Israel, se desenvolve na região do Crescente Fértil, região irrigada por rios conhecidos (Tigre, Eufrates, Oronte, Litâni e Jordão) e que, posta entre o Mediterrâneo e o deserto, compõe um corredor de 100 quilômetros que liga a Mesopotâmia e o Vale do Nilo. Geograficamente situado neste crescente, este povo – apesar de adentrar a História por volta de 1200 a . C. – foi procedido por um longo período de formação: quase 9 séculos, tendo como antepassados muito provavelmente os semitas nômades que com o passar dos séculos devem ter decidido se fixar na região do Crescente Fértil.

Entretanto, apesar da obscuridade que envolve o surgimento da Bíblia em sua totalidade, é inegável que o texto está presente e que durante a História ele foi uma fonte constante de busca por um sentido para a própria realidade, o homem e Deus. Para nosso intuito particular, o mais importante é afirmar que é com o primeiro livro bíblico, o Gênesis, que temos uma articulação muito clara do conceito e da compreensão de um Deus criador, anterior a tudo. A afirmação inicial do Gênesis é de que “quando Deus iniciou a criação do céu e da terra” se dá uma passagem, um princípio se estabelece e a mente humana pode, a partir deste dado, pensar o tempo e o todo. Outro texto de suma importância dentro da doutrina hebraica da criação, e que neste ponto se assenta como uma das vertentes e origens mais importantes para a compreensão cabalística dos textos bíblicos, é o livro Sêfer Ietsirá, o Livro da Criação. Eis o que nos diz o rabino Arieh Kaplan:





“O Sêfer Ietsirá é, sem dúvida, o mais antigo e o mais misterioso de todos os textos cabalísticos. Os primeiros comentários sobre este livro foram escritos no século X, e o texto em si é citado como do século VI. Referências ao trabalho aparecem já no século I, enquanto a tradição considera sua existência desde os tempos bíblicos. Este livro é tão antigo que sua origem não é acessível aos historiadores. Somos totalmente dependentes da tradição com respeito a sua autoria”.





O texto do Sêfer Ietsirá também se estrutura sobre a mesma tradição hebraica que preconiza um Deus único, criador e transcendental. Reza o texto no seu primeiro capítulo: “Com 32 caminhos de Sabedoria / gravou Yah / o Senhor dos Exércitos / o Deus de Israel / o Deus vivo ... E criou Seu universo”. A conexão entre este texto e o primeiro livro bíblico é justificado pela própria tradição hebraica. Novamente Kaplan:





“De acordo com os cabalistas, estes 32 caminhos são aludidos na Torá pelas 32 vezes que o nome de Deus Elohim aparece no relato da Criação no primeiro capítulo do Gênesis. Neste relato, a expressão ‘Deus disse’ aparece dez vezes e esses são os Dez Ditos com os quais o mundo foi criado. Esses Dez Ditos fazem paralelo às Dez Sefirot. Diz-se que o primeiro dito é o verso: ‘No princípio criou Deus os céus e a terra’. Embora nele não apareça a expressão ‘Deus disse’, está implícita e subentendida. As vinte e duas vezes restantes que o nome de Deus aparece neste relato correspondem então às 22 letras do alfabeto. As três vezes que aparece a expressão ‘Deus fez’ correspondem as três letras Mães (Aleph, Mem e Schin). As sete repetições de ‘Deus viu’ correspondem às sete Duplas (Bet, Guimel, Dalet, Caf, Pê, Resh e Tav), e os restantes doze nomes às doze Elementares (He, Vav, Záyin, Chet, Tet, Yod, Lamed, Nun, Sámech, Áyin, Tsadi e Cof )”.





Essas referências nos servem apenas como base para justificarmos o surgimento daquele pensador que trará uma base nova ao pensar Ocidental exatamente por traduzir os conceitos essenciais da mística hebraica através da Filosofia grega. De fato, e isto dentro da História da Filosofia, é apenas com Filo de Alexandria que se produz uma grandiosa fusão entre a teologia hebraica e a Filosofia helênica. A junção de universos tão distintos, levados a termo por uma mente brilhante e criativa, abre as possibilidades não apenas para uma nova vertente do pensar ocidental, mas inaugura mesmo o pensar europeu. Sobre este ponto, defendendo tal tese, escreve Giovanni Reale:





“A tentativa de fusão entre a teologia hebraica e Filosofia helênica operada por Filo, mesmo com todas as incertezas e numerosas aporias, constitui um acontecimento de alcance excepcional não só no âmbito da história espiritual da grecidade e na do hebraísmo, mas também em geral, enquanto inaugura a aliança entre fé bíblica e razão filosófica helênica, destinada a ter tão amplo sucesso com a difusão do discurso cristão, e da qual deviam brotar as categorias do pensamento dos séculos posteriores. Com Filo, em suma, como foi justamente observado, começa, em certo sentido, a história da Filosofia cristã e, portanto, ‘européia’”.

Desenvolve-se, então, não só uma fusão, mas o alicerce em que toda a Filosofia européia medieval, portanto toda a sua metafísica, poderá se desenvolver a posteriori. Mas para entendermos as bases de tal alicerce, temos que compreender a figura de Filo e seu modo de forjar esta junção. Já com Clemente, na sua Stromata, é acentuado vivamente o caráter pitagórico e platônico de Filo. O próprio Reale toma para si está compreensão e afirma mesmo que apesar de alguns estudiosos modernos terem destacado o caráter estóico de alguns pontos de seu pensamento, como o próprio Bréhier, Filo consegue esvaziar “sistematicamente todos os conceitos estóicos de sua carga materialista e imanetista e os refunda num sentido espiritualista” . Mas fica evidente que ao nos depararmos com os textos fundamentais de Filo temos a larga impressão de que um novo platonismo é formado, já que Filo ajunta às teses essenciais do platonismo aquilo que ele bebeu das fontes hebraicas. Se, de um lado, ele toma da cultura e da tradição helênica o corpo conceitual para elaborar seu pensamento, este só o é usado na medida em que Filo busca traduzir conceitualmente para o mundo helênico aqueles conceitos principais do misticismo hebraico e que, para bem da verdade, compõem teses completamente novas para a tradição helênica. Não apenas por trazer e recuperar a dimensão do incorpóreo em sua Filosofia, mas por pensar a Negatividade enquanto um Deus que cria o todo a partir do não-ser. Acentue-se, além do mais, que o próprio pitagorismo em sua essência metafísica espiritualista, bem como o platonismo, servem como base para colocar Deus num patamar em que a tradição de então não havia ainda percebido em toda a sua dimensão e isso mesmo a partir de uma leitura produzida naturalmente pelo choque entre duas culturas tão díspares e que porta uma lente grega para ler textos hebraicos. Filo quer acentuar a grandiosidade da Bíblia e, em especial, da figura de Moisés. Ele mesmo demonstra, como podemos ler em sua Quaestio in Genesis, que se pode notar uma certa similitude, uma correspondência, entre as idéias centrais da filosofia grega e certos pontos de cunho metafísico que surgem na Bíblia. Para tanto, na tentativa de construir o mosaico ricamente erigido por Filo, é que os estudiosos modernos começaram a levar em consideração a importância da Bíblia como fonte de inspiração para Filo e como ponto de partida para toda e qualquer especulação levada avante por ele.





“O texto da Bíblia ao qual Filo se remete não é o original hebraico, mas a Septuaginta, tradução grega iniciada em Alexandria sob o reinado de Ptolomeu Filadelfo (285-246 a . C.), para responder à necessidade da comunidade hebraica que se tinha formado em Alexandria, e que tinha então se apropriado da língua grega. Alguns estudiosos, antes, consideram que o próprio Filo não conhecia o hebraico, ou, pelo menos, não de modo perfeito” .



Mesmo tendo usado o texto bíblico em grego, para Filo isso não se revestia de muita importância, uma vez que era crença pessoa sua de que se Deus havia inspirado os homens na composição da Bíblia em hebraico, Ele deveria ter inspirado os tradutores a escolherem os melhores termos em grego para sua tradução e manter, deste modo, viva a mensagem surgida originalmente em hebraico. No seu De Vita Mosis é atestado essa sua compreensão, já que se trata especialmente de manter ativa uma aproximação, através da linguagem, com esse Deus vivo que surge para Moisés e que deve ser conhecido por todos. O que se opera, então, e este deve muito provavelmente ser o ponto chave de nossa discussão, é o choque entre uma tradição criacionista, a hebraica, e a tradição grega, centrada num imanente perene e que, mesmo tendo elaborado a figura do primeiro motor, não o pensava como um Deus criador separado do mundo criado por Ele mesmo. A separação entre aquele que cria e a obra de sua criação é um privilégio da tradição hebraica e que penetra o mundo helênico exatamente através da figura de Filo. Deste modo, entender-se-á, diferentemente do modo grego, que o cosmo não pode ser compreendido como o primeiro Deus, como o Criador em si, mas sim como sua obra, sendo um Deus sem forma, mas que torna todas as coisas visíveis, construindo a natureza.

Na dogmática filoniana privilegia-se um modo específico de conhecer a Deus – já que este modo não é vetado plenamente aos homens – mas só uns poucos, os eleitos, assim como o foi Moisés, recebem deste mesmo Deus o direito de conhecê-lo. Só aquele, ensina Filo, que se torna um servidor de Deus, que se torna digno Dele é quem poderá contemplá-Lo . Nesta tarefa gnosiológica não se conhece a causa de todas as coisas a partir delas mesmas, mas sim superando aquilo que foi criado e atingindo, deste modo, o Incriado. No seu Legum Allegoriae, Filo cita o pedido de Moisés (Ex. 33:13) como fonte para adquirir tal conhecimento. Um dos pontos chaves aqui, e que rompe com uma maneira própria da grecidade de desvelar as coisas, é que aqui não é o homem que em sua tarefa de atingir o conhecimento atinge-o através de seus esforços particulares, mas sim Deus que se dirige aos homens e se faz conhecer. Mas lembra Reale:





“O conhecimento imediato, que Deus pode dar ao homem ‘dando-se a ver’, refere-se – note-se bem – apenas à sua existência e não à sua natureza ou essência, que, como já recordamos, permanece incompreensível ao homem, pois o transcende infinitamente” .





Por ‘transcende infinitamente’ devemos compreender o fato de que Deus – na compreensão filoniana – é o absoluto transcendente. Deus é o outro em relação a tudo e isso, no já referido Legum Allegoriae, o faz afirmar que não há nada semelhante a Deus. Ele é a fonte de toda a realidade, mas não está em parte alguma e, ao mesmo tempo, está em toda parte, preenchendo tudo de si. O traço fundamental desta teoria pode ser assim traduzido:





“A transcendência ontológica de Deus comporta, necessariamente, também a sua transcendência gnosiológica, tornando-o incognoscível ao homem e, por conseqüência, tornando-o também inefável, ou seja, inexprimível e não designável por nomes” .





A importância desta doutrina é que a mesma será um dos alicerces principais para a metafísica de Plotino, Dionisius e, mais tarde, do próprio Mestre Eckhart. Esta é, de fato, a essência primeva de toda a teologia da Negatividade. Se em Platão as Idéias são eternas e incriadas, em Filo elas mesmas são consideradas como criadas por Deus, derivadas do pensamento divino, deslocando o princípio para o Inevável, o outro que se nega uma definição e que extrapola os limites da linguagem. Além do mais, e talvez este seja o ponto mais radical dentro da metafísica filoniana, é que Deus produziu as coisas que não eram e esta atividade não se deu através de uma matéria já existente, mas sim como atividade a partir do não-ser. O salto em relação às concepções platônicas é que Deus não se limita a ser o demiurgo , mas sim o criador. Filo repete aquilo que ele já havia afirmado no seu Legum Allegoriae quando no De Vita Mosis afirma que “Deus produziu o mundo, a sua obra perfeitíssima, a partir do não-ser ao ser” .

Ao colocar as Idéias como produtos do pensamento de Deus, Filo abre um novo modo de pensar a questão da criação. Essa concepção torna-se fundamental dentro do universo dos neoplatônicos (como vemos no Didaskalikos de Albino, nas concepções teúrgicas de Ammonius Sacca e nas Enéadas de Plotino). Esta abertura possibilita que o conceito de Negatividade seja posto em movimento. Há, portanto, duas esferas que se articulam sobre um abismo: o Inefável, uma passagem deste para a criação, e o Mundo, a natureza, as coisas. A passagem referida, então, comporta os pensamentos divinos, as Idéias, e portanto não podem ser a causa de tudo.

O que se evidencia para nós – e este é o ponto mais importante de nossa pesquisa – é apontar para um momento muito especial dentro da tradição filosófica e que abre, por si mesmo, possibilidades enriquecedoras para o discurso metafísico da época. Filo de Alexandria torna-se por direito o primeiro pensador, quando de seu enfrentamento através de moldes helêncios da tradição hebraica, a pensar a Negatividade como uma diferença. O termo ainda não está, neste ponto, devidamente consolidado e esclarecido em toda a sua dimensão, mas é aqui que vemos o nascedouro de um modo de pensar o mundo que rompe com determinados paradigmas e aponta para novas abordagens. É com Filo que o pensamento posterior – mais especificamente o neoplatonismo e as escolas medievais da teologia da Negatividade – poderá abrir-se para novas possibilidades de leitura do Ser e tentar elaborar uma ontologia teológica distante da compreensão de um Deus como ente, limitado seja mesmo pela relação sujeito predicado. Este Deus que surge, advindo de uma tradição místico-religiosa, obriga o pensar filosófico a conceituar a Negatividade e descobrir os modos em que o homem transita entre estes dois universos tão díspares entre si, mas conectados por essa mesma Negatividade.

 
 
.