quinta-feira, 14 de julho de 2011

Comentários Cotidianos


(Meu pai, eu e meu grande amigo-irmão, Leonardo Neves)
Sobre meu pai.


Meu pai, o velho Marçal, nasceu numa família humilde e numerosa. Meus avós tiveram nove filhos e um modo tradicional, para a época, de educar a prole: as mulheres foram educadas para casar e os homens para estudar e trabalhar. Todos se deram bem na vida seguindo os princípios de honestidade e trabalho árduo preconizado por meus avós.

Quando casou com minha mãe, Dona Musa, meu pai trabalhava como atendente da Varig. Entrou numa das primeiras turmas de Administração da UFPE (aquele prédio azul perto do Conservatório Pernambucano de Música) e à noite, depois de voltar da faculdade, estudava inglês nos vinis da Fisk: ele queria melhorar de vida, recebendo uma promoção na Varig por falar inglês. Sua persistência foi coroada com grande êxito: assim que se formou, começou a trabalhar como gerente comercial na Poty e depois se tornou gerente comercial do Grupo Industrial João Santos, a Nassau.

Homem extremamente íntegro e dedicado no trabalho, sempre possuiu uma moral própria, distante dos ditames burgueses ou revolucionários que tomavam conta da mentalidade da maioria dos brasileiros na década de 70. Meu pai acreditava e ainda acredita na vida e na sua celebração, mas com uma maneira tão particular e acentuadamente bem humorada que é quase impossível alguém não gostar dele naturalmente. O velho possui um carisma tão grande que todos os meus amigos gostam dele de imediato e sem esforço.

As histórias que passei ao lado dele podem ilustrar esse espírito jovial e irrequieto que ele sempre possuiu. Quando eu tinha 14 anos e meu irmão Erick, 13 – idade em que a testosterona parece que vai explodir seu corpo – minha mãe contratou uma menina de 18 anos para cuidar da casa. Ela logo veio se oferecendo pra mim e pro meu irmão e, é claro, não demos moleza. Certa noite, acreditando que minha mãe havia saído, fui pego no flagra. Minha mãe ficou escandalizada e tivemos uma reunião familiar. Meus pais, eu e meus irmãos estávamos sentados na grande mesa de jantar e minha mãe disse que aquilo era um absurdo e que ele, meu pai, deveria fazer algo, já que ela decidira demitir a menina. Para nossa alegria, meu pai disse: “Mas Musa, você quer acabar com a diversão dos meninos?”.

Apesar de morarmos no Janga – praia no litoral norte de PE – estudávamos no Colégio Nóbrega no centro do Recife. Todo dia de manhã íamos com meus pais para o colégio. Numa manhã dessas, eu e Erick estávamos brigando e chamando muitos palavrões no banco traseiro do carro. Minha mãe irritou-se e pediu que ele tomasse uma atitude. Irritado, meu pai encostou o carro, virou-se pra nós e berrou: “Ora porra, quanta porra nesta porra!”. Foi inevitável: todos caíram na gargalhada, inclusive ele.

Minha adolescência foi numa época em que não havia celular, internet e nem gelágua. Acredito que todas as famílias colocavam uma garrafa ou mais com água na geladeira. Eu e meu irmão tínhamos o terrível hábito de beber água direto da boca da garrafa. Isso irritava terrivelmente meus pais. Minha mãe vivia reclamando e meu pai ameaçava dar umas porradas na gente. Certa madrugada, meu pai levantou-se e foi até à cozinha beber água. Eu e Erick estávamos assistindo tv e escutamos meu pai abrindo a porta do quarto.Desligamos a tv e nos escondemos. Ele abriu a geladeira, pegou uma garrafa e começou a beber direto do gargalo. Eu e meu irmão demos um pulo e gritamos: “Ahááááá!”. Ele, só pra variar, caiu na gargalhada.

Quando eu estava morando nas montanhas do Sana no Rio de Janeiro – tinha 20 anos nessa época – meu velho apareceu por lá para passar alguns dias conosco. Erick e sua namorada Verinha estavam comigo, além do meu grande amigo Duda Negão. Meu pai nos levou pra Copacabana onde passamos três dias bebendo chopp com batata frita e curtindo a vida sem preocupação com coisa alguma. Ele queria, na verdade, que nós voltássemos para o Recife. Terminei voltando. O velho Marçal sempre foi muito apegado aos filhos e é interessante como muitos dos meus amigos o vêem mais como um irmão mais velho meu do que como meu pai. Sempre me deu tudo o quis e sempre me apoiou em tudo o que decidi fazer, estando certo ou não. Além do mais, ele sempre participou de minhas festas e sempre as tornou mais interessantes.

Lembro de uma grande churrasqueira que ele havia construído no quintal de nossa casa. Nesse lugar dedicado à celebração, muitos churrascos regados a muita cerveja foram palcos das piadas e do bom humor do velho. Amigos como Flávio Minno, Daniel Baião, Flávio Opa, Duda Negão, Sandro, Léo, entre tantos outros, cresceram bebendo, celebrando e se nutrindo da alegria interminável de meu pai. Essa churrasqueira foi minha grande educação em relação aos meus amigos, à minha devoção e amor por eles.

Sempre mão aberta, sua visão de mundo sempre foi de desapego para com as coisas, mas de muito carinho e proteção para com aqueles que ele ama. Lembro que depois de 17 anos trabalhando na Nassau, ele foi subitamente demitido devido a um programa de reengenharia na empresa. Logo o dinheiro da indenização evaporou e ele não conseguia arranjar um emprego decente. Vivíamos quase que exclusivamente das aulas particulares que minha mãe e eu dávamos. Então, ele decidiu abrir um bar. Num período de vacas magras, ele ainda mantinha o bom humor. Havia períodos que passávamos semanas inteiras apenas comendo feijão, soja e suco de goiaba – e isso graças a uma enorme goiabeira que havia lá em casa. Tive mais sorte, pois almoçava na casa de Fernandinha, então minha namorada.

Minha mãe ficava muito feliz quando o saudoso Flávio Opa aparecia com três quilos de macaxeira, um quilo de charque, uma garrafa de rum e coca-cola. E nós ainda mais quando meu amigo Flávio Minno, então vivendo em João Pessoa, decidia passar um final de semana aqui e comprava uma grade de cerveja para celebrarmos.

Flávio Minno voltou para PE e começou a estudar com meu pai e eu para concurso público. O dinheiro do bar era pouco, a situação estava apertada, mas ele não desistia nunca. Todo dia estudávamos com uma garrafa de Pitú, charque assada e alguns poucos cigarros (na época, eu e Flávio ainda fumávamos). Quando faltava limão, íamos à casa de um dos vizinhos roubar limão de um limoeiro imponente que ele tinha no seu quintal.

De repente, chegou a correspondência salvadora: meu velho havia passado no concurso que fizera para Auditor Fiscal da Fazenda estadual. Meu amigo, que alegria! Ele reuniu meus amigos e disse: “Hoje, vamos comemorar. Podem beber todo o estoque do bar!”. Nunca bebemos com tanto entusiasmo, alívio e fúria. A vida havia voltado ao normal.

A única nota triste fica por conta do falecimento de minha mãe há dez anos atrás. Meu pai ficou devastado. Passou uns tempos morando comigo. Nunca superou completamente essa perda, mas seguiu a vida, casou-se de novo e teve outro filho que é mais uma paixão em sua vida (de fato, creio que esse menino salvou meu pai da tristeza crônica. Logo ele, uma das pessoas mais alegres deste mundo).

Ainda hoje, é para mim um grande prazer quando ele volta de sua casa em Araripina e passa algumas semanas conosco – sempre celebrando. Com 62 anos, o velho ainda bebe quase todos os dias, fuma e nunca fica doente: é impressionante. Creio que não há como expressar a honra que é para mim ser filho de uma pessoa tão especial e que contribuiu e ainda contribui tanto para que minha vida seja maravilhosa. Se já ergui um brinde aos meus grandes amigos, agora quero erguer um brinde ao meu grande velho: um brinde a ti, pai. Saúde, velhão!
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Meus Poemas

O livro grego




Ó Calipso, mesmo que vossa beleza seja imortal,


é apenas num corpo mortal que o Amor exerce sua eternidade”


- de uma inscrição.


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Creonte: Cidadãos, os deuses abandonaram a nós todos.

O Homem, faustuoso em seus prazeres medíocres,

embevecido na torpeza de sua vaidade,

vilania constante de suas escolhas,

esqueceu-se de suas dádivas,

envileceu-se na tirania do cotidiano,

na pequenez mundana das coisas.

Seus juízos são torpes

e sua visão não alcança mais o horizonte.



Coro Místico (a plena voz):

Plena de maravilhas, a Natureza.

 E o homem, soberba de sua loucura,

ruge qual vagalhões furiosos,

doma as montanhas,

toma os rios e oceanos,

conquista os desertos,

eleva-se sobre a alada planície,

a mais ancestral da vida.

Porém, inevitável é toda morte,

toda dor e angústia de ser

o arauto de tanta sabedoria e amor

espelho mirífico de tudo

oráculo inextinguível de fogo

ardor incomensurável do existir

num peso único de distância e morte.



Édipo: O bem e o mal são mistérios

que habitam fundo o coração

e só a morte, em sua leveza e doçura,

trará um hino como resposta

deitará fora todas as funestas dúvidas

essas que cortam o corpo

e inflamam a alma com poder.

Premeditamos nossas quedas

roubamos a Natureza

e louvamos ao Hades como deus único

arrasando os mortos

esquecidos que estamos de toda vida.



Antígona: Escolher a morte é trazer toda vida

ao seu mais pleno presente

É usurpar do malévolo o prazer

de nos tirar o ditoso evento

de toda sublime iluminação

enredo de nossa salvação,

naus presas em mares revoltos,

ouçam tal prece de altiva estirpe:

O homem é ignorante de sua grandeza

e os deuses lamentam sua sorte

leopardos ferozes, águias cegas,

filhos de Tebas e Tróia

o íbis do Egito o abandona

A solidão é sua morada

o cume desta montanha de trevas

fruto de sua escalada

para lugar algum.



Cérbero (enfurecido): Prender-te-ei para sempre

neste triângulo com quatro esferas

teus olhos serão tomados por densa névoa

pela dúvida domarei teus ouvidos

e encharcarei tua boca de blasfêmias.

Imporei um silêncio e uma devoção

aos filhos teus, a todos eles,

medo por tudo e uma fraca coragem

que se arrastarão contigo

És senhor deste Universo?

És o escolhido?

Ès o trigo mais puro?

Mentiras! Eu, e apenas eu, sou o teu senhor,

toma deste cálice, deste sangue benévolo

prenhe de dor e solidão

para que possas te reconhecer

tu, a vaidade,

tu, o mais sinistro.

É um mar inteiro de revoltas

de ondas inconquistadas

Vai, filho meu, dormes

que tua noite é sempre longa.


Tirésias (com longo manto):

 O erro é comum aos homens

mas a insistência o torna pequeno

A sabedoria é um lar inóspito

um arco superior que jamais erra

habitado por poucos – e muito poucos

a ele querem ir

Ó densa estrada, tomada por ventos velozes

cortada por noites longas

e vozes que nunca se calam

És o hiato entre a dor e o prazer

a morte e a vida plena

aquilo que não ousamos dizer

com medo de nós mesmos:

“O homem é o Ser”.


Coro Mítico (finalizando):

Os deuses legaram ao homem o seu destino

 sua noite mais triste e o dia mais esplendoroso

suas tardes de morosidade e aflição

sua felicidade sempre buscada

e essa distância – ela mesma –

é sua maior herança.

Elevem suas cabeças

pois a voz altiva é ressonante

e se faz presente neste atrium:

“Toma com mãos possantes o teu destino

conquistando assim o último homem”

E se fez um imenso silêncio.

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Escritos dos Amigos

(Sem título)
por Leonardo Neves


Porque calcei tuas sandálias pequeninas


E andei pela casa solitária

E escovei os dentes com tua escova

Preparando, talvez, um beijo novo

Cheirei os manjericões e acordei com pássaros

De novo

Havia então peças de roupas espalhadas

Nesta intimidade

Um céu que entrava no quarto

Com sóis e ventos

Que meu vinho achava estranho

Lá de dentro de sua taça:

Não vês?

Foi com estes livros que busquei teu encanto

Porque galguei estas letras pequeninas

Meus olhos não buscaram estrelas

Preparando, talvez, um beijo novo

Refeições fora de hora

Hibernações

De um sentimento amoroso sem delimitações

Havia então assovios

Pondo alma na tranqüilidade

Um sol que já estava no quarto

Quando abríamos os olhos

Preparando, talvez, um beijo novo

Para um sono

De um adormecer profundo

E acordar de pássaros

Que cantam tão cedo em nosso sono ingrato

Em nosso sonho quase tardio

Que passeia pela casa

Casa de sono, sonho e espera

Por um beijo novo, ainda que sempre e de novo

Um beijo novo...

Livros


Meditações de René Descartes

Um dos argumentos filosóficos mais conhecidos, se não o mais conhecido de todos, é a descoberta de Descartes de que “penso, logo existo” (cogito ergo sum). Creio que depois de Nietzsche e Sartre, Descartes deva ser o filósofo mais lido pelos leigos. Não apenas por sua prosa fácil e direta, mas pelo alcance de suas idéias, pela revolução que um pensamento aparentemente tão simples conseguiu causar.

Sua obra mais conhecida é Discurso do Método onde o filósofo francês traça as bases de uma revolução no pensamento ocidental só comparável depois pela revolução levada a termo por Kant com sua Crítica da Razão Pura. Neste livro, Descartes desenvolve um método de pesquisa baseado na conquista irrefutável e incontrovertível de sua descoberta revolucionária. Abria-se, assim, a era da subjetividade.

Contudo, é nas suas Meditações que o argumento que conecta em definitivo o pensamento à existência é conquistado depois de ser desenvolvido de modo brilhante por Descartes desde as primeiras premissas até o desfecho final.

Ele parte inicialmente da dúvida hiperbólica: deve-se duvidar de tudo – incluindo aqui as crenças da tradição e a crença na própria existência física. Deve-se duvidar até mesmo que Deus existe – o que para a época era inadmissível.

Mas o filósofo afirma que apenas a dúvida não pode conduzir a uma verdade segura. É preciso, como método, estabelecer uma hipótese que possa ajudar na tarefa de se estabelecer uma verdade que seja universalmente aceita e segura para ser o alicerce da ciência verdadeira.

A hipótese inicial é a do gênio maligno. Deve-se supor que não há um Deus de amor, misericordioso e bom pai. Ao contrário, deve-se pensar que há sim um deus maligno que tem como tarefa me enganar o tempo inteiro. Tudo o que eu acredito é mentira, sou enganado sempre e os frutos da minha ciência são apenas ilusão. Esse se compraz em me engana e nada do que sei é verdade.

Porém, ele só pode me enganar se eu existir. Não é possível que ele me engane se eu mesmo não existir. Assim, Descartes conquista a primeira verdade: eu sou, eu existo.

Mas o que sou eu? Descartes nos define – assim como a tradição grega e medieval – como uma coisa pensante. Ele distingue entre as coisas sensíveis, os entes (res extensa) e o pensamento (res cogitans). Se sou uma coisa pensante, então parece lógico inferir que só penso porque existo e existo, sei que existo, quando penso ou afirmo que existo, daí a conclusão lógica: penso, logo existo.

Esse passo dado por Descartes abriu em definitivo a filosofia para o pensamento do eu e do homem – daí o surgimento de ciências como a psicologia, a antropologia, a sociologia, etc. A subjetividade, posta agora na ordem do dia, guinou completamente a filosofia até alcançarmos o idealismo transcendental de Kant e, por fim, a ontologia fundamental de Heidegger.

Mesmo para quem não é filósofo, mas se interessa pelo pensamento e por nossa tradição, trata-se de um livro indispensável.

Artes Visuais

Autoretrato com 28 anos, 1500.

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse,  1498.

Cavaleiro, Morte e Demônio, 1503.

Altar de Jabach, 1503.

Albretch Dürer foi uma das mais importantes figuras do Renascimento alemão no que se refere à pintura. Dono de uma acuidade estilística impressionante, suas pinturas e gravuras transitam entre o bom gosto extremado e a qualidade técnica de suas composições, bem como pelo alcance conceitual de suas obras.

Personalíssimo, Dürer é um desses grandes artistas que imprimem com tanta força sua alma em suas obras que é possível reconhecê-lo a quilômetros de distância. Há uma tônica pessoal em suas pinturas que perpassa de cima a baixo sua arte e torna ainda mais agradável meditar sobre as mesmas.

A gravura Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, de 1498, bem como a mais tardia Cavaleiro, Morte e Demônio de 1513 traduzem esse empenho em registrar a mitologia cristã por uma óptica única em que as figuras centrais ganham destaque até mesmo diante da imponência do Apocalipse ou da tradição em que as mesmas estão inseridas.

O seu Autoretrato com 28 anos, de 1500, é um daqueles retratos que ficam registrados na retina do tempo devido à grandiosidade de sua composição. Dürer capta com mestria não apenas sua própria juventude, mas a intensidade de sua própria alma.

Na peça para o altar de Jabach, de 1503, que mostra a esposa de Jó maltratando-o e dois músicos, Dürer alterna a alegria e o sofrimento num díptico muito interessante onde gravitam o drama de Jó, martirizado pela esposa, e a gravidade de músicos que parecem preparados para executar uma marcha militar ou algo que exija uma concentração especial.

Dürer é um desses pintores que enobrecem a arte da pintura pela paixão com que ele pinta, pela paixão com que executa algo que lhe parece ser a coisa mais sagrada deste mundo. A arte, quando levada a um extremo de qualidade como este, só merece nossa gratidão. Artistas como Dürer tornam a existência melhor, enchendo-a com tanta beleza que a gratidão parece ser o único sentimento possível.

Filmes


Depois da Chuva de Akira Kurosawa.




Depois da Chuva foi escrito pelo grande mestre Kurosawa, mas foi dirigido pelo seu discípulo, o assistente de direção Takashi Koizumi como uma maneira de homenageá-lo, já que o mestre faleceu antes de poder filmar essa obra prima.

O filme narra a estória de um Samurai, Misawa. Como um ronin, Misawa não se prendia a um senhor e vivia peregrinando pelo Japão atrás de trabalho. Exímio mestre na arte da espada, usava de suas habilidades para ajudar as pessoas mais neceesitadas. E é aí que se inicia o tema central do filme.

Misawa chega num pequeno vilarejo e fica preso no mesmo devido a uma enchente causada pelas chuvas intensas e ininterruptas que assolaram o lugar. Termina ficando numa pensão com outras pessoas do local. Essas pessoas, devido à enchente, estão em situação deplorável, já que nem a colheita foi salva e falta até mesmo comida.

O Samurai fica comovido com a situação daquelas pessoas e decide ajudá-las. Na tradição Samurai, lutar por dinheiro era uma coisa considerada desonrosa. A moral guiava as atitudes destes mestres e ir contra as mesmas era uma coisa quase impensável. A esposa de Misawa já conhecia bem o espírito de seu esposo que buscava de todas as maneiras ajudar as pessoas. Ela condena Misawa por lutar por dinheiro pra ajudar os outros ou para se sustentar e faz com que ele jure que jamais fará isso novamente.

Entretanto, o coração de Misawa fala mais alto do que sua conduta moral. Ele sai para lutar, consegue dinheiro e aparece na pensão com comida e muito saquê. Todos celebram com grande euforia, tocando e cantando. Menos a esposa de Misawa que fica furiosa com a atitude do marido. Ele tenta se explicar, mas ela não aceita suas desculpas.

Nesta noite – em que ele apareceu com comida e bebida – chovia ainda torrencialmente. Depois da festa, no outro dia, a chuva cessa e o sol aparece imponente. Os moradores, diante da benignidade de Misawa, atribuem o estio ao Samurai. E é neste estio que Misawa percebe que deve dar um rumo à sua vida, que não poderia mais viver como um andarilho: era preciso estabelecer raízes e atender aos apelos de sua esposa.

O final do filme – claro que não contarei o fim – se desenvolve com um senhor local que quer contratar Misawa após saber de suas habilidades.

Koizumi faz bem feito, mas não alcança os detalhes que o mestre Kurosawa conseguia dar em cada cena de seus filmes, uma vez que seu cinema sempre foi muito mais de imagens e seqüências de imagens do que propriamente centrado em diálogos. Kurosawa foi um mestre que conseguia dizer milhões de palavras em poucas imagens, nas ações de suas personagens, nas relações e no não dito das falas. Não é de se estranhar que o silêncio seja uma forte tônica em seus filmes, bem como o lugar da natureza que fala sempre com grande imponência.

A despeito das limitações de Koizumi, Depois da Chuva vale plenamente pelo roteiro magistral. Fraternidade, paixão e liberdade podem ser citados como conceitos abordados e explorados nesta película. Imperdível para quem gosta de cinema de altíssima qualidade, inteligente e belo.

Eis o link para baixar o filme no Torrent:


http://trixxx.com.br/?p=3611
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Citações

O que será, então, ouvir, se esta é a essência de falar?

Martin Heidegger
In: Logos

E é propriamente aquilo que em mim se chama sentir e isto, tomado assim precisamente, nada é senão pensar.

René Descartes
In: Meditações

Por que eu sou tão sagaz, tão perspicaz? Nunca refleti acerca de problemas que não são probelmas; por isso não me "dissipei". Exemplificando: nunca conheci verdadeiros problemas religiosos.
Friedrich Nietzsche
In: Ecce Homo

Portanto, quando acontece que a alma se pode considerar a si própria, por isso mesmo, supõe-se que ela passa a uma maior perfeição, isto é, supõe-se que ela é afetada de Alegria e tanto mais quanto se imagina a si mesma e imagina sua potência de agir mais distintamente.

Baruch Spinoza
In: Ética

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Comentários Cotidianos


Evolução, adaptação e ciência.


O célebre físico inglês Stephen Hawkings escreveu uma teoria muito intrigante no seu livro O Universo numa Casca de Noz: para darmos um salto qualitativo em nosso processo evolutivo – ou seja, eliminar nossa agressividade, permitindo assim que todos vivam em paz entre si – seria necessário mudar a estrutura de nosso DNA. Hawkings afirma que o Projeto Genoma será capaz de nos fornecer, num futuro próximo, tecnologia para eliminarmos nossa agressividade natural e criarmos, por meio desta, novos seres humanos mais inteligentes e cordiais. Ele diz sem tremer que nenhum questionamento ético será maior do que a vontade da ciência de modificar nosso DNA neste sentido, inclusive sugerindo a ideia já difundida de que poderemos criar seres humanos sem cérebros em fazendas de órgãos para transplante em pessoas com cérebro.

A premissa oculta do argumento de Hawkings reside na sua crença pessoal de que nós seres humanos evoluímos. O vocábulo evolução vem do latim evolutionis –ação de desenrolar – mas tem seu sentido atrelado a uma compreensão filosófica grega: a teleologia. A teleologia refere-se a causa final das coisas, ou seja, o fim ou escopo das coisas e das ações e da sua causa, que em Platão e Aristóteles é o Bem (Ágathos). Todas as coisas tendem a algo e sendo o Bem este algo, a tendência é que tudo tenda para o melhor – o sentido positivo do devir, a progressão para a forma, a plenitude do ser. Esta teoria está presente no Timeu de Platão e na Física de Aristóteles. Interessantemente, a ideia de uma evolução do material à forma, tão grega em sua essência, ganha contornos espirituais com o advento do Cristianismo. Não muito distante de Platão, o Cristianismo preconiza uma teoria moral que levará seu adepto a um estado espiritual superior que não é deste mundo. O Cristianismo, assim como Platão, toma emprestado um conceito moral-espiritual judaico e indica que a alma tem um objetivo para além deste mundo, onde a alegria e a serenidade suplantam o sofrimento e a confusão. Saí-se de um estado para outro, de um estado inferior para um superior.

Parece evidente que o conceito de evolução está atrelado à noção de uma gradação ontológica do melhor. É tão subterrânea esta compreensão que até mesmo Charles Darwin toma parte na mesma. Darwin segue o caminho inverso da Bíblia e de suas teorias de que fomos criados em sete dias e que sempre fomos como somos hoje. Na revolucionária obra A Origem das Espécies, Darwin apresenta a Teoria da Evolução que foi de extrema importância para a atual biologia. A seleção natural é claramente demonstrada por Darwin – partindo da esterilidade à formação de órgãos complexos – mas a questão da evolução como conceito de fundo não é pensada. Seja em termos biológicos, arqueológicos ou de antropologia cultural, a evolução surge como um caminho percorrido em direção a um ideal, uma teleologia da vida. E Darwin não deixa de seguir seus passos. Apesar de explicitar que não acreditava que as espécies tendiam a uma perfeição, assim como o fazia Lamarck que defendia que um organismo vai adquirindo características para se adaptar ao meio e passa essas características para sua prole, Darwin não deixa de usar o termo evolução.

A compreensão acerca da evolução é tão forte que a antropologia em seus primórdios pensava em termos de organizações humanas como “grupos primitivos”. Pensadores como Frazer, Malinoswski e Lévi-Strauss, por exemplo, acabaram com essa distorção. Até mesmo na religião encontramos essa abordagem: basta ver a ideia de progresso do Espiritismo e sua compreensão sobre o estado de natureza e “povos primitivos”, já que defende a civilização como progresso e evolução em busca de uma moral superior (leia-se uma moral judaico-cristã).

Mas, voltando a Darwin e à biologia, deve-se ficar claro que o sentido da Teoria da Evolução fica mais adequado quando se pensa na mesma como uma teoria que explica a adaptação das espécies às mudanças do meio ambiente. Esta adaptação pode adquirir contornos interessantes como, por exemplo, a adaptação das bactérias aos antibióticos. Imediatamente somos levados a questionar: então as bactérias estão evoluindo? Não estou argumentando, por exemplo, que o homem não tem parentesco com o Austrolophitecus ou com o Homo Habilis até tornar-se Homo Sapiens Sapiens. Não é isso. Se tomarmos como exemplo os foraminíferos que desde a época Pré-Cambriana até hoje permanecem seres unicelulares, somos obrigados a afirmar que eles se adaptaram muito bem ao meio ambiente. As bactérias se adaptaram às mudanças e exigências do meio ambiente. Do mesmo modo, o homem também vem se adaptando às mudanças não apenas criadas por ele mesmo, mas pela precessão natural e eterna das coisas.

Quando pensamos em termos de evolução somos obrigados a conjugar na esfera da ciência empírica um conceito metafísico, ou seja, falamos em adaptação e queremos, em verdade, acreditar no bem e no melhor. Mas o bem e o melhor só existem para o homem. Todos os seres vivos buscam o êxito na manutenção da vida e fogem do sofrimento e da morte. Nós fazemos o mesmo, mas com um requinte espetacular. A cultura e tudo o que ela traz consigo – leis, arte, línguas, rituais, crenças, etc. – estão profundamente presentes em nossa visão de mundo. Certa vez Lévi-Strauss afirmou que era impossível para um etnólogo, que estudasse determinado povo “primitivo”, pensar e ser como um nativo. Basta verificar que esse nativo jamais sonharia com um carro ou um celular, por exemplo.

A ideia de evolução está conectada de modo intrínseco com a noção teleológica de caminho para o melhor. Isso não significa, contudo, que não possamos anexar o conceito de bem e melhor à adaptação e ao êxito da mesma. Para nós, uma civilização desordenada, corrupta e violenta é um claro indício de inferioridade, enquanto uma civilização ordenada, honesta e pacífica parece uma evolução humana. Creio que devemos pensar o conceito de evolução como um termo da mudança, mas jamais atrelando a uma crença num futuro que jamais será evidente.

Se a ciência desde Francis Bacon só pode ser chamada assim devido à evidência, parece quase “natural” pensar na evolução como um corolário para uma teoria da eternidade. Contudo, a temporalidade não nos permite pensar em algo como o eterno. Talvez seja mais justo pensar em termos de adaptações – radicais ou não – ao princípio do movimento. Mesmo que eterno seja pensado como a região em que a eclosão e recolhimento das coisas operam, apenas nós humanos é que podemos falar sobre essa região, daí a impossibilidade de pensarmos em termos de evolução e eternidade.

Sempre buscaremos o melhor e sempre seremos nutridos pela esperança. Mas a ciência, mesmo se valendo destes itens, deve ser, tanto quanto possível, imparcial (se é que depois de Nietzsche ainda podemos pensar em imparcialidade científica). Somos nós que criamos metas e distinguimos entre o melhor e o pior. Um enxadrista iniciante que atinge o nível de um Karpov após anos de estudo parece ter “evoluído” na compreensão do jogo. Mas será possível pensar num confronto entre Alekhine, um grande mestre do passado, e o gênio Kasparov? Houve uma evolução ou apenas o meio ambiente – a compreensão do jogo – mudou e agora são necessários novos conhecimentos, ou seja, uma nova adaptação?

Esta pequena crônica não quer ser - e nem poderia ser - uma resposta fechada a um assunto tão vasto. Vale muito mais pela provocação: estamos realmente evoluindo, nos adaptando ou apenas fazendo ciência humana, demasiadamente humana?
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Traduções


A chuva

Robert Creeley


Toda noite o som

tinha que voltar

e cair novamente

esta chuva muito persistente.


O que sou eu para mim mesmo

que deve ser lembrado,

insistido

com tanta freqüência? É


que nunca cessa,

mesmo o peso

da chuva caindo

terá para mim


algo a mais do que isso

algo não tão insistente –

devo estar bloqueado nesta

inquietação final.


Amor, se você me ama,

deite ao meu lado.

Ser para mim, assim como a chuva,

saindo


Do cansaço, do destino, semi

luxúria da indiferença intencional.


Ser molhada

com uma felicidade decente.

Meus Poemas

Toning of Wreath



Os círculos de Ernst se fecharam

- his oedipus rex

une semaine de bonté –

as línguas, como as cores,

são a vida do pensamento.

Na arte todo o ser se revela

aproxima-se de seu estado inefável

mas foge, clama por um novo retorno

por tudo aquilo que amamos.

Os círculos de Ernst se fecharam

- aquis submersus

Les milles –

Dia e noite

Pinturas de escuridão e luz

O Inescrutável do abismo

O inaudito de nossa solidão

revelam-se, todos eles,

naquilo que é pensado

e o nascimento da comédia

é o próprio festim dos deuses

aquele estado procurado por Chirico

e até então inabitável.

Os círculos de Ernst se fecharam

- Augustine Thomas und Otto Flake

his self-portrait –

das schlafzimmer des meisters

onde repousa o superior

a beleza de tudo

de tudo aquilo que desejamos

unidade equilibrada

equação inevitável das coisas

sutis, todas elas.

Os círculos de Ernst se fecharam

e o silêncio já não é suficiente.

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Meus livros

Início do Capítulo I do romance O Livro Branco
                   
De como se constitui a personalidade
do indivíduo Gabriel Villa-Lobos.




          Um imenso inverno assomava-se sobre as ruas de Nova York, imantando as ruas com um aspecto celestial, acentuando o ar sobranceiro das pessoas envoltas por enormes casacos, eclipsando o Central Park num mar branco de nuvens infernais. Do banheiro de nosso pequeno apartamento no East Village, na área decadente que cerca o Tompkins Square onde judeus, irlandeses, porto-riquenhos e uma dúzia de etnias diferentes haviam imprimido suas marcas definitivas em cada rua, eu divisava – por uma estreita janela – o cinza dos pátios ou, para minha maior felicidade, o corpo nu de minha esposa estendido na cama do quarto contíguo.

         O inverno acalmava as pirâmides do céu enquanto eu meditava desesperadamente sobre o inusitado desta cena: minha mulher tão próxima, à distância de uma mão, e meus pensamentos – estes sim, centrados em paragens distantes e abstrusas, revoltados com sua infidelidade filosófica – ansiando a mulher desperdiçada na noite anterior. Mas eles ansiavam, outrossim, todas as mulheres da terra. Contudo, apesar desta proposição lógica fundamentar sua mecânica, meu espírito via-se perturbado com o menor indício de traição; enevoava-se numa culpa tão gigantesca que seria preferível que eu me lançasse ao mar em desespero. Mas isso era quase inacreditável, essa retórica agressiva obliterada por minha culpa excessiva. Era uma coisa de mulher, eu pensava. Seguia em frente em minha conquista, mas logo era devastado por uma impotência implacável.

- Você é o segundo brasileiro que encontro nesta festa – a mulher que me dizia isto era portenha, totalmente distante dos rostos de morte dos outros convidados.


- Como?

- Você é o segundo brasileiro que conheci hoje – ela repetiu.

        Como mulher ela era um fenômeno. Além do mais, era incrível como, aqui em Nova York, eu falava mais espanhol do que português ou inglês. E de certa forma isso estava a meu favor, uma vez que meu inglês era bastante sofrível.

- Como você sabe que sou brasileiro? – perguntei.

- Isaac me disse que está tentando arranjar trabalho para você – seu espanhol era sonoro, uma flor dos trópicos que parecia explodir em uma única palavra: sexo!

- Ele disse isso? – aquele desgraçado sabia que tal informação me colocaria numa situação difícil. Isaac, para bem da verdade, era um italiano de sangue americano e brasileiro. Nossas famílias se conheciam há muito tempo, gerações inteiras de imigrantes. E aqui, nesta terá inóspita, uma mãozinha amiga era sempre bem-vinda, mas não exatamente desta forma.

- E disse que você está vivendo no Village.

- É verdade... mas, a propósito, qual é seu nome?

- Andala.

         An-da-la...parecia crepitar de anseio por sexo. Seus seios pulavam com ferocidade do vestido e sua boca só pedia uma coisa: sexo oral! Meu Deus! Eu estava enlouquecendo – Prazer em conhecê-la, sou Gabriel – estendi minha mão.

- O prazer é meu – ela respondeu.

- Você bebe algo?

- Sim, vodca com gelo.

        Fomos até a mesa de bebidas e nos servimos. Com o frio desgraçado que fazia era-me impossível beber cerveja. Servi-me com uma dose dupla de uísque. Ficamos parados, observando os convidados e a decoração do recinto. Tratava-se de um apartamento de italianos que se localizava nas cercanias da estação do metrô na Centre Street. Podia-se dizer que era confortável, apesar de seu tamanho diminuto. Cada vez me convenço mais que o grande problema social de Nova York é espaço: todos lutam contra a falta de espaço, contra o tráfego, contra a asfixia constante que a cidade impõe. É o dilúvio mosaico que obriga o cidadão comum a transformar-se num espírito multifacetado em busca de uma pequena brecha para respirar. Mas que se danem... pois essa mulher com um sotaque tão sexual havia me puxado pela mão e me conduzido até à varanda onde não havia ninguém. O frio era cortante, sólido, mas nós não parecíamos nos dar conta de sua existência.

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Escrito dos Amigos

II

 Jairo Lima



dois deuses
vermelho&branco
sobre a relva verde
de hastes invioladas pelas dobras dos seus mantos
dois deuses vermelho&branco sobre a relva verde contemplavam o relógio
 sem sombras
enquanto a noite já sangrava os vidros azuis da tarde
dois deuses
até então imortais
pousados sobre a relva inviolada
deixavam-se envolver no lençol daquela hora em que o sol
em que a lua em rubis hasteava a sua nódoa estridente de prata


à sua frente o rio, afluente das flautas, executava em pianíssimo um vôo
 transparente de garça
todas as coisas e suas cores e suas vozes tinham nomes e ainda havia o nome
harpa
para dizer o timbre daquela hora lenta vestida em brilhos como uma taça
de vinho
em pétalas
crispadas
naquela tarde em que deuses dormiam o vento enfiava os ombros no manto
das águas


quando nada restou daquela hora vermelha escura intensa calada
ouviu-se a respiração dos sinos e ainda eram horas da tarde
as crinas da noite, já quase acordada,
tremiam como quem amanhece


entre a haste da relva e a primeira estrela já não havia nada.

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Música

Prelude de Eumir Deodato.

Na arte, assim como no pensamento, há três estâncias fundamentais: o novo, a novidade e o plágio. O plágio é a falta de criatividade e inteligência que usa mão daquilo que já foi criado. A novidade cria algo diferente daquilo que está estabelecido como referencial, é instigante, mas sua duração é curta devido ao fato da mesma residir na superfície do pensamento. O novo, por sua vez, mergulha na profundidade do pensamento, quebra referências e cria novas interações e apreciações estéticas, mantendo-se na “eternidade”. Mas há uma quarta estância que possui vida própria: o fazer bem feito.

Fazer bem feito indica o domínio da técnica da arte, bom gosto e uma dose de criatividade, mas não chega a ser uma novidade ou algo novo. É agradável por si só e se basta por si só. Há momentos específicos em que a arte bem feita é apreciada e produz efeito.

Creio que o álbum Prelude do músico brasileiro Eumir Deodato esteja incluído na quarta estância. Álbum de grande bom gosto e de maturidade musical, contou com um time de primeiríssima qualidade como Ron Carter (baixo acústico) e Stanley Clarke (baixo elétrico), Hubert Laws (flauta), Billy Cobham (bateria) e Marvin Stamm (trumpete).

O álbum alinha uma pegada jazzística que mescla a musicalidade brasileira ao funk norteamericano nas composições do músico brasileiro. Deodato ainda incluiu duas versões: Assim falava Zaratustra de Strauss e Prelúdio para uma tarde de um Fauno de Debussy. Os músicos americanos se encarregaram do sotaque jazzístico e funk do álbum, enquanto Deodato prima pela escolha bem feita das linhas melódicas e da brasilidade tão presente nas músicas.

Não há o novo aqui por se tratar de um álbum de seu tempo: parece que estamos transitando entre as ruas de Nova York e do Rio de Janeiro ao mesmo tempo. E tudo isso como se estivéssemos na década de 70. É latente a musicalidade desta década: percussão, guitarras swingadas e com solos a la Santana e Woodstock, baixo elétrico mandando e uma cadência rítmica dançante. Deodato, além do mais, cria climas especiais em cada música, possibilitando a criação de visualizações mentais gratificantes.

Para mim, além das excelentes versões, o destaque é a música September 13. Stanley Clarke destrói tudo e o groove é onipresente. É como perseguir um bandido nas ruas de Nova York dentro de um filme de Charles Bronson. Está tudo ali: a neblina, as esquinas iluminadas, os táxis amarelos, as árvores do Central Park, os negros de casacos e as barraquinhas de cachorro quente.

Recomendo para quem está de bem com a vida.

Eis o link para baixar o álbum:

http://sacundinbenblog.blogspot.com/2008/02/eumir-deodato-prelude.html


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Artes Visuais

Baco.

 
 David.


     Capela Sistina.

O Instituto Ricardo Brennand, localizado na Várzea, bairro do Recife, realizará a exposição de desenhos, gigantografias e esculturas em gesso do grande mestre renascentista Michelangelo Buonarroti entre os dias 6 de julho a 4 de setembro. Diante desta oportunidade imperdível, creio que vale a pena falar um pouco sobre este grande mestre.

O pai de Michelangelo esperava que o filho fosse mercador e que mantivesse o nome e a riqueza da família. Entretanto, Michelangelo não seguiu os anseios de seu pai e foi estudar pintura com Domenico Ghirlandaio e logo em seguida foi estudar a arte da escultura nos jardins dos Médici.

Com 16 anos faz a Batalha dos Centauros e a Madona das escadas, esculturas que mostravam ainda imaturidade na técnica, mas uma personalidade forte na composição. Com a morte de Lorenzo, o Magnífico e as diversas crises que dividiram Florença, Michelangelo parte para Roma onde elabora sua primeira escultura em grande escala, Baco,em 1496. Não apenas o espírito renascentista está fortemente presente, como já é notável aqueles traços que o imortalizaram com uma de suas obras primas, a Piéta (1498-1500). Trafegando de temas cristãos para temas pagãos, Michelangelo compõe suas esculturas com ainda mais vigor, intensidade, clareza e beleza do que suas pinturas.

Entre os anos de 1501 e 1504 ele produz o magnífico David de 4,34 metros. Aqui, não é tanto o sangue romano que corre em suas veias, mas sim o sangue grego: a perfeição em pessoa se faz presente e o artista atinge um nível incomensurável.

Em abril de 1508, Julius II convoca Michelangelo para pintar sua obra mais grandiosa e que o imortalizaria: o teto da Capela Sistina. Extremamente vaidoso de sua produção, Michelangelo não permitia que ninguém além do papa contemplasse o andamento de seus trabalhos – inicialmente foram 300 figuras no teto da Capela.

Com 37 anos e após terminar cerca de 400 figuras, Michelangelo sentia-se cansado com a tarefa hercúlea de pintar o teto da Capela: quatro longos anos de genialidade, dedicação e trabalho árduo.

É neste mesmo período que o gênio renascentista elabora a tumba de Julius II com a monumental e enigmática figura de Moisés segurando as tábuas dos Dez Mandamentos. É neste período que ele demonstra sua genialidade também na arquitetura ao elaborar a Biblioteca Laurentina, seguindo das tumbas dos Médici.

Em 1535, o artista começa a elaborar um enorme afresco sobre o Julgamento Final. Michelangelo retrata uma humanidade que se depara com a salvação e suas fraquezas. Este afresco é o maior do Renascimento.

Por fim, sua coroação é definitiva com seu projeto de arquitetura para a Basílica de São Pedro. Apesar de elaborada a partir do planejamento de Donato Bramante, o gênio de Michelangelo está presente no altar e no domo da Basílica.

Creio que até o mais desinformado leitor sobre arte deve ter reconhecido, pelo menos, duas ou três das obras citadas aqui. Gênio de magnitude ímpar, a grandiosidade da arte de Michelangelo corta o tempo e nos obriga a olhar com admiração para o passado. Diante de tanta beleza, até parece possível afirmar a eternidade.


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Filmes

Obrigado por Fumar de Jason Reitman

O filme Obrigado por Fumar é uma sátira inteligente ao politicamente correto. Semana passada eu assisti um programa que tratava dos festivais de música brasileira: todo mundo fumava... até os repórteres fumavam. E isso ao vivo! Hoje em dia, onde o politicamente correto é regra, fumar em público é quase um crime e o sujeito pode ser execrado da sociedade. Não sou fumante, mas creio que há muito exagero no modo como se trata a questão hoje em dia.

O filme de Jason Reitman trata de um lobista da indústria do cigarro. Aaron Eckhart vive Nick Laylor, porta voz e lobista desta indústria. Logo no início do filme há um programa de tv de entrevistas em que um rapaz é apresentado como portador de um câncer gravíssimo devido ao fumo constante. Ao lado do lobista e do doente, há um grupo de ativistas contra o fumo. A platéia está indignada. Naylor, em pensamento, afirma que trabalha para uma organização que mata 12000 pessoas diariamente: dois jumbos cheios de gente.

Essa indústria recruta cientistas e advogados para lhe defender. Mas o papel do velho Nick é enfrentar a opinião pública. E já no início do debate ao vivo na tv ele questiona quais os benefícios que a indústria do cigarro teria com a perda de um cliente. E logo em seguida ataca seus detratores ao afirmar que são eles que lucram com a morte das pessoas afetadas por câncer via fumo.

Toda semana Nick vai a um restaurante tomar umas com seus amigos Polly e Bobby Jay. Polly representa a indústria do álcool e Bobby a indústria das armas. Mais politicamente incorreto é impossível. E é nessa sintonia que a sátira inteligente do filme de Reitman vai se avolumando e trazendo as situações mais absurdas.

Ao visitar um grande produtor de cinema, Jeff Megall, para saber sobre a possibilidade do cigarro retornar às telas, Nick pergunta se Jeff se preocupa com a questão da saúde. Jeff responde que não é médico, mas sim um facilitador. Acrescenta que a informação está disponível e que são as pessoas que deveriam decidir. Seria, segundo ele, moralmente presunçoso dizer o que é certo ou errado. Genial.

Nick é enganado por uma jornalista sem escrúpulos que busca informações sobre sua vida, mas tudo continua na mesma num mundo onde a hipocrisia é a moeda de troca. Numa cena instigante, ele vai com seu filho pequeno visitar o garoto propaganda da Marlboro que está morrendo de câncer. O cara quer abrir um processo contra a empresa de Nick e aparecer na imprensa para falar mal do cigarro. Nick coloca uma pasta à sua frente com um milhão de dólares. O cara diz que sua dignidade não está à venda e pergunta o que significa tudo aquilo. Nick diz: “Ligue para a CNN. Quando chegarem, abra a maleta. Derrame todo o dinheiro no chão. Você vai doar esse dinheiro para a Fundação Contra o Câncer. Aí o cara pergunta: “E minha família?”. Nick responde: “Você não pode ficar com o dinheiro e nos processar”. Ao sair de carro com seu filho, o menino pergunta como o pai sabia que ele aceitaria o dinheiro. “Seria louco se recusasse o dinheiro!”.

O clima de discurso correto e desejos proibidos se intercalam num filme que preza pela inteligência e pelo bom humor. Para quem bebe, fuma ou possui uma arma, realmente recomendo.

O link para baixar o filme:

http://baixarofilme.net/obrigado-por-fumar-legendado/


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Citações

Se Nietzsche lesse quadrinhos, saberia quem é o super-homem.

Fernando Figuerôa
In: Quadrinhos

Quem o mais profundo pensou, ama o mais vivo. Quem olha fundo no mundo, este compreende a elevada juventude.

Hölderlin
In: Sócrates e Alcibíades

Mundo - o mesmo em todas as coisas -, nenhum deus ou homem o fizeram, mas foi, é e será sempre um fogo sempre vivo, acendendo-se e apagando-se por medida.

Heráclito
In: Fragmento 30.

Sobre o nascer e o perecer não tem os Gregos nenhuma crença correta, porque nenhuma coisa nasce ou perece, mas, das coisas que são - cada coisa - se compõe e separa. E, assim, deveria ao nascer chamar-se composição e ao perecer dissolução.

Anaxágoras
In: Fragmento 17

A essência da verdade é a liberdade.

Martin Heidegger
In: Sobre a essência da verdade.