terça-feira, 12 de abril de 2011

Comentários Cotidianos


Filosofia – para que serve?



Quando questionamos sobre o sentido mais originário da filosofia estamos, de fato, questionando o próprio pensamento. Entretanto, no questionamento pela utilidade da filosofia, já estamos munidos de dois conceitos que são apressadamente postos: a filosofia e a utilidade. Quando perguntamos por sua utilidade, parece que estamos indicando a aplicabilidade da filosofia no mundo real, nas atividades cotidianas, na relação com outras ciências. Dizemos: filosofia – para que serve? Mas escutamos, desde já, a busca pelo seu lado pragmático, pelo uso imediato, assim como ocorre com as tecnociências. A matemática serve para a química, biologia, física, geologia, etc. E estas ciências são aplicadas no mundo com fins bem específicos, principalmente para transformar este mesmo mundo. É neste sentido que deveria seguir nosso questionamento?

Só tornaremos claro o questionamento quando desdobrarmos aquilo que é questionado. Primeiramente, a utilidade. Utilidade significa a qualidade daquilo que é útil. E útil, por sua vez, diz daquilo que traz benefícios, que possui serventia, que é produto do trabalho. No De Officis de Cícero, utilis possui o sentido próprio daquilo que é bom, vantajoso e aproveitável. Já nas suas Cartas Familiares, utilitas aparece como serviços prestados. Aquilo que foi feito para outrem deve possuir o caráter de bom e vantajoso para ser entendido como algo útil. Em grego, útil se diz krésimes e já em Platão adquire caráter ético-estético, uma vez que a estética platônica entende que belo pode ser também algo útil; assim, um grego poderia dizer que um fogão era belo devido à sua utilidade.

No relativismo do pragmatismo, vemos que a verdade se mede pelo fim que é alcançado pelo conhecimento. Se o conhecimento é fecundo para a ação (pragma em grego), então é verdadeiro. Este conceito está atrelado à noção de que o verdadeiro deve ser útil, mas aí entra seu relativismo: o que pode ser bom para um ser pode não ser para outro. O conhecimento deve ser útil na medida em que serve à vida e possui finalidades práticas. O problema aqui se refere a que esfera estamos nos referindo quando falamos em “finalidades práticas”. Uma partida de futebol possui finalidades práticas? Ela é útil ou inútil? Uma obra de arte possui finalidades práticas? E a mesma é útil ou inútil?O que dizer de uma festa? Parece-nos que o âmbito da utilidade, então, não possui universalidade. Uma pessoa que possui doutorado em nefrologia e que trabalha em certo hospital deveria ser considerada inútil por todas as pessoas que não possuem problemas renais?

A utilidade, em seu sentido ontológico, deve estar unida ao que já citamos antes: àquilo que é bom, vantajoso e aproveitável. Não cabe indicar aqui para quem a utilidade valeria. Ela vale por si mesma: quando nos relacionamos com algo no modo da utilidade estamos operando as coisas a partir de um conceito de aplicabilidade universal, mas não de verificabilidade universal, já que o sujeito transcendental que se relaciona com o ente pode ou não estar no modo da utilidade. A manualidade do mundo é sempre para mim, daí o caráter universal da utilidade. Mas isso não pode indicar que a utilidade esteja dada apenas no mundo como coisa. Uma meditação que faço sobre minha própria vida, por exemplo – e o que se aproxima de mim no modo da “manualidade” são minhas lembranças – pode ser extremamente útil: algo bom, vantajoso e aproveitável.

Mas, e a filosofia? Aristóteles distinguiu as ciências em três grandes ramos: 1. Ciências teóreticas; 2. Ciências práticas e 3. Ciências poiéticas. A primeira busca o saber por si mesmo; a segunda se refere ao saber que visa alcançar a perfeição moral e a terceira busca o fazer, ou seja, o saber deve produzir determinados objetos (hoje em dia, na era da tecnociência, é esse terceiro ramo do conhecimento que é mais valorizado). Ora, a metafísica, entendida em termos aristotélicos, refere-se à filosofia primeira em oposição à filosofia segunda ou física. Trata-se da ciência que se ocupa das realidades que estão acima das realidades físicas: nossa tentativa eterna de alcançar uma realidade meta-empírica. Contudo, desde a segunda navegação de Platão – onde se descobre uma realidade supra sensível e transcendente – que o lugar central do conhecimento não pode ser mais o mundo em sua objetividade nua e crua. É o pensamento em sua abertura original para o ser que funda toda e qualquer compreensão, portanto, toda e qualquer realidade.

As ciências teoréticas – e a filosofia despontaria como a mais importante e de maior alcance - respondem pelo anseio do homem em conhecer as causas de tudo aquilo que é, ou seja, trata-se de uma busca por uma ontologia – o estudo do ser. Questionar-se sobre a essência do ser, do tempo, do espaço, de Deus, da vida, da mortalidade ou da eternidade, das leis universais, da estrutura das coisas, da realidade em seus nexos mais profundos, dos conteúdos de nossas ações e crenças é, antes de tudo, um saber que se basta a si mesmo. Sua utilidade só pode ser determinada por aquele que se satisfaz com os frutos produzidos por tais ciências.

Descartes, decepcionado com as humanidades de seu tempo e seduzido pelo rigor e exatidão das matemáticas, elabora um método para alcançar uma verdade evidente. Realmente, todos nós trafegamos no mundo munidos com diversos conceitos que dizemos ser verdadeiros e bons. Estes conceitos nos movem, elaboram o enredo de nossas vidas e nos conduzem mundo afora. E o velho Descartes foi encontrar essa evidência – depois ampliada pela fenomenologia de Husserl – no pensamento: cogito ergo sum. O mesmo Descartes nos diz que a filosofia, que é o estudo da sabedoria, é “um perfeito conhecimento de todas as coisas que o homem pode saber, tanto para a conduta de sua vida como para a conservação de sua saúde e a invenção de todas as artes”. É preciso conhecer a natureza de sua munição.

Este lugar privilegiado que Descartes confere à filosofia foi usurpado por Marx, Wittgenstein e Heidegger. Em Marx, o fim da filosofia ocorreria com a transformação desta em mundo, ou seja, ocorreria sua supressão na práxis. Em Wittgenstein a filosofia só possuiria uma única tarefa: realizar a terapia da linguagem. Levado a termo tal tarefa, a filosofia desapareceria. Em Heidegger, por fim, o fim da filosofia indica seu fim enquanto metafísica: supera-se a metafísica pelo surgimento da questão da tarefa do pensamento: mas o centro da questão, aqui, é a verdade – a alétheia – compreendida como o desvelamento e a clareira do ser. Seja como for, os três falharam: só a própria filosofia pode responder aos novos problemas e questionamentos levantados por tais pensadores.

Em todos os casos citados, ainda é o pensamento o norteador, aquele que aponta caminhos e indica falhas. Assim, de modo muito claro, quando se pergunta pela utilidade da filosofia, uma resposta plausível seria: Sim, a filosofia é extremamente útil, mas apenas para aqueles que estão interessados em manter o pensamento sempre em marcha. Para os outros – aqueles para quem o pensamento ainda não se endereçou em toda sua radicalidade, originalidade e profundidade – não, a filosofia não teria nenhuma utilidade.

A questão, então, se transforma na questão do movimento do pensamento filosófico. Não estaria no universo das ciências com aplicabilidades financeiras ou econômicas, por exemplo. Não se trata da utilidade da produção, mas da utilidade questionadora essencial que sempre moveu nosso pensamento.

Questionados pelo próprio pensamento, chegamos até nós mesmos. E só assim podemos exclamar: “Filosofia: o que põe o pensamento em marcha!”.


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Meus poemas

A porta estreita




Minha sabedoria é incomunicável

e me arde um fogo superlativo

- uma benesse dos deuses

uma dádiva só minha.



São muitos os aflitos

os fracos e medrosos

aqueles que vagam

com olhos de cansaço e assombro.

Não mais! - grita vossa alma.



Mas o medo secular

            que habita vossas dúvidas

                 estremece as montanhas

                    paralisa a mente

                         e congela o coração.



Do cimo deste vale

contemplo tudo e todos

celebro tudo e todos – coração insaciável!

embriagado de mundo e ciência

de luz e distância

de mundos –

... e mais.



No banquete que se abre

a voz se faz estrondosa

são proposições de aço e força

de primaveras e verões

sol incomum que se deleita

em meu peito aberto.



A porta é sempre estreita

pirâmide desertificada pelo medo -

habitada agora por minha coragem

de renegar a tudo

e aceitar a mim mesmo.



Choram por iluminação

e não enxergam a própria luz

que doce, canora e suave

se esprai como um mar sedento

sobre as torrentes

de cada coração.



Então, entendi:

o jogo, o medo, as regras,

as crenças, as dúvidas e o apanágio

que circulam por esta Tebas sonhada

por esta terra conquistada

com disciplina e amor.



[ - Sigam, viajantes!

Minha distância é imensa

vejo a todos ao longe

e nada mais pode ser feito

... não por outrem.

Aqui,

           minha sabedoria é incomunicável!

... ]

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Escritos dos Amigos

Versão poética da jornada de Baco nas serras gaúchas

por Gustavo Pedrosa



Veículos pesados de 52 lugares

Carregam em suas poltronas

As próximas rainhas das passarelas.

Sentado num banco de cimento

Um pernambucano embasbacado

Observa o sobe e desce rodoviário.



Garibalde-me nas sombras de março

Embriago-me dos vinhos de Baco

Nos nobres parreirais gaúchos

Seja Pernambuco em taças de cristais

Sejam as gaúchas azulejadas

Em meu quarto juvenil.



Que observem do vinho as cores

Da anfitriã, a saudade

Dos campos, o orvalho

Do vento, os cabelos soltos

Do sol, a sombra dos vinhedos.



Ficaram silêncios umedecidos

Por tenras lembranças

Dores de partos místicos

Mitigadas pelos taninos

Amalgadas às lágrimas do vinho

Nos cristais trincados pelo riso.

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Traduções


Para quando sobrevir o final

por Gito Minore



E se houver apenas o silêncio

a insônia de uma torneira

que nunca deixa de pingar.

E se restar apenas contar

uma história sem história,

a noite nula

de 40 cigarros

aplastando-se sem sentido.

E se se trata

de retratar sempre

a mesma paisagem sempre,

a mesma mísera janela sempre,

a mesma miséria para sempre.

E se este coração adormeceu

de uma anestesia local

e se sente inútil

batendo a meio motor,

chorando lágrimas falsas.

E se foi apenas para desfrutar

desta paz de Lexotanil,

essa música entediante

esta melodia monótona

esta solidão de duas praças.

Para quando sobrevir

o final improvisado

não ser mais do que um

"Renuncie a si mesmo, irmão”

para pagar

a entrada para a eternidade

ou ao nada

que nos espera.

Cairemos apenas

os músculos cansados, apenas

os lábios cansados, apenas

as mãos fracas, apenas

os dedos cansados, apenas

para justificar

esta ausência de existência

que nunca nos cansamos

de tomar por certa

presente, medíocre

e ironicamente

especial e eterna.




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Livros


Após as análises de Albert Camus e Walter Benjamin, creio que nossa compreensão sobre o alcance e profundidade da obra de Kafka aumentou; mas isso não indica o esgotamento das interpretações possíveis. Ao contrário – já que estamos falando de um grande escritor possuidor de um pensamento realmente profundo e forte – a obra de Kafka possui fronteiras que sempre se alargam.

Cada releitura de suas páginas traz sempre uma compreensão nova e instigante. Kafka possui um poder de originalidade tão incrível que é assombroso como sua literatura parece única entre tantos outros grandes mestres.

Mas há uma compreensão muito pessoal que gostaria de compartilhar com os leitores de Kafka. E, quem sendo leitor, é incapaz de admirá-lo? Como diria o velho Borges: “Que outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que tenho lido”. Kafka é um dos pontos mais altos desse orgulho.

Minha ideia é simples e, ao mesmo tempo, impossível – ao menos em termos cronológicos. Creio que Kafka elaborou uma trilogia não dita para discutir a existência humana em todo o seu peso e envergadura. Tratam-se das obras América, O Castelo e O Processo. Digo impossível pelo simples fato de que O Processo foi redigido em 1925, enquanto O Castelo foi elaborado no ano seguinte. Além do mais, América é uma obra inacabada de Kafka e na minha compreensão surge como o primeiro tomo desta “trilogia não dita“.

América narra a chegada de Karl Rossman, um rapaz de 16 anos, aos Estados Unidos. Sua família o enviara ao Novo Continente após o jovem ter seduzido uma criada e ter tido um filho com ela. Rossman, inicialmente, fica “preso” no navio que o traz da Europa à América. Ele não sabe, na verdade, se quer ou não viver nesta terra nova, mas assim terá que o fazer. Kafka, como judeu, parece ter em mente a Queda bíblica. A expulsão do paraíso – agora a Europa – se deu por causa de sua fornicação e a América surge como este mundo novo pós expulsão onde o jovem terá que trabalhar e viver sozinho.

O que destoa nesta obra de Kafka é o tom otimista de sua personagem. Ele consegue se virar em Nova York, libertar-se de seu tio e acaba em Oklahoma num teatro ao ar livre onde “todos eram bem vindos”. Essa esperança inesperada em Kafka parece indicar essa entrada triunfante e destemida que o jovem faz no mundo. Todos os sonhos são possíveis e tudo parece conspirar a seu favor.

Mas o tom muda completamente em O Castelo. Aqui temos a estória do agrimensor K. Ele é contratado por um conde para trabalhar num castelo que domina uma vila e todos, de modo silencioso, parecem lhe dever um respeito sombrio. O problema é que K. nunca atinge o castelo. A neve, a imbecilidade das pessoas, a burocracia, a alienação do sistema e as estruturas de poder lhe impedem de realizar seu trabalho.

O desespero de K. se agiganta e seu sonho de realizar seu trabalho sempre se vê frustrado. São aqueles sonhos da juventude que se esfacelam e se tornam realidade diante das exigências da vida adulta.

Por fim, O Processo. Aqui, Joseph K. acorda e é detido sem saber que mal fizera. Ele é condenado de um crime que desconhece. Um longo processo contra sua pessoa corre sem sua presença. Ele não consegue entender a natureza última do processo e novamente as estruturas burocráticas o impedem de atingir suas metas. Mas esta burocracia kafkniana não pode ser resumida ao mundo das leis: trata-se de estruturas e mais estruturas do mundo que nos conduzem numa teia feroz e infinita sem sabermos ao certo onde vão dar. Somos condenados a viver - eis o processo mais originário.

Joseph K. é o anti herói que jamais encontra seu juiz – o Deus de todos. No final, quando seus algozes decidem matá-lo, K. entende o teatro em que está vivendo: o mundo e suas máscaras. Morre como um cão após labirintos e símbolos retirados da tradição judaica tão conhecida de Kafka. A trilogia, assim, possui um início, um meio e um fim. Inicio, meio e fim da própria existência humana em seu rasgo mais absurdo e profundo.

Mas isso é, como citei antes, apenas uma compreensão muito pessoal e que necessitaria de muito mais espaço para se justificar. ... como um cão!


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Artes Visuais





Richard Serra é um artista que segue a estética pós minimalista.

O minimalismo encontrou seus expoentes máximos em artistas como Donald Judd, Tony Smith, Carl Andre e Robert Morris onde escultura e pintura se uniam para construir um vocabulário visual onde despojamento, simplicidade e neutralidade definem o projeto desta tendência contemporânea. O uso de material industrial – no seu sentido mais “limpo” – auxiliava a compor esse vocabulário. O sentido era encontrar a expressão mínima daquilo que é necessário para se conquistar o dizer da arte visual.

Eva Hesse e o citado Richard Serra expandiram essa vertente, mas agora com um olhar mais crítico. Serra foca sua atenção e produção em ambientes externos onde se torna possível pensar a relação entre ambiente e arte, entre movimento e expressão artística. O pós-minimalismo amplia o alcance do minimalismo – isso é tanto verdade que a Land Art (já postamos aqui o trabalho do artista Christo ) extrapola o limite desta mesma expressão – configurando um novo dizer estético.

Serra se volta em definitivo para o espaço e o movimento. Quase como um arquiteto que se nutre do espaço como matéria prima, Serra conjuga diversos espaços – galeria, áreas urbanas ou rurais – para ampliar suas possibilidades artísticas. A beleza conquistada aqui está na própria relação daquele que se relaciona com a obra.

Depois que o Dadaísmo quebrou de vez a aura divina do quadro, as artes visuais se moveram nas mais diferentes formas de expressão. Claro que para um olhar menos atento, uma saudade infantil vai surgir quando se deparar com essas tendências contemporâneas.

Os limites de uma tradição foram alargados, seus alicerces remodelados e novas expressões se fizeram presentes. O trabalho de Serra possui esse poder do novo e do contemporâneo, mas sem perder de vista a beleza e a textura quase viva de suas composições.

O pós minimalismo – assim como a obra de Serra – modifica nosso modo de ver e de se relacionar com a arte. A relação com o espaço, o meio ambiente e as pessoas apontam para uma preocupação muito própria e necessária de nosso tempo. Sempre repeti isso: não creio que a arte perdeu sua aura. Nós é que desaprendemos a olhar para ela, saudosos de um tempo que não retorna mais.


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Filmes



Teorema
de Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini é um diretor que muitas vezes prefere transmitir suas ideias mais com imagens do que com textos. São as situações limites em que suas personagens são jogadas que indicam o sentido de sua narrativa cinematográfica.

O filme Teorema prima por essa escolha. Pasolini quer discutir os valores do capitalismo centrados no seu núcleo mais importante: a família burguesa. Temas como a beleza, a mulher, a sexualidade, o capital, a moral burguesa e valores antagônicos são colocados aqui de modo explícito, quase agressivo.

Teorema narra a chegada de um jovem misterioso e silencioso a uma família burguesa. Há um poder de atração natural que emana dele em direção a todos os que estão na casa da família.

Assim, o rico pai de família que decide hospedar esse jovem em sua casa não imagina as consequências de tal escolha. O jovem seduz a todos: mãe, filhos e a empregada. De fato, Pasolini usa do silêncio para falar da dissolução destes valores e desta estrutura que é uma reprodução em caráter microssocial de um poder ainda maior, o capital.

Não ficamos sabendo se o jovem é um messias, um anjo caído, um demônio ou um sátiro. Sabemos apenas que sua chegada e partida é anunciada por um carteiro de sorriso angelical que se chama Angelo ( nome muito sintomático, por sinal). Seu poder descomunal de sedução indica apenas esse desmoronamento já sentido dessa família burguesa.

Além do mais, Pasolini recorre a símbolos para narrar essa dissolução familiar: um terreno arenoso que demonstra o percurso dessa devastação silenciosa. Os símbolos católico-burgueses são devastados por Pasolini: a mão que vence sua repressão e infelicidade sexuais com o jovem; o filho que assume sua homossexualidade; a filha que se entrega com fúria e o pai que, moribundo, nada pode fazer.

Teorema é um filme impiedoso. O silêncio e sua quase docilidade contrastam com seu sentido mais violento e “impuro”. Quem já acompanhou a fúria deste grande diretor em filmes do quilate de Saló, Decamerão, Medea e O Evangelho segundo Mateus, por exemplo, não pode, de maneira alguma, se eximir de assistir essa instigante película. Recomendo.

Eis o link único para download no Blog Laranja Psicodélica:

http://laranjapsicodelica.blogspot.com/search?q=pasolini


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Citações

O cão é fiel, não há dúvida. Mas será por isso que deveríamos tomá-lo como exemplo? Afinal, ele é fiel ao homem e não ao cão.


Karl Kraus

In: Aforismos



O inconsciente não é pura articulação de significantes. O inconsciente é pulsional. O âmbito pulsional é o campo de Eros em que brotam as flores do mal,onde a pulsão da vida é mordida pela morte.

Antonio Quinet

In; A descoberta do inconsciente – do desejo ao sintoma



O fim da arte somente é concebível quando os homens não mais puderem distinguir entre o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o belo e o feio, o presente e o futuro. Seria uma condição de absoluta barbárie, no auge da civilização.

Herbert Marcuse

In: Sobre o caráter afirmativo da cultura

Gastamos a maior parte de nossas vigílias em despedaçar com o pensamento nossos inimigos, em arrancar-lhes os olhos e as entranhas, em pressionar e esvaziar suas veias, em pisotear e esmagar cada um de seus órgãos, deixando-lhes unicamente, por lástima, o prazer do esqueleto.

E. M. Cioran

In: Odisséia do rancor



Sim, o homem é seu próprio fim. E é seu único fim. Se quer ser alguma coisa, é nesta vida. Agora, eu o sei de sobra. Algumas vezes, os conquistadores falam de vencer e dominar. Mas é sempre “se dominar” que eles ouvem.

Albert Camus

In: O Mito de Sísifo



Em suma, não existe, imposta aos filósofos, nenhuma obrigação a priori ou específica que os proíba de falar esotericamente. Existe, porém, uma obrigação geral, válida para todos os pensadores e escritores, de tentar escrever de maneira tão vigorosa e tão simples quanto possível.

Gilbert Ryle

In: Linguagem ordinária

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