sexta-feira, 25 de março de 2011

Comentários Cotidianos




Do ser-para-a-morte ao conceito de Deus


Em dois textos célebres – O Futuro de uma Ilusão e O Mal Estar na Civilização – Freud escreve sobre sua concepção da gênese e manutenção do fenômeno religioso. Inicialmente, Freud afirma que a religião surge como uma humanização da natureza. Diante de forças e destinos impessoais, ele afirma, ninguém pode se aproximar. “Contudo’, ele prossegue, ‘se nos elementos se enfurecem paixões da mesma forma que em nossas próprias almas, se a própria morte não for algo espontâneo, mas o ato violento de uma Vontade maligna, se tudo na natureza forem Seres à nossa volta, do mesmo tipo que conhecemos em nossa própria sociedade, então podemos respirar livremente, sentir-nos em casa no sobrenatural e lidar com nossa insensata ansiedade através de meios psíquicos”.

Após a humanização da natureza, em que o invisível e aterrador ganha contornos antropomórficos, é preciso estabelecer uma conexão entre estes seres e nossa realidade psíquica mais profunda. Nesta segunda etapa, Freud afirma que lhe parece incontrovertível que “as derivações das necessidades religiosas, a partir do desamparo do bebê e do anseio pelo pai que aquela necessidade desperta”, derivam não apenas do prolongamento deste desamparo, mas também permanece no adulto pelo medo do poder superior do destino.

Freud afirma que são três as fontes de nossa infelicidade: o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos corpos e a inadequação das exigências morais (dever) com nossos desejos (inclinação). Um substitutivo para tanta infelicidade - além da arte e das substâncias tóxicas que não fazem exigências morais - surge na religião. De fato, o centro de toda religião – Deus – quase sempre trafega em dois sentidos: 1. Um Deus pessoal que, assim como o pai real, protege e ama, mas também sabe ser severo e castigar. Esse sentimento infantil de relação simbólica com um Deus invisível é, na verdade, a reprodução de uma realidade inconsciente – e seus temores e necessidades – na esfera lógica e consciente: daí ser tão ilógico falar em termos religiosos da evidência de suas crenças, só cabendo mesmo à fé responder sobre algo que é, em verdade, irrespondível. 2. Cria-se um Deus impessoal, essência negativa em si mesmo, negação da negação, que nega todas as criaturas e é, ao mesmo tempo, criador: este é o Deus de Filon, Plotino, Dionisius e Eckhart, por exemplo. Mas um Deus que em si mesmo é pura negação não pode atender meus pedidos. Não posso suplicar e Ele não pode me ouvir. Ao contrário, aquele que ouve possui uma faculdade que exige a presença do outro e parece impossível pensar no absoluto comportando o outro – mesmo que pensemos na dialética hegeliana e na sua compreensão do absoluto (Cf. ver o excelente texto de Schelling: História da Filosofia Moderna: Hegel).

Entretanto, creio que há um elemento que Freud deixa de lado em suas discussões. Apesar de pontuar o medo como uma das fontes do sentimento religioso – e não conheço uma única religião que não tenha como base o medo (Isso fica claro quando lemos Nietzsche e entendemos esse elemento moral na religião: o Juízo Final, o fogo eterno do inferno, a reencarnação e o karma com suas punições, a ira de Deus, etc. Criações mentais que apelam para esferas imaginárias que ganham contorno de realidade) – Freud não ressalta uma das fontes principais da necessidade da crença religiosa: o medo da morte.

Nos §§ 48 a 53 de Ser e Tempo, Heidegger traça sua compreensão do Dasein (o ser humano) a partir de um existencial: o ser-para-a-morte. A morte é uma possibiliadde ontológica que o homem tem que assumir: a morte “desentranha-se como a possibilidade mais própria, irremissível e insuperável”. Sabemos que algum dia iremos morrer, mas “ainda não”! Realmente, não posso experienciar minha própria morte. O ser-para-a-morte, em seu sentido mais rigoroso, não pode ser, já que experiencio minha morte através da morte dos outros e não a minha própria. A antecipação da minha morte nunca é em si uma realização, mas apenas uma possibilidade concreta a partir daqueles que partiram e que foram reverenciados. O cadáver não é mais a pessoa: trata-se de algo ôntico, ou seja, é simplesmente uma coisa. Minha reverência é uma memória passada que se realiza no presente daquele que “foi”.

A impessoalidade da morte – todos iremos morrer – desentranha não apenas uma liberdade e angústia radicais, mas nos abre para nossa própria finitude radical. O ser humano, enquanto projeto, nunca se realiza. Sempre há um além de todo projeto... até o dia da morte. Novamente, entra em cena um mecanismo de defesa psíquico: o ego – em termos freudianos - não quer deixar de ser. É preciso, então, criar mecanismo que garantam ao menos tranquilidade para essa alma atormentada com o fato de que sua finitude um dia se realizará. Nada mais natural do que criar um Deus eterno que criou uma parte minha também eterna: a alma. Não conheço uma religião que não preconize algum tipo de vida após a morte. Mesmo o budismo – uma religião agnóstica – fala numa felicidade absoluta (que só ocorre no útero da mãe) após a morte. Mesmo que o Nirvana se realize neste mundo – o estado do Bodhisattva – trata-se de uma realização que nega o próprio mundo: a felicidade absoluta nunca estará aqui.

Neste sentido, por fim, parece que o conceito de Deus serve como um aparato contra o medo natural da morte. Nada parece menos natural na esfera religiosa do que pensar na própria naturalidade da morte. A morte deve ser, portanto, uma ilusão e, sendo assim, não preciso me preocupar: já que essa finitude radical só responde por minha contraparte mais fraca, o corpo – aquilo que é natural. A alma deve ser imortal! Mas qual a evidência disso? Mesmo que depois da morte haja algo como alma, ela seria incapaz, enquanto individualidade, de saber-se imortal. Imortalidade significa estar sempre no tempo e isso significa desconhecer um limite imposto pelo próprio tempo. Saber-se eterno implica em não ter dualidade. Sem polaridade, contudo, não há conhecimento. Logo, a imortalidade não poderia ser conhecida de um ser individual.

As crianças brincam no parque lá fora. Em dezembro, estarão ansiosas esperando que Papai Noel chegue sorrateiro á noite trazendo seus presentes, ou seja, a realização de seus desejos. Mas serão seus pais – seres humanos de verdade – que colocarão os presentes na sala. A fantasia infantil ou o delírio coletivo que a religião representa – e Freud acrescentava que quem delira em grupo não sabe que está delirando – é um mecanismo útil para o homem. É melhor que papai Noel exista e mantenha minha esperança viva. Ao menos para aqueles que ainda não decidiram enfrentar o pior de todos os demônios: seus medos!

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Meus poemas

Palintropos




Desvia-se o olhar na floresta, densa

negra como toda noite, e escondida

como o ser – que na escrita – revela-se.

O canto dos pássaros

e o turbilhão dos rios

que passam em fúria

assomam-se, sim, assomam-se

ao mais denso da floresta.

Árvores de madeiras ancestrais

caminhos nunca percorridos

em lugar algum reconhecemos

o que nos é mais próximo, aqui

talvez o titubear das horas

que são devoradas por tanta escuridão

pela umidade dos charcos

clareiras raras de pouco sol.

Há um espírito nesta floresta

há um tempo para esse espírito

e se caminhamos, vagos, atônitos

com o mais denso dessa escuridão

afirmamos, mesmo assim,

um sim aqui,um não acolá.

Não há calmaria nessas terras

tão imensas em seu silêncio

e por imensas vir sempre a ser

o silêncio, ele também, a tudo devora.

Se indicamos: “Isto me é comum”

onde nesta floresta algo se aproxima

como o mais conhecido

se é desconhecido o todo da floresta?

Milagres, aqui não o temos,

abandonados à nossa própria sorte.

Não exigimos uma fortaleza, nosso ser?

Não nos entregamos a nós mesmos?

Toda árvore é uma irmã.

Todo rio uma sempre passagem

e toda escuridão, a inalcançável,

coabita nos pântanos dessa floresta

com nossos antepassados, eles todos,

num sorriso que corta os espaços

vibra a terra e encharca as casas

suas chaminés e lareiras

charnecas tomadas por lilases

gramíneas e plantas exóticas.

Permanecemos sempre, nós todos,

na mais real escuridão dessa floresta

e há uma lei e há um porteiro

que sabe de há muito a saída

mas se não o perguntamos

como irá dizer algo ao silêncio

que não foi posto por outrem

mas pelo mesmo, nós,

os terríveis, à sombra de nosso ser.

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Coisas que odeio


Já disse diversas vezes aqui neste Blog: gosto não se discute. Meu pai acrescentaria: lamenta-se. Depois que o Capitalismo venceu em definitivo o Comunismo, os pensadores começaram a notar que uma das fontes dessa vitória possui não apenas fundamentos econômicos, mas teóricos: teorias postas em prática. Diversos mercados foram criados neste novo modelo de Capitalismo: o sexo que é uma coisa maravilhosa se transformou em Indústria pornográfica; a alimentação transformou-se em Indústria Alimentícia e a cultura resumiu-se à Indústria Cultural.

Creio que um dos traços essenciais da Indústria Cultural é a maquiagem. Explico-me: a imbecilidade ganha ares de seriedade e inteligência; o óbvio ganha contorno de novidade; o conteúdo copiado quer parecer original; o estúpido é glorificado e endeusado e a mediocridade se torna regra geral.

Há diversas coisas que odeio na Indústria Cultural. Como sou uma pessoa que gosta de gente, muitas vezes o que me irrita é como essas pessoas nem sequer param para pensar nas aberrações que elas veneram. Criam discursos ainda mais atordoantes – porque só mesmo uma mente insensível para não se irritar com tanta besteira – e justificam de maneira injustificável coisas que só caberiam palavras como sandeu, parvo, biltre, pascácio, etc.

Antecipo minhas desculpas – e faço isso apenas por educação – para quem se sentir ofendido com as coisas que odeio. É da natureza humana se melindrar muito facilmente e este não é, nem de longe, o meu intuito. Mas vamos lá para algumas coisas que realmente odeio.

Raul Seixas. Como um músico tão brega e tão ruim, com uma voz tão medíocre e irritante e que copia descaradamente as ideias de Aleister Crowley e Carlos Castañeda (assim como faz seu comparsa Paulo Coelho) pode ser considerado um gênio? Isso deve ser brincadeira. Só pode ser. As letras de Raul Seixas são estúpidas, sua musicalidade é risível, sua voz é de doer os ouvidos (talvez seja uma geração acostumada com Carmem Miranda, Adoniram Barbosa e Mundo Livre S/A e essas besteiras todas) e só mesmo um espírito embrutecido pela mediocridade geral pode se sensibilizar e adorar uma aberração dessas.

Machado de Assis. Os professores medíocres de Literatura devem estar enfurecidos agora. Como é possível dizer que “o maior escritor brasileiro” não presta? Isso deve ser um insulto. Que seja. Os livros de Assis são extremamente chatos, suas personagens são óbvias (além de colocar nomes absurdos nas mesmas: Bentinho, Capitu, Iaiá Garcia, Quincas Borba, Casmurro, Brás Cuba, etc), sua narrativa transparece essa mesma obviedade, seus conceitos filosóficos são risíveis, sua compreensão existencial beira a mediocridade e o desenrolar de sua prosa nega sua elaboração inicial (basta ler O Alienista ou Dom Casmurro). Não entendo porque há certa covardia em dizer que certos ícones de nossa cultura são uma porcaria. Se sou menos inteligente por não gostar da literatura machadiana, que assim seja. Sempre irei preferir Coelho Neto, Guimarães Rosa, Nassar, Amado, Veríssimo e Scliar. Devo ser um idiota mesmo.

João Gilberto. Muito desse culto imbecil se deve as idiotices faladas por Caetano Veloso. Como alguém pode venerar um músico que toca muito mal o violão, que canta horrivelmente (Pelo menos ele teve a decência de confessar que era desafinado. O problema é que essa mesma confissão cheira a uma pretensa superioridade intelectual) e que, ainda por cima, diz que o pato faz quém, quém. A pose de João Gilberto só não é pior do que o modo como seus fãs o tratam. Realmente, diante de um músico tão medíocre, é muito difícil entender essa atitude de veneração. João Gilberto entra no rol daqueles músicos que cantam muito mal (Gal Costa, Tom Zé, Mautner, Zeca Baleiro, Lenine, etc) e que possuem ouvintes que devem beirar a surdez. Isso para não dizer a estupidez.

Glauber Rocha. Creio que vou parando por aqui. Glauber Rocha é um insulto à inteligência. Que me desculpem seus fãs e amantes do Cinema Novo. Quando assisti Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe eu pensei: Puta que pariu! Sou realmente um completo imbecil. Eu simplesmente acho isso uma merda! Mas muitos glorificam essas obras como a melhor e mais original produção cinematográfica brasileira. Pena que poucos conheçam a obra magistral de Mário Peixoto.

Por fim, vale lembrar um conceito de Adorno sobre a qualidade daquilo que é produzido na Indústria Cultural: o que é considerado como bom é aquilo que tem sucesso!

É um fato: a lista é quase infinita. Um pouco de ácido, de vez em quando, não faz mal a ninguém. Exceto aos melindrados!

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Escritos dos Amigos

Poema nome e liturgia
por Neide Travassos


o teu tempo pássaro qual nave de astros

fez do teu nome lume e terra

mastro e madeira e carne do teu braço

onde quiseste mar

havia um verde deslembrado

em um mar sem memória

teu verbo amanhece a liturgia das hóstias

dizes aurora

e as esferas riscam o vermelho e o sol

com um branco de pombos e asas

dizes hora

e o vinho se faz em azul, nuvem e mormaço

consente ao raso dos teus olhos

barcos, o primeiro sal, o primeiro lago

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Traduções


A Estrada não tomada
por Robert Frost


Duas estradas divergiam num bosque amarelo,

E desculpe, eu não poderia viajar por ambas

E ser, ao mesmo tempo, um viajante - fiquei muito tempo parado

E olhei para uma delas tão longe quanto pude

Até onde ela se perdia na mata;

Então segui a outra, a que parecia ser mais justa,

E tendo talvez o melhor argumento,

Posto que era relvada e queria ser pisada;

Embora o caminho lá

estivesse realmente como a outra estrada,

Em ambas, nessa manhã,

nenhum passo pisou em suas folhas.

Oh, guardei o primeiro passo para outro dia!

Mesmo sabendo como um caminho leva para longe,

Duvidei se algum dia eu voltaria.

Provavelmente contarei isso com um suspiro

Em algum lugar tempos depois:

Duas estradas divergiam num bosque e eu-

Eu tomei a menos percorrida,

E isso fez toda a diferença.


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Artes Visuais

Rua em Delfi, 1657-8.

Aula de música, 1662-5.

O astrônomo, 1668.


Moça com brinco de pérola, 1665.

O Grande Vermeer. O mestre da luz viva e cheia, do eterno no instante, da composição magistralmente bela e de um olhar descomunal sobre o que há de mais esplêndido na vida e em seus recônditos. O Grande Vermeer que tira nosso fôlego, esbugalha nossos olhos e amplia nossa mente e coração.

Kafka, certa vez, referindo-se a August Strindbergr, comentou: “Eu me sinto melhor porque li Strindberg. Eu não o leio só por ler, mas para apertá-lo contra o peito... O enorme Strindberg. Esta raiva, estas páginas ganhas à força do punho...”.

Poderia dizer: Eu me sinto melhor por ver as obras de Vermeer. Não as vejo apenas por ver, mas para esfregá-las no meu cérebro, apertar essa beleza contra meu peito.. O enorme Vermeer. Esta beleza, esta divindade ganha à força do punho...”.

Em Vermeer tudo é superlativo: a luz, a composição, a beleza, a harmonia, o olhar, o enigma, a permanência no impermanente, as cores e suas danças invisíveis, o som descomunal que brota de cada pincelada... breathtaking...

Diante de Vermeer, creio que a melhor coisa a fazer é se calar e tentar, no mais humilde silêncio, penetrar em seu universo onde um som divino coabita com a mais divina beleza. Somos gratos e isso já basta!

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Livros

Paidéia de Werner Jaeger

Werner Jaeger é um pensador que além de ser um profundo conhecedor da obra de Aristóteles legou uma obra exemplar sobre a formação do pensamento Ocidental: Paidéia. Nesta obra monumental, Jaeger esmiúça o aspecto histórico, filosófico e educacional do pensamento grego à luz de sua paidéia, ou seja, de sua formação cultural a partir da educação.

Para os gregos, educação, cultura, arte, religião, filosofia, ciência e celebração andavam de mãos dadas. Contudo, o elemento central dessa formação é o pensamento em seu sentido mais crítico e criativo, questionador e profundo, original e libertário.

A paidéia grega valorizava a experiência como base de realização do conhecimento. Mas experiência aqui deve ser entendida como envolvimento pleno naquilo que se conhece. O grego não apenas conhecia: ele vivia seu conhecimento.

Da ginástica, música e gramática, a paidéia grega avoluma-se em diversas frentes. É preciso formar o homem grego, o cidadão grego completo. Este cidadão – e aqui pensamos no conceito de bom (ágathos) grego: aquele que é senhor, aquele que manda, que conhece a justiça, o cidadão aristocrata, o amado dos deuses - agora se transforma no homem completo em sua maturidade, força e inteligência.

Num sentido mais amplo, a Paidéia grega se referia ao todo da cultura grega, daí a junção de todas as expressões do pensamento acima citadas. Esta abordagem é feita por Jaeger de maneira magistral. Sua escrita é fluente e jamais maçante. Sua compreensão do pensamento grego é gigantesca e nos ajuda neste mergulho profundo do qual é impossível retornar sem ser totalmente transformado.

Um dos maiores trunfos e triunfos deste livro é sua capacidade de visitar os fundamentos do pensamento ocidental. A obra de Jaeger é o pensamento pensando a si mesmo, desbravando sua origem, elaborando uma arqueologia sobre si mesmo, conquistando maior clareza sobre seu lugar e expressão.

Para quem se pensa intelectual ou erudito, a Paidéia de Werner Jaeger é uma obrigação. Um livro que não pode faltar na lista de leitura de ninguém que preze pelo pensamento em seu sentido mais rigoroso e profundo. Não é apenas uma recomendação: trata-se de uma obrigação.

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Filmes



Valerie e sua semana de deslumbramento de Jaromil Jires.

Para a maioria pode não parecer, mas existe vida inteligente no surrealismo para além de Salvador Dali... e muita. Uma prova desta assertiva se encontra neste filme inspirador de Jaromil Jires.Valerie ( a belíssima Jaroslava Schallerová) é o centro de um enredo em que sexo, medo, desejo, ilusão, amor, religião, pecado e inconsciente desfilam de modo surreal.

A película não segue uma linha de narrativa linear. Nem poderia, uma vez que é próprio do surrealismo valorizar a esfera ilógica da mente, ou seja, a realidade inconsciente. Para dar mais dinâmica a esta descontinuidade, as cenas são sobrepostas de modo aleatório, sendo possível entender o seu todo estrutural apenas no fim da projeção.

Valendo-se de referências como Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol, Valerie prima por montagens oníricas possuidoras de uma grande beleza e inquietude. O quarto dela, por exemplo, totalmente branco, contrasta enormemente com os porões em que Valerie se vê acossada por um sinistro padre satânico que a deseja intensamente.

O desenvolvimento da sexualidade de Valerie é pontuado pelas mudanças que o mesmo acarreta não nela, mas sim nas pessoas que a cercam. Mesclando figuras obscuras como vampiros, assassinos, padres e pessoas absortas que tomam parte em estranhas procissões, o filme adapta de modo competente a novela de Vitezslav Nezval.

Redenção, prazer, labirintos e uma sexualidade pulsante são os ingredientes principais desta película extremamente original. Além da base surrealista que guia a mão de Jires, elementos do impressionismo como a valorização da luz e da impressão do real no artista se fazem presentes, tornando o filme ainda mais interessante.

Aura onírica, erótica e poderosa que prima pela beleza de cada quadro. Totalmente recomendável.

(Nota: Infelizmente, ao menos até agora, ainda não encontrei a legenda em português. A legenda que se segue ao download está em inglês. Se alguém tiver o link da legenda em português, por gentileza me avise).

Eis o link para baixar o filme:

http://www.myduckisdead.com/2010/05/valerie-and-her-week-of-wonders-1970.html

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Citações

O mais esplêndido não é a beleza, por profunda que seja, mas a clássica tentativa de beleza.

William Carlos Williams

In: O duro cerne da beleza



Toda coisa criada tem modos de enunciar seu próprio ser: básica e usada por todos, mesmo as tribos minerais, é a koiné hieroglífica de aparência visual a qual, lhe falte embora o verbo, revela-se, em comparação com nossos léxicos mais massudos, tão mais rica e sutil em nomes de feitios, adjetivos de cor e argutas preposições de lugar.

W. H. Auden

In: Linguística Natural


Escolhe o teu diálogo e tua melhor palavra ou teu melhor silêncio. Mesmo no silêncio e com silêncio dialogamos.

Carlos Drummond de Andrade

In: O constante diálogo


O peso do mundo é o amor. Sob o outro peso da solidão, sob o outro peso da insatisfação, o peso, o peso que trazemos é o amor.

Allen Ginsberg

In: Canção

quinta-feira, 10 de março de 2011

Comentários Cotidianos

Da corrupção como efeito.


Parece-me evidente que em quase todas as conversas que nós brasileiros travamos sobre os problemas estruturais de nosso país só há uma causa possível: a corrupção. Ela é logo posta na base de todas as celeumas sociais que vivemos e parece explicar de uma atacada só tudo aquilo que nos impede de ser um país melhor. Creio, contudo, que a questão – seja em seu âmbito macro ou micro político e econômico – se assenta em paragens bem mais profundas, em estruturas mais elaboradas e que permitem que algo como a corrupção surja: corrupção, no Brasil, é efeito e não causa.

A corrupção de nossos políticos – e parece que todo cidadão médio se sente distante da mesma, jamais se embrenhando em terreno tão escuso – é fruto de uma estrutura econômica e política que só pode existir se a própria corrupção surgir como efeito da mesma, possibilitando sua manutenção e repetição. A podridão de nossa política possui origens mais remotas do que meros acordos de interesse.

De fato, no Brasil, a estrutura econômica é posta em marcha a partir de uma premissa incontrovertível: beneficiar uma pequena minoria de favorecidos, a elite em sua expressão mais baixa. Toda a produção se constrói a partir de dois pontos chaves: 1. A propriedade privada e a possibilidade que esta engendra para roubar o trabalho excedente do trabalhador em relação ao seu trabalho necessário, produzindo uma mais valia absurda. O trabalho necessário não consegue – na maioria de nossa população – dar conta das necessidades fundamentais dos trabalhadores. Aqui já temos a primeira base desta função social. 2. O Estado – que ultimamente agigantou-se de maneira desordenada e imoral – taxa tudo aquilo que o trabalho necessário produz, aumentando ainda mais o fosso entre aquilo que é necessário e aquilo que o trabalho necessário consegue produzir em termos de salário. Esta taxação possui um fim ainda mais claro e perverso: manter esta elite de parasitas numa zona confortável de riquezas e mordomias, envolvendo o cidadão com uma legislação tão burocrática que torna impossível para o mesmo se desvencilhar deste labirinto kafkiano.

O trabalho necessário deveria possibilitar a realização das necessidades fundamentais a todo ser humano, assim como rege nossa Constituição no artigo 6, repetindo a Declaração dos Direitos Humanos que reza que “toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família, saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação”. Na prática, todos sabem que a história é outra.

Do mesmo modo, o Estado cria tantos impostos – IPVA, IPTU, ICMS, IPI, etc – que o cidadão precisa trabalhar quatro meses – mais trabalho excedente – para pagar suas contas e ter seus bens. Tantos impostos não são revertidos numa contraparte clara para o próprio cidadão, mas sim em aumentos de salários dos poderes legislativo, executivo e judiciário e toda a máquina que os sustenta, além de criar novas zonas de tráfego de influências através de prestações de favores que burlam esse mesmo esquema – mas só consegue burlar esse esquema apenas duas classes de cidadão: os próprios políticos e todos aqueles que possuem acesso direto ao funcionamento da máquina. Os outros, coitados, estão fadados ou a pagar tudo ou entrar no esquema da corrupção menor. E é aí onde entra a corrupção como efeito e não causa.

Por mais honesto e ilibado que seja um cidadão – e por maior que seja sua consciência moral – o Estado cria tantos mecanismos para tornar sua vida um inferno que, em algum momento, ele vai ser pego com as calças curtas e totalmente desprevenido. Cria-se uma situação em que o cidadão começa a entender de maneira inconsciente que a corrupção no Brasil é algo natural, nascida conosco desde os primórdios de nossas fundações. Mas essa origem colonial, na verdade, apenas indica que herdamos de Portugal uma estrutura que permite o mesmo: a corrupção se torna efeito de uma necessidade natural de realizar as nossas necessidades fundamentais.

De repente, o cidadão se vê corrompendo o funcionário da Celpe que veio cortar sua energia ou o policial que vai apreender seu carro ou um funcionário de algum cartório maldito que inferniza sua vida na realização de alguma transação financeira. No Brasil, não tem como escapar: ou se paga tudo em dias – e aí haja trabalho necessário e um salário enorme – ou mais cedo ou mais tarde a corrupção baterá em sua porta.

Esse mecanismo inconsciente é importante para, de certa forma, justificar o que as esferas superiores de nossa hierarquia social fazem para se perpetuar no poder. Todos se corrompem e a corrupção chega espreitando a todos. A palavra em si já indica essa possibilidade: corrupção vem do latim corruptionis e que, em Cícero, nas suas Verrinas, possui o sentido de deterioração e alteração, enquanto em Terêncio, em Adelphoe, surge como aquilo que é sedutor e corruptor, portanto, algo que pode deformar uma base anterior exatamente por seu poder de seduzir à deterioração.

Enquanto não passarmos por um profundo e radical processo de mudança de nossas estruturas econômicas e políticas, toda e qualquer discussão sobre a corrupção – e qualquer ilusão como a crença de que a mesma se resolve na esfera judiciária – falhará e estaremos condenados a muito trabalho excedente para pagar a mordomia de uma elite retrógrada e voltada apenas para si mesma. Civilização, antes de tudo, se faz na confluência de interesses para um bem maior que se traduz no acesso à cultura de verdade, ao conhecimento, à urbanização, ao trabalho, à tecnologia, saúde e à dignidade.

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Meus poemas

A eucaristia do sexo




Você não é feliz em casa, meu garotinho travessinho

Martha, minha querida Martha, tão atraída por mim

escondendo este amor para que o mesmo

não se transforme numa flor amarela

                                         com pétalas

                                         esmagadas.



Há minha cara metade e outra

segredada em cartas escondidas e sujas

e na busca de um perfume ideal

já que é das mulheres intentar o agrado

                                          com gestos

                                          calculados.



A linguagem das flores não se conquista

neste homemflor que avança lentamente

com tulipas zangadas, rosas queridas,

não-me-esqueças meu pobre amorzinho

                                        com desejos

                                        secretos.



Escaramuça amorosa habitual enfunado

pelas esquinas ruim com rixa a esposa

no medo das palavras brutal é tudo

que dedilhas na carta amor estival

                             com primaveras

                             abertas.



Vozes de Dublin – sem cores definidas, surge

o trem superveniente rimbombando pesadamente

por sobre a sua cabeça já tão pesada

transbordando-se por dentro como deveria ser

                                                       com gosto

                                                       amargo.



Larguipetaladas flores exfiltravam-se no dia

enquanto ele galga o pórtico retirando o chapéu

pedra sacra exalando seus frios seculares

um céu, um padre, um silêncio, uma dádiva

                                               com hóstias

                                               sagradas.



Corpus. Corpo. Cadáver. Cristo. Refúgio. I.N.R.I. ou I.H.S.

canibais de um cadáver celestial, moribundos

comedores de pão ázimo da proposição

inclinados, todos eles, para esta felicidade de anjos

                                                            com dores

                                                            intermitentes.



Todos querem se confessar, seguir a penitência

Salve, Maria, Miguel Arcanjo e a prostituta

é melhor sair, evadir-se em meio aos pesados bondes

retirar-se da farmácia com um sabonete na mão esquerda

                                                               com Christ est


                                                                homo.


(Quinto poema do livro O Dia de Ulisses)

Meus contos


O promontório

               Há séculos que ele, o promontório, habita essa ilha. Banhado pelo mar, envolvido por suas ondas ferozes, ele permanece inalterado ante o universo, ciente de sua existência e importância. Os ventos que acorrem até ele são suas sentinelas. Algumas aves o tomam por lar e algumas pequenas árvores livram-se da intempérie agarrando-se ao seu corpo de mil pedras. Resoluto, ele contempla o mar, sua imensidão reflexiva. Há séculos que ele permanece inalterado em sua vida, consagrado pela fúria das ondas e pelo próprio tempo. Sua existência é cumulada de força. Sua grandeza assoma-se aos céus e subleva seu poder fecundo de coabitar com o seio da terra. Imparcial em seu devir, ele açambarca toda a ilha com sua presença dominadora, esmagando os espaços, arrancando os céus e compactando a terra. Há séculos que sua presença eleva-se às alturas, colimando a grandeza de outros mares, muralha de vivência eterna nos ciclos de toda existência. Ele, o promontório, em si mesmo é.

Carnaval 2011: quebrando a estátua de Sísifo



Por sua ousadia de ter visitado ao inferno e ludibriado o velho Hades retornando à vida e escapando a todo custo da Morte, Sísifo foi condenado pelos deuses à repetição: erguer uma rocha até o cume de uma montanha para, logo em seguida, vê-la rolando montanha abaixo e tendo que trazê-la novamente ao cume: eternamente. Sísifo, como diz Albert Camus, representa o homem revoltado: revoltado com a vida e com o absurdo de sua existência. Porém, Camus esqueceu de pontuar outro problema presente neste absurdo: a repetição em si.

No Carnaval do ano passado, meu grande amigo-irmão Flávio Minno nos disse que não sairia no Carnaval, pois todo ano fazíamos o mesmo percurso: 1. Sexta feira de Carnaval: seguir o Bloco da Colméia de Lula e finalizar no Recife Antigo, mas tendo a obrigação de comer acarajé na Dantas Barreto. 2. Sábado de Zé Pereira: ir para o Galo, estacionando na 7 de setembro para esperar o Bloco Nós Sofre Mas Nós Goza do grande Tarcísio Pereira para logo em seguida desembarcarmos na casa de Léo para prestigiar seu tradicional Caldão. 3. Domingo, segunda e terça-feira: de manhã, Olinda; à noite, Recife Antigo, alternando entre a Praça do Arsenal no Bar do Mamulengo e o bar de Fernando, primo de Léo.

Incrível, mas todo ano fazíamos a mesma coisa. A repetição eterna. O Mito de Sísifo bem ali à nossa frente. Interessante como nossa mente – e Freud já nos ensinou isso – tende à repetição de maneira mórbida. Na repetição, de certa forma, criamos uma zona de conforto. No dia a dia, repetimos secularmente as mesmas coisas: como escovamos os dentes, como vamos ao trabalho, as coisas que nos interessam, os programas que assistimos, as bebidas que bebemos, nossa dieta, nossas discussões e crenças: Sísifo está ali nos espreitando com um sorriso sarcástico: “É, meu velho, sua vida está se tornando maçante devido à repetição”.

A repetição, por outro lado, possui um poder especial: destrói a criatividade. Portanto, destrói a própria intensidade da vida e a possibilidade de encará-la sempre como algo novo e maravilhoso. Há uma acomodação natural na repetição, daí este instinto de morte, este cansaço que a maioria das pessoas sente.

Para criar intensamente é preciso ludibriar a repetição. Só assim podemos dar um sentido maior às coisas e viver de maneira realmente intensa. No Carnaval, parece que uma obrigação insuspeita de diversão se derrama sobre todos: mas quem, como dizia Adorno, realmente se diverte num lugar de diversão? Olhos cansados, vozes repetitivas e corpos deformados pelo cansaço desfilam de cá pra lá. Poucos, mas muito poucos mesmo, irradiam alegria. O cansaço é a regra.

Iremos escutar Vassourinhas pela milésima vez. Em uníssono, pela milésima vez, todos cantarão que “meu bloco é campeão” e que “salve teu Carnaval”. A obviedade se torna a lei. O que se espera, realizar-se-á. Não tem como fugir.

Por isso, este ano, decidi quebrar a estátua de Sísifo e fazer um Carnaval totalmente diferente: ir para lugares diferentes, sem esperar nada, apenas contemplando a vida. Contemplar as cores dos lugares e das pessoas já nos coloca em atenção e na possibilidade de visitar a intensidade.

Fui para o Carnaval de bairro no Parnamirim. Participei da Confraria dos professores em Afogados no Bar da Amara. Vi pessoas realmente alegres no Mercado da Boa Vista com suas mil cores. No sábado do Galo, estava em Olinda pela manhã: uma manhã virginal, realmente alegre e diferente: Olinda, quase vazia para o Carnaval, era só risos e animação... verdadeiros. Viajei para a fazenda de meu grande amigo Antônio em Igarassu e tive uma das noites mais estranhas e inovadoras dentre as noites carnavalescas. Vi um bloco dos infernos na Enseada dos Corais com meu pai e apenas na terça-feira à noite – quando me encontrei com meu amigo Léo e meu amigo Pietro no Recife Antigo – pude redimensionar o caráter da repetição e, por fim, entender: somos nós, e apenas nós, que fazemos o nosso próprio Carnaval. Ou melhor: somos apenas nós que podemos preencher de sentido as coisas, enaltecendo a vida e celebrando sempre. A arte da intensidade está intimamente associada à arte da celebração. Evoé, Baco.


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Escritos dos Amigos

Poema Ébrio
por Leonardo Neves




Posso.

                      Em tudo

                      eu posso.



                              Realmente não interessa

o sangue dos prédios ou das árvores

ou ao menos dizer que esta merda não interessa.



Não sou mais poeta:

                             nenhum orgulho me enche o saco.


Acordo e desperto nas mesas.

As mulheres vem e vão:

                                   Oh, mundo embucetado!

                                    É buceta pra todo lado!



Queria uma dúzia de louras

pra provar que o amor não é nada!


( descarta Descartes

                  e segue teus instintos mais torpes )


Oh, a generosidade:

               a melhor coisa

                        que pode o dinheiro comprar.



Uma saideira pra todo mundo!

E põe na minha conta!

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Escritos dos Amigos

Os princípios etílicos do boêmio
por Walter Bezerra
retirado do site Papo Furado
de Jairo Lima



O verdadeiro boêmio não bebe para esquecer, mas, vez e quando, bebe a memória.
O verdadeiro boêmio não é um bêbado contumaz, não bebe para se embriagar, mas para venerar a noite e as suas benesses.
O verdadeiro boêmio não é só aquele que dá de bom grado a gorjeta ao garçom, mas aquele que também o presenteia com um bom disco de Noel, Vinícius ou outros tais.
O verdadeiro boêmio tem cadeira cativa em todos os botecos onde se faz indispensável e desejado.
O verdadeiro boêmio não tolera bate-boca nem disse-me-disse. Ele pode até beber fiado, mas se abstém de conversa fiada.
O verdadeiro boêmio não senta à mesa cuja principal iguaria é a vida alheia, mas lhe cai bem banalizar os canalhas e velhacos que usurpam o país e se aproveitam da embriaguez política do seu povo.
O verdadeiro boêmio nem sempre canta ou toca qualquer instrumento, mas sabe como ninguém interpretar a beleza nostálgica de um Tango para Tereza.
O verdadeiro boêmio não é um “malandro”, mas um idolatra que celebra a vida e ressuscita, a cada golada de pinga, cerveja ou uísque, uma boa sacada de igual boêmio como Mário Lago: “Quando deixarmos de ter esperança, é melhor apagar o arco-íris”.
O verdadeiro boêmio não polemiza com os que se dizem donos da verdade, simplesmente porque ele não cobiça ter 51% das ações de soberba nenhuma.
O verdadeiro boêmio pode até esquecer a primeira namorada, jamais a “saideira”.

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Livros

Dona Flor e Seus Dois Maridos
por Jorge Amado




“Vadinho, o primeiro marido de dona Flor, morreu num domingo de carnaval, pela manhã, quando, fantasiado de baiana, sambava num bloco, na maior animação, no Largo Dois de Julho, não longe de sua casa. Não pertencia ao bloco, acabara de nele misturar-se, em companhia de mais quatro amigos, todos com traje de baiana, e vinham de um bar no Cabeça onde o uísque correra farto à custa de um certo Moysés Alves, fazendeiro de cacau, rico e perdulário”. Assim principia Jorge Amado a saga de Vadinho e dona Flor.

Sempre acreditei que Amado é superestimado no Brasil. Aqui parece que ter sucesso é sinal de que sua literatura não deve ser boa. Para ser um grande escritor no Brasil, o sujeito deveria ser lido apenas pelo próprio escritor. Ser lido por muitas pessoas é sinal de incompetência literária.

Nunca concordei com essa visão canhestra. Amado possui um talento gigantesco quando se trata de contar estórias com personagens interessantes. Vadinho talvez seja o  personagem mais conhecido – e ao mesmo tempo o menos lido – de Jorge Aamado.

Sendo querido de todos, Vadinho possui aquele espírito de alegria que algumas pessoas possuem e que por serem espontâneas não cabe nenhum julgamento. A sinceridade da alegria é envolvente e um coração leve se faz perceber a quilômetros de distância.

As peripécias de Vadinho são sempre regadas a muita bebida, jogos e mulheres... muitas mulheres. Um apaixonado pela vida, todos ao seu redor o condenam por levar uma vida tão devassa, mas ao mesmo tempo sentem uma certa inveja desse desprendimento diante de tudo que sua sinceridade de espírito lhe permite viver.

Logo no inpicio da obra há uma cena memorável. Com a morte de Vadinho, começa a circular na cidade um poema enaltecendo suas proezas. O poema é venerado por todos e todos os poetas da cidade querem ser seu autor, já que se trata de um poema anônimo.

Num dos muitos saraus promovidos pelos poetas da cidade, surge a discussão sobre a autoria do poema. Amado diz que o debate azedou-se quando o poeta Clóvis Amorim, “língua viperina solta numa boca de epigramas”, negou a autoria do poema a Hermes Clímaco.

Ele diz: “- De Clímaco? Não diga besteira... Aquele, com muito esforço, obra uma quadrinha em sete sílabas. Um poeta enduflexado...”. Por cúmulo do azar, Clímaco adentra o recinto na mesma hora e replica indignado: “- Enduflexado é a puta que o pariu...”.

O retorno do espírito de Vadinho para a cama de dona Flor – agora casada depois de oito meses de viuvez – saciando seus desejos carnais e seu amor por ela é uma representação clara de um personagem que vai além da barreira da morte, além de tudo o que é aceite e normal: triunfo da vontade e do desejo, Dona Flor e seus Dois Maridos celebra a vida numa intensidade contagiante.

Vadinho, o egun sem cemitério, é o Sísifo brasileiro, só que não revoltado, pois sua alegria e seus despojamento já transbordam nas taças da vida onde nenhuma tristeza ou aflição podem ser mais poderosas. Casamento invertido, amor invertido, espiritualidade invertida. O velho Amado realmente sabia das coisas.

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Artes Visuais

Capela Rothko

Capela Rothko

Composição nº 37/nº19


O expressionismo abstrato de Mark Rothko – pintor russo naturalizado americano – traduz de maneira superlativa sua obsessão por descobrir uma passagem para a linguagem subterrânea de nossa mente. Influenciado por Nietzsche e pela Mitologia Grega, Rothko entendia que a arte trágica e a mitologia deveriam tomar parte na formação do homem adulto como um indicativo de seu mergulho para além do vazio do mundo moderno onde não há a devida atenção ao mundo espiritual – entenda-se essa espiritualidade como o amadurecimento do homem em relação a si mesmo, voltando-se radicalmente para si em busca de um conhecimento ainda mais profundo da realidade.

Impressionado também pelo poder das esculturas de Michelangelo, Rothko cria uma obsessão contínua pela esfera artística em que todo o ser mergulha na própria arte como um organismo vivo. De fato, essa obsessão acompanhará Rothko em toda a sua trajetória como pintor. Suas composições abstratas servem como uma passagem mítica para um universo paralelo em que as verdades dessa realidade cotidiana caem em desuso e uma nova ordem surge.

Não se trata de contemplar as cores em si ou os conceitos que estão por trás da pintura. Em Rothko, trata-se muito mais de se despir, deixar as mãos vazias e meditar com e para além da pintura. Seus portais pictóricos querem conduzir o “ouvinte” àquela região sombria, mas extremamente fértil, em que os mitos nascem, ou seja, a fonte dramática da arte, portanto do discurso mais rigoroso sobre a própria realidade.

O grande sonho de Rothko era construir uma capela sua – ideia inspirada na Capela Sistina. A inspiração principal aqui é que a pintura não fosse tratada como moda, mas que aquela aura de mistério tão presente antes da era da reprodutibilidade se tornasse regra.

Esse sonho quase se realiza quando o restaurante luxuoso Four Seasons pediu para que ele pintasse quadros gigantescos que funcionariam como murais para o restaurante. Nesse ínterim, ele viaja novamente para a Europa e volta ainda mais inspirado quando conhece a sala da biblioteca de Michelangelo. A obra de Michelangelo, segundo Rothko, possuía o poder único de aprisionar o observador numa sala sem portas ou janelas, como se existisse apenas aquele mundo. Porém, quando ele mesmo foi jantar no restaurante e percebeu a futilidade das pessoas ali – que estavam mais absorvidas em gastar fortunas num prato de comida – seu sonho foi por água abaixo. A Capela Rothko só se realizaria depois, sendo instalada na universidade de Saint Thomas, Houston, Texas.

Esta Capela culmina a genialidade de Rothko e pode ser entendida como um retorno à aura de mistério da arte tão presente na Idade Média e no Renascimento. O objetivo principal é proporcionar uma experiência meditativa e espiritual – as pinturas são a fonte desse poder transcendental. Ao se suicidar com 66 anos, provavelmente Rothko soubesse que a trilha iniciada por sua jornada espiritual através da arte fosse inglória diante de um mundo em que a futilidade e a banalidade são endeusadas. Talvez.

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Citações

Bacanal
por Manuel Bandeira



Quero beber! Cantar asneiras

No esto brutal das bebedeiras

Que tudo emborca e faz em caco...

Evoé, Baco!



Lá se me parte a alma levada

No torvelim da mascarada,

A gargalhar em doudo assomo...

Evoé, Momo!



Lacem-na toda, multicores,

As serpentinas dos amores,

Cobras de lívidos venenos...

Evoé, Vênus!



Se perguntarem: Que mais queres,

Além de versos e mulheres?...

- Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!...

Evoé, Baco!



O alfanje rútilo da lua,

Por degolar a nuca nua

Que me alucina e que eu não domo!...

Evoé, Momo!



A Lira etérea, a grande Lira!...

Por que eu extático desfira

Em seu louvor versos obscenos,

Evoé, Vênus!