quarta-feira, 8 de junho de 2011

Comentários Cotidianos


Do conhecimento no Renascimento

Nós, homens pós modernos, nos ufanamos de viver um século de conhecimento e avanços inigualáveis. De fato, há novos conhecimentos e grandes avanços nas ciências, mas não devemos nos esquecer que muito do que produzimos neste século é mais informação do que conhecimento e, ainda mais importante, trata-se de uma tecnociência que produz mais bens de consumo baseados na tecnologia do que em avanços sobre a compreensão de questões fundamentais ao ser humano.
Interessantemente, questões que sempre instigaram o pensamento humano – e que possuem caráter supra-sensível em essência - parecem todas respondidas de uma só vez. O pensamento, quando se apressa, quase sempre incorre em erros e dogmas, sejam eles de natureza científica, filosófica, religiosa ou moral. O pensamento, posto em marcha, possui quase sempre o caráter meditativo e não meramente calculador – modo tão próprio às tecnociências vigentes e que elaboram novas mitologias.
Apesar de nos arvorarmos num direito que não é exclusivamente nosso, é muito comum nos depararmos com esse sentimento de grandiosidade no seu sentido mais particular quando, para bem da verdade, ele já foi conquistado e compartilhado por outros homens. Quero me referir aqui a um momento bastante rico de nosso pensamento, ou seja, um momento do Ocidente: o Renascimento.
O Renascimento é, antes de tudo, uma mudança radical na atitude dos homens perante o mundo e a vida, perante a verdade e o conhecimento. Tal poder que deriva desta visão de mundo se traduz por um retorno consciente feito pelos renascentistas à sabedoria grega e romana. Mas, fato importante, esse regresso não é uma retomada que repete ipse literi a Antiguidade. Temos muito mais uma tentativa grandiosa de continuação e alargamento das fronteiras deixadas pelos gregos e latinos do passado.
Um dos pontos cruciais do Renascimento – e seu primeiro grande anúncio se dá com Dante Alighieri – é partir da cultura medieval e escolástica para atingir essa amplitude posterior, mas derivada da Tradição. Neste embate entre a Tradição secular e o retorno, teremos a força motriz capaz de produzir gênios gigantescos que possibilitariam uma revolução no pensamento. O século XIV é, de fato, a origem de um processo que se estenderá até o advento da Modernidade que, em certos pontos, ainda mantém os lastros do pensamento medieval e renascentista.
O humanismo renascentista não apenas coloca o amor à sabedoria como a ordem do dia, mas insere-a na sua realidade histórica efetiva: os acontecimentos ganham uma dimensão histórica não encontrada na Idade Média. Além do mais, o homem ganha novos contornos e é inserido no mundo da natureza e da história e se torna capaz de forjar seu próprio destino. O indivíduo ganha lugar de importância uma vez que o mesmo está ligado à história e à natureza: trata-se de um jogo em que a analogia e a simetria permitem vislumbrar os meandros mais complexos da relação entre universal e particular.
No Renascimento é declarada a aversão ao ascetismo medieval e toma lugar o reconhecimento do valor do prazer – retorno ao epicurismo. Porém, este reconhecimento conecta o homem à comunidade humana e ganham destaque a poesia, a história, a eloquência e a filosofia como conhecimentos que podem, verdadeiramente, indicar o que o homem deve ser: a ética se alinha à ontologia.
No âmbito religioso, o renascentista reconhece a identidade essencial entre filosofia e religião e acentua a unidade de todas as religiões, mesmo percebendo a diversidade dos cultos. Tal atitude (já levada a termo por Alexandre, o Grande, por exemplo) enriquece não apenas a religião em si, mas permite que a filosofia se embrenhe pelo terreno da cultura, daí a valorização das expressões acima citadas. O homem é capaz, agora, de interrogar a natureza e desenvolver métodos que satisfaçam sua curiosidade natural, culminando com a revolução do nascimento da investigação científica e da nova concepção de mundo.
Dante, em sua poesia, ressalta a renovação sofrida por seu espírito sob o poder espiritualizante do amor. Seu “doce estilo novo” é ditado por forças íntimas e por seu destino individual, mas carregando consigo uma renovação universal: religião, arte, Igreja e Estado. Sua alma, que sai das esferas do pecado e da culpa, atinge a purificação do Lete e do Eunoé e realiza não a preparação da alma do poeta, mas sim  a ascensão e renovação do homem Dante. A busca, em síntese, é pela felicidade, onde a riqueza alegórica da arte interfere como instrumento para esta mesma renovação. O sangue, os ossos, a carne em si que habitam seus poemas é um forte indicativo desta necessidade de chamar o homem concreto para a viagem ultraterrena: a renovação torna-se palavra de ordem.
Petrarca, ainda no século XIV, na obra De remediis utriusque fortunae, reconhece que a contradição é lei da vida – princípio da polaridade retirado da gnose neoplatônica presente na obra Caibalion – e reconhece que a maior luta que enfrentamos, a mais áspera, é aquela luta que se trava no próprio homem. Coluccio Salutati dá nome a tal luta: a morte. Suas Epistolae são um indicativo desta revolta contra a morte – tão presente no Mito de Sísifo de Camus – e uma afirmação veemente pela vida. Esta tese se agiganta na obra De voluptate de Lourenço Valla onde surge a tese de que o prazer é o único bem para o homem. Para Valla, o único fim da atividade humana é o prazer e, neste sentido, as artes liberais – medicina, jurisprudência, poesia, oratória – não possuem outro fim que não o prazer. Valla sabe que o anseio do homem pela imortalidade é um peso e que por ser mortal lhe parece que a natureza está em débito para com ele. Todavia, este renascentista estava ciente de seus limites e entendia que essa era uma exigência impossível de ser atendida. Além do mais, Valla ousa discordar de Aristóteles, dizendo que o mesmo é filósofo e não sophos, possibilitando a variedade de opiniões mesmo sobre as autoridades.
Em Miguel de Montaigne, nos seus Ensaios, temos o exemplo claro de um renascentista que quer por à prova a sabedoria dos antigos. O homem renascentista é um homem da vida e que valoriza a experiência: filosofar quer dizer, aqui, voltar-se para si mesmo, lançar um olhar profundo sobre seu eu – esta base permitira a revolução cartesiana de Descartes e os pensamentos de Pascal. Enaltece os sentidos, assim como Nietzsche, mas reconhece que ao conhecimento sensível falta um critério para distinguir a verdade da falsidade. Seja como for, em Montaigne temos o próprio autor como assunto da obra – e aqui nos lembramos do Satyricon de Petrônio.
Com Maquiavel temos a junção do humanismo renascentista com uma exigência de renovação política. Procura-se renovar o homem não apenas em sua individualidade, mas na sua vida em sociedade. O historicismo e o jusnaturalismo são aspectos concretos da vida do indivíduo e da realização concreta da vontade política. O Príncipe, já no século XVI, preconiza uma república livre, tal como esta existiu nos primórdios da nação romana: trata-se de uma sociedade baseada na liberdade e nos bons costumes, mas como essa tarefa é de difícil consecução, surge a necessidade de um príncipe com poderes para unificar e reorganizar a nação. Maquiavel ensina os políticos a sempre contarem com o pior, mas entendendo que o domínio da ação política é justificada pela exigência que lhe é intrínseca: reconduzir os homens a uma sociedade ordenada que pressupõe a liberdade do homem e o problema da história.
Nicolau de Cusa renova o platonismo – atitude já encetada pelos neoplatônicos, nomeadamente Filon, Saccas, Jâmblico, Plotino e Porfírio – e na sua De docta ignorantia (uma das obras mais conhecidas do Renascimento) estabelece a natureza do conhecimento em si – tarefa magistralmente realizada por Kant na sua Crítica da Razão Pura – atrelada ao conhecimento matemático. O homem pode se aproximar da verdade por graus sucessivos, entendendo que esses graus são finitos, mas que a verdade é o ser em grau infinito. O homem é um “Deus criado” e que não pode tender para outra coisa senão para ser aquilo que é e, apenas deste modo, pode reproduzir a infinitude de Deus – teoria defendida por Aleister Crowley no seu O Livro da Lei.
Marsílio Ficino, na sua Theologia platonica, insere a Cabala definitivamente no universo da teologia e permite novas abordagens sobre o cristianismo. Além do mais, Ficino traduz Platão e elabora comentários valiosos, assim como traduz as Enéadas de Plotino, o ponto mais alto do neoplatonismo. Pico de Mirândola segue esse caminho e elabora a célebre argumentação da justificação do cristianismo através da adição da letra hebraica Schin ao tetragramaton, o nome hebraico de Javé. Na obra De ente et uno ele conjuga doutrinas orientais com magia e cabala, uma verdadeira inovação no seu tempo que culmina com a realização monumental de Cornellius Agrippa com seu De occulta philosophia.
Giordano Bruno defende as teorias de Copérnico no seu Cena delle ceneri e Campanella reitera a importância do conhecimento de si, já que sua Metafísica afirma que queremos conhecer algo diverso de nós pelo simples fato de que queremos o que nós próprios somos – uma visão de ser-no-mundo inovadora.
Neste lastro é que surgirão grandes figuras do Renascimento: Francis Bacon, Galileu e Leonardo. Galileu havia elucidado o método de investigação, mas é Bacon quem compreende o verdadeiro poder da ciência. Na obra Novum organum – que apontou para uma lógica diferente da lógica aristotélica – ele elabora uma lógica do procedimento técnico-científico: a ciência deve conquistar a natureza, valer-se de experimentos e atingir verdades evidentes. Porém, Bacon não se vale da matemática como assim o fizeram Leonardo, Kepler e Galileu. Contudo, ambas as determinações só poderiam enriquecer a tarefa científica, levando-a a um nível mais amplo e de grande alcance.
Perceba-se que não citei os grandes pintores deste período e suas inovações: o próprio Leonardo, Dürer, Jan van Eyck, Bosch, Michelangelo, Brueghel, Holbein, etc. Além do mais, é nesta efervescência que Gutenberg fará sua revolução: a imprensa. Interessante que a imprensa minará o poder da Igreja e de seus copistas, mas a Reforma – Lutero traduz a Bíblia para o alemão – parece apontar, como bem nos lembrou Nietzsche, para um caminho diferente do Renascimento já que possuía como base os dogmas que os renascentistas combatiam. Ao lado da Reforma convivem os místicos de Tübingen como Valentin Andreae, Besold e Simon Studion que viveram o momento de divulgação do rosacrucisnismo por intermédio dos manifestos Fama, Confessio e o Casamento Alquímico. Studion elaborou uma intrigante obra intitulada Naometria onde “profetizava” o naufrágio do papa e do catolicismo. Apesar de certo caráter protestante, o rosacrucianismo renascentista possui vida própria e indicava esse espírito renovador do Renascimento.
A lista é quase interminável. O Renascimento foi um período de grande efervescência do pensamento onde o conhecimento e as artes atingiram grandes conquistas e nos legaram uma sabedoria que jamais pode ser esquecida. No século XXI, onde o comportamento heterodirigido da pós modernidade dita a visão de mundo da maioria, vale sempre a pena revisitar estes gênios: somos remetidos à nossa humanidade e nosso pensamento desloca-se desse etnocentrismo tecnológico – que é importante e deve ser também louvado, mas não como única realidade possível – para paragens onde podemos nos enxergar de modo mais completo.
Talvez o velho Foulcault não tenha entendido a dimensão existencial do Renascimento, a dimensão da vida fáctica. No capítulo II de seu livro As Palavras e as Coisas, ele reduz tudo às quatro similitudes – convenientia, aemulatio, analogia e simpatias. Creio que Giambattista Della Porta e Paracelso rir-se-iam desta redução: o Renascimento é uma estação alta do pensamento onde devemos nos reportar sempre para que nossa atenção não se desvie exageradamente com frivolidades.

Meus Poemas


Kentucky com lágrimas

O sangue já não lhe corria nas veias
 – pobre diabo, duro como uma pedra.
Sua mãe, estendida numa varanda perdida
nos confins do Kentucky,
contemplava as árvores sem folhas
e lembrava de suas palavras:
“Por favor, por favor...
... deixem-me entrar”.
Havia tanta dor naquelas palavras -
mais do que uma mãe poderia suportar
mais do que uma eternidade inteira -
ou seria esse gosto de cinzas na boca
que lhe impedia de ser honesta consigo mesma?

Não há certezas diante da dor –
apenas esse hiato que torna negro os céus
empalidece as nuvens
e encharca de orvalho as lágrimas.

“Pobre diabo’, repetiu seu melhor amigo,
‘ele não deveria ter partido agora”.
A solidão não é mais uma dádiva
e todas as esperas se fizeram inúteis
e o velho caminho da escola
 que antes habitava a memória -
com aléias pálidas e lilases esquecidos -
agora é uma distância,
um lamento protegido por ventos marinhos invisíveis.

Um caixão bem composto,
   flores estupidamente coloridas
            um frio em tudo
                        e a impossibilidade imanente.

Tanto a dizer, tanto a fazer
mas a morte, sorrateira como o diabo,
arrancou seu último suspiro
traiu suas esperanças
fez-se maior do que o inverno
e levou seus dias,
cravou de gelo a pedra angular
verteu de sangue seu altar
legando ao mundo seus versos
suas palavras finais
lembradas com tristeza
numa varanda perdida do Kentucky.



Contemporâneas I


Num século extremamente afetado como o nosso em que o politicamente correto virou paranóia, não podemos mais usar termos como negão, veado, magrela, dentuço, baixinho, gordinha, quatro olhos, etc. Tudo, agora, ofende alguma minoria. Interessante como essa preocupação tornou-se o centro das discussões políticas e o que era para ser o mais importante – as relações de trabalho – ficou em segundo plano. Parece-me que as teorias administrativas de Peter Drucker e Peter Senge e de Fukayama em relação à História dominaram o capitalismo e não conseguimos mais enxergar o lugar das lutas de classes, os sindicatos, as greves, hora de trabalho, direitos do trabalhador, etc. Tudo, neste capitalismo pós moderno centrado na tecnologia e na qualidade, parece resumir-se a questões hermenêuticas de microfísica do poder (traduzindo: tudo se resume a uma grande frescura!).

Meus livros

Trecho do romance Diário de um Percurso Absurdo

As ladeiras de Olinda quebrantavam-se como um relevo de ondas estagnadas, corroídas, permeando a rua atávica, engendrando um movimento imperceptível que as luzes solares formavam ao encharcarem as pedras do calçamento. Palmeiras esferóides, circunvizinhas ao limite textual do mar, adornavam os picos concêntricos das igrejas, fixando esta bruma setentrional que recarregava o vento nordeste, evolado na densa massa atmosférica que era formada no centro geométrico da cidade.
Ladrilhos portugueses. Varandas mouras. Respiração holandesa. Negros, negros, negros.
Segui com cautela - apreendendo os centímetros dos ângulos inter-relacionados. Seguir com o fremitar do concreto das pedras.
Desci a ladeira da Misericórdia e fui dragado pelo fluxo ancestral, marítimo do tempo, da Rua 13 de Maio.
Alexandra flutuando sua escultura. Sua cultura mental asteca. Maia, sim, com efeito. Renascentista, exatamente.
Um branco morno decaía na decomposição da estrutura da parede de sua casa, quase como um interlúdio, um próprio allegro enérgico. Fitei o sol emparedado, solitário em sua clausura necessária. Há sempre o que desejar, cravejado na boca de Alexandra. Creio - agora - que sua forma instalava-se sorrateiramente numa aresta posta entre Botticelli e Cimabue, entre o sangue ruivo e o chumbo esverdeado, contudo demarcado pela força geobiológica dos traços holandeses de Fonseca. Ganindo como uma cadela!
A casa de Alexandra criava uma ilusão espacial. Era agradável, realmente. Pequenas casas perfiladas à margem do declive. A casa de Alexandra apresentava-se simples: uma entrada de cinco metros de largura tendo apenas uma porta rústica, uma janela branca e uma inscrição em latim apregoada no cimo da porta: virtus, justitia, pietas. Nunca soube, ao certo, as razões que levaram Alexandra a demonstrar esta insígnia da República Romana como cartão de visita. Que assim seja! Bati na porta com força e ela abriu-se: Alexandra esboçou e concluiu seu sorriso campestre, esparso, completo. Senti-me feliz em vê-la: uma mulher dessas é uma raridade impensável. Meu Deus, como ela estava linda com um simples vestido florido. Flores. Girassóis profusos. O que eu poderia falar? Que frase seria bem colocada? Antes que minha mente pensasse em me obrigar a agir, Alexandra puxou-me para dentro de sua casa. Aí é que estava a armadilha do espaço: a entrada não permitia - a ninguém - antever quão extensa era sua casa, distendida como um rio sobre um pequeno morro; parecia atravessar até ao quintal onde podíamos ver, ao longe, a magnitude filosófica do Recife.
- Gabriel... Que surpresa agradável. Você disse que só viria pegar o carro daqui a três dias - Idiota que fui, esqueci completamente do meu carro estacionado em frente à sua casa. Isto me deixou louco, perdido.
- Não, não vim pegar o carro - pausa - queria apenas lhe visitar - Tentei redimir, gaguejando. Sua beleza explodia no Limbo, criando ondas mentais que me deixavam oprimido e confuso.
- Claro.
Alexandra seguiu para a cozinha. Observei-a. Era espantoso. A sala em que eu me encontrava retinha - por um mecanismo arquitetônico posto nas entrelinhas do telhado descoberto - a luz que vinha do exterior, adornando os objetos do recinto com uma peculiaridade medieval. O sofá e a mesa eram de madeira rústica, bem trabalhada. Alguns quadros pintados por artistas locais - numa tentativa de reproduzir obras renascentistas - eram cuidadosamente colocados nas paredes (quase uma atitude matemática). Notei que um exemplar original do Oráculo, de Graciano, o jesuíta espanhol e precursor do pessimismo de Schopenhauer, encontrava-se aberto e marcado sobre um móvel ao lado da janela fechada. Essa obsessão de Alexandra pela História Medieval, pela pintura desta época, pela filosofia renascentista, era como um terremoto que engalanava sua personalidade com uma aura do Extraordinário. Cheguei a crer, certa vez, que ela era, realmente, a reencarnação de um jesuíta bastante culto. Cultivar o latim como segunda língua não é algo normal, não neste lugar.
- Voltei! - ela exclamou ao adentrar novamente a sala. Trazia uma garrafa de gim, soda, limão, gelo e dois copos.
- Deixe-me ajudar - peguei os copos e a garrafa; depositei-os na mesa. Sentamo-nos nas poltronas da sala.
Senti-me jovial, marejado com a impetuosidade do calor e a presença densa de Alexandra, inelidível, quase fantasmagórica por sua plenitude. Ela sentou-se logo após o anteparo, lançando-me um olhar tão solar que o mais inexaurível dos verões seria incapaz de produzir.

 

Escritos dos Amigos


a nossa morte
Pietro Wagner

teu rosto com a palidez das estrelas
tu, um barco partido e sem velas
meu corpo com a solidão dos séculos
eu, um rapto descoberto e sem vítima

as nossas palavras calcificadas no chão
com alguém sem nome ao nosso lado
testemunha gentil, criatura dispersa,
clarão de tudo, clareira de ti, claro mausoléu

aqui jazemos, nós, o imperfeito não,
o líquido de nossos nomes maculado
pela exaustão de átomos e olhos
como o fim de tudo quando tudo se cala


 De como as coisas se acabam
 Leonardo Neves

Eram nossos dias no quarto –
e que chanha sobre Baudrillard –
o terrorismo e as massas –
sobre Wittengestein
e o simbolismo lógico do mundo.
Eram poemas pregados pela casa –
condescendências com filmes debilóides –
tua boca com gosto de creme dental
e inutilidade de ir-se dormir –
eu sem sono ao teu lado.


Antes várias noites em cafés –
pra beber e sentir saudades –
os rostos torturados e alegres –
morrendo por aí qualquer dia desses –
a boca salgada de lágrimas –
fascinando as meninas
com leituras de Nietzsche
na cabeceira de Hitler.


Eram masturbações diárias e tv –
noites chuvosas e quentes
sem um puto no bolso –
ânsias vagindo
cães latindo
um bêbado caindo –
as mulheres e seus lindos segredos sacanas –
o retorno ao criticismo e seus meandros eternos –
e a derrota jamais vencendo da loucura.
Eram nossas manhãs na praia nublada –
débitos em restaurantes de luxo
e em motéis espelhados –
Era tua menstruação sangrando os lençóis
aos berros feito louca –
Nossos hexágonos amorosos –
e eu sempre tomando cerveja.


Eram nossas despretensões, querida,
um tempo em sua vida –
Sim,fim –
você cansou de despretensões querida.


Contemporâneas II


No capitalismo pós moderno, tudo deve se transformar em algum tipo de indústria: o sexo transforma-se em indústria pornográfica, a alimentação vira indústria alimentícia, a música tornou-se indústria fonográfica e a cultura passa a ser indústria cultural. O conhecimento, que tanto reluta em ser enlatado como uma sopa Campbell, vê a informação ganhar espaço: é mais fácil tornar popular a informação, já que o conhecimento requer muita dedicação e disciplina. Google, Wikipédia, Bing e afins ganharam o posto de consciência cósmica. Não há filtragem e absolutamente tudo é superficial. O pensamento crítico, contestador e agressivo dá lugar a uma cultura de rebanhos, a uma idolatria da ignorância e da estupidez. O comportamento heterodirigido – aquele em que o indivíduo pauta seus gestos pelos gestos dos outros – só pode produzir um conformismo sistemático. Para que esse século precisaria de crítica? Torpor e tremor.
.

Livros



Albert Camus, assim creio, realizou o vôo mais alto na literatura filosófica existencialista. Apesar de possuir menos rigor filosófico do que Sartre – que na verdade faz uma leitura canhestra de Heidegger e enquanto existencialista parece mais se identificar com um hibridismo entre Hegel e Marx – Camus possuía uma verve artística mais aguçada do que os outros existencialistas de seu tempo.
A Peste é seu romance mais difundido e mais celebrado. Entretanto, são nos romances O Estrangeiro, A Morte Feliz e A Queda onde Camus nos lega o que há de melhor em sua literatura filosófica que busca traduzir de maneira literária os conceitos defendidos pelo argelino nas obras O Mito de Sísifo e O Homem Revoltado.
O Estrangeiro narra a indiferença existencial de Mersault. Estrangeiro de si mesmo – tema desenvolvido por Sartre no romance A Náusea – Camus se utiliza de dois expedientes para explicitar sua compreensão filosófica de mundo: a memória como recurso existencial (tema de Proust) e o colorido próprio da literatura de Herman Melville (para quem conhece a obra de Camus e se depara com Moby Dick é impossível, creio, não sentir a influência do escritor americano na obra deste existencialista).
A Morte Feliz retoma a questão da indiferença, mas agora acrescido de um agigantamento da problemática da morte já suscitado no O Estrangeiro com a morte da mãe de Mersault e a morte do árabe que culminaria com a execução do próprio Mersault. Neste romance, a morte do outro (o rico aleijado Zagreus) se traduz em riqueza e felicidade para Patrice Mersault. A morte surge no centro do romance como caráter antitético: é o homem revoltado com sua finitude radical e que busca, diante da vida, a máxima intensidade.
Por fim, A Queda. Creio se tratar do romance mais filosófico de Camus. Narrado em primeira pessoa, Jean-Baptiste Clamence fala sobre sua visão de mundo a partir de um bar em Amsterdã. Novamente, o absurdo existencial e a indiferença entram em cena para compor o universo camusiano. Centrado no indivíduo – “Moi, moi, moi, voilà le refrain de ma chère vie” – o sentido da vida só é conquistado através da tomada de consciência deste mesmo absurdo, mas a partir de uma postura indiferente com o mundo. Contudo, essa indiferença não significa apatia; ao contrário, trata-se de uma atitude positiva e libertária diante das amarras e pesos do mundo.
Qualquer um dos livros acima citados vale a pena. Recomendo sem reservas.

Artes Visuais

                  A barbearia de Shuffleton, 1950.             
        
The art connoisseur, 1964.

Calendário dos escoteiros, 1918.


Norman Rockwell foi um pintor e ilustrador estadunidense que ficou bastante conhecido nos EUA por suas ilustrações no The Saturday Evening Post. Artista profícuo por natureza – nos legou cerca de 4000 obras – Rockwell possuía uma técnica apurada que era usada para tratar de temas cotidianos e banais.
Com um olhar aguçado para a simplicidade, Rockwell também possuía uma verve humorística e muitas de suas obras se prestam melhor a tal concepção do que a maioria das obras dadaístas ou surrealistas.
Contudo, ao centrar seu olhar sobre coisas triviais, o artista consegue nos levar a paragens mais altas, já que sua abordagem sobre o comum é incomum, ou seja, sua técnica e a elaboração de suas composições possuem parentesco com algo grandioso, onde o que deveria ser originalmente ordinário ganha força e se torna extraordinário.
A meticulosidade de seu traço opera a favor de uma visão grandiosa sobre o banal. As expressões faciais das pessoas presentes em suas pinturas trafegam com desenvoltura para a caricatura sem ser grotesco. Ao contrário, a caricatura presente em seus traços só alarga as fronteiras de sua pintura que se torna mais leve e original.
A história das obras de Rockwell se confunde com sua própria história. Há um desenvolvimento gradual de sua arte em consonância com sua maturidade e visão de mundo. Creio que um dos grandes méritos de Rockwell, além de sua inegável originalidade e talento, foi nos falar de modo tão intenso sobre a simplicidade da vida. Se fosse pintor, provavelmente Walt Whitman pintaria neste estilo.
.



Filmes


 Chemical Wedding de Julian Doyle

Apesar do roteiro frouxo de Julian Doyle e Bruce Dickinson (isso mesmo, o vocalista da banda Iron Maiden), o filme Chemical Wedding – ou Casamento Alquímico, referência ao manuscrito rosacruz do século XVII – vale por sua figura central: Aleister Crowley.
Crowley nasceu na Inglaterra e ficou conhecido por trazer no início do século XX um novo sistema da magia que ele chamava de Magick e uma nova concepção espiritual e moral, denominada em grego de Thelema, ou seja, Vontade.
O principal livro de Crowley, O Livro da Lei, que ele diz ter sido ditado por uma inteligência extraterrestre, Aiwass, traz como máxima aquela mesma proposição já conhecida de Santo Agostinho: “Faze tudo o que tu queres há de ser o todo da Lei. Amor é a lei. Amor sob Vontade”. Crowley se diz o profeta do novo Aeon de Hórus ou a Era de Aquário e traz um sistema de realização pessoal totalmente inovador.
Baseando-se na religiosidade egípcia (conhecimento adquirido com a Maçonaria, a Golden Dawn e a O.T.O.), no sistema de magia enochiano fundado por John Dee e Edward Kelly, Crowley trouxe mais beleza e atitude para o universo das ciências ocultas. Grande enxadrista e poeta inspirado, seus livros traduzem essa mecânica entre a exatidão e o êxtase poético.
Considerado o pior homem do mundo pela corte inglesa – sendo notícia constante dos jornais da época – ele buscava realizar o casamento alquímico (união com o Santo Anjo da Guarda segundo a tradição hebraica presente no manuscrito de Abramelin, o Mago, que tratava de magia sagrada inspirada nas lições de Abraão, o Judeu e que, em verdade, nada mais pode ser do que uma estória muito bem arquitetada pelo líder da Golden Dawn, MacGregor Mathers, que afirma ter traduzido para o inglês um original em francês encontrado na Biblioteca do Arsenal em Londres, apesar da Biblioteca afirmar que nunca houve semelhante exemplar entre seus livros), mas com um detalhe oriundo das escolas orientais: a Magia Sexual ou Tantra Yoga.
Entretanto, quando nos deparamos com os livros de Crowley de conteúdo ético – como The Message of Master Therion, Liber Librae, Liber Oz, The Law of Liberty, por exemplo – percebemos a forte presença de Nietzsche. De fato, em sua missa gnóstica (Ecclesiae Gnosticae Catholicae Canon Missae) várias personalidades são homenageadas, inclusive o velho Nietzsche. Alguém prestaria um grande serviço escrevendo sobre a influência de Nietzsche na obra de Crowley.
Seja como for, o filme reúne diversas informações sobre a vida de Crowley e num tom ora sarcástico e ácido ora hilário e despojado, consegue, ao menos e a despeito das bobagens de ficção científica que colocaram na trama, focar nossa curiosidade na vida e na obra desta figura extremamente original. Recomendo.

Citações


Oh Grécia, espelho e corpo três vezes mártires, imaginar-te é restabelecer-te.
René Char
In: Hino em voz baixa.

A língua grega é mais do que a língua do começo: é o abrigo da origem.
Marlene Zarader
In: Heidegger e as palavras da origem.

Para onde quer que eu viaje a Grécia me dói; cadeias de montanhas, arquipélagos, granitos escalavrados.
Seféris
In: À maneira de G. S.

Aqui, enquanto a antiga púrpura e cetro não devolvermos à Grécia, hão de toda as mães trazer seus filhos para beijar com lágrimas a poeira sagrada e dizer: Imitai, filhos, a gloriosa legião de Heróis.
Kálvos
In: A legião sagrada