sábado, 12 de fevereiro de 2011

Comentários Cotidianos


Os amados dos deuses.

No Canto I da Odisséia de Homero, Zeus lastima-se com Palas Atena sobre as reclamações dos seres humanos: “Caso curioso como os mortais censuram aos deuses! Pois, dizem eles, de nós lhes vão todos os males, quando afinal, por sua insensatez, e contra a vontade do Destino, são eles os autores de suas desgraças!”. Mas Atena, a deusa de olhos brilhantes, sente o coração confrangido ao relembrar a sorte do grande Ulisses e pede a Zeus para interferir em seu auxílio.

Há, aqui, dois pontos importantes: 1. Zeus, o deus supremo, reconhece um poder que lhe é ainda maior: o destino. Os gregos sabiam que se a humanidade desaparecesse, os deuses também desapareceriam. Zeus era cioso desta realidade e da necessidade de proteger os gregos. 2. Atena pensa além do dito de Zeus e interfere positivamente na vida de Ulisses, libertando-o de seu cativeiro imposto por Poseidon, fazendo-o retornar à sua terra natal, a ilha de Ítaca.

O destino e a ajuda dos deuses indicam duas polaridades fundamentais: um poder maior que a tudo perpassa e que está na base das tragédias gregas (talvez Édipo seja o maior exemplo disso) e aqueles que são amados dos deuses. Na moral grega, há uma distinção de cunho prático entre o bem e o mal. Mau (kákos em grego) é todo aquele que é escravo, plebeu, que não é senhor de si e que não consegue usufruir dos prazeres da vida. Bom (ágathos) é o senhor, o rico, aristocrata, aquele que vive intensamente os prazeres da mesa e da cama. Os amados dos deuses, portanto, são os bons.

Independente de qualquer crença que uma pessoa possa proferir, creio que bom (já que sempre pensei na Paidéia grega como uma base irrevogável para que possamos viver bem) é aquele que é amado dos deuses e que possui tudo o que lhe é devido, tudo o que deseja, aquele que realiza sua vontade no mundo, é amado de todos e a todos ama, consegue o que quer, vive intensamente e está rodeado de amigos (nunca concordei com essa besteira que dizem por aí de que podemos contar os amigos nos dedos de uma mão. No meu caso, precisaria muito mais do que duas mãos para contar meus amigos verdadeiros).

A célebre frase de Santo Agostinho – e que Crowley transformou no fundamento moral de seu Livro da Lei – é um guia infalível para julgarmos se uma pessoa vive intensamente ou não: “Faz tudo o que tu queres. É o todo da lei”. Assim como Crowley, Agostinho indica que é preciso fazer tudo com amor, ou seja, não se trata de uma licenciosidade vazia, já que fazer com amor indica responsabilidade. Em termos kantianos, poderíamos dizer: faz o que tu queres e o que deves fazer.

A Arte da Intensidade, portanto, seria a arte de fazer o que se quer, senhor de sua vontade, ciente de seu tempo e de sua realidade, amando e sendo amado. Aqueles que reclamam o tempo todo do destino, aquelas pessoas doentes de vontade, aqueles amargurados com a vida e com as pessoas nada mais são do que seres que não são amadas dos deuses. Os amados dos deuses, por seu turno, vivem esteticamente a vida, habitam o pensamento originário e profundo, caminham no mundo com um sorriso esparso, uma alegria contagiante – todos requisitam sua presença e ele, sem muitas delongas, se faz sempre presente: o amor, antes de tudo, é atração!

Lembro-me que na minha adolescência, quando ainda estudava Filosofia na graduação e morava num apartamento na João de Barros, fui visitado por meu grande amigo-irmão Leonardo Neves. No meu quarto havia uma escrivaninha com uma máquina de escrever – pois é, estou ficando velho mesmo – e alguns livros. Sobre a escrivaninha, numa folha de ofício, eu escrevera com letras garrafais uma citação retirada de A Queda de Albert Camus: “Estamos mais ou menos em tudo na vida”. Meu amigo Léo me perguntou por que eu havia escolhido aquela citação em especial. Respondi: “Para me lembrar de nunca viver a vida mais ou menos”. Ele riu e creio que ambos decidimos viver a vida sempre no mais.

A sabedoria dos gregos sempre me ajudou a viver a vida intensamente. Nietzsche, quando entendeu que os sacerdotes judeus nada mais fizeram do que inverter a moral grega, abriu ainda mais os meus olhos para a verdadeira arte suave (não o Jiu-Jitsu, mas sim a própria vida). Lembro-me como li pela primeira vez Walt Whitman e entendi como é importante celebrar tudo. Os gregos conjugavam arte, ciência, sexo e vinho numa única celebração. A vida religiosa e artística da Grécia Antiga sempre foi pontuada pela celebração. A Arte da Intensidade, portanto, possui suas raízes na tradição grega originária.

Na aurora do pensamento, quando os gigantes ainda habitavam entre nós, um fogo superlativo ecoou nos ouvidos da humanidade. Este som, primevo e poderoso, se fez ouvir entre os escolhidos. Aqueles que aprenderam a arte da escuta atenta, aqueles corajosos e senhores de si, entenderam o chamado e saíram para a guerra com uma disposição nova.

Rilke disse que nós vivemos numa eterna despedida. Mas, ao mudar o acento desta constatação, percebemos que só há despedida por que houve um encontro. Se vivemos numa eterna despedida, então vivemos, também, num eterno encontro. Encontramos os prazeres da cama e da mesa, os amigos, lugares e as pessoas amadas. Nós, os escolhidos, somos de uma hospitalidade infinita, de uma jovialidade ímpar, de um poder de atração inigualável. Habitamos o encontro e a despedida, insaciados e saciados, alegres e dispostos: verdadeiros, humanamente verdadeiros.

É um som muito denso que se faz ouvir lá fora. No meu poema “Souvenir para uma lembrança”, eu já havia dito: “É a vida, essa desconhecida, que insiste sempre em nos agradar”. Desconhecida, aqui, significa o mesmo que misteriosa. E, neste mistério, apenas os escolhidos poderão ser agradados.

Incipit Tragoedia: Que assim seja!

.

Meus Poemas

Um canto em uma língua



Na obscuridade do Universo

há mais luz que em toda a casa

e uma força que dormia no guarda-sapatos

envolvia a janela de uma extensão à outra

corria as escadas, quedava-se com as mulheres.



Formosa, elevou-se sobre si mesma, a luz

respondeu aos apelos das crianças

que brincavam de cabra-cega no quintal.



Saudaram-na as mãos do dia

essa esperança que temos, todos nós,

como uma vasta biblioteca errante -

gritos contínuos

silêncio perturbado

que se apinhavam sobre a casa

sobre a terra e seus segredos

a porta fechada

um sorriso de embaraço -

e os vestidos das mulheres

com seus mistérios e ventanias



Essa esperança de volvermos

sobre o hiato do dia

e vermos a noite correta.



A fumaça de um café

domina a sala, e segue

uma graça tímida, ativa

impregna as coisas e ouvimos

- O que queres?



Há tempo, sim, há tempo

para tantas perguntas em um só dia?

Trotando com os olhos cerrados

todavia, a luz pareceu quedar-se

porém ninguém a ajudou, e ela volveu

retornou sobre a mesma fumaça

do mesmo café do mesmo dia

invadiu a vista das crianças

esfregando os vestidos das mulheres

sorriu com alegria e disse:

- Seja um novo dia.

E a porta aberta estendeu-se

trouxe uma outra extensão

de uma outra saudação

- quedar-se está sempre mais cheio

de um branco que reclama

um benfeitor -

entretanto, pensava eu

na metafísica das janelas

das crianças e das mulheres.



Gritaram: - Não acedam as luzes!

Mas ao abrir as janelas

ao abrir as artérias do dia

e os segredos das mulheres

a luz sem dúvida se acercou

escravizou o dia em estátuas de fogo

desposou as mulheres com línguas de fogo

e fogo tornaram-se as meninas

da comarca e as esposas todas

pereceram no fogo daquele dia.



Até a manhã volveu o silêncio

Os braços do dia quedaram-se de cansaço

e podemos nos despedir

mentir

a boca aberta

um retrato

mas apenas

onde as portas

extraem a luz

podemos correr as escadas abaixo

cheios de alegria, contentamento

sem regras estúpidas.

.

Hai Kais

Solidão


                                                     Torres de marfim

      Sobre um mar de cristal

                                             Imóvel
                                                    Branco
                                                                 De nuvens

                                              E esfinge.



Morte




                                                   O orvalho invade

                                                                       A quietude

                                                                                   Da manhã

                                                Corrompe a virgindade

                                                              Das flores
                                                                           E sempre retorna.



Dúvida



                                                       Uma tempestade furiosa

                                                       Abate-se sobre o navio

                                                        É uma morte certa.


                                                       Mas quem acreditaria?



                                                                       Luz



                                                        É antevê a tempestade.


                                                                      Amor



                                                      São graus:

                                                          Quando um filho

                                                               No torpor

                                                                   Ecumênico da noite

                                                                             Chama pai

                                                         E escutamos.

Meus Contos


Os Lusíadas

Numa vila perdida no Oeste africano, onde o calor é sempre pressão e os animais são maiores do que nossos piores pesadelos, é muito natural que um menino veja a morte como um gigante negro, cingido na cintura por um cinturão de crânios, nu como a noite, dentes brancos e enormes, olhos aterradores, um bafo mortal, cabelos desgrenhados como serpentes negras – e se há uma fala, esta estronda como um trovão impossível de uma tempestade também impossível – brincos em argolas e mãos tão desproporcionais que se poderia ficar na dúvida de como a morte conseguia servir-se delas. Se há fome, e como não haver fome onde o fogo e a água são inimigos mortais, a morte torna-se uma presença já costumeira, quase como uma visita que ansiamos ter em nossos lares.

Nessa morte não há armas e nem brasões assinalados, e nem se cala a fama de Trajano e Alexandre: o que há, e eis uma constante nessa equação de uma sublime matemática, é a indiferença: o esquecimento. A História – esse campo em que a vida privada da humanidade torna-se um fragmento contínuo, uma vez que temos que entender o passado como uma extensão ela mesma fragmentada do presente e onde a morte é sempre uma casa muito habitada e coroada de glórias ilusórias – encarrega-se de dar determinada coloração à mente moderna do que foi registrado como coisa ocorrente. Entretanto, vislumbrando cada momento do mundo como um conjunto de existências, eis que devemos entender a História como o conjunto de lacunas deixadas pela observação dessas existências em conjunto. História é sempre uma idéia do passado no presente. Como o passado nunca é – como algo pode ser se não for no presente – percebemos que a História é uma idéia do presente no presente. Mas o primeiro presente é uma extensão da multiplicidade da unidade do segundo presente. Assim, e estamos quase elaborando uma Ontologia da História e esse não é nem de longe nosso intuito ou interesse, só há passado na historicidade do presente sem o que o primeiro simplesmente nem mesmo seria. A abertura do presente para sua existência se dá no movimento de suas revoluções para existir: o passado traduz-se como uma dessas manifestações de seu existir. Se pudermos levantar a hipótese de uma desfragmentação dos fatos históricos, deveríamos entender duas coisas: se Vasco da Gama, o forte Capitão – e eis nosso exemplo mais importante para que possamos seguir com nossa estória – já não existe mais como pessoa concreta, como uma existência tangível, e o mesmo pode-se inferir de seus pequenos batéis com largas velas, se Vasco da Gama, como dizíamos, não é, então sobre exatamente o quê estamos falando quando queremos dizer Vasco da Gama? Se dissermos Vasco da Gama, estamos nós com um pé no passado? Mas se o passado não é e nós, de fato, estamos com o pé em algum lugar, onde então se dá Vasco da Gama? Por conseguinte, temos a segunda questão: desfragmentação é uma lei constante da natureza ou um fato do pensamento? Talvez devêssemos evocar o grão Tebano para nos ajudar a solucionar esse enigma que paira entre duas órbitas justapostas que dizem o mesmo.

Quando dizemos: Vasco da Gama recebia alegremente os mouros, estamos agindo no único campo possível de consecução de qualquer lei: a Mente. Vasco da Gama, então, passa a ganhar um lugar, a Mente. Já não estamos mais falando de um fantasma impalpável com correntes rangendo, mas sim de um fato ocorrente à Mente: a figura de Vasco da Gama recebendo alegremente os mouros. A existência do fato é a existência de seu presente. A desfragmentação nada mais é do que a Percepção compreendendo esse imenso oceano da Mente por setores, por pequenos mares, mas isso como uma lei mesma ditada pela própria Mente. Se pudéssemos fotografar precisamente cada instante da queda da maçã sobre a cabeça de Newton, teríamos sempre algo faltando: o hiato de uma existência à outra. Esse hiato está presente em tudo exceto na compreensão imediata da Percepção que trabalha num organum propriamente desfragmentado. Se dermos um conjunto a um presente – e só há um e único presente – é devido à capacidade da Percepção de entender o presente como presentes. O hiato, que nada mais é do que o triângulo invisível que rege a verdadeira imobilidade do presente, desaparece para que tudo seja movimento, fragmentação, e História. Na Natureza, a desfragmentação corrompe o oceano virginal do presente com categorias que são inerentes à manifestação deste mesmo triângulo: o um, o dois e o três. O quatro é o presente enquanto movimento! A História é quatro, mas seu corpo existencial é Dez. O eterno retorno é uma simples metáfora ainda muito mal entendida sobre a resolução do Dez de ser Um. Desta forma, podemos dizer que Vasco da Gama é e não nos sentimos desnorteados como o perdido Ítaco.

Na vida, a morte tem bebido. Aqui se fecha todo o sentido da História. Se não houvesse a morte, não haveria História. E como a morte é sempre no futuro, a História torna-se importante. Observemos: a morte é para o futuro como desfragmentação de um presente que se lança a si mesmo sobre mais uma lacuna de sua própria desfragmentação: o futuro. Todavia, a historicidade da morte tem suas bases no passado. A morte só é para mim enquanto experiência da morte do outro e, pelo mecanismo da identidade presente em toda natureza, o meu presente se adorna de passado, a morte do outro, e se lança ao futuro, a minha morte. A História, portanto, sendo a gramática da morte, debruça-se sobre um passado que não é para tentar compreender um futuro que jamais será. Podemos perguntar: não há, desta maneira, a História? Sim, é a única resposta. A historicidade de qualquer existência não é História, ela é sempre a-histórica por resolver-se sempre em seu presente. O que foi feito ontem – uma procelosa tempestade, por exemplo – só existe como extensão de meu presente e não como existência real no passado, visto que este não é. Se foi, só o foi para o presente, daí ser. O que é só o é no presente. As Norns são trigêmeas de um mesmo corpo que se distende em sua triplicidade. Mas não falamos que tudo é uma resolução do triângulo da imobilidade? Se pudermos ver o lume vivo que a marítima gente tem por santo, vemos que sua concretude é uma tempestade chamada presente.

O presente e a História podem se parecer como aquelas terras inóspitas em que os argonautas adereçam suas pesadas âncoras com um bater mais acelerado dos corações: o futuro, a morte, é a desfragmentação no estágio mais evoluído.

Dizendo: Netuno, não te espantes de Baco em teu Reino receberes, estamos trazendo um conjunto de vida e morte em uma mera e simples frase. Não estamos mais apenas evocando os mortos, esse presente que nos parece distante, mas evocamos, outrossim, as idéias desses mortos. Baco e Netuno – e ainda mais o seu Reino – não são mais gentes, são a Mente que se doa a si mesma no mais belo de si mesma. Daí nosso êxtase histórico quando evocamos os deuses: nos aproximamos da realidade do presente colocando o passado e seu poder devastador em uníssono com o futuro – não é uma potência igualar-se aos deuses e a tudo poder e conhecer – num campo de realização que se dá em nossa mente, em nosso presente. Histórico é todo movimento de distensão do presente que, em outros termos, foi mui elaborado como historicidade. O mundo é sempre tudo o que ocorre para a consciência como Atualidade Relativa e para o presente como Atualidade Absoluta. Sigamos, nós todos, na ira geração que o mar coalha com seu poderio indevassável, sigamos todos nós para o presente. Assemelhemo-nos ao Giraldo Sem-Pavor cujo peito forte invade a torre da cidade e lança fora a cabeça do vigia. Eis o guardião de nosso presente, eis o Cérbero mais violento, tu, ó História, mãe e pai de tudo o que somos e nunca deixaremos de ser: deuses!

E mesmo que as metas austrinas da Esperança Boa tragam em suas naus a irmã da Filosofia, a Ética, como poderemos afirmar, nesse mar de contrastes e contradições, o que vem a ser o bem e o mal? Dizemos: os portugueses devastaram continentes. Dizemos: os índios devastavam-se entre si. Dizemos: os amarelos devastavam toda a terra. Dizemos: há devastação. A História sempre clama pelo nosso presente. Somos devastadores, filhos do caos e da noite escura. Não há bem ou mal, há História.

No silente espaço de nossas resoluções, filhos orbitais que somos da dúvida e da luxúria, como esquadrinhar o inumano no humano da Mente? Reconheçamos o canto a Deusa pelo mar que o Gama abrira – e abre.

Nossa lira não se destemperou ou se tornou enrouquecida; somos as próprias naves de nosso próprio oceano, e o passado ou o futuro são os algozes de nossas medidas. Não seja a História o quinhão mais bravo de nossas derrocadas. Assumamos que somos devastadores, todos nós. Mas assumamos, também, que nossa verdadeira mãe, a Natureza, já não reconhece seu filho dileto. Há morada para tamanha lusíada? Há segredos para tantos navegantes?

.

Escritos dos Amigos

O Ser dança

por Flávio Minno



Dor invulnerável das premonições das tragédias:

enquanto tudo busca a qualidade do incólume,

há um deus perdulário enodoando a tudo,

irrompendo as tormentas e as tempestades.


Ele, cego para sua própria essência, me propõe o enigma,

os dedos cravados no inverso, longe da indulgência.

Sei que a doença é dos deuses; o vírus dos deuses é o

delírio.

Em frente à parede fria desta estrutura, o Ente,

o Ser esquivo, já se preparava para a dança,

eis que o eterno é noturno, é árduo e intentado.

.

Escritos dos Amigos

O bêbado e o seu mercado por Jairo Lima

Nas tardes modorrentas de Natal o Mercado de Petrópolis era o Taj Majal do silêncio e do vazio. Abertos, só eu, com o sebo e bistrô Kriterion e o bar do Gilmar; ele com alguns poucos, mas fidelíssimos clientes, eu com as moscas. De manhã, ainda aparecia algum cliente para comprar uma frutinha, uma carne de sol, ou para tomar uma cervejinha gelada ou ainda um café com tapioca na Dalila. A partir das onze e meia da manhã, começava o ruído metálico das grades dos boxes se fechando. O abandono zunia como vespas aprisionadas, e só a presença de uma ou outra gata prenha, um ou outro cachorro vadio, um ou outro papudinho, amenizava a devoção ao nada dos grandes cemitérios.

Eu era vidrado nos papudinhos. Eram uns cinco – coitados, quase todos morreram no mesmo ano; como todo bêbado, seres solenes e territorialistas. Bebuns de outras plagas eram expulsos sem compaixão, preservando severamente de alienígena contaminação a sua trêmula e zelosa confraria. Ah, já não lembro os nomes. Foram morrendo um a um, ou melhor, aparecendo mortos dentro do próprio mercado, pois era lá que viviam. De tão ciosos de sua individualidade, cada um morria de sua própria doença, como se algum destino inescrutável quisesse ilustrar com suas mortes um manual de patologia clínica.

A decadência do Mercado de Petrópolis era leitosa e macia. Faltava-lhe a impostação das grandes tragédias. O mercado morria em miúda intimidade, balbuciante, voltado para dentro, prostrado, em silêncio.

Os papudinhos um dia foram chamados ébrios. Palavra tão doce, redonda e alevantada que servia até para pai de família. Ébrio. Vicente Celestino marmorizara o termo, dera-lhe contorno trágico e tessitura poética. Ao ébrio, como aos grandes trágicos, não o conduzia o sentido comum do prazer, mas, antes, a carga inexorável da dor, sobretudo, ah, sobretudo a dor da traição. Por trás de todo ébrio havia uma mulher quenga e fatal. Não eram fantoches do destino. Eram deuses trêmulos, voluntariosos e veneráveis. Para eles se erguia o hinário da cantiga popular, em todos os altares, mercados e rimas: Vá embora, pois me resta o consolo e a alegria de saber que depois da boemia é de mim que você gosta mais.

Tiêta era ébrio, gostava de cachaça e do seu companheiro, que por falha inaceitável da memória aqui deixo anônimo. Era uma celebridade. Não a celebridade vazia dos amadores dos popismos culturais. Celebridade mesmo. Com C maíúsculo. Ex-presidiário, vivia com seu companheiro, a quem a dignidade de bêbado titulava para afeição eterna. Eram inseparáveis. Viviam ao léu, como lhes dava na telha. Em tempos passados, dizia-se, tiveram um quartinho ali pelas cercanias do mercado, mas quando os conheci, viviam da severa generosidade de Tia Deja, mulher solar e inteira, mãe e avó de muitos, cozinheira como poucas; tia Deja lhes dava o que comer; os centavos que pingavam aqui e ali lhes prodigalizava a cachaça a quem consagravam os incensos do dia.

Eram criaturas de silêncio. Quase não falavam entre si, exceto para uma comunicação urgente, inadiável, essencial. Viviam sempre juntos, por ali, dormindo nas portas do mercado ou, nos dias de calor mais intensos, tirando a madorna na calçada larga que dava para o bairro de Mãe Luiza. Eram, como dizia, criaturas de silêncio: às vezes, quando muito tocado, ouviam-se uns berros de Tiêta, guturais, herméticos, cifrados; do companheiro, nem um piu. Não brigavam. Não discutiam. Não reclamavam. E deixavam a neurastenia da vida para as novelas da televisão e os noticiários. Ali estavam e eram dois. Bastavam-se.

Diante deles só era possível a contemplação, como se fossem obras de arte. Não eram interativos. Não eram lúdicos. Não pediam nem davam pena. Eram carne, nervos, ossos monumentalizados pela solidão.

Um dia o companheiro morreu. Ou melhor, uma noite. Ou, ainda, uma noite de boleros, com casais rodopiando no cimento da praça de alimentação.

Desenganem-se os enamorados; o bolero foi feito para morrer.

E ele, inominado nesta croniqueta por escassez de juízo do cronista, morreu tão se apagando lentamente que ninguém notou; finda a festa, o baile passou por ele indiferente, julgando-o adormecido. Um bêbado adormecido. No dia seguinte, como já fosse tarde, alguém se aproximou para ver seu olhar opaco, crivado de brumas, fixo, doce, inalterado. Alarmou. Cadê Tieta? Cadê Tieta?

O pobres e desvalidos desdenham de sinos e catedrais para morrer; basta-lhes um tremelicão, espichar os ossos, apagar o lume dos olhos e ei-los embarcando para o curto período de memória que antecede a sua morte definitiva, quando ninguém sequer lhes lembra o nome. A memória de uma vida de bebum é tão nublada e cambaleante que nem chega no Alecrim.

Cinco e vinte da tarde


Fecho a Kriterion, de tardinha, e saio pela porta do fundo. O dia escurecia e sangrava. Tiêta, em pé, olhando para o alto, não me viu passar, não respondeu ao meu boa noite. Voltei-me, encarei-o. Ele não me viu nem mesmo assim, perfilado à sua frente, encarando-o. Ali estava, perplexo com a dimensão vazia da sua dor. Como se tivesse morrido em pé.

A luz da tarde que se apagava, tremia.

Aquele olhar inerte desdenhava das nuvens ensanguentadas que encenavam sua primeira noite de saudade, como se ali, naquele céu de opereta, houvesse um deus a quem amaldiçoar.

O Mercado de Petrópolis é o olhar de Tieta, vazado de trevas, perfurando a tarde, a solidão, o vazio.

Logo depois, Tiêta desaparecia do mercado para aparecer no jornal, numa foto implausível.

Limpo e barbeado, pasteurizado pela generosidade doce e equivocada de algum benfeitor, parecia o busto de si mesmo.

Estava mais morto que o seu morto.

O jornal indagava de sua família. Ora, éramos nós. Um dia, alguém foi buscá-lo e ele retornou ao mercado, à cachaça, à sujidão, aos gritos, à vida intensa e descuidada. Era o Tiêta de sempre. De diferente só o olhar, esmagado de saudade.

.

Pinturas

O Livro do Prazer

Autoretrato com dragão.

Aida.

Osman Spare é um pintor sui generis. Sua pintura, muito mais do que Blake, quer traduzir o conteúdo de suas experiências místicas. Spare é conhecido por desenvolver um sistema de magia intitulado Zos Kia Cultus e que tem como base seu livro O Livro do Prazer.

Nascido na Inglaterra, Spare afirmava que desde cedo mantinha contato com o mundo invisível. Sendo instruído por uma feiticeira – como ele mesmo relata – descobriu que possuía como guardião um índio que o orientava nas suas descobertas do mundo espiritual.

Seu sistema de magia era fundamentado na escrita automática, ou seja, na busca pela escuta do dizer do inconsciente. Influências do Taoísmo e do Budismo se fazem sentir em suas ideias, mas Spare possui voz própria e aponta para direções que podem ser confundidas com magia negra, já que, antes de tudo, é o prazer o centro de suas realizações mágicas.

Há diversas estórias sobre os feitos mágicos de Spare. Uma delas conta que um de seus amigos duvidou que ele pudesse ler sua mente. Spare pediu que ele pensasse num objeto. Quando o amigo acabou de pensar, o criado de Spare entrou na sala com um par de sapatos: o objeto que o amigo havia pensado. Outra conta que a embaixada alemã, impressionada com o estilo do artista, pediu que o mesmo fizesse o quadro de Hitler e o levasse pessoalmente ao Führer. Spare fez o quadro, mas o enviou pelos correios à embaixada. Hitler ainda não havia iniciado a guerra. No topo da pintura, Spare havia escrito: “Enviar para o homem que quer ser o mestre da Europa e dominar a humanidade”. Hitler e seus asseclas, assim conta o jornalista inglês Hannen Swaffer, ficaram indignados com a ousadia do pintor.

Seja como for, os quadros de Spare são originais, primando pelo grotesco, o inusitado, com formas e cores de uma intensidade peculiar. Suas ideias transparecem claramente em seus quadros, onde o mundo invisível trafega tranquilamente em direção ao mundo visível.

Esta tradição, que possui em Bosch e Blake grandes mestres, encontra em Spare uma voz inovadora. Pintor de si mesmo, de suas experiências e crenças, Spare conseguiu o que todo artista ocidental busca: seu próprio estilo.

.

Filmes

A Casa que Pingava Sangue de Perter Dufell

Reconheço que o filme A Casa que Pingava Sangue (The House that Dripped Blood) de Peter Dufell possui um título que, à primeira vista, pode desanimar. Estranho é que o filme em si não combina muito com o título. Dufell escolheu quatro estórias de terror – no melhor estilo Poe – escritas por Robert Bloch tendo como centro uma casa no interior da Inglaterra. As quatro estórias são: Assassinato por escrito, Museu de cera, Doces para um doce e O manto.

A Amicus Produções é famosa por filmar este gênero de filmes no interior da Inglaterra. Belas paisagens e um clima soturno estão sempre presentes nestas produções. Desde a infância que sou fascinado por filmes antigos cujo “personagem” principal é uma casa antiga. Portas altas, janelas bem trabalhadas, escadas, quadros, mobília antiga e papel de parede compõem o cenário mais que apropriado para uma boa estória de terror.

A produção de Dufell ainda conta com a excelente trilha sonora composta e regida por Michael Dress, além de estrelas como Christopher Lee (meu ator favorito no gênero) e Peter Cushing. Lee, de fato, consegue dar peso a qualquer filme – e aqui me lembro do magistral O Homem de Palha já devidamente postado neste Blog. Os personagens de Dufell são aristocratas ingleses que decidem alugar uma bela casa no interior. O que eles não sabem é que a mesma possui um poder único: transforma em realidade o mais fundo da alma de seus moradores e é aí que entra o caráter sinistro do filme.

Dufell ainda acrescenta um pouco de sarcasmo e comédia à película. O hilário e o terrível convivem lado a lado. O manto, por exemplo, exagera nesta conjugação. Mas Doces para um doce e o Museu de cera acertam em cheio. São estórias prosaicas, destituídas de uma busca por um sentido maior: trata-se da boa e velha diversão que o cinema de qualidade sabe produzir tão bem.

Minha recomendação se dá pelo fato de que está produção de 1970 possui um clima especial: uma casa bela e antiga, um interior vitoriano, clima de campo inglês, personagens interessantes e desfechos que podem ser hilariantes ou trágicos. Para quem é fã de Poe, trata-se de um filme imperdível.

Eis o link para baixar no Blog Deadly Movies:

http://deadlymovies.blogspot.com/2009/11/casa-que-pingava-sangue.html

.

Escritos Filosóficos

§1. O Paradigma Quântico

No final do século XIX, toda fenomenologia natural era explicada pela mecânica newtoniana, o eletromagnetismo de Maxwell e a termodinâmica. Como as pesquisas de Richelson, Morley e Planck pareciam não obter resultados positivos com este enorme edifício conceitual-científico, surgiram duas novas vertentes: a teoria da relatividade e a física quântica.

O meio científico acreditava na causalidade e numa realidade objetiva da Natureza. Entretanto, num sistema quântico podemos observar um estranho paradoxo. Imagine elétrons sendo acelerados para atingir uma superfície B após passar pela chapa A . Só que em A há duas aberturas antes do elétron atingir B e só temos um elétron passando por vez. O que ocorre de interessante neste experimento é que o elétron não se comporta de modo uno – como se fosse uma unidade corpuscular bem definida em termos de limite material –mas sim de modo ondular. Isto parece indicar que o elétron não se trata meramente de um corpúsculo. Isto pode ser representado por uma caixa com duas saídas na sala A para outro recinto, sala B, em que teríamos a aceleração inicial do elétron em A, sua passagem de modo “duplo” antes de atingir o alvo, B.

Deste modo, parece que a lógica da física clássica se vê ferida, pois só há duas possibilidades: 1. o elétron passou por uma fenda ou outra ou 2. passou por uma e outra, o que estaria em desagravo com a idéia de corpúsculo. Este problema se chama o dualismo onda-corpúsculo. Foi Niels Bohr quem no início do século XX estabeleceu o paradigma quântico a partir desta problemática. O esquema inicial, estipulado por Bohr, pode ser assim representado por uma onda 1 se "fragmentando" na passagem da sala A para a sala B em onda 1 e onda 2.
Segundo Bohr, os sistemas quânticos são duais: possuem propriedade de onda e de corpúsculo .

Entretanto, o problema ainda estava longe de ser resolvido. Jean Morlet, trabalhando na prospecção de petróleo, descobre a necessidade de redesenhar o conceito de onda e chega à compreensão da onda gaussiana . Esta descoberta conduz à idéia de que a partícula quântica é feita tanto de uma região externa – uma onda de fraca energia – quanto por um corpúsculo. Deste modo, verificou-se que seria possível isolar ondas guias que não possuíssem nenhum corpúsculo.

O experimento da sala A e B ganha uma nova dimensão de interpretação. Estas ondas sem corpúsculos respondem por ondas sem regiões singulares, com pouquíssima energia. Porém, não se pode isolar a singularidade de uma onda guia. Logo, “a partícula quântica emitida pela fonte, formada pela onda guia externa mas finita, transporta no seu seio o corpúsculo extremamente localizado. Ao chegar ao anteparo, acontece que a onda guia como é externa passa pelos dois orifícios ao mesmo tempo. A singularidade, de pequeníssimas dimensões, passa por um ou outro orifício, seguindo incorporada numa ou noutra onda” .

Esta teoria é interessante: é como se um gato passasse por uma árvore e suas pegadas ficassem de um lado e do outro, ou seja, as patas direitas de um lado e as esquerdas de outro, sendo as pegadas as ondas. Mas esta teoria não implica num grande e acabado indeterminismo?

Planck, Einstein, Schrödinger e Broglie foram alguns dos cientistas da época que refutaram tal indeterminismo. O exemplo célebre é o gato de Schrödinger. Se tivéssemos um gato dentro de um recipiente e uma abertura em que uma espingarda fosse disparar e houvesse duas aberturas, quando do disparo da arma uma abertura portaria o projétil e mataria o gato, a outra não. Não parece que seja o observador a indicar onde tal indeterminação ocorreria, uma vez que ou o gato estaria morto ou não quando se abrisse a caixa – seria uma questão “real”, não relacionada com a questão subjetiva da observação.

Fourier tentou dar uma resposta satisfatória a tal problema . Para este cientista, toda função pode ser expressa como a soma de senos e co-senos, ou seja, de ondas planas harmônicas. Uma partícula poderia ser descrita como uma composição destas ondas. O problema é que a teoria de Fourier estava mais para a matemática do que para física. Sabe-se que ondas físicas reais são finitas, possuem limite. No caso do paradigma de Bohr, só a soma de um número muito grande de ondas harmônicas é que poderia dar origem a duas partículas. Assim, as partículas seriam da mesma natureza, já que a separabilidade das ondas seria apenas ilusória. Logo, pode-se inferir logicamente que o movimento e a separabilidade dos sistemas são apenas uma ilusão criada por nós.
§2. O princípio da incerteza de Heisenberg

“O princípio da incerteza de Heisenberg consiste num enunciado da mecânica quântica, formulado inicialmente em 1927 por Werner Heisenberg, impondo restrições à precisão com que se podem efetuar medidas simultâneas de uma classe de pares de observáveis. Pode-se exprimir o princípio da incerteza nos seguintes termos: o produto da incerteza associada ao valor de uma coordenada xi e a incerteza associada ao seu correspondente momento linear pi não pode ser inferior, em grandeza, à constante de Planck normalizada.

A explicação disso é fácil de se entender, e fala mesmo em favor da intuição, embora o raciocínio clássico e os aspectos formais da análise matemática tenham levado os cientistas a pensarem diferentemente por muito tempo. Quando se quer encontrar a posição de um elétron, por exemplo, é necessário fazê-lo interagir com algum instrumento de medida, direta ou indiretamente. Por exemplo, faz-se incidir sobre ele algum tipo de radiação. Tanto faz aqui que se considere a radiação do modo clássico - constituída por ondas eletromagnéticas - ou do modo quântico - constituída por fótons. Se se quer determinar a posição do elétron, é necessário que a radiação tenha comprimento de onda da ordem da incerteza com que se quer determinar a posição.

Neste caso, quanto menor for o comprimento de onda (maior freqüência) maior é a precisão. Contudo, maior será a energia cedida pela radiação (onda ou fóton) em virtude da relação de Planck entre energia e freqüência da radiação e o elétron sofrerá um recuo tanto maior quanto maior for essa energia, em virtude do efeito Compton. Como conseqüência, a velocidade sofrerá uma alteração não de todo previsível, ao contrário do que afirmaria a mecânica clássica.

Argumentos análogos poderiam ser usados para se demonstrar que ao se medir a velocidade com precisão, alterar-se-ia a posição de modo não totalmente previsível. Resumidamente, pode-se dizer que tudo se passa de forma que quanto mais precisamente se medir uma grandeza, forçosamente mais será imprecisa a medida da grandeza correspondente, chamada de canonicamente conjugada.

Algumas pessoas consideram mais fácil o entendimento através da analogia. Para se descobrir a posição de uma bola de plástico dentro de um quarto escuro, podemos emitir algum tipo de radiação e deduzir a posição da bola através das ondas que "batem" na bola e voltam. Se quisermos calcular a velocidade de um automóvel, podemos fazer com que ele atravesse dois feixes de luz, e calcular o tempo que ele levou entre um feixe e outro. Nem radiação nem a luz conseguem interferir de modo significativo na posição da bola, nem alterar a velocidade do automóvel. Mas podem interferir muito tanto na posição quanto na velocidade de um elétron, pois aí a diferença de tamanho entre o fóton de luz e o elétron é pequena. Seria, mais ou menos, como fazer o automóvel ter de atravessar dois troncos de árvores (o que certamente alteraria sua velocidade), ou jogar água dentro do quarto escuro, para deduzir a localização da bola através das pequenas ondas que baterão no objeto e voltarão; mas a água pode empurrar a bola mais para a frente, alterando sua posição.

Como se pode depreender da argumentação acima exposta, a natureza de uma medida sofre sérias reformulações no contexto da mecânica quântica. De fato, na mecânica quântica uma propriedade leva o nome de observável, pois não existem propriedades inobserváveis nesse contexto. Para a determinação de um observável, é necessário que se tenha uma preparação conveniente do aparato de medida, a fim de que se possa obter uma coleção de valores do ensemble de entes do sistema. Se não puder montar, ao menos teoricamente (em um Gedankenexperiment) uma preparação que possa medir tal grandeza (observável), então é impossível determiná-la naquelas condições do experimento.

Uma comparação tornará mais clara essa noção. No experimento de difração da dupla fenda, um feixe de elétrons atravessando uma fenda colimadora atinge mais adiante duas outras fendas paralelas traçadas numa parede opaca. Do lado oposto da parede opaca, a luz, atravessando as fendas simultaneamente, atinge um anteparo. Se se puser sobre este um filme fotográfico, obtém-se pela revelação do filme um padrão de interferência de zonas claras e escuras. Esse resultado indica uma natureza ondulatória dos elétrons, resultado esse que motivou o desenvolvimento da mecânica quântica. Entretanto, pode-se objetar e afirmar-se que a natureza dos elétrons seja corpuscular, ou seja, composta de fótons. Pode-se então perguntar por qual fenda o elétron atravessou para alcançar o anteparo. Para determinar isso, pode-se pôr, junto de cada fenda, uma pequena fonte luminosa que, ao menos em princípio, pode indicar a passagem dos elétrons por tal ou qual fenda. Entretanto, ao fazê-lo, o resultado do experimento é radicalmente mudado. A figura de interferência, antes presente, agora dá lugar a uma distribuição gaussiana bimodal de somente duas zonas claras em meio a uma zona escura, e cujos máximos se situam em frente às fendas.

Isso acontece porque as naturezas ondulatória e corpuscular do elétron não podem ser simultaneamente determinadas. A tentativa de determinar uma inviabiliza a determinação da outra. Essa constatação da dupla natureza da matéria (e da luz) leva o nome de princípio da complementaridade. Essa analogia serve para mostrar como o mundo microfísico tem aspectos que diferem significativamente do que indica o senso comum.

Para se entender perfeitamente o alcance e o real significado do princípio da incerteza, é necessário que se distingam três tipos reconhecidos de propriedades dinâmicas em mecânica quântica:

1. Propriedades compatíveis: são aquelas para as quais a medida simultânea e arbitrariamente precisa de seus valores não sofre nenhum tipo de restrição básica. Exemplo: a medição simultânea das coordenadas x, y e z de uma partícula. A medição simultânea dos momentos px,py e pz de uma partícula.

2. Propriedades mutuamente excludentes: são aquelas para as quais a medida simultânea é simplesmente impossível. Exemplo: se um elétron está numa posição xi, não pode estar simultaneamente na posição diferente xj.

3. Propriedades incompatíveis: são aquelas correspondentes a grandezas canonicamente conjugadas, ou seja, aquelas cujas medidas não podem ser simultaneamente medidas com precisão arbitrária. Em outras palavras, são grandezas cujas medidas simultâneas não podem ser levadas a cabo em um conjunto de subsistemas identicamente preparados (ensemble) para este fim, porque tal preparo não pode ser realizado. Exemplos: as coordenadas x,y e z e seus correspondentes momentos px,py e pz, respectivamente. As coordenadas angulares θi e os correspondentes momentos angulares Ji.

A descrição ondulatória dos objetos microscópicos tem consequências teóricas importantes, como o principio da incerteza de Heisenberg. O fato de os objetos microscópicos, em muitas situações, terem uma localização no espaço mesmo que aproximada, implica que não podem ser descritos por uma onda com um só comprimento de onda (onda plana), pois esta ocuparia todo o espaço. É necessária uma superposição de comprimentos de ondas diferentes para se obter um "pacote" de ondas mais bem localizado e que represente o objeto microscópico” .
§3. Salto quântico

Imaginemos um experimento. Numa caixa A é separado os spins de um determinado átomo. Sabe-se que os spins giram em dois sentidos: para cima ou para baixo. Se o spin 1 gira no primeiro sentido, o spin 2 obrigatoriamente gira no outro sentido. Mas imagine que na caixa A fica apenas o spin 1 do átomo X, enquanto numa caixa B se coloca o spin 2 deste mesmo átomo. Separamos os spins de um mesmo átomo em espaços diferente e eles mantêm o mesmo sentido de seus giros originários. Mas a experiência consiste em alterar o movimento do spin 1. Ora, parece que incialmente o spin 2 não tem nada a ver com o movimento do spin 1 se este foi separado do átomo X. Se mudamos o movimento giratório do spin 1, parece que isto nada tem a ver com o movimento do spin 2. Mas a questão é exatamente esta: ao mudarmos o sentido do spin 1 que agora se torna assim para cima , o movimento do spin 2 muda também ao mesmo tempo, tornando-se igual ao movimento original do spin 1. A questão que se coloca é: como o spin 2 soube que havíamos mudado o movimento do spin 1? É para dar conta deste problema que Einstein desenvolve a Teoria das Cordas.
§4. Teoria das Cordas.
A Teoria das Cordas se assemelha e muito aquilo que os gregos da Antiguidade chamavam de Éter universal, ou seja, o corpo cósmico do Universo onde todas as coisas brotam e se movem, vivendo, permanecendo e se extinguindo. Para Einstein, há uma manifestação única de energia no Universo que se entrelaça em si mesmo através de campo de energia que compõem uma enorme teia cósmica. Esta teia cósmica seria o mesmo que as cordas. Assim, o surgimento de qualquer ente – uma entidade individuada, como por exemplo uma estrela – nada mais seria do que uma aglomeração específica de energia num determinado local destas cordas. Esta individualidade brotaria da confluência energética destas cordas.

Einstein – na sua teoria da relatividade geral – afirma que o espaço comprime e distorce em curva na aproximação da matéria/energia. Isto ocorre porque aquilo que Einstein entendia como o corpo cósmico do espaço universal seria a própria energia. Inicialmente, há dois tipos definidos de energia: 1. energia potencial (Ep = m.g.d) que é o produto da massa, da constante gravitacional do local e da distância e 2. energia cinética (Ec = ½.m.v2) que é o produto da massa e da velocidade de sua expansão. Podemos pensar, então, a força gravitacional como uma interação entre a matéria e sua expansão ou manifestação. A estrutura pentadimensional do Universo advém – nestes termos – da regularidade com que a energia assume forma. Energia sempre é onda – vibração. Sua propriedade particular é que enquanto onda, a energia produz matéria, ou seja, a densidade específica de seus níveis vibratórios. Mas há também o percurso inverso: toda matéria produz também uma onda/vibração específica.

Vale salientar que nesta teoria de Einstein que a massa e o movimento determinam aquilo que se convencionou chamar de estado geométrico do espaço e do tempo dentro da Física quântica. Mas ainda: Não há uma alteração da energia existente dentro de um determinado tempo cronológico. O somatório da energia em um dado momento X será o mesmo num dado momento Y, o que altera no manifesto não é a quantidade de energia, mas sim sua distribuição, ou seja, o seu deslocamento. O que Einstein quer nos fazer ver é que há um campo energético que funda tudo aquilo que é – e que se entrelaça nas curvas de suas ondas, assinalando para uma imensa teia cósmica. Assim, estes “campos eletromagnéticos” nada mais seriam do que entidades físicas independentes que possuem a qualidade de movimento.

Na questão que levantamos anteriormente, deve-se esclarecer que as trocas compartilhadas de energia entre as estruturas energéticas do átomo se operam através dos elétrons – o salto de uma órbita a outra, o que lhe permite emitir ou absolver determinada quantidade de energia. Mas é próprio de cada átomo possuir aquilo que os cientistas definem como eletronegatividade, ou seja, o poder que cada átomo tem de atrair para si o elétron compartilhado com outro átomo. O processo é indicado pela fórmula Q = m.c.t, onde Q é o calor liberado ou absorvido, m é a massa do todo do sistema envolvido, c é o calor específico deste sistema e t responde pela variação de temperatura do sistema.

Como demonstra o Caibalion e como corrobora a Física, tudo está em movimento/vibração, logo há uma troca constante entre todas as coisas – daí seu caráter de unicidade enquanto sistema: o Todo é um sistema unificado em si mesmo. Assim, é possível responder que quando altero o movimento do spin 1, na verdade não estou alterando apenas o local espacial específico de sua órbita, mas sim o todo da manifestação de sua corda original, ou seja, também o spin 2. Parece plausível pensar então que estamos inseridos num grande mar de energia em que todas as coisas sem exceção interagem entre si devido à própria natureza fundamental da matéria que nada mais é do que energia. A separação que colocamos entre as coisas só possui natureza conceitual, mas não real. Daí o preceito filosófico de que o Uno é e que o Múltiplo é. O paradoxo intransponível desta afirmação se encontra não no manifesto em si, mas sim no modo de encará-lo.

.

Citações

Desde Aristóteles, a busca do ser (como tal) estivera ligada à busca do verdadeiro, daquele ser determinado que expressa de modo mais adequado o caráter do ser-como-tal. Este ser verdadeiro era chamado Deus. A ontologia aristotélica culminava na teologia, mas numa teologia que nada tinha a ver com a religião, pois que tratava o ser de Deus exatamente da mesma maneira que o ser das coisas materiais. O Deus aristotélico nem é criador, nem é juiz do mundo: sua função é puramente ontológica, poder-se-ia mesmo dizer, mecânica; ele representa um tipo definido de movimento.


Herbet Marcuse

In: Razão e Revolução


Oh, coisa cruel! Para levar fogo aos outros, o estopim tem forçosamente de consumir-se! O que ousei, eu o quis; e aquilo que eu quis, eu o farei!

Herman Melville

In: Moby Dick


De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia, que importa, se és quem fazes – fada de olhos suaves, ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia! – mais humano o universo e as horas menos graves?

Charles Baudelaire

In: Hino à Beleza

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Comentários Cotidianos


Imaginário do desejo e Sociedade de Consumo



O filme Tropa de Elite possui uma frase que considero justa: “O sistema só está preocupado em resolver os problemas do sistema”. A base deste sistema referido é o consumo. Neste sentido, parece que o vaticínio de Marx de que a economia está por trás de todos os ideais e de todas as ações humanas– compreensão estrutural seguida de perto pelo funcionalismo de Malinowski e pelo estruturalismo de Lévi-Strauss – é bastante plausível.

Entretanto, a esfera ontológica que abre o homem para o sentido é anterior e mais originária do que a própria economia. De outro modo, seríamos seres irracionais, voltados apenas para a consecução de nossas necessidades. Não precisaríamos dar sentido à própria economia – e este sentido, com certeza, está atrelado ao desejo, seja ele em que patamar possamos pensar, ou seja, religioso, sexual, consciente, inconsciente, etc.

A busca pelo sentido está presente em todas as nossas ações, em todos os nossos medos, fobias, amores, confusões e acertos. Somos Sísifo: revoltados com a morte, impotentes diante do poder devastador da natureza, cientes de nós mesmos e do absurdo da existência. Mas, mesmo assim, possuímos uma virtude única: a persistência. Esta persistência é que nos mantém na estrada da busca pelo sentido. Se assim não o fosse, como explicar, por exemplo, o ritual do sol dos antigos índios Sioux? Eles se penduravam com garras de águia nos peitos e, através de cordas, eram suspensos. O objetivo era sair do corpo e encontrar uma dimensão ainda maior para esta realidade.

Esta busca ancestral pelo sentido sempre nos fez ir além: inventamos religiões, criamos cidades, leis, artes, filosofias, etc. Erigimos o nosso próprio mundo. Não se trata tanto de negar o mundo, mas sim de ir além de sua opacidade natural. A era da tecnociência, a era digital, cria mundos superpostos na busca exclusiva de sentido. Isso é, em certa medida, muito bom. Novas gerações estão buscando ir sempre além e até mesmo a arte começa a trafegar em sentidos novos: torna-se, novamente, domínio dos espíritos livres. Este é o resultado do poder da comunicação e do acesso ao conhecimento (mas que fique bem entendido: conhecimento e informação são duas coisas bem diferentes: muitos acessam milhões de gigabytes de informação e poucos kilobytes de conhecimento – mesmo na era globalizada, a elite permanece – e isto em seu sentido positivo).

Mas se retornarmos ao exemplo dos índios Sioux, veremos que a busca de sentido presente no ritual do sol é universal, portanto, a priori, ontologicamente dado. A arte busca este mesmo sentido, esta mesma saída e transcendência. O mesmo se dá nas religiões, sejam Ocidentais ou Orientais. Todavia, devemos estar cientes de que desejos desta natureza estão mais próximos da abertura do homem diante do mundo. O imaginário do desejo na sua segunda ordem opera numa relação mais ampla de trocas de informação entre as pessoas de determinada sociedade que indicam o lugar do objeto do desejo. A economia (troca de bens e serviços), a língua (troca de mensagens) e a troca de mulheres (organização social) erigem o edifício social, envolvendo os indivíduos em buscas sintonizadas com determinados ideiais.

Não podemos imaginar um índio Sioux desejando possuir uma Ferrari ou um iPad. Estas coisas careceriam de sentido para eles. É a sociedade, em suas profundas estruturas econômicas, que indicam o âmbito próprio do imaginário do desejo na sua segunda ordem. Creio que um dos grandes problemas desta ordem reside no esquecimento e na memória.

No esquecimento, vemos uma pressa diante de tudo. Esquece-se o valor do sentido quando se salta imediatamente para a necessidade cega da posse. Não que a posse seja algo ruim – não se trata aqui de criar juízos de valor – mas a posse indicada aqui é vazia em si mesma, sendo muito mais uma obrigação de autoafirmação tola do que propriamente um direcionamento consciente da busca pelo sentido através do desejo. Neste sentido, o sistema usa as pessoas, alimenta estes desejos, enlaça suas esperanças e forja almas atreladas ao imediatismo de seus desejos vazios de sentido.

Na memória, por seu turno, o desejo de segunda ordem esvazia o poder daquilo que, na tradição, sempre possuiu poder de indicar a estrada mais acertada pela busca do sentido. Neste sistema, tudo aquilo que se demora sobre as coisas, tudo aquilo que exige atenção e uma escuta atenta, tudo aquilo que não pode ser consumido imediatamente ou que não pode ser consumido enquanto objeto é considerado inferior. Não é à toa que a dimensão mais profunda da arte, da filosofia,do misticismo profundo, das relações verdadeiras, dos afetos sinceros, por exemplo, sejam encarados com certo escárnio e desdém.

A tecnociência e o seu alcance são válidos, úteis e importantes para nosso tempo histórico. Entretanto, devemos estar atentos àquilo que Heidegger, Jonas, Derrida e Baudrillard, por exemplo, nos chamaram a atenção: o perigo espreita sempre – o pensamento originário e profundo deve ser preservado, já que as transformações do mundo só ocorrem a partir das transformações do pensamento. A paciência da escuta atenta deve ter sempre seu lugar entre nós. Senão, teremos que concordar com Heidgger: apenas um deus poderá nos salvar!


.

Meus poemas

La Pluie




O silêncio habita a chuva

- esse hiato devastador

encantamento crudelíssimo

de toda perda e iluminação –

irrompendo sobre os telhados

elevando o denso volume de terra

compondo mais um cinza para o dia

de nossos esquecimentos, ó sublime ventura

No silêncio habita a voz

O dizer de toda articulação inefável

O distanciamento, a dor, a separação

exilados, nós compomos este quadro

Sombria é toda queda

tudo aquilo que nos afasta de casa

que leva ao longe o reconhecido

chapéus de feltro, longos vestidos

da mulher amada

tapetes persas, esculturas gregas

e a natureza, a indomável,

cobra seus tributos

exige sempre o silêncio.

Estaremos nós, os infiéis,

preparados

devidamente cônscios de tal fatalidade?

Não digas que a ignorância é teu lar

um castelo, um manto e um cajado

foram-te confiados

As crianças brincam na vila

em busca do silêncio

de toda queda sublime

daquilo que não dizemos: “está aqui!”

Sorvas o café, voluptuosa esfera

regando a aridez do dia

toda incompreensão e distância

de que somos herdeiros.

Negras nuvens coabitam no céu

imantam de tristeza os campos

e trazem nossa irmã, a solidão

para o aconchego do lar.

Saudações, ditames filosóficos,

regras lingüísticas e aparatos ontológicos

jamais te separarão de tua fé

de ser uno com a solidão

de balbuciar o nome inefável

que sempre tens a mão:

escuridão.

.

Música

Sou um apaixonado pela música de Bach, Berlioz, Smetana, Beethoven, Schubert e Liszt. Durante estas férias, passei um final de semana na fazenda de meu amigo Antônio. Na sala, que agora possui um piano, os amigos do pai de Antônio discutiam sobre música. Um deles fez uma observação que me deixou intrigado: “Meu pai sempre repetia que o maior de todos os compositores foi Mahler. O grande Mahler. E hoje, confesso, penso o mesmo”. O que me intrigou não foi tanto a afirmação em si – como sempre repetiu Hegel, de gostibus non disputandum. O que me intrigou, de fato, foi o meu grande desconhecimento da obra de Mahler. Lembrei-me de uma sinfonia perdida... e só.

A música, por ser uma arte extremamente metafísica e ir sempre além das coisas, traduz seu poder tanto mais quanto ela permanece na memória. Neste quesito, nem precisamos falar de Bach ou Beethoven. Mas lembrei do poema sinfônicio O Moldávia de Smetana que toda vez que ouço produz um êxtase em minha memória. Novamente, por ser tão metafísica em si mesma, a música carece de grandes comentários. Música, antes de tudo, foi feita para se sentir, pensar e vivenciar. Mas a esfera do sentir, pensar e vivenciar da música a aproxima e muito das grandes experiências do pensamento filosófico, seja ele metafísico ou ontológico.

E, ao trafegar por minha memória, uma lacuna terrível surgiu quando pensei em Mahler. Conseguia lembrar Verdi, Bellini, Mozart, Handel, Chopin, Dvórak... mas nada de Mahler. Meu assombro ganhou duas perspectivas: 1. Fiquei ainda mais grato pela dimensão monumental da música polifônica e a riqueza de seus compositores – um universo que, assim como o próprio pensamento, ainda é sempre mais fundo e abissal do que imaginamos e 2. Enfrentar Mahler seria como viajar para um país estrangeiro: lemos guias, decoramos falas na língua estrangeira, tentamos imaginar nossos passos, mas tudo sai diferente quando, realmente, caminhamos pelas ruas antes apenas sonhadas.

Graças ao século da digitalização, principiei minha viagem baixando as sinfonias do compositor austríaco. Como sempre acreditei que a força da grande arte reside em não ser possível universalizar a experiência – apenas os conceitos são universalizáveis – e decidi iniciar minha jornada também em duas frentes: 1. Ler os especialistas sobre as obras e 2. Entregar-me, completamente despido de conceitos pré-concebidos, à experiência estética daquela música. Isso pode até parecer ambíguo, mas em filosofia aprendi a primeiramente me interar com a tradição para, depois, desconstruir tudo e atingir um novo patamar de compreensão.

Uma coisa me surpreendeu já nos primeiros compassos da Sinfonia nº 1, Titan, em ré maior. Lembrei-me de Proust, de sua busca pela memória, pelo oceano da compreensão do tempo e da temporalidade, pela existência em toda a sua dimensão grandiosa. Era isso o que esta sinfonia queria me dizer naquele momento. Claro, porque a música, assim como a existência, se dá no tempo e pelo tempo, sendo sua impermanência apenas possível devido ao seu caráter de permanência. Então entendi: a ambiguidade não pode jamais ser julgada, já que é, em si mesma, um existencial, algo constituinte originariamente do ser humano.

A música, assim pude perceber, possui este poder. Mas em Mahler residia algo diferente, algo que ainda não tinha experienciado pelo viés musical. Não é o sentido de grandiosidade e tragédia presentes em Beethoven, nem a transcendência e serenidade de Bach, nem a densidade espiritual de Liszt ou a cadência religiosa de Berlioz. Não, nem mesmo a memória eternizada de Smetana. Na Sinfonia nº 2, Ressurreição, percebia uma coisa na música e que apenas eu poderia perceber isso – já que a arte é sempre para um sujeito, para um ouvido que ouve com a “alma” que sempre é individual: havia ali uma clara indicação de abertura, de passagem, de algo tão humano e terrenal, de algo tão desmesuradamente potente que só havia duasa palavras que aportavam em minha mente: indicação e caminho. Mas, de fato, o que significavam esta indicação e caminho?

A Sinfonia nº 3 em ré menor continha uma pista: o percurso exige sempre muita atenção. Somos chamados, continuamente chamados pela voz doce do ser – lembrei-me da fábula da porta estreita. Mas há algo de pesado e forte neste chamado. Não é sem sentido que Mahler queria intitular esta sinfonia de Pã ou A Gaia Ciência – referência clara a Nietzsche. Para mim, a longa abertura desta sinfonia indica a necessidade, tão escassa em nossos tempos, de afinação com a obra de arte – uma paciência e uma escuta atenta que estamos, aos poucos, perdendo.

Na Sinfonia nº 4 em sol maior há um espírito novo: há celebração. Após escutar o chamado e decidir seguir o caminho, é preciso celebrar. A existência não é apenas pesada – ela possui leveza e claridade também. A alegria e a energia da voz feminina no quarto movimento é, para mim, uma indicação desta aproximação. Há uma beleza tão sincera, matutina e jovial neste movimento que o título do poema cantado “Das himmlische Leben” (A Vida no Paraíso) é perfeito. O paraíso, neste caso, possui anjos  específicos: a voz humana, portanto, o ser humano em toda sua amplitude, já que a linguagem pertence ao ser.

Por fim, cheguei à 5ª Sinfonia em dó maior. Estou, para bem da verdade, na metade do caminho. Mas quem tem pressa estando de férias em terra estrangeira? O trumpete que abre a sinfonia já nos indica que estamos mesmo em terra estrangeira: a memória do compositor. Há, aqui, algo de juvenil. E quem, chegando à maturidade, não lança mão da memória para reconquistar o tempo perdido e fazer-se senhor de si mesmo? Novamente Proust. O quarto movimento é de uma beleza ímpar: possui um poder crescente de envolvimento que nos coloca, definitivamente, em nosso tempo presente.

Ainda não terminei minha jornada pela música de Mahler. Mas creio que entendi um pouco de seu alcance: Mahler me colocou, novamente, em sintonia comigo mesmo. A indicação e o caminho que ele havia sugerido podem ser traduzidos por predestinação. De fato, estamos desde sempre predestinados a nós mesmos. Eis uma nova dimensão da música que encontrei com Mahler. Estamos, na arte, sempre abertos ao mundo e a nós mesmos. Fiquei muito grato por esta descoberta ... e olhe que estou apenas no meio da viagem.


.

Escritos dos Amigos

Um aniversário que não queria terminar por Gustavo Pedrosa



      Sexta-feira, 21 de janeiro. O dia começa cedo. Em jejum, as malas são arrumadas para a farra no Rio e para o trabalho em Porto Alegre. A viagem começa por Campinas. Antes do meio-dia a aeronave da Azul pousa no Santos Dumont. Quanta beleza e o friozinho na barriga para quem ver o avião se aproximar irresponsavelmente do mar.
      Um chopp brahma na barra num simpático restaurante mineiro. Uma tentativa vã de dormir à tarde. Dois banhos e o suor colava no corpo, o calor do verão carioca é quase insuportável. Algumas ligações e tudo certo para a noite. Conversas do passado bom do Camarão & Cia, ajudavam a secar garrafas de originais numa velocidade impressionante. Um frango a passarinho carioca fazia as honras da casa na Tijuca. Dali, de táxi, seguimos a Lapa. Uma roda de samba no Democráticos prometia uma noite em tanto. A Lapa trazia as mulheres da vida com decotes e saias mínimas, maquiagens exageradas e a pura beleza carioca da zona sul, da zona oeste, de todas as zonas. As ruas apinhadas de gente. Uma parada obrigatória no pequeno e simpático bar, Bohemia da Lapa, para ouvir um rock, reggae, com sotaque gaúcho, de primeira qualidade. Mais duas cervejas se vão.
      Aguardava uma amiga de Tamandaré, de tempos antigos, que tinha tido o prazer de reencontrar no réveillon deste ano. Agora era professora de cinema na universidade e morava no Rio de Janeiro. Tão logo nos encontramos, o telefone toca, Lavínia, dando-me os parabéns. Minha filha mais nova, com quem tive o prazer de desfrutar o nascer do sol do primeiro dia do ano por telefone, agora me fazia outra grata surpresa. Subimos ao Democráticos, cujo show daquela noite teria uma participação especial de uma cantora de samba muito conhecida daquele público. A casa estava cheia, mas não ao ponto de incomodar. O calor era quase que insuportável, não fossem garrafas e garrafas de cervejas estupidamente geladas para amenizá-lo.
      Um dia que tinha começado às 5 da manhã, terminaria já no dia do meu aniversário 24 horas depois, com um alquebrado pernambucano-paulista sambista da lapa chegando em casa dormindo no táxi.
Dia 22/01/2011. 43 anos na lapela. Fernando, amigão pernambucanocarioca, tinha compromisso para todo o final de semana e foi embora logo cedo, enquanto dormia ainda. Liguei para algumas pessoas que não me atenderam, mas ainda assim estava pronto para ir à praia. Ipanema, ruas apinhadas de carros, rodo bastante até achar um estacionamento e chegar à praia, posto 9, barraca do Joel. Nenhuma clareira na praia, tudo cheio de gente, nenhuma cadeira vazia. Vou ao primeiro botequim que encontro e peço um chopp com bolinho de bacalhau. Quinze e trinta chego ao Leme, onde espero duas primas que há muito não via. A praia já estava mais vazia, e o Everaldo nos tratou como reis. Algumas itaipavas geladas. Alguns mergulhos no mar brabo do Leme mitigaram um pouco o calor carioca. Érika, a pequena érika de cabelos tão loiros que encandeavam quando pequena, apresenta-se como mulhermenina, ou meninamulher, com suas tatuagens, um jeito sapeca de pensar, de colocar suas idéias. A talentosa assistente de câmera de muitos filmes não campeões de audiência (por enquanto) tornou os anos tão mais leves naquela tardenoite no Leme. A nós, juntava-se Hanna, prima nova, que nem lembrava da existência ( uma família com 12 tiostias, n primos, n1 primos de 2º, 3º, 4º graus, não é fácil conhecer todo mundo), porém, outra garota de surpreendente talento. A antropóloga ianomâmi. Alguns anos na floresta amazônica brasileira procurando entender a cultura desses índios, a caminho da selva amazônica venezuelana, para conhecer os índios do lado de lá. Foi uma tardenoite maravilhosa. Vocês duas roubaram-me a parte ruim de fazer aniversário, o passar dos anos. Oito e meia da noite chego na casa dos grandes anfitriões cariocas, o doutor em samba e frevo Audren e a professora de frevo e samba, Adriana. Como sempre, bem recebido, tomamos duas brahmas estupidamente geladas e fui descansar um pouco para o baile de pré-carnaval na Fundição Progresso.
      Dez e meia e uma champanhe maravilhosa me foi trazida para que pudéssemos brindar os 43 anos com dignidade. Nesta altura do campeonato, os amigos que tinham que ligar já o tinham feito. Tarsila, minha filha mais velha ligou-me no início da tarde, que delícia de papo. Ligou-me o primo amigo Alexandre Pedrosa, já quando saía da praia, sempre brincalhão, valeu. Toda a família Neves, incluindo a queridíssima Leda, parabenizaram-me enquanto estava em Ipanema tomando os primeiros chopps do dia. Os amigos Chico e Eduardo ligaram-me também. A amiga agora manauense, evelyne, ligou-me cedo, obrigado. O professor Sylvio Drummond ligou-me logo cedo e deixou aquele abraço, Renato do Camarão & Cia também pela manhã. Meu super pai e a magnífica mãe ligaram, assim como o chefe e irmão Kiko e o afilhado Rafa. Juba bala, o irmão mais boa gente que conheço ligou também quando estava saindo da praia. Pietro Wagner não ligou porque não tinha créditos, mas valeu os parabéns na segunda-feira. Carlito não ligou porque não sabia nem que dia era no sábado, mas valeu os votos. Karlinha ligou e deixou recados no telefone que não sei ver recados, valeu também. Tenho muita sorte de ser pródigos de amigos e de uma família maravilhosa.
      Depois de brindarmos com champanhe o início da noite saímos para a Lapa. Um local belíssimo, a Fundição Progresso, ao lado, ou aos fundos dos Arcos da Lapa, depende da perspectiva e da quantidade de álcool. Um baile muito animado com sambas de primeira qualidade e aquela beleza carioca encantadora iluminando os salões. Mais uma vez a madrugada foi minha companheira. Cheguei às 5 da manhã em Copacabana, cansado, mas feliz com um dia tão pródigo de grandes surpresas. Faltava apenas a presença de uma paulista de olhos verdes e irresistível beleza para que a alegria fosse completa.
      Faltou companhia para a roda de samba do bip bip no domingo à noite.
     Segunda-feira, quarto e último dia da comemoração interminável dos 43. Uma passada rápida no simpático Adega Pérola, botequim de Copacabana com mais de 100 anos de vida. Aquele balcão repleto de acepipes. Chego a Ipanema no final da tarde, 17 horas. Hora impensável para se chegar na praia de Boa viagem. Uma cerveja gelada, um banho frio nas águas tão ríspidas quanto as do Leme. A beleza do Rio ali no posto 9 acentua-se ainda mais, à esquerda as pedras do arpoador, à direita o morro dois irmãos, à frente ilhas de pedra ilustram o horizonte. 20:30, a praia repleta de admiradores, de poetas a esperar o sui generis pôr-do-sol à beira-mar. O sol, em sua imensidão amarela brilhante vai sendo sugado paulatinamente pelo mar azul de Ipanema, ao lado dos morros dois irmãos. Após desaparecer totalmente resta-nos o som das palmas negras, brancas, amarelas, inglesas, pernambucanas, cariocas, femininas, masculinas, e os raios translúcidos que teimam infringir a superfície do mar. Alguns telefonemas para os amigos e amigas para matá-los de inveja. O dia terminaria com um jantar super simpático oferecido pelo casal Renato e Roberta Matos em seu apartamento na tradicionalíssima Vila Isabel, ladeados pelo jovem talentoso matemático Mateus Matos. A melhor torta de limão que já comi até então sela a comemoração mais longa do que qualquer aniversário anterior.
      Obrigado a todos que participaram dessa epopeia, que me fizeram ainda mais feliz com pequenos ou grandes gestos. Até o ano que vem.

Escritos dos Amigos

A vingança da decoreba por Hélio Schwartsman

Retirado do Blog Papo Furado de Dom Jairo lima.


Esta vai deixar alguns pedagogos de cabelos em pé. Trabalho publicado anteontem na "Science" mostra que alunos que estudam por métodos do tipo decoreba aprendem mais do que os que utilizam outras técnicas.

O "paper", que tem como autor principal o psicólogo Jeffrey Karpicke, da Universidade Purdue, comparou o desempenho de voluntários que estudaram um texto científico se valendo de um método que enfatiza a memória (leitura seguida de um exercício de fixação mnemônica) com o de alunos que usaram a técnica do mapa conceitual, na qual leem o texto e depois desenham diagramas relacionando os conceitos apresentados.

Desenvolvido por Joseph Novak nos anos 70, o mapa conceitual tem como pressuposto a teoria da aprendizagem significativa, segundo a qual aprender é estabelecer relações relevantes entre ideias.

Uma semana depois, os estudantes fizeram um exame para descobrir quanto haviam aprendido. O grupo da decoreba teve um índice de acertos 50% maior do que o do mapa. A grande surpresa, porém, foi que os memorizadores se saíram melhor tanto nas perguntas que envolviam a mera reprodução das ideias originais como também nas questões que exigiam que eles fizessem inferências, estabelecendo novas conexões entre os conceitos.

Um segundo experimento aprofundou um pouco mais esses achados, explorando, por exemplo, o desempenho de um mesmo estudante com os dois métodos de estudo. Em todas as situações, a decoreba apresentou melhores resultados que o mapa conceitual.

Evidentemente, ainda é cedo para generalizar as conclusões desse trabalho, que ainda precisa ser reproduzido em outros centros para ganhar nível de evidência. Mas já é certo que ele cairá como uma bomba na guerra pedagógico-ideológica que opõe os entusiastas da educação construtivista aos defensores de métodos tradicionais.
.

Traduções

Certa vez, um grande amor cortou minha vida em duas por Yehuda Amichai.




Certa vez, um grande amor cortou minha vida em duas.

A primeira parte segue retorcendo-se

em algum lugar como uma serpente cortada em duas.


O passar dos anos me acalmou

e trouxe a cura para meu coração e descanso para meus olhos.


E hoje sou como alguém para no deserto da Judéia

olhando uma placa:

“Nível do mar”.

Ele não pode ver o mar, mas ele sabe.


Assim, recordo de seu rosto em todo lugar

o seu “Nível do rosto”.

.


Artes Visuais

Marcelo Silveira
Falar sobre uma instalação sem entrar na mesma e seguir suas indicações é uma tarefa quase inglória. No semestre passado, visitei no Espaço Correios, na Av. Marquês de Olinda, no Recife, a instalação 3 em 1 do artista pernambucano Marcelo Silveira. A instalação, como o nome indica, está divida em três partes que se completam e formam o todo da obra numa abordagem mais geral.

Silveira é de Gravatá e possui um envolvimento muito peculiar com a arte e a madeira. Logo de início, quando adentramos a instalação, observamos três enormes pedaços de madeira trabalhados de modo quase infantil. Seguimos para uma estante com livros de madeira ladeada por uma tela onde vemos um vídeo com indicações de pessoas comendo uva e outras frutas. Depois dobramos à esquerda e seguimos por uma via com enormes luminárias, lembrando o caminho iluminado de alguma cidade do interior. Por fim, quando viramos novamente á esquerda, nos deparamos com uma construção de madeira que representa um armazém: há objetos para pendurar carne, gavetas, mostruários, vidros para armazenar açúcar, farinha, feijão, etc. Um verdadeiro armazém ou bodega do interior. Mas, o que pode significar tudo isso?

Possuo uma explicação que me pareceu adequada naquele momento. Primeiramente, as madeiras talhadas parecem representar o envolvimento do artista com a madeira: muito possivelmente ele esteja falando de seu envolvimento desde a infância com a madeira e a arte de entalhar. Depois, a biblioteca – que representa a casa de seus avôs – parece nos situar na sua formação intelectual e artística, formação capaz de lhe dar conceitos e fornecer pistas para universalizar o que lhe era tão particular. A vídeoarte instalada aproxima o presente do passado, a tecnologia com as ferramentas do passado, unidas pela natureza, as frutas.

O caminho da usina parece anunciar o grand finale. Até parece que conseguimos ver o artista quando jovem correndo em direção ao armazém de seu avô e se deliciando com aquele ambiente tão aconchegante e fabuloso, repleto de coisas diferentes, de sons e odores peculiares.

Por fim, quando chegamos à instalação final, um profundo e forte cheiro de madeira chega até nós. No armazém, Silveira recompõem o todo de sua memória. Até mesmo um colchão revestido de chita acentua essa memória agreste. Pensei nos sons, odores e sabores presentes ali durante sua infância. Fiquei ali por muito tempo, sentido aquela atmosfera de passado e presente a um só tempo. Se eu fizesse o mesmo que Silveira, com certeza minha instalação representaria a biblioteca do colégio Nóbrega. Não foi à toa que o escolheram para expor na Bienal de São Paulo de 2010. Muito justo.

.