terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Comentários Cotidianos


Atitude mental e Síndrome do Pânico.


Atitude mental é uma das coisas mais importantes na vida. Fundamentalmente, ela pode decidir pela felicidade ou não de uma pessoa, por seu sucesso ou insucesso, por sua tranquilidade ou intranquilidade. Trata-se de uma questão de aprendizado, de prática e decisão pessoal. Sei muito bem do que estou falando. Tive minha dose cavalar de estada no inferno: “Tomei uma talagada de veneno... É o inferno, a pena eterna!”. Esta pena ou estada se traduziu na minha vida por uma semana em 2006 sofrendo de baixa serotonina no corpo – serotonina é um neurotransmissor que possibilita, entre outras coisas, a ideia de unidade do eu e de bem-estar. O conjunto de sintomas desta baixa é chamado de Síndrome do Pânico – doença prima do Transtorno de Ansiedade, Depressão e Bipolaridade, entre outras.

Só mesmo quem passou ou passa por algo parecido pode entender do que estou falando: há um pânico sorrateiro nas coisas, um medo absurdo e sem fundamento que espreita a alma e parece querer devorar o indivíduo. A pessoa alucina que está morrendo, seja do coração ou de uma AVC. Creio que a aproximação desse medo era o que Ian Curtis cantava em uma de suas letras, Digital: “Feel it closing in, the fear of whom I call, every time I call, Day in, Day out”. Ou seja: “Sinto-o se aproximando, o medo que eu chamo, toda vez que eu chamo, dia sim, dia não”.

Inicialmente, uma pessoa acometida pela Síndrome do Pânico fica sem entender o que está se passando com seu corpo e sua mente. Eu estava num congresso internacional de Metafísica na UFRN – novembro de 2006. Fiz minha comunicação e um medo descomunal se instalou. No Recife, procurei ajuda médica. Dr. Antônio Augusto – hoje meu amigo – na hora disse que eu estava com Síndrome do Pânico. O problema é que diagnosticar uma doença psicossomática não é simples: há diversas causas, diversos sintomas. A medicina ainda não sabe as causas da doença. Só sei que ele me disse: “Olhe, há, basicamente, três tipos de pessoas que tem Síndrome do Pânico: as que terão uma crise apenas uma vez na vida toda, aquelas que terão crises esporádicas e os pacientes crônicos”. Não me fiz de rogado e disse: “Pode me colocar no primeiro grupo”. Talvez, muito possivelmente, ele tenha se rido de minha arrogância diante de uma situação tão miserável.

Seja como for, naquele momento de desespero eu estava, apesar de tudo, decretando meu destino a partir de uma atitude mental positiva. Se for verdade que a própria verdade liberta – ou o conhecimento, como queiram – sai do consultório disposto a conhecer mais do mal que me acossava. Comprei os remédios indicados – um ansiolítico e um antidepressivo – e comecei minhas pesquisas. Descobri que não há consenso sobre a causa. Os pesquisadores indicam diversas: má alimentação, estresse, falta de exercício, disparos psicológicos, falta de triptofano no corpo, etc.

Minha atitude mental foi trabalhar para minha cura. 1º Tomar os remédios de modo correto. 2º Comecei a correr 3 vezes por semana, já que a corrida produz diversos hormônios no corpo que conduzem à sensação de bem-estar. 2. Procurei um acupunturista para me tratar – segundo Paulo Candêa, o acupunturista que me tratou e que depois viraria meu sensei de Aikido, a medicina chinesa e japonesa entende que o pânico é causado pelo mau funcionamento da vesícula e do baço (interessante notar que os pontos destes órgãos eram os únicos que doíam durante as aplicações das agulhas). 3. Acrescentei alimentos ricos em triptofano à minha alimentação. O triptofano aumenta a produção de serotonina no corpo. São alimentos como aveia, banana, castanha e salmão. 4. Certos conhecimentos sobre respiração e relaxamento que aprendi na tradição rosacruz e no Yoga me ajudaram a relaxar no dia a dia e manter minha mente focada na cura. 5. Decretava todo dia que ficaria curado e que jamais teria uma crise daquelas novamente. 6. A prática de uma arte marcial – no caso, o Aikido – funcionava não apenas como exercício físico, mas como fortalecimento de minha autoconfiança e 7. Decidi tirar de minha vida tudo o que ma fazia mal e me causava estresse (uma das coisas mais importantes foi me livrar de meu antigo emprego como professor de idiomas na escola Transworld – um verdadeiro inferno na terra).

Creio que tudo o que decidi para me manter saudável partiu, inicialmente, de uma atitude mental positiva e decidida. Não sou médico e jamais poderei prescrever a cura para seja lá o que for para ninguém, mas sei apenas que cotidianamente vejo pessoas que sofrem destas doenças e que por uma atitude mental fraca, assim creio, não conseguem se curar. Em janeiro de 2007, quando fui visitar novamente Augusto, ele ficou estarrecido com meu estado de saúde: eu simplesmente não parecia que tinha sido acometido pela Síndrome de Pânico. Um ou dois meses depois, quando contava aos meus amigos o que eu tinha passado, eles pensavam que eu estava brincando, já que a maioria das pessoas fica devastada quando tem uma doença dessas.

Oito meses depois, eu mesmo abandonei os medicamentos e segui minha vida liberto desta desgraça. Mantenho uma vida completamente normal –sem restrição alguma - e desde então nunca mais tive qualquer indício do pânico. E, para bem da verdade, já decretei que nunca mais terei outra crise. Mantenho os exercícios e a boa alimentação e, como sempre, uma atitude positiva diante da vida. Creio que o conhecimento, a decisão, a disciplina e, antes de tudo, uma atitude mental poderosa trouxeram-me a cura.

Saltei do inferno de Rimbaud para o verão de Walt Whitman: “Celebro a mim mesmo e canto a mim mesmo”. Depois da vitória, todo canto é mais fácil.

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Meus poemas

Overture




Sublime é toda queda

por trazer o desejo de reconciliação

Os ventos sublimes de tal profundidade

são ouvidos à estibordo do navio

“Estamos perdidos”, gritaram

um pânico imenso, uma acolhida

singram as águas deste mesmo mar

e o destino, o desconhecido

traz o sabor de sal e dúvida

que invade os ouvidos

as pernas e o coração de todos

roupas encharcadas, ondas revoltas

compõem a paisagem estonteante

e são tantos náufragos,

sibilantes sereias de perdição

torres infernais

uma morte sempre presente

que a voz mais altiva se cala

ante esta derrocada, a ingrata

Tome cuidado, ó filho meu

pois sublime é toda queda

e terrível toda reconciliação

- anjos esparsos

- demônios cruéis

afligem teus caminhos

nuvens de estanho e dor

reconciliar é toda morte

e toda vida essencial

Ai de ti, filho meu

cego que estás

em meio a tal tormenta

nas estantes bem compostas

daquilo que chamas tua vida

eriges fielmente o teu dia:

“Eis o sol, a terra, o riacho mais próprio

a luz e as trevas

ó floresta densa, negra como a noite

feroz como meu desespero

insalubre como minha insatisfação

Tua fúria é meu regaço

Tua sombra é inabitável

Tu, a terrível

Tu, a única” –

O navio eleva-se sobre esse mar enclausurado

forceja suas reviravoltas

seus silêncios mais sinistros

e permanece – não é nosso dever permanecer?

- não é nossa sina o caminhar eternamente?



Arroja mais um dia

Elabora teus sorrisos mais sinceros

Cumpre tuas lágrimas

e traz, de uma só vez,

o terrível, o assombroso desta queda até nós

“Estaremos preparados?”, inquire a sentinela

já tomada de todo terror e iluminação

Do cume daquela mesma torre

Daquele mesmo inferno

Daquele mesmo céu

eis que ouvimos, ó voz maravilhosa

ó sublime sonoridade

tu, minha alma,

tu, minha casa.

É um tempo de tragédias e soluções

iniqüidades e cumprimentos

sob este mesmo sol que tanto amamos

devoção de séculos e séculos

- séculos e séculos –

que enxugam nosso suor

nossa fadiga e sangue

Dar-te-ei minha vida, diz o mar

ele também, o terrível

e a bombordo, já sem esperanças

alguém grita

e é feliz a voz

e pura

e única

e lembramos algum dia esquecido

alguma doce fragrância perdida

a voz de nossa mãe

o sorriso de nossos irmãos

e o permanecer de nosso pai

Sim, alguém grita

e é como lugar algum o retorno

alguém grita e ouvimos

no silêncio mais denso, um cristal

que consagra aquele céu, aquele mar e morte

E gritar é como toda redenção

sublime ato do ser

conquista dessa mesma queda

E alguém grita: “Terra à vista!”.

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Bares do Recife


Nas grandes metrópoles, como é o caso do Recife, a lucidez ou a estupidez das pessoas é celebrada nos bares. Local em que as pessoas se reúnem não apenas para comer e beber, os bares possuem uma função quase catártica, um verdadeiro consultório de psicanálise público. São nos bares que as pessoas amam e odeiam, celebram e brigam, riem e choram.

O Recife é pródigo em bares. São diversos para os mais variados gostos e bolsos. Claro que todos eles possuem aspectos positivos e negativos – polaridade natural quando se trata de uma atividade humana. Vou me reportar a alguns que além de freqüentar com meus amigos – e parece que cada bar possui uma personalidade – ainda possuem a característica de permitir que encontremos as mais variadas figuras que perambulam de lá pra cá na busca de alguma aventura ou de um amor improvável.

Cidade boêmia por vocação, o Recife transita entre uma total indiferença com seus amantes – quero dizer cidadãos – e uma atenção bem vinda. Comentarei, hoje, sobre quatro bares: o Bar do Neno, a Picanha do Futuro, a Bodega de Véio e o Mercado da Boa Vista.

O Bar do Neno mantém as características típicas de um antigo boteco recifense. Os azulejos e a decoração assim o afirmam. Aqui encontramos um dos melhores chopp com colarinho da cidade. Além do mais, o bar possui um caldinho de feijão excelente. Para quem estiver mais disposto, o arroz com polvo – descobri isso graças a meu amigo Chico Borges – é uma excelente pedida. Nas terças, um grupo de amigos músicos se reúne para tocar chorinho e samba. Infelizmente, há certa desorganização no grupo e isso termina comprometendo o resultado final das execuções – diferentemente dos músicos de chorinho que se apresentam, por exemplo, no Armazém 153 no Tacaruna: nível de primeira.

Sempre fui muito bem atendido pelos garçons do Neno. Todos solícitos, extremamente atenciosos. Meu amigo Leonardo Neves vez ou outra reclama do atendimento. Até hoje, felizmente, só tenho elogios. A única queixa que tenho é o preço da cerveja em garrafa. Mesmo estando num bairro mais nobre da cidade – Parnamirim – nada neste mundo justifica uma cerveja ser 9 reais. No mais, nota 8 para o bar.

A Picanha do Futuro é do meu amigo Robertão. Conheço-o desde o bacharelado em Filosofia na Unicap. Robertão é de Floresta e prima pelo bom atendimento. Toda vez que vou lá, é uma festa. Extremamente bem recebido, ainda sou brindado com a presença de meu amigo que se senta comigo e, com meus outros amigos, passa horas conversando. Tanto o chopp quanto a cerveja estão sempre gelados e, caso contrário, basta reclamar que Robertão providencia uma gelada na hora. A picanha completa é um espetáculo. Carne sempre nova – Robertão sempre foi muito paranóico com a qualidade da comida e isso é um ponto a seu favor. Atualmente, ele contratou um chef alemão para servir comida alemã. Infelizmente, a qualidade da lingüiça e dos molhos ainda não justifica tal contratação. Para quem não é amigo de Robertão, recomendo uma visita. Seu sorriso esparso estará sempre pronto a um dos melhores atendimentos da cidade. Nota 8, também.

A Bodega de Véio é um caso raro de sucesso sem explicação. Talvez fosse preciso elaborar uma sociologia do sucesso dos bares para entender isso. Quem visitou a instalação de Marcelo Silveira no Espaço Correios talvez entenda um dos aspectos de sucesso da Bodega. Realmente, a Bodega é mesmo uma bodega. Vende de tudo: arroz, açúcar, bebidas, queijos, etc. E, ainda por cima, atende os clientes no balcão. O aspecto de bodega do interior é mantido: ainda tem um rádio antigo e a decoração é bem olindense. Apesar de ficar em Olinda, a Bodega entrou no circuito da cidade do Recife – já que o Recife se traduz por sua região metropolitana.

A cerveja, de início, é sempre gelada. Mas, lá pela quinta, começa a esquentar um pouco. A salada de bacalhau é mediana, já que é resfriada. O bom mesmo é a tábua de frios com um excelente pastrami.O problema da Bodega é que se bebe em pé, assim como nos famosos caldinhos da cidade que servem o tradicional Ele & Ela. O pior, mesmo, é o péssimo atendimento quando o próprio Véio, o dono do estabelecimento, não está por lá. A atendente parece eternamente menstruada e o cliente fica até mesmo acanhado de pedir alguma coisa, como se fosse uma obrigação infernal dela lhe atender.

Excetuando pela cerveja gelada de início e o fato de ficar em Olinda, ainda não entendi o motivo de tanto sucesso. Vai saber. Nota 4,5.

O Mercado da Boa Vista, por seu turno, é muito ambíguo. Depende, antes de tudo, de que bar você vai escolher para sentar e beber. Aconselho pesquisar qual a melhor comida regional – já que aqui encontramos um bom patinho e um bom sarapatel, além de uma bodega no início à direita do Mercado que serve um prato de frios de qualidade. Há a Petiscaria do Beto que, por trás, possui ligação com uma cachaçaria: ótima pedida para quem quer tomar uma cachaça de qualidade, ou seja, mineira ou paraibana. Tripinha frita e charque no feijão combinam com uma boa caipirinha ou com a tradicional cerveja gelada.

O Mercado é reduto dos intelectuais marginais do Recife, bem como dos universitários descolados. Um desfile das figuras mais extravagantes e insólitas. É, também, um ponto de referência à antiga boemia recifense, assim como o são os mercados da Madalena, Casa Amarela e Encruzilhada. No sábado pela manhã, caso você chegue cedo, é um ótimo lugar pra colocar a conversa em dia, comer bem e rever os amigos, além de encontrar um ou outro doido vagando por lá. Com sorte, a nota é 7.

Seguindo a sugestão de meu amigo Leonardo Neves, segue o link para o site Mosca na Sopa do Jornal do Commércio que trata da gastronomia na cidade. O link é:

http://jc.uol.com.br/canal/gastronomia/mosca-na-sopa/index.php

Para localizar os bares, basta visitar o link do Google Maps.

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Escritos dos Amigos

nuvens e tarde por Jairo Lima



na cave azul dos olhos [então] o vôo que arrebata e modula os seus próprios ventos

ulisses inane arranca as esferas dos olhos que oferece [então] ao abismo sangrento

na tardemundi o sol [então] lava o semblante em visgos

o mapa abraça o braseiro vivo para que a distância se deite sobre o leito fumegante até que

então a corda de aço dedilha um grito

as sereias sussuram telêmaco em acordes sombrios ante os olhos abertos de ulisses

[então] o metro expõe as suas vísceras arfantes como um legado esculpido em sangue nas presas de um cão enraivecido

um corte diagonal descerra em planos simétricos Afastados a p a u s a dilacerada entre gemidos

ulisses vem porque um presságio de naves já se faz amanhecido

vem em naves tecendo a cor do seu corpo em brilhos

[então] em pé, ulisses acorda vivo entre as nuvens da tarde.

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Artes Visuais

Sebastião Salgado



A formação acadêmica de Sebastião Salgado é em economia. No entanto, esse brasileiro ficou conhecido mundialmente por seu talento como fotógrafo. Um dos seus temas favoritos, as pessoas excluídas, traduz sua ânsia por uma sociedade mais justa. Seu olhar apurado sobre o sofrimento alheio é extremamente sutil e parece mapear a alma humana em sua solidão mais brutal e em seu sofrimento mais radical.

Refugiados em campos de concentração, imigrantes famintos, tribos quase à beira da inanição, pessoas tomadas por doenças graves ou marcadas definitivamente pelo poder devastador das guerras compõem um quadro trágico e, ao mesmo tempo, melancólico da humanidade.

Salgado também está preocupado com o meio ambiente e isso se faz sentir nas suas obras voltadas para o assunto, mas sem derrotismo. Ao contrário, suas fotos sobre a natureza possuem quase sempre algo de grandioso, de sublime.

Dizem que o olhar é o espelho da alma. Salgado leva ao extremo esse ditado. Os olhos de seus personagens são profundos, transmitem algo que vai além das palavras. Ficam ali, registrando uma dor incomensurável ou uma solidão aflitiva que, de certo modo, incomoda a qualquer um.

De fato, a ideia do sublime na natureza ou a alma que se reflete nos olhos são temas recorrentes em sua obra, mas que devido à grandiosidade e diversidade da natureza e do ser humano, parecem inesgotáveis.

A arte, neste caso, funciona como um aviso e como construtora de memória. Registrar o momento exato na imensidão do tempo cronológico – conquistar a eternidade no movimento eterno em si mesmo do tempo – requer um olhar apurado e sensível. Nesta arte, sem dúvida, Sebastião Salgado nos mostrou que é um mestre.

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Filmes

Comer, beber e viver de Ang Lee.

Comer, beber e viver, do diretor Ang Lee, possui um olhar muito interessante sobre o poder da gastronomia na vida das pessoas. Entretanto, esse poder não é absoluto: há um direcionamento para a ambigüidade, para o confronto e para a reconciliação através da culinária.

O filme narra a estória do senhor Chu, um grande cozinheiro chinês e seu relacionamento com suas três filhas. O senhor Chu possui duas grandes paixões em sua vida: cozinhar e reunir suas filhas num almoço dominical. Nestes almoços, ele demonstra toda a sua destreza como chef de cozinha, alinhando um conhecimento descomunal a uma sensibilidade artística imensa para fazer pratos sempre originais e que parecem deliciosos.

Ang Lee privilegia essa paixão pela culinária no filme. Há uma tomada em que vemos o interior da cozinha do senhor Chu: uma parede repleta dos mais diversos instrumentos, um imenso fogão, diversas panelas e diversas especiarias e produtos. Uma luz bem composta dá um tom quase bucólico à cozinha, o que possibilita pensarmos nessa relação entre a natureza – os alimentos – e a cultura, ou seja, o poder do homem de transformar os alimentos através do conhecimento.

Noutra cena, um dos principais hotéis da cidade tem um congresso onde será servida uma sopa de barbatana de tubarão, o prato principal. O problema é que a sopa está quase estragada e o sabor está terrível. Convocam às pressas o mestre Chu que analisa o prato e indica a solução. Quando o prato é servido e todos se deliciam com o mesmo, a cozinha em peso aplaude a destreza do senhor Chu.

Mas nem tudo é um mar de rosas no filme. O grande problema é a relação do senhor Chu com suas filhas. A mais velha é uma professora torturada por um amor perdido, outra é executiva e não vê a hora de sair de casa e ter sua própria vida e a última odeia o emprego que tem numa fast-food, convivendo com o conflito de ser a amante do namorado de sua melhor amiga.

Os conflitos entre esse pai dedicado e as filhas problemáticas é o que dá o tom do filme. Lee participa também do roteiro, mas é sua paixão pela culinária que transforma esse filme em algo especial, já que a comida pontua as crises de relacionamento. Para quem é amante da boa comida e dos mistérios de sua produção, é imperdível. Bon apetit!

O link para baixar o filme no Megaupload:

http://www.filestube.com/IV5e4QVkMWajhArxRFUqF/Comer-beber-amar-Ang-Lee-1994.html

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Traduções

Carmina Burana


Na Taberna – Barítono



Queimando por dentro

Com ira violenta

Com amargura

Falo para meu coração criado da matéria

Da cinza dos elementos,

Sou como a folha

Que é levada pelos ventos.



Se este é o caminho

do homem sábio

para erigir

fundações sobre as pedras,

eu sou um tolo, como

uma corrente enchendo

e que em seu curso

nunca muda.



Estou seguindo

Como um barco sem timoneiro

E nos caminhos do ar,

Como a luz, um pássaro suspenso;

Correntes não podem me prender

Chaves não podem me aprisionar

Olho para as pessoas como eu

E me junto aos miseráveis.



O peso de meu coração

É como um fardo para mim;

É um prazer brincar

E é mais doce do que o favo de mel;

O que Vênus comanda

É uma doce tarefa

Ela nunca habita

Num coração preguiçoso.



Sigo o caminho livre

Como na juventude

Dou a mim mesmo o vício

Esquecido da virtude

Anseio mais os prazeres da carne

Do que a salvação

Minha alma está morta

Por isso procuro pela carne.

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Escritos Filosóficos

Parmênides de Platão.



Platão desenvolveu seu debate sobre o Uno e o Múltiplo especialmente num diálogo: Parmênides. Neste diálogo, Platão coloca o próprio Parmênides e seu discípulo Zenão para discutirem com Sócrates sobre a distinção entre o que podemos entender por Unidade e Multiplicidade. Para iniciarmos uma compreensão deste tema em Platão, se faz necessário que remontemos à sua célebre idéia da Linha Quadripartida. Este tema aparece no Livro VI da República. Ali Platão declara que existe o bem em si, o belo em si e que para cada coisa – na multiplicidade – existe uma idéia em si. Assim, a verdade que se derrama sobre os objetos do conhecimento e proporciona ao indivíduo conhecer é a idéia do bem.

Nesta base, Sócrates diz a Glauco que tome uma linha cortada em dois segmentos iguais. Depois corte cada segmento para obtermos quatro segmentos idênticos. Na parte mais baixa da linha – colocada de pé – teremos as sombras ou os reflexos ou imagens dos objetos sensíveis. No segundo segmento teremos corresponde aos objetos destas imagens. No terceiro temos as entidades matemáticas e por fim, no quarto segmento, teremos a idéia do bem, o em si. Para cada segmento há um tipo de conhecimento correspondente: 1º eikasia ou imaginação; 2º pistis ou crença; 3º dianoia ou conhecimento e 4º noesis ou intelecção. A questão que se impõe é: cabe ao homem conhecer a idéia em si, a Unidade em si mesma? É evidente que conhecemos as coisas na sua multiplicidade. Mas e quanto à Unidade? Há acesso a tal reino? Trata-se de uma experiência ou de uma trans-experiência? O conhecimento está sempre atrelado a uma linguagem? Se sim, como podemos saber que temos sonos sem sonhos e que experienciamos apenas nada?

Para Platão, as idéias, enquanto unidades inteligíveis, são imutáveis. A mutabilidade acontece apenas nas coisas sensíveis. É preciso, portanto, que haja uma participação entre aquilo que é imutável e as coisas mutáveis. O problema, como afirma Maura Iglesias e Fernando Rodrigues, é que “[...] essa questão em que consiste a relação do sensível com o inteligível, jamais foi plenamente resolvida por Platão, provavelmente por ser algo impossível de resolver” .

Neste diálogo – o Parmênides – a questão do ser, posta pelo filósofo eleata, se transforma na questão do um. Apesar de muitos historiadores colocarem em oposição brutal o pensamento de Parmênides ao de Heráclito, o segundo também afirmou que Tudo é Um. Logo na abertura do diálogo, Zenão – que também nasceu em Eléia e era discípulo e amigo de Parmênides – afirma que se os seres são múltiplos, “[...] então é preciso que eles sejam tanto semelhantes quanto dessemelhantes, mas que isso é impossível, pois nem as coisas dessemelhantes podem ser semelhantes nem as semelhantes, dessemelhantes” . Zenão afirma isto por querer dizer que o Todo, o ser, é uno. Sócrates pergunta, então, se Zenão não julga haver uma certa forma em si: daí haver um em si da semelhança e um em si da dessemelhança.Para Sócrates, não há problema em demonstrarmos que somos um e múltiplos. Ele afirma que a semelhança mesma é algo separada da semelhança sensível, da mesma forma que temos também o uno e as múltiplas coisas.

O questionamento de Parmênides é o seguinte: se as formas são divisíveis, e as coisas que delas participam participariam de uma de suas partes, seria plausível admitir que a forma, uma, em verdade, se divide e mesmo assim permanece uma? Sócrates não admite esta tese que em si mesma parece ser contraditória. Aqui Parmênides inicia o célebre argumento do “terceiro homem”. Eis o argumento:

“Creio que tu crês que cada forma é uma pelo seguinte> quando algumas coisas, múltiplas, te parecem ser grandes, talvez te pareça, a ti, que as olhas todas, haver uma certa idéia uma e a mesma em todas; donde acreditas o grande ser um.

Dizes a verdade, disse ele.

Mas... e quanto ao grande mesmo e às outras coisas grandes? Se olhares da mesma maneira, com a alma, para todos esses, não aparecerá, de novo, um grande, um, em virtude do qual é necessário todas aquelas coisas aparecerem como grandes?

Parece que sim.

Logo, uma outra forma da grandeza aparecerá, surgindo ao lado da grandeza mesma e das coisas que desta participam. E, sobre todas essas, de novo uma outra, de modo a, em virtude dela, todas essas parecerem grandes. E não mais será uma cada uma das tuas formas, mas ilimitadas em quantidade” .

Sócrates responde que cada uma dessas formas é um pensamento e que não lhe cabe surgir em nenhum outro lugar a não ser nas almas. O problema é que o pensamento é sempre pensamento de algo, diz Parmênides. E retruca: “”Não é de algo um, que esse pensamento pensa como estando sobre um todo, que é uma idéia uma?” .

O argumento do terceiro homem significa que “não é possível algo ser semelhante à forma, nem a forma a outra coisa. Senão, ao lado da forma, sempre aparecerá outra forma” . Tomemos o exemplo de Aristóteles: temos a idéia do Homem-Vivente-em-si e o Homem Vivente que anda, fala, sofre e ri. Para que este Homem de fato existisse, seria necessário que houvesse uma junção entre a idéia em si (Homem-Vivente-em-si) e o Homem-Vivente sensível. Assim, se há uma forma (uma idéia em si) de tudo o que é, seria necessário que houvesse uma idéia em si desta junção, aí teríamos uma nova idéia em si: a idéia em si do Homem-Vivente-em-si-e-do-Homem-Vivente-sensível. E assim ad infinitum. Não teríamos uma base que nos possibilitasse, portanto, pensar o fundamento daquilo que é.

Para resolver esta aporia, o diálogo de Platão se desdobra em tese e antítese sobre as hipóteses que serão levantadas por Parmênides. De início, parece que “é-nos incognoscível tanto o belo mesmo, o que realmente é, como o bem e todas as coisas que concebemos como sendo idéias mesmas” . Diante desta impossibilidade, Parmênides aceita fazer uma demonstração sobre o exercício de tirar conseqüências de hipóteses. A 1ª hipótese é: Se é um e tem como conseqüência o fato de que ele não é nem todo nem partes. O um , sendo, não poderá ter fim nem limite e nem poderia ser coisas múltiplas. Não poderia ser o todo, já que este é composto de partes e nem poderia ser as partes mesmas. Não tendo fim e limite, não poderia ser nem reto e nem circular, já que redondo é aquilo cujas extremidades, em todos os pontos, distam igualmente do meio e reto aquilo cujo meio “esteja fazendo obstáculo às duas extremidades” .

O um, então, também não estaria nem em si mesmo nem em outra coisa, logo não estaria no espaço e também não estaria nem em repouso e nem em movimento. Primeiro, é impossível algo estar em algo que não o envolva - e que uma coisa seria o envolvente e o outro o envolvido. Se assim fosse, o um seria agente e paciente, logo não seria um e sim dois. Da mesma forma, não poderia estar em movimento, já que o movimento se dá por alteração ou deslocação, o que não caberia ao um; por outro lado, não pode estar em repouso, pois como o um não pode estar nem em si mesmo e nem em outra coisa, o um jamais estaria no mesmo lugar ou estado. Tudo isto só é possível de pensar em relação aquilo que possui partes.

Do mesmo modo, o um nem é o mesmo e nem o diferente. “[...] se o um e o mesmo de maneira alguma diferem, toda vez que algo um, o mesmo. – Perfeitamente. – Logo, se o um for o mesmo que si mesmo, não será um consigo mesmo, e, assim, sendo um, não será um” .

Ora, o mesmo e o diferente nos indicam que o um também não seria o semelhante, nem tampouco o dessemelhante. Assim, também não seria nem igual e nem desigual, principalmente porque o um não é uma unidade de medida. A unidade matemática de medida parece ser derivada deste um primordial.

O um também não está no tempo. O tempo cronológico sempre nos diz de um anterior e um posterior, de um jovem e um velho e isto é sempre alteração. Quando algo está no tempo, é necessário que sua idade mude – e isto não caberia ao um.

Estas conquistas iniciais obrigam Parmênides a afirmar que sobre o um não há ciência, enunciação, percepção ou conhecimento. O que se falou até agora do um possível caráter puramente negativo. Para operar de modo dialético, Platão deverá agora seguir o caminho positivo de sua argumentação. A 2ª hipótese agora opera no sentido de tomar como base o um é e derivar suas conseqüências de modo positivo. Primeiro teremos que ele, o um, é um todo e é infinitas partes. O argumento é interessante: “ Se o é diz do um que é, e o um do que é um, e se a essência e o um não são o mesmo mas sim pertencem ao mesmo, àquilo que hipotetizamos, isto é, ao um que é, não será necessário que ele seja por um lado o todo um-que-é, e que, por outro lado, venham a ser partes dele tanto o um, quanto o ser? – É necessário. – Então, cada uma dessas duas partes deve ser chamada parte do todo? –Do todo. – Logo, aquilo que for um tanto é um todo quanto tem partes. - Perfeitamente. – E então? Será que cada uma dessas duas partes do um que é, o um e o ser, está privada

O um e a essência, nesta estância, são diferentes em virtude do diferente e do outro . Mas quando digo essência e um digo, em verdade, ambos. Como o número se revela ilimitado e participante da essência, é natural que pensemos que se um é, “é necessário que também haja número” . O ser e o um estão em todas as coisas, e aqui nos remetemos a Heráclito: Tudo é Um.

É nesta direção que a dialética, agora positiva, conquista a antítese: o um implica uma infinidade tanto de ser quanto de um (144); é reto e circular (144 d); está no espaço (145 b, c); está em movimento e repouso (145 e); é semelhante e dessemelhante (147 c); é contíguo e não contíguo (148 d); é igual e desigual (149 d, e); está no tempo (151 e), logo dele há ciência, opinião e percepção, pois “[...] o um era, e é, e será, e se tornava, e se torna, e se tornará [...] E ele pode ter algo e pode haver algo dele; tanto havia, quanto há, e haverá” .

A 3ª hipótese platônica afirma que o um é e não é; ele muda. Como algo não pode participar e não participar ao mesmo tempo de outro, o um, na participação, participa ou não participa no tempo. Inicialmente, devemos entender que para Platão o instante significa o ponto a partir do qual a coisa muda, pois não é a partir do repouso que a coisa muda e nem a partir do movimento. É na natureza do instante – que se situa entre o movimento e o repouso e que está em tempo nenhum – que há mudança.Logo, partir do um para o múltiplo, quanto do múltiplo para o um teremos que este mesmo um não é as múltiplas coisas, “nem está se separando, nem se reunindo” .

As outras hipóteses seguem direções diversas. A 4ª afirma que o um é e que as coisas são partes de um todo orgânico e recebem, ilimitadas em sua essência, um limite recíproco. A 5ª hipótese afirma novamente que o um é e que as coisas não são partes dele e não recebem nenhum atributo. A 6ª hipótese afirma que o um não é, mas é objeto de pensamento. Questiona-se aqui se temos conhecimento do ser e do não-ser. Se dissermos que o um não é, devemos ter uma ciência deste não-ser, pois não poderia ser conhecido o conteúdo desta afirmação. Para haver conteúdo cognoscível nesta proposição, o um terá que possuir semelhança consigo mesmo e aí parece que relativizamos o não-ser, já que o não-ser absoluto não pode ser motivo de enunciação alguma. É assim que Platão poderá dizer que “[...] segundo parece, o um que não é é. Pois se ele não for algo que não é, mas se, de certa maneira, largar o ser por conta do seu não ser, imediatamente será algo que é” .

A 7ª hipótese afirma que o um não é e que ele nem mesmo é objeto de pensamento. E que não encerra grandes dificuldades. A 8ª hipótese afirma que o um não é e que as coisas têm pelo menos a essência de sua alteridade recíproca. Se o um não é, as outras coisas não são diferentes em relação ao um, mas sim em relação entre si. Deve-se determinar, portanto, onde se projeta a aparência de todas as determinações, já que é “[...] como quantidades que elas são outras em suas relações mútuas” , pois não poderiam ser como unidades, já que, nesta hipótese, o um não é. O problema é que na multiplicidade delas, as coisas, deverá haver número, aparecendo cada uma como uma.

A 9ª e última hipótese afirma que o um não é e que as outras coisas não têm determinação, nem o ser nem aparência. As coisas não poderão nem ser o um nem o múltiplo, já que este “envolveria” o um como fundamento Logo, se as coisas não são um, também não serão múltiplas, logo todas juntas “não são coisa nenhuma” . Sem um, não poderíamos ter opinião sobre as coisas múltiplas.

Neste longo percurso dialético encetado por Platão chega-se a uma conclusão plausível: “[...] se um não é, coisa nenhuma é. – Absolutamente sim. – Sendo assim, fique dito tanto isso quanto que, segundo parece, quer um seja, quer não seja, tanto ele mesmo quanto as outras coisas, tanto em relação a si mesmos quanto em relação uns aos outros, todos totalmente tanto são quanto não são, e tanto parecem quanto não parecem ser. – Absolutamente verdade” .


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Citações

Um pensamento é tanto mais pensamento quanto mais radicalmente se gesta e se faz gesto, quanto mais chega à radix, à raiz de tudo aquilo que é. A pergunta do pensamento permanece sendo sempre a pergunta pelos fundamentos primeiros e últimos. Por quê? Porque o fato de que algo é e o que algo é, porque o vigor da essência foi de há muito definido como fundamento. Se toda essência tem o caráter de fundamento, a busca da essência apresenta-se como uma fundamentação e uma fundação do fundamento. O pensamento que pensa a essência nesse sentido é em seu fundamento um questionar. No final de uma conferência intitulada A questão da técnica, pronunciada há algum tempo, diz-se que "questionar é a piedade do pensamento". Piedade tem aqui o antigo sentido de harmonia e sintonia articuladoras com aquilo que o pensamento tem de pensar. Uma das experiências estimulantes do pensamento consiste em que ele não consegue visualizar com amplitude suficiente as visões alcançadas e assim corresponder-lhes de forma adequada. Foi o que aconteceu com a frase mencionada, questionar é a piedade do pensamento. Não obstante concluir-se com essa frase, a conferência citada já se movimenta na conjuntura de que o gesto próprio do pensamento não pode ser questionar mas sim escutar o consentimento daquilo que todo questionar questiona ao interrogar sobre a essência.

Martin Heidegger

In: A caminho da linguagem.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Comentários Cotidianos


Considerações sobre o Karma

Na obra A Sabedoria Tradicional, Helena Blavatsky assim se refere à lei do Karma: “Nenhum feito, nem mesmo um pensamento pecaminoso, ficará sem punição; o pensamento será mais punido que o feito uma vez que este pode criar piores resultados que o próprio feito. Acreditamos numa lei infalível de Retribuição, chamada KARMA, que defende a si mesma numa concatenação natural de causas e resultados inevitáveis”. Para os teosofistas, essa lei implacável só é aplicada na pessoa encarnada e não na alma post mortem.

Esta compreensão teosófica possui raízes profundas na crença budista de que este mundo é muito ruim – a roda de samsara – e que devemos trabalhar através da moralidade, meditação e compreensão intuitiva para sair deste mundo sensível de sofrimento, libertando-nos do desejo que é, para o budismo, a fonte de todo sofrimento. O único ponto estranho é que os budistas escolheram o desejo por sair deste ciclo de renascimento – o que não deixa de ser um desejo – como a única fonte de felicidade. E isso somos obrigados a admitir mesmo lendo o Dhammapada e ouvindo as obrigações de não desejar nada em outra vida, buscando apenas dominar os sentidos e centrar-se completamente no Nirvana. Caso contrário – assim como o Karma negativo preconizado pelas religiões e ordens secretas – o discípulo atingirá o Niraya, ou seja, o mais infeliz dos estados da alma.

Já o Espiritismo, no Livro dos Espíritos, coloca que o objetivo da encarnação é uma imposição de Deus “com o fim de fazê-los (os espíritos) chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação”, e acrescenta: “O mau rico terá que pedir esmolas e se verá a braços com todas as privações oriundas da miséria; o orgulhoso, com todas as humilhações [...] todas as penas e tribulações da vida são expiações de faltas de outra existência”.

Platão, no último livro de sua República, relata o mito do solado Er, filho de Armênio, originário da Panfília que morrera numa batalha e, dez dias depois, quando recolheram seu cadáver, retornou dos mortos e contou o que viu: caminhou entre os mortos e viu juízes para julgar suas almas – umas eram puras, outras, não; e cada uma seguia o destino de acordo com suas ações na terra: se ações boas, destino bom; se ações más, um destino terrível. Seja como for, elas encarnavam na terra após beberem as águas do rio Ameles na planície do Lete. Se a alma bebesse muito, o esquecimento das vidas passadas seria maior do que aquela que houvesse bebido pouco, ou seja, há uma regra de merecimento moral por trás desta estrutura cosmológica.

Estas ideias antigas – sejam judaicas, orientais ou platônicas – estão presentes em diversas tradições com pequenas diferenças: rosacrucianismo, maçonaria, thelema, wicca, etc. São crenças e residem apenas no âmbito da religiosidade pessoal, já que não há, em absoluto, nenhuma evidência que possa afirmar que algo como a reencarnação seja fato. Mas não é isso ainda o que quero comentar. Quero comentar sobre a questão do Karma.

Só mesmo num âmbito religioso posso crer numa consciência superior similar a minha, só que com um poder muito maior de julgamento e memória. Se assim for – se cada ato moral é realmente julgado e punido ou recompensado – tudo o que fizemos desde criança deve entrar neste julgamento, bem como nossas atitudes mais recentes (Os egípcios simbolizavam esta ideia através do julgamento da alma com Maat e Anúbis presidindo a pesagem do coração e da alma da pessoa). O problema, evidente, é que raramente penso e levo a sério aquilo que cometi quando criança e, tampouco, penso em termos de recompensa ou castigo devido a tais atitudes.

Além do mais, se até mesmo o que pensamos e intencionamos possui tal categoria ontológica, então os resultados de nossas ações devem ser medidos por aquilo que causamos aos outros e a nós mesmos. Essa lei universal – que se natural, não poderia ser moral – deve ser presidida por algo ou alguém superior: uma entidade, juízes, almas evoluídas, uma consciência cósmica capaz de entender todas as nuances culturais das diversas morais do planeta ao longo da História ou um Deus julgador. Seja como for, a ação está atrelada, para ser julgada, na ideia de causa e efeito – e aqui somos obrigados a lembrar Hume e inferir que não é possível estabelecer onde começa uma causa e onde se principia o efeito. Causa sem efeito não pode ser causa e efeito sem causa não pode ser efeito – como lembra Arieh Kaplan comentando o Sepher Yetsirah.

Mesmo que falemos em diversas causas iniciando um único efeito, ainda assim não demarcamos nem ontológica e nem onticamente a área de cada uma. Parece que a subjetividade aqui – e apenas esta – delimita a esfera própria da causalidade, não sendo nada objetivamente verificado. Temos apenas uma série contínua de fenômenos, um mostrar-se eterno – entendendo-se bem a temporalidade existencial do homem, é claro – um jorrar constante daquilo que é e que, para fins didáticos e de ação, classificamos como início e fim.

E a questão do Karma se complica quando pensamos em exemplos concretos. Qualquer espírita, creio, dirá que Hitler deve estar sofrendo as piores privações que alguém já sofreu. O mais estranho é que, assim acredito (excetuando a I ª Guerra, é claro), creio que Hitler, pessoalmente, nunca matou ninguém. Suas ideias insanas e uma conjuntura social e histórica determinadas permitiram que tal sandice se propagasse na Europa e levasse às atrocidades da II ª Guerra e ao absurdo incontrovertível do Holocausto. Mas mesmo que possamos afirmar que o Karma neste caso seja coletivo, o que poderemos pensar, então,  do caso de Jesus? Ora, Hitler acreditava num mundo melhor com o Nazismo, assim como Jesus acreditava num mundo melhor com suas ideias. Jesus era pacifista, mas suas ideias conduziram a tantas aberrações, a tanta violência e intolerância que parece plausível afirmar que seu Karma deve ser muito parecido com o de Hitler.

Blavatsky, certa vez, teve a coragem de afirmar que tanto Buda quanto Jesus possuíam um mau Karma devido às suas ideias e o que elas proporcionaram ao mundo. No caso do Ocidente, tivemos as Cruzadas, a Idade Média, a Reforma, a Catequização dos índios e a intolerância e perseguição religiosas. Tudo em nome do amor que se transformou, de fato, em instrumento de dominação, tortura e extermínio.

Se o Karma é algo objetivo – para quem acredita religiosamente na reencarnação – então ainda estamos muito longe de entender com a devida clareza seus meandros e conseqüências. É interessante notar que quando acontece algo na vida de uma pessoa, a resposta mais fácil é sempre dizer que é o Karma. Mas sobre o quê mesmo estamos falando? Muitas vezes, o Karma serve como envenenamento mental, criando temores nas pessoas e isso, somos obrigados a dizer, está presente em todas as ordens, sem exceção: vejam o 9º grau Rosacruz, o Choronzon thelêmico, o Terceiro Grau Maçon, a lei de Retribuição celta, etc, e entenderão do que estou falando.

Para mim, se é possível falar em Karma, então estamos falando apenas do presente. O resto, para mim, é medo: medo da vida, medo da morte, medo da moral, medo dos outros e seus julgamentos, medo do inconsciente (?!). Karma, se fosse algo objetivo, seria apenas culpa. Libertar-se de toda culpa é, nestes termos, libertar-se de todo Karma. Cansado da roda de Samsara? Não, cansado de viver, com medo de viver.... Uma pena.

Causa e efeito de cunho moralista é uma tendência cultural com bases num olhar histórico específico. Meu amigo Pietro Wagner, inclusive, adora me chamar de machista. De fato, creio que há um equívoco de termos aqui: a questão é que minha moral é baseada na tradição grega-pagã, enquanto a de meu amigo é de caráter judaico-cristã. Nietszche parece que acertou em cheio: a verdade tem suas raízes fincadas na moral e não no dogma, na ciência ou no mistério. Daí todo discurso possuir um pé na moral como regulador dos indivíduos.

A maior religião, para mim, se houvesse, seria sempre uma religião de celebração da vida em seu presente. O velho Nietzsche já abriu nossos olhos pra isso, depois que Hume e Kant nos despertaram de vez de nosso sono dogmático e Heidegger nos acordou para a temporalidade de modo radical. O resto... é mito!

..

Meus poemas

 O Homem




O conhaque já não lhe servia mais

nem aquele cigarro roto

ou, quem sabe, as tardes de primavera

em que ele costumava caminhar

pés descalços e cabelos soltos

penhascos e praia

areia branca, o ser é mistério

Talvez sua mulher estivesse certa

e isso, de fato, nunca o saberemos

quando ela esculpia gravemente

suas frases mais bem escolhidas

as horas passam, o dia passa

a morte passa e a vida sempre insiste

o homem deveria já estar farto

cansado, camisas brancas, longas

o trabalho, os livros,

meu Deus, tantos livros!,

e uma só vida. Sim, ela deveria estar certa

já que a vida insistia, perene

observando lentamente a morte

do conhaque, do cigarro,

das camisas e dos livros

persistência é uma virtude

uma conquista que não conseguimos abandonar

Da janela ele alcançava a rua

Árvores despedaçadas pelo cinza chumbo

de uma tarde esfumaçada

de uma sala esfumaçada

de uma vida esfumaçada

“Cantaremos mais uma vez, hahahaha,

cantaremos mais ...”

seus amigos, sua ebriedade por tudo

tão poucas suas conquistas

mais um cigarro, mais um desperdício,

“Vamos”, disse sua mulher,

“é bem tarde, não?”

Será que estamos preparados, nós todos,

para ouvirmos o som definitivo de nossa solidão?

O homem é sua solidão,

e isso não poderia ser diferente

calam-se os penhascos, as torres, os céus,

o mais profundo inferno se cala

pois é o homem quem está aqui

ele, o senhor de todo silêncio

e a irmã do silêncio, a solidão,

trouxe o homem até nós

despiu suas roupas, arrumou seus cabelos,

fez sua barba e ninou seu corpo

seus olhos ela os guardou numa caixa de marfim

perpetrando para todo o sempre

seu poder mais devastador

toda nudez é solidão

Ela deveria estar certa

Sim, ela deveria,

O conhaque já não lhe servia mais.



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Meus Contos

American Tango


Trata-se de uma típica família americana. O pai, Mr. Russ, combateu no Vietnam e hoje segue sua vida tranqüilamente, administrando sua pequena loja de peças para carros neste interior perdido do Texas. Sua esposa, Mrs. Cybelle Russ, Cy para os mais íntimos, é uma autêntica dona de casa, extremamente conscienciosa de sua função, respeitando severamente as regras estabelecidas por seu adorável esposo e sempre centrada em cuidar de seus três filhos: Katy, uma adolescente que prima por fazer tudo para irritar seu pai – veste-se como uma punk gótica, bebe nos finais de semana e consome drogas com seus amigos quando tem a oportunidade; Daniel, um menino de 11 anos que só pensa em beisebol e Ashley, uma criança amável de 10 anos. Katy, por ser a irmã mais velha – 6 anos a mais que Dani – sente-se como a rainha do lar e domina e tortura silenciosamente seus pequeninos irmãos. Seus pais, como sempre, ignoram ou pretendem ignorar o comportamento da filha mais velha, acreditando que tudo não passa de uma fase e que adolescente é tudo a mesma coisa.

Numa tarde em que o calor abrasador do Texas consumia as ruas e velhos aposentados tomavam suas cervejas pacientemente em suas varandas vendo o tempo se desnastrar com mestria e resolução, o velho Russ pegou seu Ford azul e dirigiu-se para casa sob esse mesmo sol. Podemos até sentir as ruas daquela pacata e interiorana cidade: asfalto em brasa, terra seca, poeira, muita poeira, meninas loiras em jeans surrados, casas de madeira e jardins bem cuidados. No meio do caminho, Russ decide parar num armazém para comprar algumas coisas. Adentra o recinto após cruzar uma porta de vidro, cumprimenta o proprietário e verifica as prateleiras e suas mercadorias.

- Um sol e tanto, hein, Sam? – diz com sua voz de rouquidão o proprietário.

- Isso mesmo, Sal. Um sol e tanto. Você tem azeitonas em conserva?

- Sim, é lógico. Logo ali, naquela prateleira perto das cocas.

- Ah, sim. Obrigado.

Ele verifica o rótulo de algumas embalagens de azeitona e escolhe uma com ácido cítrico e sal. Após algumas voltas pelo recinto, retorna ao caixa e despeja tudo em frente ao velho e barbudo Sal.

- Barbeador... cervejas... azeitonas... chocolate em barra... cigarros... um vinho branco... queijo....

- Isso mesmo.

- Mais alguma coisa, Sam?

- Não, só isso.

O velho Sal registra tudo em sua máquina registradora e o velho Sam o acompanha com os olhos. Desembolsa a quantia rapidamente de um dos bolsos de sua calça como se já soubesse quanto deveria pagar. Sal recolhe o dinheiro e conta o troco.

- Aqui está, meu velho, dois dólares e trinta cents de troco.

- Obrigado.

Naquela mesma noite, após um tranqüilo dia de trabalho, o velho Sal iria comentar com sua esposa como pressentira algo estranho na feição do seu amigo Sam. Talvez fosse seu tom de voz, suas mãos colhendo os produtos na prateleira, as rugas de seu rosto, ele realmente não conseguia precisar o que havia produzido em seu espírito aquele sentimento incomum. Sua esposa retirou uma grande porção do purê de batatas e despejou rapidamente em seu prato.

- Talvez seja apenas o calor – ela comentou.

- É isso mesmo – ele concordou – Esse maldito calor. Mas acho estranho o fato de que ele mal falou comigo. Nunca o vi assim; quero dizer, nunca o vi com tanta pressa.

- Deixe isso para lá. Sam tem muito trabalho na sua loja e tem uma família para cuidar. Além do mais, todos sabemos do trabalho que Katy está lhe dando.

- Você está certa. Aquela menina é fogo – concluiu Sal enquanto bebia mais um gole de água.

A realidade, esse labirinto de escolhas, prometia mais ação à vida daquela família do que Sal e sua esposa poderiam imaginar. Após guardar o troco em seus bolsos, adentrar no carro, ligar a ignição e partir sob a tortura impositiva do sol, Sam pensou no jantar que sua esposa estaria preparando. O odor encorpado do molho de tomate que inundaria as almôndegas, a força do sabor do sangue e da textura de um bom bife mal passado, a consistência do aipo e tudo aquilo que ele levava como complemento: azeitonas em conserva, vinho e algumas cervejas. Era sábado e em sua mente só pairava incólume o fato de não ir trabalhar no domingo. Isso, de certa maneira, o irritava. Ele era um homem trabalhador que amava o que fazia e sentia-se ainda útil ao seu país, às pessoas de sua cidade, à sua família e a si mesmo. Muito provavelmente sua tia Charlenne iria com seu marido e crianças para sua casa para que realizassem mais um churrasco em família. Isso, ele pensou, era muito bom. Entretanto, e tal confabulação gravitava silenciosamente em seu cérebro todo sábado à tarde, não estaria fazendo a coisa que mais amava em sua vida: cuidar de carros. Sua esposa o proibia terminantemente de falar ou mesmo de pensar em carros durante o domingo. Não havia saída.

- Ao jantar – ele disse de si para si enquanto dirigia seu Ford azul. O motor do carro estalava e tal barulho funcionava como música aos seus ouvidos. “Que motor”, ele pensava. Na estrada, os pneus agarravam-se ao asfalto e podíamos ver no horizonte uma camada sutil de calor que transformava a paisagem das montanhas num movimento gerado por algum espelho imaginário. O vento invadia o carro e desgrenhava seus cabelos curtos e isso, ele acrescentava, era uma felicidade. O azul do céu invadia os picos das montanhas e podíamos ver aqui e ali algumas aves perdidas em seus vôos circulares. Com a mão direita tocou na sacola com as mercadorias que acabara de comprar no armazém do seu amigo Sal. Tocou-a só para conferir: como que para ter uma certeza absoluta de que estariam realmente ali. Pensou em como havia sido ríspido e descortês com seu amigo Sal e estranhou a si mesmo uma vez que se sentia muito bem. Exceto, é claro, e esses foram seus próprios pensamentos, pelo fato de não ir trabalhar no outro dia. O tempo lhe era cruel nessas tardes e quase nada, exceto as visitas regulares de sua tia, conseguia distender esse sentimento de impotência que o invadia. Visualizou a entrada de sua casa e, mais por hábito do que por necessidade, buzinou duas vezes para avisar de sua chegada. Acionou o mecanismo da porta da garagem e logo em seguida estacionou o carro. No interior da garagem se perdia uma infinidade de ferramentas em estantes carcomidas e sujas, reféns do tempo e de seu desleixo para com a limpeza. Era um fato que ele não permitia a ninguém, nem mesmo a sua esposa, que tocassem em suas ferramentas. Ali estava sua vida, a sua herança paterna, seu universo particular. Tratava-se de uma coleção única: chaves inglesas trazidas diretamente da Europa; alicates e chaves de fenda usados no Vietnam; carburadores de Fords e Chevrollets que datavam da época de seu pai, bombas, tensores, martelos, lixas, medidores, motores inteiros desmontados peça por peça, filtros, radiadores, injeções eletrônicas novinhas, óleos e graxas em latas que demonstravam suas diversas procedências, enfim, um universo particular e atrelado aos carros. Trancou a porta da garagem e seguiu direto para a cozinha.

- Querido – exclamou entusiasmada sua esposa enquanto despejava outra lata de molho de tomate com temperos finos sobre as almôndegas pré-cozidas – Que bom que você chegou.

- Onde está a Katy? – perguntou enquanto beijava o rosto de sua esposa.

- Está ainda no curso de pintura.

Sam despejou a sacola com as compras sobre o balcão. Inspecionou seu conteúdo, separou as mercadorias por categorias e começou a guardá-las em seus devidos lugares. Abriu o refrigerador e sacou de lá uma lata de cerveja gelada. Destampou o lacre e bebeu o conteúdo todo quase que de um único gole.

- Katy me pediu um favor, querido.

- Sim?

- Bem, é algo que não pude dizer não.

O sol ainda penetrava a cozinha por uma pequena janela que se localizava acima do balcão. Sam pensou em como o suor escorria volumoso por suas têmporas. “Um favor irrecusável”, confabulou. Percebeu que aí deveria residir alguma encrenca. Enxugou a testa e verteu o resto da cerveja.

- Ah! – exclamou deliciando-se com o sabor amargo do líquido – Então, que diabos de pedido é esse?

Sua esposa parecia recear uma reação negativa do marido. Ela o conhecia há muito tempo para saber que um sábado à tarde não era o melhor momento para lhe pedir algo, especialmente se esse pedido estivesse diretamente ligado à sua filha mais velha. Mas agora a resolução já havia sido tomada e não poderia mais decepcioná-la.

- Katy me pediu para preparar um jantar para seu novo namorado – Ela sabia de antemão que a menção daquela simples palavra não produziria um efeito muito animador em Sam.

- O quê? – ele quase berrou – E aquele garoto que tocava numa banda na escola? Como era mesmo o nome dele?

- Tim – ela respondeu – Timothy. Mas eles acabaram faz uma semana. Katy disse que ele era muito infantil.

- Uma semana e já está com outro namorado. Bem – disse ele resignado – ao menos me diga o nome desse novo bastardo.

- Não sei. Ela disse que era uma surpresa. Por isso o jantar. Ela disse que será uma ocasião especial.

- Ocasião especial será quando ela decidir em que faculdade vai estudar. Ela já está ficando muito velha.

O calor adensou-se em suas costas. Sua camisa de algodão estava já ensopada de suor. Sua camisa xadrez de flanela impedia que o suor fluísse com facilidade por seu corpo. Sentiu-se cansado.

- Coloque as azeitonas que eu trouxe nas almôndegas, querida. E não se esqueça do vinho. Vou tomar um banho que esse calor desgraçado está me deixando louco. Depois iremos falar sobre os namorados de Katy. Onde estão as crianças?

- Assistindo tv.

Antes de falar com seus filhos, ele achou mais sensato ir direto ao banheiro e tomar um banho para tentar se livrar do calor insuportável que se agigantava pela casa. Sua esposa sentiu-se aliviada por não ter que prolongar mais aquela conversa. De fato, já estava ficando cansada de ter que sempre defender os erros de Katy e isso, de uma maneira ou de outra, já estava mais do que na hora de ter um fim.

No banheiro, Sam despiu-se, estendeu a roupa e ligou o chuveiro. A água estava fria. Sentiu-se revigorado e feliz por ter, ao menos naquele instante, conseguido se livrar do calor. Colocou creme nos cabelos e despejou colônia por todo o corpo: um velho hábito de família. Desligou a ducha, enxugou-se com uma toalha felpuda, colocou uma calça de algodão e uma camiseta branca e dirigiu-se à sala de tv.

- Olá, crianças.

- Papai – exclamaram em uníssono Dani e Ashley.

- Trouxe meu chocolate? – perguntou a pequenina.

- Claro, querida. Está na cozinha. Mas só depois do jantar, certo?

- Certo – disse sua filhe enquanto lhe dava um beijo na testa.

- Venha assistir tv conosco, pai – pediu Dani.

- Depois – disse retirando-se da sala.

Em seu quarto ligou a tv e começou a assistir um velho programa sobre as terras cultiváveis da Carolina do Norte. Adormeceu e sonhou com seu pai lhe ensinando a dirigir. Só que em seu sonho ele pilotava um Lamborghini azul metálico, o carro mais lindo que ele poderia conceber. Sentia-se feliz até que um estranho surgiu e fez com que o carro colidisse com uma imensa montanha de puro granito. Observou o fogo consumindo o carro, mas não se sentiu triste. O fogo, entretanto, avolumou-se, criou línguas maiores e começou a invadir todo o terreno em que ele se encontrava. Nenhuma vegetação foi poupada, tudo era consumido por sua fúria incontrolável. Ele tentou correr, mas suas pernas pareciam extremamente pesadas. Acordou-se de um sobressalto, tomado pelo suor que escorria por todo o seu corpo. “Que pesadelo”, falou em voz baixa. Na tv, um repórter caminhava em meio a uma plantação bem cultivada acompanhado por um abastado agricultor. “Que calor infernal”, exclamou. Havia acabado de tomar banho, mas já estava ensopado novamente. O suor agarrava-se ao seu corpo com resistência e decisão.

- Cybelle, querida – ele gritou de sua cama – Cy! O jantar está pronto? – sua voz retumbou por toda a cozinha.

- Daqui a pouco, querido – respondeu sua esposa.

- Estou no quarto – ele resmungou.

- Quando estiver pronto eu lhe chamo.

O que mais ela receava não era propriamente o estado de espírito de seu marido, mas sim quem seria o novo e misterioso namorado de sua filha. Nunca antes ela havia feito tanto mistério para apresentar um namorado à família. Talvez, ela confabulou melhor, Katy esteja ganhando juízo e dessa vez traga um menino decente. Esse conceito era irrealizável para o velho Sam, mas ela esperava ao menos uma pessoa educada e que soubesse – e isso não é exigir muito – falar umas dez frases inteiras.

- Mamãe – disse Ashley na porta da cozinha e interrompendo sua linha de raciocínio – Posso comer o chocolate que papai trouxe?

- Agora?

- Sim.

- Você sabe, querida, que seu pai só permite que você coma chocolate depois do jantar, está bem?

A pequena menina saiu correndo de volta à sala de tv exclamando para seu irmão: “Eu não disse! Eu não disse!”. “Essas crianças”, pensou enquanto retirava as almôndegas do fogão. Colocou a mesa, arrumou as panelas, trouxe o vinho, despejou as azeitonas sobre as almôndegas e contemplou religiosamente a beleza daquela mesa posta. Dirigiu-se ao seu quarto para chamar Sam. Assim que chegou na entrada do quarto, espantou-se com o rosto quase transtornado de seu marido.

- O que foi, querido?Algo errado?

- Não, apenas esse maldito calor que não me deixa em paz.

- Por que você não toma outro banho?

- Depois do jantar – ele olhou para sua esposa. Sentiu-se atraído por seus seios, mas o calor estava realmente insuportável e decidiu por se concentrar no jantar.

- Vamos – ela convidou – A mesa está posta.

- E Katy?

- Já deve estar chegando.

Ela arregimentou as crianças, colocou Sam em sua cadeira favorita e serviu a todos. Sam fez uma prece em voz baixa agradecendo pela comida recebida e bebeu um bom gole de vinho branco no intuito principal de ver-se livre do calor. Enquanto ele comia, o vapor que era exalado das almôndegas acentuava ainda mais o suor que impregnava todo o seu corpo. De súbito, quando todos saboreavam seus pratos em silêncio, irrompe Katy na sala seguida de dois rapazes. Ela estava vestida toda de preto, o rosto tomado por piercings e trazia uma tatuagem na altura do pescoço. Os dois rapazes, ao contrário, vestiam-se sobriamente e exceto pelos longos cabelos e os olhos esbugalhados e vermelhos, podíamos facilmente confundi-los com calouros de qualquer universidade. Sam deu um salto da cadeira quando viu o rosto da filha.

- Que Diabos é isso? Vamos, menina, se explique.

- Calma, Sam – tentou apaziguar sua esposa.

- Calma? Que Diabos é isso? – ele berrou enquanto esfregava sua mão direita no rosto de sua filha.

Katy, apesar de sua resolução em colocar todos aqueles piercings e aquela enorme tatuagem, sentiu-se fragilizada ante a voz tonitruante de seu pai. Desabou num choro copioso. Mas esse choro revelava mais de seu espírito ardiloso do que propriamente o medo que sentia por seu genitor. Tentava, dessa forma, desarmar a sua retidão.

- Vamos, menina, eu já disse: Que Diabos é isso no seu rosto?

Os dois rapazes pareciam não se dar conta de onde estavam. Permaneciam em silêncio, atarracados e com os cérebros embotados. Talvez uma luz translúcida estivesse visitando suas mentes naquele instante inusitado para suas vidas. Não esboçavam nenhuma reação. Katy, ao contrário, estava completamente descontrolada com a reação de seu pai. De certa maneira ela queria humilhá-lo, dizer para ele que não o amava, que toda aquela vida familiar lhe era insuportável, que suas regras estavam deixando-a louca e que ela iria viver longe dali. Mas quando se deparou com sua ira, sua reação premeditada desabou por terra. Sentia-se, outrossim, impotente, incapaz de enfrentá-lo. No seu sangue, ela havia pensado antes, correu a guerra do Vietnam. Como enfrentar um homem que sobreviveu a uma guerra? Ela era muito nova e tal resposta dificilmente iria aflorar em sua cabeça. Apenas chorava e essa era sua resposta.

- Que Diabos, menina – ele berrou novamente – Me explique o que está acontecendo aqui.

Sua mãe a tomou entre os braços.

- Acalme-se, querida. E responda a seu pai, sim? – falou com uma voz terna enquanto alisava seus cabelos negros e chamuscados de roxo.

Seus irmãos não estavam dando muita atenção à cena e continuavam comendo suas almôndegas em silêncio. Sam aproximou-se das duas mulheres. Um ódio quase incontrolável explodia em seu rosto.

- Você faz isso apenas para me humilhar, não é? Sua serpente. Veja, Cybelle, estamos criando uma serpente para nos envenenar. É isso o que você chama de educação? Que tipo de gente usa essas roupas e pendura essas coisas na cara?

Katy respirou fundo, tomou fôlego e criou uma coragem inimaginável que brotava de uma região ainda desconhecida para ela. Concentrou-se e gritou, interrompendo seu pai.

- Deixe-me em paz, seu carrasco. A partir de agora eu não vou mais viver aqui. Vou morar em Dallas.

- Do que Diabos você está falando?

- Como assim, Dallas?- inquiriu sua mãe quase sem forças.

- É isso mesmo. Esses dois aqui são os pais de meu filho, entendeu? Eu estou esperando um neto seu e vou viver em Dallas.

Sam não conseguiu entender sobre o que exatamente ela estava falando. “Esses dois”, o que isso poderia significar, ele pensou.

- Como assim, esses dois? – perguntou sua mãe.

- É isso mesmo, mamãe. Peter e DonRoy são os pais do meu filho. Vamos viver os três numa propriedade do pai de Peter em Dallas. Já está tudo acertado – disse Katy em meio às lágrimas e ao seu rompante repentino de coragem.

- Os dois? – repetiu, com uma voz que se extinguia, o velho Sam.

- Sim, os dois – a voz de Katy cresceu ante o silêncio de seu pai – Os dois são os pais de meu filho – ela alisou a barriga enquanto enxugava as lágrimas que desciam em torrentes do rosto de sua mãe.

Sam retirou-se da sala em silêncio. Os dois, Peter e DonRoy, pareciam agora mais cientes do que estavam fazendo ali naquela sala.

- A senhora tem cerveja gelada? – perguntou Peter a Mrs. Russ.

- O quê? – ela disse.

- Cerveja.

Sua cabeça estava vazia. A filha parecia ter vencido as imposições de Sam com uma obstinação que não lhe pareceu de todo mau. Talvez Katy fosse mais corajosa do que ela poderia ser e isso era inegavelmente surpreendente. Enquanto Peter invadia o refrigerador e servia a si e ao seu amigo DonRoy com uma cerveja gelada, e enquanto Katy tentava agora explicar com mais calma à sua mãe como iriam viver em Dallas e como seria viver com os dois ao mesmo tempo, Sam adentra a cozinha espumando de ódio. Primeiro ouve-se um estampido seco e Peter desaba no chão envolto por uma poça de sangue. Logo em seguida outro estampido e DonRoy cai esguichando sangue pelo pescoço e se contorcendo como uma fuinha presa em uma armadilha. Sam aproxima-se da filha, leva sua Magnum 44 até sua cabeça e destroça o cérebro da menina com apenas um tiro. Sua esposa começa a gritar, esperneia-se toda e desmaia. Os meninos pulam da mesa e começam a chorar mais assustados com o barulho do que com a própria tragédia. O vermelho do sangue toma todo o recinto e cobre o assoalho com uma manta espessa.

Nesse mesmo momento, o velho Sal tira sua esposa para dançar. Sua velha vitrola toca um tango argentino bem cadenciado. O calor domina as casas e constrói seus dilúvios pessoais. No tribunal, quando condenado à pena de morte, Sam apenas murmurou: “Tudo culpa desse maldito calor!”.

Talvez.



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Prefácio para Círculos de Hades

Apresentação :

tradição como memória literária e o fundamento fenomenológico do novo e velho fazer poético.



Walter Benjamim, citando Bergson (o que tira ao homem a obsessão do tempo é a atualização da durée), quer nos fazer ver a afinidade com que Marcel Proust compartilhava de tal convicção e de que, buscando através da memoire involontaire a impregnação da permanência inconsciente de tudo aquilo que somos, tornou-se, por um ato voluntário para tal consecução, um leitor incomparável de Fleurs du Mal. Tal tornar-se assenta-se sobre a própria convicção eterna do próprio Baudelaire de que sua poesia deveria ser não só o ritmo, mas o movimento em-si da alma, portanto movimento lírico, ondulante e que sobressalta a consciência por trazer à tona aquilo que se des-vela no seu constante velar, o ser. Se entendermos que a revelação inicial de Baudelaire já é dita quando este clama que j´aime le souvenir de ces époques nues, e que a ação do ser-no-mundo-para de Febo é a ação conotada no spleen baudelaireano, posto que sua tarefa deve ser de son être extirper l´élément corrompu, escutamos com a devida clareza todos os sons, gestos, sabores e a própria vida que dormitava plenamente na Combray de Proust. Mas há, aqui, e como negar o que é tão evidente, um fato de dúbia relação: se em Baudelaire o imemorável escapa entre seus dedos qual areia filigranada pelo próprio tempo – sua urdidura constante que mantém a ordem – em Proust é na busca, e somente nela, que podemos fixar este mesmo imemorável como fato recorrente de um novo presente que se quer fixo por e para si mesmo, por sua existência, por sua abertura que é um abismo para a planície eterna das coisas. Imemorável é aquilo que não se diz, o perdido do discurso: perde-se tudo aquilo que a localização é desconhecida, logo a espacialidade irreconhecível do imemorável é que lhe aufere a característica ontológica mesmo de ser imemorável e não sua identidade consigo mesma, o que para o pensamento seria um ato impossível de reconhecer já que não há reconhecimento no que não se diz: é imemorável aquilo que se vela, e o que se vela, o que se pre-sentifica em tal velar é o ser.

O reconhecimento de toda poesia que busca esse mesmo imemorável, portanto só pode ser uma busca pela abertura em que o ser fornece o seu sentido autêntico, e autêntico – aqui somos obrigados a seguir a analítica existencial de Heidegger em pormenores – é a essência da verdade que é, de fato, a verdade da essência. O autêntico é aquele cujo quem do discurso se faz pela busca do sentido do questionamento fundamental, ou melhor ainda, mais originário em seu apelo ao próprio pensamento que se equaciona em identidade em Parmênides, pois o mesmo é para ser e pensar. Se Heidegger em seu patriotismo escamoteado por sua teorização infecunda daquilo que é exterior à pátria tem em Hölderlin e, devemos acrescentar, muito mais emergente em seu apelo à universalidade consistente em Georges Trakel a realização dessa escuta atenta que se faz ver pelo retorno - em Hölderlin, aos gregos, e pelo dizer concreto do que se busca no sentido, em Trakel -devemos dar uma atenção muito especial não só aos grandes poetas até aqui mencionados – e muito disso devemos a Benjamim – mas devemos soerguer nossa vista para todo um campo de ação poética em que o retorno é a máscara daquilo que se diz na própria poesia e que, desta forma, se vela, se oculta de modo sublime através de toda uma tradição: mesmo que esta não seja apenas grega – infundir filosoficamente o eterno retorno às raízes de nossa civilização como a cura da mesma (é estranho notar como Nietzsche é vítima de seu próprio vaticínio) é perigoso não só por adotarmos as vezes de um historiador que pensa no passado como a uma múmia cuja facticidade se opera plenamente e apenas no fato ocorrente do presente para que o pensar erija aquilo que é, mas nos induz a pensar com segurança um limite em que se dá o início e florescimento de toda a nossa cultura ocidental: a Grécia Antiga. Somos devedores de todas as suas realizações, isso é um fato, mas eles mesmos, eles, os grandes gregos, são devedores de  outra tradição e essa permanece velada, oculta como o ser que quer doar seu sentido aquele que o busca. Qualquer leitura atenta ao Timeu de Platão já é suficiente para entendermos tal assertiva: ou mais ainda: o Nuctemeron de Apolônio, as Eneadas de Plotino, antes as obras herméticas de Homero e de Hesíodo, os fragmentos de Heráclito e Parmênides, Tales e Anaxágoras, o De Anima não de Aristóteles mas de Proclo, o Corpus Hermeticum em grego, De Iside et Osiride de Plutarco e, fato muito controvertido, a própria obra de Aristóteles reveste-se desse caráter esotérico e exóterico, caráter que quer nos dizer, entre tantas outras expressões desse mesmo labor filosófico e místico, a busca incansável do homem pela verdade, e por sua essência, evidentemente, através da tradição que se faz nova pela luz própria de cada um, mas devidamente merecedor daquilo que lhe é dito. A verdade, portanto, ganha caráter de universal e imutável ante a tradição, e isso mesmo contra a concepção heideggereana de que tal caráter de eternidade seja um modo do ser-aí privilegiar a perenidade do mundo público e escamotear sua finitude. Mas aqui preferimos concordar com Lévinas quando este exige uma direção para um outro-que-o-ser com os pés fincados num além-da-essência. Temporalidade e morte, portanto dizem dessa abertura para o infinito que repousa na escuta atenta do finito que não é infinito mas pode pensá-lo.[Lévinas era um arguto comentador do Talmude –um viés poderoso da Tradição – e incorporava aquele espírito que o aproximava muito mais daqueles que compunham o grupo Eranos, juntamente com Jung, entre eles Heisenberg e Scholem, este último um dos maiores cabalistas de seu tempo].

Essa tradição sempre esteve presente de modo velado no saber ocidental e poucos tiveram a coragem de enfrenta-la sabendo do que realmente se tratava. A estruturação desse saber da tradição revestiu-se de literatura, tornou-se poesia ora pelo reconhecimento secreto de seu poder ora pelo total desconhecimento de suas fontes. No primeiro caso, basta apenas um lançar de olhos sobre o Paraíso Perdido de Milton ou o monumental Fausto de Goethe. O labor incansável com que a tradição foi passada de geração a geração fomentou no seio interno das mesmas novas roupagens de aprendizado que ainda são presentes em nossos dias, mas que poucos sabem como utiliza-las devidamente. Entre nossos ancestrais ilustres – os gregos e os romanos – a tradição se fazia presente tanto na literatura quanto nos templos dedicados aos mistérios. O segredo da Esfinge que Édipo descobre é o segredo do homem em sua iniciação – percurso que o levará a conhecer os ditames poderosos do destino e a exercer o maior poder que um homem conhece: o poder de conhecer e dominar a si mesmo. O lançar-se no abismo da Esfinge é o encerramento de uma noite tenebrosa de escuridão no espírito humano: a Esfinge é a terra, a água, o ar e o fogo em sua síntese simbólica, elementos agora conquistados pelo iniciado que passou com louvor na prova de sua iniciação. Além do mais, a Esfinge nos reporta diretamente para o berço de toda essa sabedoria milenar e universal: o Antigo Egito. Ao lermos a Moralia de Plutarco e compararmos tal cosmologia com as escolas pitagóricas ou as doutrinas dos eleatas – e o diálogo Parmênides de Platão dá claro indícios dessa relação – somos levados naturalmente ao solo fértil do Nilo com o que este produziu de mais duradouro: a Tradição. Não é sem assombro que vislumbramos esse mesmo conteúdo nos neo-platônicos – e a sua influência por toda a Patrística e a Escolástica – através de expressões diversas que chegavam mesmo a extrapolar o neo-platonismo, como os Theodidaktos, discípulos de Ammonius Saccas: Orígenes, Longinus e o próprio Plotino. Daí a inferência natural de tomarmos nesse rol os nomes de Porfírio e do grande Iamblichus, autor de uma obra extremamente intrigante pelo seu caráter teúrgico, filosófico e centrado na tradição, o De Mysteriis. O conhecimento trazido e passado por esses homens não se reduzia a um pequeno grupo de estudiosos, tratava-se, outrossim, de um universo muito mais amplo que denominamos aqui pelo nome de tradição. A essência desse saber que se transformou claramente no mundo ocidental em Magia, Alquimia, Cabala adquire, muitas vezes, aquele caráter – para aqueles que não lhe são merecedores - de que falsum est: quia quaelibet res est una per suam substantiam, como sentenciou Aquino na questão 11 de sua Suma Teológica, mal compreendendo a essência da tradição legada por Pitágoras e Platão – e isso para não falarmos de Avicena – revelando uma indisposição que atravessou os primeiros padres da Igreja, numa busca desenfreada pela unidade, chegando com o mesmo teor e distanciamento no século XIII, teor este que de certo modo transformou Pã no Diabo onipresente dos cristãos exotéricos. A Tradição permaneceu e permanece viva em suas expressões mais diversas e em todos os quadrantes do globo. Evidente que alguns defensores da mesma se polarizaram, eles também, com essa indisposição de seus inimigos e fatalmente vibraram na mesma sintonia; para tanto basta citarmos a Naometria de Simon Studion, livro profético e apocalíptico de 1604 em que é profetizado o naufrágio existencial do Papa. No bojo histórico desse retorno às bases metafísicas, filosóficas e místicas da Tradição, ora o pensamento se volatilizava com a própria Tradição em si e seu caráter extremamente hermético mas inegavelmente tolerante ora descambava para leituras canhestras desse mesmo saber dito agora com vozes díspares e distantes de sua essência primordial: dizia-se, então, de uma nova tradição, esquecidos que estavam de que impermanente é apenas o mundo... o saber é sempre perenidade imutável e eterna.

Evidente que a Tradição sempre se fez presente no percurso de toda a História. Seu movimento de ressurgimento contínuo sempre oscilou entre um obscuro período de silêncio –apenas poucos podiam ter acesso ao que era produzido em seu seio – e um aparecimento público para trazer novos adeptos às suas verdades. Muito antes do Naometria , já temos notícias das Conferências de Jonh Dee e de seus trabalhos – muito controvertidos, por sinal – com Edward Kelly. Na verdade, afirma-se – e isso mesmo Francis Barret irá assinalar com a mesma referência do Doutor Hook – que os trabalhos de Dee eram criptografias dos tratados de Trithemius, mestre daquele que seria responsável por uma grande síntese do conhecimento legado pelas ciências ocultas e que lhe daria uma dimensão ainda maior: Heinrich Cornelius Agrippa. A obra magna de Agrippa, o De Occulta Philosophia, traduz esse saber de modo tão magistral que sua essência se fará sentir no próprio Barret cuja obra Magus será uma referência obrigatória para pensadores do quilate de Éliphas Lévi, Papus e Guaita, sem falar no seu eco ainda profundo nos tratados de Franz Bardon, o famoso hermetista e magista do século XX. Mas esse fervilhar que tem em Agrippa um ponto culminante, ressurge ante toda uma Europa ansiosa por um novo saber – na verdade um saber sempre perene mas velado continuamente – na figura muito insólita de Fludd e Valentin Andreae. O primeiro, no início do século XVII, produziu uma obra muito interessante em que defendia claramente uma fraternidade intitulada de Rosae Crucis. Aqui, Fludd defendia um conhecimento ancestral legado por uma tradição única e que era traduzida, na sua época, pelo saber alquímico, mágico e cabalístico. Para bem da verdade, a obra de Fludd tinha sido uma repercurssão do Fama e do Confessio, manifestos obscuros que afirmavam o renascimento de tal fraternidade e o reinício de suas atividades perante o mundo profano. Historicamente, afirma-se Andreae como um dos responsáveis –entre aqueles integrantes do círculo de Tübingen – pela redação doa manuscritos.

O fato é que esse saber – agora exposto ao grande público – era o mesmo daquele já pensado no Corpus Hermeticum e no Nuctemeron, só que agora com uma roupagem mais complexa e com uma linguagem metafísica única. Os trabalhos de Giambatista Della Porta – o seu famoso Magiae Naturalis - Paracelso e sua vasta obra ainda hoje consultada por homeopatas e estudiosos do homem em sua totalidade, os trabalhos de Rosenroth – cuja Kabbalah Denudata marca um ponto único dentro do sapiência das ciências ocultas – cortam, entre outros, de cima a baixo um vasto período do pensamento humano dentro da História que hoje em dia parece, para muitos, como coisas de um passado distante e só compreensível por uma hermenêutica tal que justifique não o passado, mas sim um presente débil e insalubre. E que as análises toscas e equivocadas de Foucault no seu mais que celebrado As Palavras e as Coisas possam nos aproximar daquela valoração da verdade tão bem explanada por Nietzsche.

Mesmo que tomemos um pensador da envergadura de um Jacob Boehme e toda a sua influência em filósofos do nível de Leibniz, Hegel, Fichte, Schelling, Baader e até mesmo de um Saint-Martin, veremos que há um espírito sintomático de separação entre aquele pensar, que diz o quê essencial do espírito, e este mais moderno que nos fala apenas do que essencial daquilo que se pode compreender pela razão. E essa aporia inelutável se torna ainda mais estranha quando sabemos que seu responsável direto foi Descartes, um rosacrucianista. Sua separação inexaurível da res extensa da res cogitans cerceou e ainda cerceia um todo de um pensar que se diz pós-moderno e muito atual. Deveríamos escutar Auden quando este exclama de modo sarcástico: deprived of a mother to love him, Descartes divorced Mind from Matter. Divorciou a mente da matéria... e isso vindo de Auden... mais sarcátisco ainda! Não é de se estranhar as críticas de Lévi, no seu Dogma e Ritual, às conseqüências de tal cartesianismo. Dissertando sobre Kether, ele dirá enfaticamente que חיחא רשא חיחא , o ser é o ser. Aquilo que se pode vivenciar é a verdade daquilo que se diz no discurso. O lógos é uma revelação àquele que pode visitá-lo e somente a este.

Mas, a despeito de toda essa animosidade presente e passada, a Tradição permaneceu impávida e soube sempre contornar seus piores detratores. É assim que iremos ver surgir no início do século XX três vertentes muito importantes desse dizer ancestral. O primeiro momento traz a figura enigmática e sempre controvertida que foi MacGregor Mathers – e isso se deu muito devido à sua descoberta na Biblioteca do Arsenal de um manuscrito mágico atribuído a Abraão, o judeu - que com a ajuda de seu amigo Westcott fundou a Aurora Dourada, ordem de caráter mágico e que tinha em suas hostes ninguém menos do que o grande poeta Yeats e o magista Israel Regardie que com sua obra The Golden Dawn revelou muito daquilo que para alguns deveria permanecer em silêncio, especialmente os rituais da ordem. Mathers – além de uma brilhante introdução ao livro de Rosenroth – deu nova vida ao misticismo europeu [mesmo este sendo devedor de Éliphas Lévi e das obras monumentais de Blavatsky] que pode ser sentido não só naqueles que o seguiram, mas por aqueles que o rejeitaram ou até mesmo o abandonaram. Um de seus discípulos mais ilustres foi sem dúvida alguma Aleister Crowley, pensador profundo e controverso por natureza, que com o seu Livro da Lei trouxe uma dimensão ainda muito obscura e profunda para o pensamento ocidental, ou seja, o seu Thelema. Mas o próprio Crowley não é só devedor de Mathers; ele deve exatamente à segunda figura deve momento tão especial: Theodor Reuss, o homem que deu uma dimensão inigualável ao templarismo em sua essência e na busca constante pela Tradição. Assim como o foi o terceiro pensador dessa linhagem: Harvey Spencer Lewis que deu ao rosacrucianismo um caráter mais moderno dentro do espírito da Tradição. São esses três momentos fundamentais – há tantos outros, como o Zos Kia Cultus de Spare ou o ressurgimento das ordens célticas e templárias, que teríamos que realmente escrever um tratado sobre esse período da humanidade – que darão à Tradição suas diferentes roupagens, mas sempre apontando para um mesmo fim.

Se recorrermos ao Mutus Liber de 1667, ao Zanoni de Lytton, ao Líber 777 de Crowley ou à Cosmogonia de Heindel veremos sempre a mesma e única expressão envolta pela densidade do múltiplo. Aqui é sempre a voz desse saber que se diz de modos diferentes, mas sempre único em sua busca pela totalidade do homem.

E é exatamente nesse solo que navega entre um dizer ocidental mais arraigado na razão e um dizer voltado plenamente para a Tradição que a poesia de Flávio Minno irá emergir num crescendo de múltiplas vozes. Seu Círculo de Hades é um percurso entre um dizer passado, próximo e muito presente – além de uma fala existencial muito própria, privada em si mesma. Seu poema de abertura, e que traz o mesmo título de sua obra, já inicia o leitor numa viagem muito longa que atravessa a Babilônia, o Egito, as tradições orientais e aporta nas terras gregas em que mitologia e ciência se confundem e se fecundam ora num dizer mágico ora num dizer místico-filosófico. É essa linguagem essencial – e sempre repleta de figuras de linguagem poderosas, símbolos que afetam a mente por seu poder de síntese e alcance – que Flávio Minno verterá em seu dizer poético que aqui se abre em vertigem e duração o seu “quê” essencial. É necessária uma embarcação para tal empreitada, já evocadas as musas da poesia e da sabedoria, pois a travessia corta o mundo e aporta, nesse momento, no dizer dessa Tradição que aqui ganha a forma de Pã.

O segundo momento desta viagem insólita aporta numa cosmologia complexa e devedora de um dizer alquímico-cabalístico, mágico-hermético que busca atingir a essência da origem do universo. Aqui temos os dois momentos traçados com clareza por Boehme e dito desde sempre pela Árvore da Vida cabalística. O solo da negatividade, o surgimento do manifesto e sua concreção enquanto mundo.(Esse saber se faz presente em Heidegger, e essa é a teoria de John Caputo, através da filosofia de Mestre Eckhart, um místico do século XIII e de uma profundidade filosófica muito comum ao saber cabalístico já contido no Sepher Yetsirá e no Zohar; e de modo mais velado no Asch Metzareph e no Sepher Sephiroticum). Canta-se esse saber e seus pensadores, canta-se a Tetraktys pitagórica e as tábuas herméticas que velam segredos abissais sobre a constituição do mundo e do homem. A manifestação numérica do dito – aqui a poesia de Flávio Minno – é um aproximar-se poético de uma sabedoria legada e mantida sempre viva. Nesse segundo momento, é a vertigem mesma quem fala: o poeta emudece e ouvimos o trovoar absurdo e descomunal das colunas de um templo superior em que ritmo e polaridade ditam suas regras e condições. Mas a flexibilidade da poesia desses círculos infernais não se restringe apenas ao já exposto – estende-se na terceira parte com o título muito bem escolhido de Uroboros, a serpente que engole a própria cauda e que traduz o ser uno em sua multiplicidade. Aqui o homem é analisado pela tradição da Escolástica, daí a colocação dos pecados em latim; mas, por outro lado, e para justificar a universalidade do conhecimento, flutuamos pela Babilônia, trafegamos na magia thelêmica, um apóstolo é tomado como referência plena e a reencarnação assume seu devido lugar. O fervor contido de seus versos faz com que Flávio Minno possa transitar suavemente entre esses mundos aparentemente irreconciliáveis. É a doçura essencial de seu fazer poético que lhe permite essa linearidade vertical sobre pensamentos considerados tão opostos.

É por isso que ele, como que justificando sua doutrina e percurso, trará uma exaltação da poesia sobre qualquer outro tipo de conhecimento. E a figura de Novalis – esse pensador profundo que fez Heidegger atingir graus de consciência elevados – surge como uma norteadora daquilo que sua poesia quer dizer: hermética por seu parentesco filosófico e poética em si mesma por seu amor ao dizer sempre próprio de todo verso. Não é um dizer científico enquanto discurso, mas um dizer poético por seu alcance e liberdade. Novalis parece, ao menos para ele, traduzir esse alcance: o profundum do mundo enquanto ser. Mas ser é sempre um ser-aí, diria Heidegger. Ora inferno ora céu, acrescentaria Flávio Minno. Por quê?

Ao desvelar esse momento muito particular de seu pensamento, o poeta viu-se numa incumbência dupla: justificar a polaridade de seu argumento e trazê-lo à tona por intermédio de seres humanos concretos. Primeiramente, como se dissesse o mesmo que Sartre, trará o inferno como um outro, não aquele móvel e apreensível de Martin Bubber, mas esse fixo, irremovível pela fatalidade e vaidade. Assim teremos Nietzsche, Tchaikovsky, Wittgenstein, Séferis, Miller, Goethe, Borges e Tartini como esse outro, um outro que admiramos, mas que encobre em sua grandiosidade um inferno magistral e inalcançável. Por se dar conta, e isso devido à clareza de seu espírito e ao alcance mesmo de sua poesia, de que tal polaridade resolver-se-ia com o seu oposto mais palpável, Flávio Minno fará um elogio ao Amor. Não é descabido, então, que sua esposa Francy tome lugar em seus versos como o centro em que Eros se realiza tanto na carne quanto na alma: é um luto que não se entristece por saber-se eterno, e celebração eterna por se saber imperecível. Aqui a polaridade ergue-se com virulência e adquire um espantoso sabor poético em relação a qual o mais certo é permanecer em silêncio.

Por fim, somos brindados com elegias, epigramas e sonetos para que nossa mente possa, então, descansar e refletir sobre universo tão fecundo e particular. Mesmo que aqui ainda tenhamos referências à sabedoria vedanta ou a cabalistas do peso de um Gabirol, ainda assim se sente aqui uma leveza estranha, incomum ao mar derramado por sua pena. Sua busca pela perenidade no mar revolto da multiplicidade indica o todo de sua possibilidade enquanto arte palpável e viva. Diferentemente de Adorno que em sua Aesthetische Theorie vaticina que as obras de arte devem surgir como se o impossível lhes fosse possível (podemos traçar hermeneuticamente, e dentro de uma lógica aceitável, o dizer deste impossível?), a presente poesia se apresenta em sua grandiosidade como aquele ditame nietzscheniano: criar é a gratidão pela própria existência, daí possibilidade para o infinito no finito.

O fenômeno da Tradição é aquele para quem seu olhar fenomenológico se debruçará e deixará falar livremente, mas sempre em busca de um ritmo perfeito, das palavras certas e poderosas para enunciar aquilo que seu pensar se propõe a resolver e cantar. O que há de novo em sua poesia – e aqui nos lembramos de Heraldo de Campos e Kazantzákys – é ser nova sendo velha, trazer o novo sendo este sempre tradição e passado. Os leitores do le cemitiére marin de Valéry sentirão, eles também, essa vertigem ao lerem os versos desse novo e promissor poeta. Novo para os que não o conhecem e promissor para aqueles que podem ditar um gosto moderno: mas isso não pode e jamais afetará a grandiloqüência e originalidade de seu texto. Na ilha bem assentada em que este poeta vive, não é apenas o ancestral e sublime que ganha vida, é a própria vida que ganha dimensão poética e corrobora o dizer de Hölderlin de que poeticamente o homem habita a terra.

Para finalizar sua bela obra com um toque sutil e deveras útil para aqueles menos familiarizados com esse conhecimento, o presente tomo traz um índice remissivo com os personagens, termos e idéias centrais que movem essa obra. Rico é todo aquele que sabe receber e doar ao mesmo tempo. Estejam prontos, pois: aqui há muito a ser doado e talvez poucos estejam aptos a receber.Que seja a vida, e não a morte, essa violência preconizada por Eurípides. Que o escolhido de Eurynome possa então iniciar seu canto: quem tem ouvidos que ouça!



J. C. Marçal

Recife, inverno de 2004.



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