quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

FÉRIAS


Meus amigos: o Blog Ars Diluvian entrou de férias. As postagens voltarão em fevereiro de 2012.
Um grande abraço e até lá.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Comentários Cotidianos


Tradição, sabedoria e bem-estar.



O nascimento de um filho é, para a maioria das pessoas, um acontecimento único e extraordinário. Assim aconteceu com o nascimento de Pedro Henrique, filho do meu grande amigo cearense Chico Borges. Chico, um hedonista crítico por excelência e natureza, decidiu comemorar de modo dionisíaco a vinda de seu filho. Ele convidava um casal de amigos a cada final de semana. Esta artimanha, além de estender o período de celebração por um evento tão maravilhoso, acentuava ainda mais a força que uma nova vida pode ter.
No sábado em que fui para o apartamento de Chico, eu e minha esposa fomos recepcionados por meu amigo – eufórico e transbordando alegria – e por Kátia, uma mãe extremamente coruja – e não poderia ser diferente tamanha era a simpatia e beleza de Pedro Henrique. Minha esposa se derreteu com o menino e eu entendia que ali estava um divisor de águas para o velho cearense, mas um divisor de águas sempre para o melhor.
Chico, um amante do rum e do whisky, abrira mão de sua preferência a favor de minha paixão pela cerveja. Sempre considerei os assírios e os egípcios uma grande civilização por inventarem e aperfeiçoarem essa maravilha da criação humana. A cerveja não apenas representava um elemento sanitário – modo de purificar a água – mas também possuía elementos míticos: a cor do deus sol e a espuma do Nilo. Além do mais, diversos cultos no Egito Antigo eram celebrados em estado de embriaguez como modo de atingir uma esfera mais profunda de nossa mente, prática essa que surgiria na Grécia Antiga como culto ao deus Dionisius.
Seja como for, Chico havia comprado diversas cervejas importadas e algumas nacionais (incluindo aí uma de fabricação cearense, é claro). Passamos o dia bebendo cerveja – ou apreciando as diferenças de sabor de uma cerveja para outra. Cerveja, tábua de frios e muito papo sobre cultura, literatura, música, amizade, vida e morte, amor, conhecimento e filosofia foram a tônica do dia.
À noite, saímos para comer algo. Na verdade, queríamos comer comida japonesa – essa tal de pós-modernidade tem lá suas coisas boas – mas tivemos que nos contentar com comida chinesa mesmo, já que o restaurante japonês perto da casa de Chico estava fechando. O jantar no restaurante foi terrível: yakisoba com talharim (aí está o lado negativo e trágico da pós-modernidade). Entretanto, resolvemos o problema dessa pequena digressão parando na frente da piscina do prédio de Chico. Abrimos uma garrafa de vinho do porto e pegamos alguns charutos cubanos (novamente, o lado bom da pós-modernidade). Eu, Chico e seu cunhado (ainda jovem e tentando nos acompanhar em nossa intensidade para beber e pensar) nos sentamos tranquilamente e continuamos a celebração. Chico trouxe seu violão e toquei uma peça de Villa-Lobos.
Quando a madrugada já ameaçava nos vencer, entramos e decidimos onde cada um iria dormir. Foi aí que percebi uma coisa que achei muito singular: Chico dormia numa rede.
Quando os colonizadores chegaram aqui no Brasil se depararam com essa sabedoria: dormir em redes. Os índios, assim acredito, não deveriam sofrer com um problema tão próprio ao homem ocidental: dor nas costas. O Nordeste manteve esse costume que se arraigou em nossa cultura e tomou parte em nossas vidas. Em todos os estratos sociais, por aqui, é possível se deparar com pessoas que tiram uma soneca na rede ou lêem um livro ou simplesmente dormem na tranquilidade dessa tecnologia de ponta que foi criada para o bem-estar do ser humano.
Depois de algum tempo, decidi comprar uma rede para mim. Incrivelmente, os problemas crônicos que sofria de coluna começaram a desaparecer. Somos tão atacados cotidianamente por nossa falta de postura adequada – algo que o Aikido começou a me educar de modo mais racional e claro – que terminamos por sofrer desse mal sem saber exatamente a causa: uso excessivo do computador, o modo como dirigimos ou ficamos sentados nos bancos dos ônibus, etc.
Essa tecnologia indígena muitas vezes é subestimada simplesmente porque o nosso processo de colonização – de caráter acentuadamente católico – terminou por soterrar as outras culturas de que somos originários. Estabeleceu-se um padrão equivocado de entendimento sobre as culturas não brancas: devem ser inferiores e só podem melhorar na medida em que se aproximação da civilização branca. No Nordeste, felizmente, creio que essa dicotomia imposta a ferro e fogo não conseguiu atingir totalmente seu intento. A nossa intelectualidade está tão voltada para esse solo ocidental que quase sempre não conseguimos enxergar as dimensões mais profundas e coerentes de outras culturas.
Interessantemente, foram brancos como Frazer, Malinowski e Lévi-Strauss que nos ajudaram a desconstruir esse mito ou essa ignorância. Estruturas profundas e tão complexas quanto a nossa estão presentes em todas as culturas conhecidas. De fato, o hibridismo cultural nunca foi um acontecimento isolado dentro da pós-modernidade. Marco Pólo assim o pode confirmar.
De qualquer modo, fiquei duplamente feliz com aquela experiência na casa de meu grande amigo. Primeiramente, porque pude reconquistar um hábito a muito perdido e que restabeleceu minha saúde. Segundo, porque, sem saber, o pequeno Pedro Henrique, na inocência e poder de sua vida, havia me dado uma grande lição: é a própria vida que faz tudo acontecer. Esse rumo, assim pude entender, era como uma dádiva, algo novo e transformador. Senti-me mais jovem, mais perto de mim mesmo e das pessoas; e isso, não havia dúvidas, me bastava. O nascimento, então, havia me dado mais um outro grande sentido para tudo. Um brinde ao pequeno Pedro Henrique!



Meus Poemas

A praia

Um mar de assombros se abre gravemente
onde o horizonte desenha mais um dia
aberto, esplendidamente aberto para o sol
que eterniza o vôo das gaivotas
e fulmina de luz o branco das areias
das espumas e dos maiôs das crianças.

Odor volumoso de peixe assando
com muito alho e cebolas novas
transportando tudo à esfera do paladar
para que possamos nos consagrar
diante da própria eternidade
que se deita diante de nós.

Aqui, é um grito mais antigo
          que se faz ouvir.

Sigo com o amargo da cerveja
que sorvo com parcimônia
pois não há pressa na praia
trafegada por navios silentes
que cortam os mares em desalinho
em um aviso aos mortos e aos vivos.

Assombro e luz culminam na existência
daquilo que somos e que não podemos negar
nem mesmo uma linha que seja
talvez cansados de tentarmos roubar
das nuvens um pouco de lucidez
e da terra um descanso derradeiro.

Aqui, é um grito mais antigo
          que se faz ouvir.


Algumas pessoas transitam em silêncio
num atalho que não pude tomar
cheio de uma esperança nova
que logo me abandona –
Leste de tudo e de todos
anunciando o que já sabíamos.

Então, subitamente, o mar se eleva
as nuvens correm e o grito das gaivotas
cessa de modo abrupto, sem hiatos –
e mar e terra, deuses e mortais
abrem-se para o jogo dos castelos imaginários
outrora erigidos pelas crianças.

Aqui, é um grito mais antigo
          que se faz ouvir.


E parti.


Uma questão teológica


O cristianismo é uma religião que afirma ser uma religião do amor. Jesus aparece como o mestre amoroso. Além disso, o deus cristão é entendido como um deus de amor: o amor em sua plenitude e Jesus é seu servo bem-amado (Mt 12:18). Quando perguntado sobre o perdão, Jesus afirmou que se deveria perdoar setenta vezes sete vezes (Mt 18:22). Essa expressão parece indicar que se deve perdoar indefinidamente. Estranhamente, essa exortação ao perdão feita aos humanos possui um tratamento diferente quando se trata do próprio deus cristão, já que é o próprio Jesus quem afirma que seu deus, na figura do Juízo e na presença do próprio Jesus, julgará aos homens e a uns levará para os céus e outros serão condenados  ao “fogo eterno que foi preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25: 41). No Juízo Final não haverá um perdão que se articula no modo de setenta vezes sete. Esse deus irascível e juiz parece não reconhecer mais a regra que ele mesmo divulgou. O problema que quero trazer tem como raiz uma discussão de Santo Agostinho sobre os futuros contingentes, ou seja, se o deus cristão é criador do céu e da terra e é onisciente, então há espaço para a liberdade humana, para o livre-arbítrio? Se deus é onisciente, então parece que ele, ao criar mundo, já deveria saber que Adão e Eva iriam pecar, daí ser impossível haver um julgamento divino posterior àquilo que ele mesmo criou. Teríamos, então, um deus onisciente que não saberia a essência daquilo que ele mesmo criou. O livro do Gênesis ainda acrescenta que o deus hebraico pergunta a Adão e Eva o que eles fizeram (Gn 3:11-13). Se formos levar ao pé da letra essa mitologia, então a contradição é evidente. Outro ponto crítico está no livro do Apocalipse. Ali se fala sobre o julgamento e se afirma que os que não forem eleitos, os que não estiverem inscritos no livro da vida, serão precipitados no lago de fogo (Ap 20:15). O fogo do inferno é eterno, ou seja, há uma pena eterna para algo que, mesmo que haja algo como pecado, foi cometido numa temporalidade finita e humana. A questão dos futuros contingentes reaparece aqui: se o deus cristão é um deus de amor, criador do mundo e onisciente, então ele criou o mundo, os homens e saberia que os mesmos agiriam desse ou daquele modo, invalidando qualquer possibilidade de livre-arbítrio, já que qualquer decisão humana deveria ter sido conhecida previamente por esse deus onisciente. Ao criar mundo, esse deus também criou o pecado e, portanto, todos aqueles que arderão eternamente no inferno (Calvino chega mesmo a falar nos predestinados ao inferno). Sendo assim, só haveria diabo, inferno e sofrimentos eternos porque esse deus amoroso decidiu criar um mundo, o homem, o pecado e o próprio inferno. Logo, só há inferno não por causa do diabo, mas por causa desse deus amoroso. Em sua onisciência, ele já saberia quais homens estariam eternamente no inferno, o que implica que ele criou o mundo numa dicotomia entre aqueles que ele escolheu em sua criação para estar no céu e aqueles que estarão no inferno. Nestes termos, parece plausível questionar se há, realmente, amorosidade nesse deus ou se sua essência não é, em termos dados por sua própria existência, demoníaca. Talvez devêssemos meditar sem medo sobre essa questão que, assim me parece, não é definitiva e que está ainda longe de ser resolvida e que implica em entender se o cristianismo é realmente uma religião do amor. Não seria, ao contrário, uma religião da ameaça e do medo? O impulso aqui dado precisa ser questionado se quisermos entender a questão de modo lúcido e claro.

Escrito dos Amigos

Crônica de saudades das coisas simples do meu Recife
                                               por Gustavo Pedrosa

Elegante
O dia resplandece sob o som dos Dj´s
Prossecos gotejam o último gole
Táxis abrem às portas trôpegas.

O filme termina
A cortina inibe a sensação de dia
A noite mais uma vez queimou o cérebro
De forma nada elegante.

A TV negra suga as forças que restam
O táxi branco toca The  Black Eyed Peas
Um motel vermelho luminoso o recebe
Um corpo nu, pesado, revira-se na cama.

A banheira de hidromassagem cuida do jovem casal
The Doors abrevia o breakfast de mais uma noite sem fim
Aninha me espera no mercado da Madalena
Macaxeira com charque.
Estou na Vila Romana,
Aipim com carne seca
No mercado da Lapa,
E Aninha?

Dois táxis saem daquele motel
São brancos
Não há mais maquiagem nem brilho
A mesma cor da tela de TV daqui
Uma criança negra com dentes brancos
Sorrir para um deles.
Só eu vejo,
Com a boca cheia de aipim
E cadê tu Aninha?
Tua música?
Teu sorriso contagiante?


Artes Visuais




Cao Guo-Qiang é um artista chinês contemporâneo que extrapola os limites da arte minimalista, pós-minimalista e da Land Art. Apesar de tomar parte no grupo de artistas que seguem a preocupação ecológica da Land Art, Guo-Qiang desenvolveu um trabalho radicalmente inovador – inclusive atingindo a obsessão pela morte de Damian Hirst – e que nos fala das diversas matizes que habitam nosso cotidiano: consumo, distanciamento da Natureza que passa a ser encarada apenas como fonte de recursos, bioética, tecnologia e humanidade.
O trabalho de Guo-Qiang pode parecer, num primeiro olhar, mais apelativo ou exagerado do que deveria ser. Contudo, creio que essa sensação inicial se esvai quando trafegamos por suas obras despojados de qualquer entendimento estabelecido; especialmente se o mesmo estiver carregado de uma visão canhestra sobre questões ecológicas ou de bioética.
Apontando para a morte, entendo que as obras de Guo-Qiang falam sobre a vida, ou melhor, sobre a real dimensão de nossa vida diante da Natureza. O vínculo que o homem possui com a Natureza – vínculo de amor e cuidado – torna-se cada vez mais tênue numa sociedade em que tudo se agita ao sabor da objetificação, do pensamento que a tudo calcula e que só pode pensar em termos de lucro, controle e poder.
Não se pode negar a importância do lucro, do controle e do poder, mas é preciso entender a dimensão mais profunda dessas esferas e atingir um olhar claro sobre as mesmas.
O século XXI, parece querer dizer Guo-Qiang, pode se arvorar em diversos direitos, mas não lucrar, controlar e ter poder sobre a vida. É a vida a fonte dessas dimensões e não o contrário. A tecnociência não pode ser a dominadora do homem – a arte, aqui, expressa essa linha entre a vida e a morte e o modo como nós encaramos essa ruptura através de um olhar antropocentrado.
A angústia, tão própria de uma cultura antropocentrada, pode não surgir numa cultura biocentrada. A arte de Guo-Qiang demonstra essa junção entre a ação humana e o fazer da Natureza. Há um desespero em suas obras que se traduz por um desespero eminentemente nosso. Não é um apelo da Natureza, mas sim um apelo a partir da Natureza. As flechas, então, estão apontadas para nós e apenas isso.

Filmes


Para quem realmente aprecia cinema e literatura, o filme O Desprezo (Le Mepris) de Jean-Luc Godard é imperdível. Não apenas por trazer uma Brigite Bardot deslumbrante e na melhor fase de sua juventude – ou um Jack Palance vigoroso – mas por alinhar diversas linguagens e discursos numa única película.
O filme trata, inicialmente, de um casamento em ruínas. O existencialismo inicial de Godard é aqui novamente acentuado, mas de um modo mais maduro e bem resolvido. A trama gira em torno do roteirista Paul que quer filmar a Odisséia de Homero. O diretor do filme, Fritz Lang (um gênio do cinema alemão) aparece interpretando a sim mesmo – uma sacada genial de Godard.
Os problemas começam quando o produtor Prokosh (Jack Palance) descarrega toda a sua arrogância em cima de Paul. Conflitos ideológicos surgem quando é preciso tomar decisões sobre a película: arte, entendimento, poder e indústria cultural trafegam nesse banquete grotesco.
Além do mais, Paul está em crise com sua linda esposa Camille (Brigite Bardot). Ela despreza o marido e as discussões intermináveis dos dois em nada ajudam a situação do casal. Paul ainda sente que a ama e seu isolamento diante de um amor que começa a naufragar acentua sua crise existencial.
Godard nos coloca a todo instante diante de paradoxos que a vida pode nos conduzir. Esses paradoxos não nascem apenas de nossas escolhas, mas estão presentes no seio da estrutura existencial mesma – uma dimensão própria do lado irracional de nossas vidas.
Mas, voltando ao contexto do filme, há uma cena que bem pode traduzir a junção entre cinema e existência. Numa audição, Lang é questionado sobre o que será visto e este responde: “Cada filme deve ter uma razão crítica. Aqui, temos a luta do indivíduo contra as circunstâncias. O velho problema dos gregos...”.
Noutra cena, em que Bardot toma banho numa banheira, ela discute com o marido e diz: “Necessito silêncio, escuro. De hoje em diante, quero dormir sozinha”. A distância se instaura em definitivo entre o casal e o tom mais existencial dá ao filme um caráter denso que se une às belas imagens – aliás, a fotografia é outro atrativo à parte.
Por muitos admiradores de Godard, esse filme não é considerado um dos seus melhores filmes - o que pode ser controverso. Mas, seja como for, vale a pena conferir. Godard alinhou elementos novos nessa produção e Lang, Bardot e Palance merecem ser vistos juntos.
Eis o link para baixar o filme:

Citações


Sem pecado, nada de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História.

Soren Kierkegaard

Em ciência lê os livros mais novos, em literatura lê os mais antigos.

Edward Bulwer-Lytton

Se você pegar no mais ardente dos revolucionários, e der poder absoluto a ele, dentro de um ano ele será pior do que o próprio czar.

Mikhail Bakunin

Quando, alguma vez, a liberdade irrompe numa alma humana , os deuses deixam de poder seja o que for contra esse homem.

Jean-Paul Sartre

Falam da dignidade do trabalho. Bah! A dignidade está no ócio.

Herman Melville

Quem tem a sorte de nascer personagem vivo, pode rir até da morte. Não morre mais... Quem era Sancho Panza ? Quem era Dom Abbondio ? E, no entanto, vivem eternamente, pois - vivos embriões - tiveram a sorte de encontrar uma matriz fecunda, uma fantasia que soube criá-los e nutri-los, fazê-los viver para a eternidade!

Luigi Pirandello


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Contemporâneas


Recentemente fui a uma livraria procurar alguma literatura contemporânea interessante. Vasculhei pacientemente todas as estantes e, subitamente, fiquei espantado. A literatura do século XXI quase que se resume a quatro itens básicos: 1. Literatura histórica onde encontramos narrativas canhestras sobre cavaleiros templários, sacerdotes e sábios do Egito Antigo, pensadores medievais, etc.; 2. Vampiros e suas absurdidades tratadas como mitologia profunda e reveladora de nosso tempo; 3. Romances policiais que para quem conhece Dashiell Hammett, Friedrich Dürrenmatt e Raymond Chandler, por exemplo, parecem coisas de criança e 4. Romances que alinham fantasia e seres imaginários como se estivessem tratando das coisas mais importantes do mundo. Não me espanta que, aqui no Brasil, José Saramago seja tão lido. Diante de um quadro tão deplorável desses, recolhi-me à minha insignificância de leitor e procurei os clássicos. Terminei comprando Gente de Hëmso de Strindberg e um livro de Filosofia, Hinos de Hölderlin de Heidegger. Tenho que admitir: fiquei com uma grande saudade do tempo em que livro bom contemporâneo era como O Nome da Rosa de Umberto Eco. Paciência.

Contemporâneas I





Muitas vezes creio que mais importante do que “o que é” algo, é saber o “porquê” desse algo. Desde Kant, Schopenhauer e Nietzsche que a questão do inconsciente humano é discutida. Freud surgiu para resolver muito dos problemas suscitados pela questão e nos legou uma estrutura – depois seguida por Lacan e Winnicott, por exemplo – em que trata do inconsciente e seus desdobramentos no aparelho psíquico humano: o Id, Ego e Superego. Entretanto, a questão até agora estava centrada em explicar o que realmente é o inconsciente. Filósofos com base fenomenológica como Husserl, Merleau-Ponty e Heidegger trouxeram novas contribuições para o debate, mas a perspectiva permanecia a mesma: “O que é”. Creio que o porquê da existência do inconsciente – em sua dinâmica psicológica – se deve a uma sabedoria própria da natureza. Ao mesmo tempo em que o desconhecido nos atemoriza, ele também nos fascina. Somos naturalmente atraídos para esse limite de nosso conhecimento e é nessa atração que reside nossas buscas religiosas, místicas, artísticas, filosóficas ou científicas. Sempre queremos ir além. Mas imagine um universo em que tudo já estivesse presente em nossa consciência. Não restaria nenhum mistério e tudo estaria definitivamente resolvido. Logo, qual seria a força impulsionadora de nossa existência? Morreríamos aos milhões e a humanidade como a conhecemos hoje não existiria. Creio que não existiria humanidade nenhuma. O mistério toma parte em nossa existência e nos impulsiona... para o bem  ou para o mal. O “porquê” do inconsciente reside num mecanismo natural para evitar o tédio. Entediados continuamente, já que nada haveria para ser descoberto, nossa existência perderia o sentido. Assim, a natureza colocou o maior mistério de todos bem ao nosso alcance: nós mesmos. Impossível se entediar diante de uma tarefa tão gigantesca e infindável.

Contemporâneas II



Dor de amor é algo até compreensível. Que as lamúrias se transformem em poesia, música, raiva ou revanche, é extremamente aceitável. Mas quando o sofrimento descamba para a autocomiseração, para a pena de si mesmo, então algo está muito errado com essa pessoa. Pena de si mesmo é tão danoso quanto culpa. A culpa possui como alvo de destruição a própria pessoa que a sente, assim como a pena de si mesmo. Nestes casos, apenas o tratamento de choque parece dar resultado, já que a bajulação só tende a aumentar esse sentimento. Creio que é esse mesmo sentimento subterrâneo de culpa que acontece diante do luto. Penso que o passado serve como medida para nos avaliarmos constantemente e para nos conhecermos mais profundamente – tarefa incessante e sempre gratificante. O futuro, por seu turno, deve servir apenas como ponto de referência para a elaboração de metas concretas e palpáveis. (Certa vez, um amigo semi-analfabeto me disse que o pastor de sua igreja havia dito que através do poder de Deus nós podemos tudo, basta acreditar. Ele me disse que iria se tornar juiz de direito. Eu lhe perguntei: “Você tem 2º grau? Sabe que terá que terminar o 2º grau, depois fazer faculdade de direito, depois passar na OAB e por fim passar num concurso para juiz?”. Ele caiu na real e abandonou a igreja). Assim, resta-nos apenas viver com intensidade o nosso presente, já que o passado passou e o futuro sempre chega. Viver com intensidade a pena de si mesmo ou a culpa é apontar para um sentimento de autodestruição que, em minha opinião, deve ser evitado. Eros e Ananke, Thánatos e Zoé: forças descomunais que nos guiam e que a todo o momento cobram seus tributos.

Meus Poemas

 
                         Diálogos

Duas crianças brincavam no cimo da montanha
o mar da Grécia era o mar do mundo e dos homens
e elas, esquecidas de tudo, perdiam-se em seus risos.

Um céu de tempestades elevou-se fortemente
e seus olhos, centrados em suas brincadeiras,
silenciaram-se para escutar a fúria dos trovões.

“Será que Deus existe?” – perguntou uma das
crianças com olhos amedrontados e plenos
de admiração, uma devoção branca de catedrais.

Claro que não” – respondeu a outra criança
ainda mais amedrontada. Seus olhos, esparsos,
profundos, refletiam o branco e a revolta do mar.

Como você pode provar que ele não existe?”
Eu sei que ele não existe e isso me basta!”
Seus lábios calaram-se e uma luz prenunciou-se


Um trovão estrondou nos céus com fúria
e Dialética e Razão calaram-se para admirar
toda a magnificência do espetáculo da Natureza.




Escritos dos Amigos

pós-goya: digit adversa
Delmo Montenegro

tensão
sob
a pele: nenúfares
(corpo lejano
traço gris)
sol-miosótis
: tatuagem
olho
: ônfalo
céu-horror
: parakleitos
sob a hora-polén:
(
o peso
do morto
em
si
)


Contemporâneas III


Creio que qualquer pessoa com bom senso trataria uma pessoa esquizofrênica e delirante de modo reservado, seja de maneira afetuosa ou não. Do mesmo modo, essa mesma pessoa não levaria muito a sério o que essa pessoa afirmasse como sendo uma revelação máxima de uma verdade profunda. Sendo assim, por que ainda insistimos em acreditar em contos de fadas bem estruturados e que, na verdade, não possuem qualquer evidência? Nossa mente, me parece, precisa da fantasia assim como um bebê precisa de sua mamadeira: alimento e prazer andam de mãos dadas. Só que agora dizemos “alimento para a alma”. Delirantes coletivos não sabem que estão delirando e teimam em acreditar fortemente na natureza de seu delírio.

Contemporâneas IV



A moral medieval está tão arraigada em nosso modelo mental que quase sempre entendemos as coisas e julgarmos as pessoas a partir desse prisma. O mais intrigante, contudo, ocorre quando o comportamento avaliado é o meu. Creio que a velhice está me deixando impaciente com as pessoas e o mau humor começa a aparecer aqui e ali. Certos comentários vazios de pessoas vazias, atitudes infantis em adultos, crenças absurdas e sem sentido, medos idiotas e histerias desnecessárias me exasperam. Julgo severamente a mim mesmo e digo que preciso controlar meu mau humor, já que o mesmo não parece ser digno de uma pessoa que se acredita equilibrada. A desculpa da velhice é fajuta e começo a acreditar que não sou tão equilibrado assim. Eis que o espírito da Filosofia vem em meu socorro e ponho tudo numa balança para análise. Neste sentido, mau humor significa uma agressividade direcionada a um ponto objetivamente dado e bem delimitado. Meço esse ponto e percebo que só há duas situações possíveis, deixando de lado, é claro, qualquer traço de moral medieval: 1. Ou descer a porrada, o que não é do meu feitio ou 2. Ficar mal humorado, já que também não é do meu feitio xingar as pessoas (nesse ponto, deveria ter aprendido mais com meu amigo Pietro Wagner). O mau humor está atrelado, em seu sentido negativo, à crença medieval cristã na superioridade dos mansos. Mansidão é importante em certos casos, mas em outros, sou obrigado a reconhecer, a ira é bem melhor.

Poesia


Pássaros Matinais
Tomas Tranströmer

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agourento.
E o melro que se move em todas as direções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto

Livros


André Gide foi um escritor francês que possuía um enorme talento para escrever livros pequenos, mas com uma essência grandiosa. Paludes, livro que anunciaria a obra prima Os frutos da terra de 1987, é uma dessas pequenas maravilhas do universo de Gide.
Paludes trata do próprio Paludes. Um livro que trata da arte de escrever e do pensamento do escritor enquanto tomado pela inspiração literária, seus desdobramentos e descobertas. Paludes trata de Títiro, figura central do pequeno romance: um homem que ama a solidão, passando seus dias observando pântanos e charnecas, suas plantas e movimentos. Explica o próprio Gide: o autor de Paludes conversa com uma amiga burguesa, Angèle, e diz que a vida de flaneur é insossa e medíocre. A amiga discorda e o autor explica Paludes: “É porque você não pensa nisso. Esse é justamente o assunto do meu livro; Títiro não está insatisfeito com a vida; sente prazer ao contemplar os pântanos; uma variação do tempo os faz mudar de aspecto; mas Angèle, olhe para si mesma! Olhe para sua história! Está bem pouco variada! Há quanto tempo você mora neste quarto? Aluguéis baratos! Aluguéis baratos! E você não é a única! Janelas para a rua, janelas para os fundos; olhamos para muros ou para outras pessoas que nos olham... Mas será que eu vou agora envergonhá-la de suas roupas... e você acredita realmente que soubemos nos amar?”.
Paludes é uma obra que quer glorificar o olhar atento, o poder de observar o mundo e sempre se surpreender. Gide parece antecipar todas as besteiras do século XXI quando afirma que “... não pode se convencer de que um autor não escreva para distrair, desde que não escreve mais para informar”. A literatura que nos obriga a pensar, parece dizer Gide, é a que importa... e apenas esta.
Gide fala de mediocridade  e cegueira em contraposição à contemplação inútil. Num tom que se assemelhe ao Zaratustra de Nietzsche, escreve Gide: “Títiro à beira das lagoas vai colher as plantas úteis. Encontra borragem, malvisco eficaz e centáurea muito amarga. Volta com um feixe de ervas medicinais. Por causa da virtude das plantas, procura pessoas para curar. Em volta dos lagos, ninguém. Pensa: é uma pena. Então vai para as salinas, onde há febres e operários. Vai para junto deles, fala com eles, aconselha-os e lhes prova sua doença; mas diz que não está doente; outro, a quem Títiro dá uma flor medicinal, planta-a num vaso e vai olhá-la crescer; outro enfim sabe que está com febre, mas acredita que ela é útil à sua saúde. E como enfim ninguém desejava curar-se e as flores murchariam, Títiro fica ele próprio com febre para poder pelo menos curar a si mesmo”.
Gide, autor do célebre O Imoralista, compõe um quadro poético e sarcástico sobre a sociedade burguesa de seu tempo, sua moral e religiosidade, buscando uma voz própria que só foi alcançada quando ele mesmo rompeu com essas correntes. Prêmio Nobel de Literatura em 1947, Gide é um escritor maior que não pode deixar de sempre ser revisitado.

Artes Visuais

 O beijo, 1907-8.

 Danae, 1907.

 Beech Grove I, 1902.

Schloss Kammer on the Attersee. 1910.
 
A obra de Gustav Klimt transpira as mais diferentes influências: neoclassicismo, impressionismo, arte em vitrais, figurativismo e design. Entretanto, essa avalanche de influências não se concretizou num sentido de domínio de sua expressão artística. Klimt possui uma voz própria, personalíssima e forte que emana do sentido estético alcançado por sua pintura e pelos conceitos que a mesma revela.
A formação de Klimt nos ajuda a entender essa dinâmica multidimensional de sua arte: decorador de grandes edifícios culturais, estudante de Filosofia, conhecedor da Teologia e da Medicina. Seus quadros transpiram as diversas vozes que essas ciências portam e nada mais natural do que termos um pintor que a partir desse universo tão diverso consiga atingir uma expressividade única na própria diversidade de suas composições.
Klimt, na sua fase dourada, já começa a expressar sua sexualidade de modo incisivo e direto. Essa latência sexual começa a trafegar de modo harmônico em suas obras e o exemplo mais conhecido dessa fase é o quadro O Beijo que retrata o próprio artista com sua amante Emilie.
Essa fase encontra na mitologia uma grande amplitude conceitual, já que o quadro Danae retrata uma lenda grega em que Zeus se transfigura numa chuva dourada. Danae eleva ao máximo a autonomia da sensualidade feminina e nos lega um olhar histórico sobre a beleza da mulher.
A grande quantidade de informações pictóricas que Klimt usa em seus quadros acentua ainda mais esse mundo conceitual que sua arte domina tão bem. Moedas de ouro, olhos, espermatozóides, rostos e arte grega, por exemplo, tomam parte em sua pintura para ampliar o horizonte das possibilidades interpretativas que o artista quer comunicar.
Dono de um domínio magnífico sobre as cores – dourado, amarelo e vermelho se contrapõem ao azul e branco numa orgia de beleza – Klimt alinha essa dinâmica com um traço refinado e composições que instigam o pensamento, alvoroçam os sentimentos e aguçam nossa apreciação estética.
 

Citações

A Falsa Igualdade entre os Homens debaixo de toda a vida contemporânea encontra-se latente uma injustiça profunda e irritante: a falsa suposição da igualdade real entre os homens. Cada passo que damos entre eles mostra-nos tão evidentemente o contrário que cada caso é um tropeção doloroso.

Ortega y Gasset

"Não podes ensinar o caranguejo a caminhar para frente."

Aristófanes

“É possível que a religião da solidão seja de certa maneira superior à religião social e formalizada. O que é certo é que ela apareceu mais tarde no decurso da evolução. Além disso, os fundadores das religiões e seitas historicamente mais importantes têm sido todos, com exceção de Confúcio, solitários. Talvez seja verdade dizer-se que, quanto mais poderosa e original for uma mente, mais ela se inclinará para a religião da solidão, e menos ela será atraída no sentido da religião social ou impressionada pelas suas práticas. Pela sua própria superioridade a religião da solidão está condenada a ser a religião das minorias. Para a grande maioria dos homens e das mulheres a religião ainda significa, o que sempre significou, religião social formalizada, um assunto de rituais, observâncias mecânicas, emoção das massas. Perguntem a qualquer dessas pessoas o que é a verdadeira essência da religião, e eles responderão que ela consiste na devida observância de certas formalidades, na repetição de certas frases, na reunião em certos tempos e em certos lugares, da realização por meios apropriados de emoções comunais”.

Aldous Huxley

"Só tem convicções aquele que não aprofundou nada."

E. Cioran


"Família, tu és a morada de todos os vícios da sociedade; tu és a casa de repouso das mulheres que amam as suas asas, a prisão do pai de família e o inferno das crianças."

August Strindberg

“A inveja é a sombra obrigatória do gênio e da glória, e os invejosos não passam. de forma odiosa, de admiradores rebeldes e testemunhas involuntárias. Não custa muito perdoar-lhes, quando existe o direito de me comprazer e desprezá-los. Posso mesmo estar-lhes, com frequência, gratos pelo fato de o veneno da inveja ser, para os indolentes, um vinho generoso que confere novo vigor para novas obras e novas conquistas. A melhor vingança contra aqueles que me pretendem rebaixar consiste em ensaiar um voo para um cume mais elevado. E talvez não subisse tanto sem o impulso de quem me queria por terra. O indivíduo verdadeiramente sagaz faz mais: serve-se da própria difamação para retocar melhor o seu retrato e suprimir as sombras que lhe afetam a luz. O invejoso torna-se, sem querer, o colaborador da sua perfeição”.

Giovanni Papini

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Contemporâneas




Alguns cientistas políticos se equivocam ao definir, no Brasil, corrupção como sinônimo de falta de educação. Alguns afirmam que a corrupção está no DNA do brasileiro, uma vez que é comum em nosso país presenciarmos alguém jogando lixo no chão, furando fila, estacionando em lugar proibido, etc. Corrupção, em seu sentido mais demoníaco, está atrelada ao abuso de poder, suborno, roubo, extorsão e troca de favores a partir de funções políticas públicas, além do desvio de verbas destinadas ao interesse coletivo que acabam no bolso de alguns poucos particulares. Os professores Carraro, Fochezzato e Hillbrecht – no artigo O Impacto da Corrupção sobre o Crescimento Econômico do Brasil -  reconhecem que a corrupção, na esfera política, mina as riquezas de um país e, numa análise em relação ao Brasil de 94, afirmam que “uma elevação dos gastos do governo em 20% em 1994, geraria uma maior atividade de corrupção que, em 1998, seria responsável por aproximadamente R$ 60 bilhões de reais. Em termos per capita, este resultado representaria um custo de aproximadamente R$ 357,00 por brasileiro/ano. Este valor pode e deve ser considerado como um novo imposto incidente sobre a população brasileira”.  Em 2010, a FIESP indicou que os desvios de corrupção no Brasil chegam a R$ 84, 5 bilhões por ano, o que significa algo em torno de 2,3% do PIB nacional – o equivalente ao PIB da Bolívia. Em termos de desigualdade social, somos o 10º colocado no ranking do PNUD. Esses dados parecem indicar a discrepância entre aqueles que realmente podem ser corruptos e os brasileiros que são mal educados. A distribuição de renda e o estado de pobreza que a mesma gera conduzem não apenas à corrupção eleitoral e toda sua estrutural infernal, mas também indicam a estrutura mesma em que a corrupção pode se desenvolver. Numa pseudodemocracia como a nossa, é um equívoco imperdoável comparar brasileiros sem educação com corruptos expertos que sabem usar a máquina a seu favor. A corrupção não está no DNA do brasileiro, mas sim na formação histórico-política de nosso país e nas estruturas vigentes que só funcionam à base de um único combustível: mais corrupção.

Contemporâneas I



Ultimamente me peguei com o seguinte questionamento: para que serve o Facebook mesmo? Fala-se muito em revolução da informação e a liberdade de expressão e blá, blá, blá, blá. O que presencio ultimamente no Facebook são quatro tipos de comportamentos que se repetem ad infinitum: bandas, escritores (olha eu aí) e artistas que divulgam seus trabalhos num tom quase de desespero (“Amem minha obra, por favor!”); 2. Tentativas de flertes; 3. Piadas e mais piadas (são, de fato, infindáveis) e 4. Pessoas sem noção alguma que ficam postando as coisas mais esdrúxulas possíveis (“Fui almoçar”, “Estou de ressaca”, “Ninguém me ama”, “Sou feliz”, etc. - Quem, em sã consciência, quer saber disso?). Foi inevitável: fiquei muito intrigado com o sucesso descomunal do senhor Mark Zuckerberg. Pós-modernidade do vazio.

Contemporâneas II



Não sei se a frase é do ator Carlos Alberto Pereio – como indicou meu amigo Jamerson Kemps – mas cada vez me estarrece mais a possibilidade de que a expressão “a burrice é invencível” seja, de fato, uma realidade incontrovertível.  Já são 20 anos lecionando – idiomas, Filosofia e Arte – e nunca me deparei com um tempo em que se admite abertamente, e quase com um orgulho brilhando nos olhos, que se é ignorante. O professor Sérgio Barreto diz sempre para seus alunos: “Se vocês querem ainda permanecer no mar da ignorância em que estão mergulhados, o problema é de vocês”. Creio que o problema é do Brasil como um todo. O MEC e as secretarias de educação trabalham apenas com o intuito de manter índices visíveis para o mundo exterior e conseguir investimentos para nosso país. Mas a educação, em seu caráter mais essencial e fundamental, é quase inexistente por aqui. Mesmo as escolas particulares e as públicas de referências ainda são canhestras na tarefa de preparar cidadãos com consciência política, pensamento crítico e visão estrutural da realidade. Somos educados para a vida profissional e nada mais. Na esfera das escolas públicas o absurdo ainda é maior. Já alfabetizei diversas crianças e adolescentes que estavam entre a antiga 8ª série e o 3º ano e que nem sabiam ler. Um adolescente que termina o ensino médio sem saber ler já dá o que pensar. O SINTEPE criticou de maneira dura a empolgação com que a secretária de educação de PE tratou o  Índice de Desenvolvimento da Educação.De fato, os números indicados se referiam apenas às escolas de referência no Estado, algo em torno de 5,4% do total da rede. E o restante? Faz-me rir. :)

Contemporâneas III



Kant afirmou que Hume o havia despertado de seu sono dogmático. Creio que Nietzsche realizou a mesma tarefa em relação ao meu pensamento. Quando começamos a entender o caráter moral que há por trás do dizer científico e religioso, parece inegável que nossa mente sente-se liberta de uma corrente pesadíssima, uma vez que esses dois dizeres trazem consigo um conceito ainda mais pesado, a verdade. A diferença é que o dizer científico não se pauta pelo medo, algo tão presente no dizer religioso. Contudo, a partir da compreensão do lugar do sagrado em Heidegger, pude compreender como mesmo a esfera da mística contém muita coisa mítica. A mitologia, algo que creio que nunca nos abandonará, ganha na mística contornos sutis de verdade através de outra palavra ainda mais pesada, revelação. A experiência imediata é algo ambíguo em si mesmo, já que carece de evidência, demonstração e validade quando o assunto é o traço fundamental da linguagem, a comunicação. Não é de se estranhar que a  mística lance mãos de termos como incognoscível, negatividade, consciência apofática, vazio, nadificação, Nirvana, unidade, etc. Tais expressões podem ser traduzidas pela seguinte proposição: “De fato, não sei do que estou falando, mas acredito que deva ser assim; ou melhor, quero que seja assim”. Nunca devemos nos esquecer: ao lado do medo está o apego e suas dúvidas.

Contemporâneas IV



O Rock in Rio 2011 me provou duas coisas: 1. O metal atual quase que se resume ao som de guitarras que mais se parecem com berimbaus. A estrutura das composições beira o ridículo e é preciso, então, cobrir tanta besteira com baterias e tambores monstruosos, performances apoteóticas (chego a pensar que tudo, hoje em dia, resume-se apenas ao sentido da visão), apelos gritantes ao senso mais comum possível e pouca criatividade em termos de elaboração dos arranjos (parece que campo harmônico e composição não fazem mais parte desse universo). O metal padece de um problema grave: a repetição. As bandas se parecem demais entre si e seus álbuns são uma coletânea de músicas idênticas. Os músicos se esmeram tanto na apresentação que parecem esquecer a composição em si que é o fundamental na arte a que se dedicam, a música. Sepultura e Slipknot deveriam tocar na África (com todo o respeito que esse continente maravilhoso merece, já que de lá saíram civilizações como o Egito, Marrocos, os Benin, etc.) devido ao caráter percurssivo de suas músicas: tambor, tambor, tambor, tambor e guitarra berimbau (mi-mi-mi-mi-sol-mi!); 2. A música pop se alimenta tanto da imagem que acredito que a era do videoclipe está transformando a música – e isso inclui o referido metal -numa arte performática visual e não mais na arte dedicada ao sentido da audição em sua essência mais “abstrata”. Creio que a indústria fonográfica descobriu o x do problema: em vez de religião e templos, damos “música” e shows. A atitude religiosa dos fãs é uma atitude muito próxima do pensamento evangélico brasileiro atual: beira o fanatismo. Minha geração, que presenciou o Rock in Rio de 85 – sem Claúdia Leite ou Ivete Sangalo – e teve a oportunidade de escutar bandas como Iron Maiden, Judas Priest, AC/DC, Queen, Scorpions, Whitesnake e Yes, chegou a acreditar que o futuro seria promissor como aquela edição, ou seja, repleta de diversidade. Grande engano!