domingo, 7 de agosto de 2011

Comentários Cotidianos



Simulacro e Simulação


No primeiro filme da trilogia The Matrix dos irmãos Wachoski há uma cena que parece traduzir o conceito mais geral da obra: Neo, em seu apartamento, recebe a visita de um grupo de hackers viciados em drogas.  Dujour, uma das hackers, possui um coelho tatuado no ombro – referência à Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol. Essa indicação – do coelho – já aparece no início do filme quando Trinity o encontra e diz que ele precisa seguir o coelho branco. Entretanto, o mais importante aqui é onde Neo pega as drogas que entregará aos viciados: elas estão dentro do livro Simulacro e Simulação do pensador francês Jean Baudrillard. Matrix, aqui, significa a simulação em sua mais profunda radicalidade.

A obra de Baudrillard é uma crítica ao mundo cibernético e a toda simulação possível que o mesmo produz. Segundo Baudrillard, mergulhamos no mundo digital como uma fuga do mundo real e nessa disparada terminamos por abandonar o pensamento em seu sentido mais rigoroso e profundo. Essa crítica já aparece no pensamento do filósofo alemão Theodor Adorno na sua famosa concepção de Indústria Cultural (que significa transformar as expressões da cultura em bens de consumo).

Essa visão, contudo, possui raízes em outro pensador alemão, Martin Heidegger. Heidegger não pregava uma demonia da técnica, mas alertava para o perigo de que o pensamento poderia estar se distanciando de seu solo mais originário e se concentrando apenas na tecnociência. Dependemos dos objetos criados pela ciência, isso é fato, mas o perigo reside no modo como nos relacionamos com eles. Eles parecem maiores do que nós e nessa criação o caminho se inverte: somos capturados por nossa criação e a criatura torna-se maior do que seu criador, escravizando-o.

Na esteira do densenvolvimento da tecnociência – especialmente a partir do final da IIª Guerra – a tecnologia da informação ganhou grande espaço e o capitalismo globalizado adquiriu sua cara definitiva após a queda do bloco comunista. Aqui, portanto, podemos alinhar três pontos cruciais: Indústria Cultural, tecnociência e redes sociais. As redes sociais surgem como o mais novo fenômeno deste capitalismo de caráter internacional, local em que as pessoas do mundo todo trocam informações (textos, fotos, filmagens, etc) e se relacionam de uma maneira inteiramente nova e muito pouco passível de censura. Nestes termos, as redes sociais iniciaram uma revolução no comportamento e nas barreiras da censura: é possível falar tudo, mostrar tudo, acreditar em tudo e defender tudo.

Mas, ao mesmo tempo, essa revolução silenciosa possui sua polaridade natural: trocam-se as mais diversas informações, os assuntos mais diversos são debatidos, as imagens do mundo voam, porém a profundidade do diálogo – que naturalmente exige uma escuta atenta e um demorar-se do pensamento – é perdida. Não se discute nada com profundidade porque a velocidade é a mãe desse novo universo: a era digital não está preocupada com qualidade, mas sim com quantidade. As pessoas, agora, devem saber de tudo um pouco, já que o acesso à informação é muito fácil – mas o acesso ao conhecimento possui outra dinâmica.

Todavia, informação não é conhecimento e é aí onde a repetição, o lugar comum, a superficialidade dos discursos se faz sentir de modo mais aguçado. As redes sociais agregam valores oriundos do capitalismo globalizado, pois a indústria digital – hardware e software – não para e é preciso consumir sempre mais... sempre mais. A tecnociência parece, então, responder a todos os nossos anseios. Somos a geração da felicidade a um click de distância. Não se exige muito de você, apenas que você saia bem na foto que você vai postar na sua rede e que mantenha todos entretidos, mesmo que seja falando as coisas mais sem sentido possíveis.

Trata-se de uma avalanche que empurra todos a um comportamento tão escandalosamente heterodirigido – comportamento em que o indivíduo pauta suas ações pelas ações dos outros num conformismo sistemático – que é quase impossível pensar numa revolução dentro dessa revolução, uma vez que só se fazem revoluções a partir da ruptura com os antigos paradigmas. Mas quem, em sã consciência, terá coragem de quebrar os paradigmas de uma vida digital em que a felicidade fugaz, o prazer instantâneo e a ilusão imorredoura são os alimentos cotidianos?

Essa ilusão de saber o que não se sabe é o grande segredo que alimenta a Indústria Cultural. Darei dois exemplos simples: 1. Numa sala de aula, pergunte aos alunos quem já leu a Ilíada de Homero do início ao fim. Se aparecer uma alma solitária, já teremos lucro. Mas pergunte quem assistiu ao filme Tróia com Brad Pitt que a reação será oposta – todos assistiram ao filme e se sentem melhores por isso. 2. Peça aos mesmos alunos que façam um trabalho sobre um tema qualquer. De 100 alunos, não duvido que 50 entreguem trabalhos idênticos, todos copiados da grande consciência cósmica, o Google. Essa atitude heterodirigida mina a criatividade e cria um rebanho dócil.

Além do mais, as redes sociais inverteram a relação entre artista e público. A tecnologia chegou de modo tão maciço que é impossível não enxergar a facilidade com que todos podem “fazer arte”. Todos são poetas, escritores, músicos, pintores, atores, etc. Há mais artista do que público. Nessa nova realidade, não é mais o público que vai atrás dos artistas de qualidade, é o artista que vai atrás do público de quantidade. É impressionante como as redes estão cheias de apelos para que o público visite a obra do artista (inclusive, sem ser hipócrita, creio que o caro leitor teve acesso a esse Blog muito provavelmente via rede social). A situação se torna um pouco patética quando o artista parece implorar pelo público, por seu amor e fidelidade.

Na dimensão própria dessa realidade, tudo se movimenta ou para a repetição secular (escutar as mesmas bandas que fizeram sucesso a milhões de anos atrás) ou para a mudança contínua (a banda que gostava ontem já nem lembro amanhã, por exemplo). Como o pensamento é superficial, a tônica reside no consumo. É importante pôr a máquina em marcha e não há tempo para respirar: consumir sempre, mais e mais. Para quê um pensamento profundo se o que consumo me traz a felicidade plena?

Neo seguiu o coelho branco e, assim como o pensador na Caverna de Platão que descobriu uma realidade mais “real” fora da própria caverna, contemplou a base de tudo aquilo que era e entendeu o comportamento das pessoas e sua busca pela repetição. Repetição é segurança, mas como diria o velho Clive Baker, é também o inferno. A Matrix está mais próxima do que possamos imaginar. Ela é real, próxima e molda o comportamento de uma maneira tão sutil e estruturada que parece incrível imaginarmos uma saída. Neo encontrou sua resposta particular: só há realidade quando nos responsabilizamos por nossas escolhas e aí, de modo radical, é onde podemos realizar eticamente nossa liberdade. Apregoado na sala do Oráculo: “Homem, conhece a ti mesmo!”.

.

Meus Poemas

O Cemitério de Hades



I. A carruagem



Por que caminhos nos levam? – pergunta

o senhor Power com olhos de transeunte.

- Ali está seu filho e herdeiro, Dedalus – disse

esticando-se de través.



A carruagem rangia, trotava, balançava

cascos rangentes nas cortinas das avenidas.



A melhor morte é uma morte repentina

beber como o diabo até o coração parar

parar a vida, o relógio, a tristeza, tudo, enfim,

passado. Olhos grandes que não são mais.



- Morrer sem sofrimento, de súbito – falou

- como quem morre dormindo.



E uma outra carruagem, fúnebre, pesada,

com cavalos brancos, som, plumas, texturas.

Tragam um caixão minúsculo – marcha fúnebre de Saul,

a grande atração, a derradeira reluzente

                                                      atração,

                                                            a última.



A Mater misericordiae – voz profunda

para abrigar o inumano da dor

que sentencia suas tristezas com a partida

- assim como a carruagem,

o caixão

e o morto

que partem...

.

Meus Contos

O Sonho do Touro



- Você está linda – eu disse para minha mulher.
- Sei – ela respondeu-me rindo.
- Você está bem?
- Claro, não se preocupe com nada – enquanto ela respondia, eu contemplava seus olhos negros. O elevador indicava ainda estar no terceiro andar. Um prédio de arquitetura estranha, aquele; foi o que pensei.
- Vamos, e não fique com essa cara de que algo terrível está preste a ocorrer. Um exame de gravidez não é nada! – eu bem queria confiar em sua determinação, mas o instante parecia requerer mais cuidado de minha parte. E foi quando o elevador chegou. Adentramos num elevador bastante inusitado, pois sua porta conduzia o passageiro para um pequeno corredor circular. Eu e N. ficamos observando o rosto pitoresco de um cavalheiro que nos acompanhava. Fiquei absorto com a estrutura daquele elevador, entretanto todos pareciam cientes de que era algo excessivamente comum para merecer um comentário qualquer.
- Chegamos... último andar – N. falou. Realmente, eu pensei, ela está linda. Descemos do elevador e seguimos até uma sala de recepção bastante estranha. Várias colunas gregas, de mármore, estavam dispostas no chão numa tentativa de manter o equilíbrio do ambiente. Compreendi que as portas das salas eram todas de um metal cintilante que perdiam ou atenuavam a cor verde-metálica quando centrávamos o olhar naquelas chapas. O início do corredor era todo revestido com pastilhas azuis e placas brancas. Os sofás, o que sinceramente chamou bastante minha atenção, eram de um laranja tão intenso que davam a impressão de estarmos dentro de um filme de ficção. N., no entanto, não parecia preocupada com aqueles detalhes de ambientação, ao contrário, ela parecia-me bastante familiarizada com aquele lugar tão sem sentido.
- Vamos nos sentar aqui – N. falou – e procure relaxar um pouco, você parece apreensivo demais. Vamos, relaxe, não há nada com o que se preocupar – sentamos num sofá avermelhado.
- Você sabe onde é a sala? – inquiri.
- Lógico. Mas temos que esperar um pouco; creio que chegamos cedo demais.
Observei, e devo salientar que realmente comecei a sentir-me apreensivo, uma porta entreaberta bem à nossa frente onde um professor de avental branco estava ministrando uma aula de geometria. A sala era enorme e estava repleta de alunos. Noutra sala, adjacente a esta, vi que um cirurgião dentista operava um paciente deitado sobre uma cadeira metalizada, assim como todo o ar desta sala.
- Lugar estranho, não?! – tentei incitar em N. um certo sentimento de estranheza o que era, para mim, necessário para me manter lúcido. Talvez assim, eu pensei, eu me sentisse um pouco menos só.
- Deixe de bobagens – ela retrucou – não há nada aqui que seja diferente de qualquer outro lugar em que já estivemos antes – sua calma era alarmante.
- Tudo bem – fingi estar de acordo.
Porém algo realmente sinistro ocorreu, pois foi como se aquele homem de cabelos longos e dourados e que portava um sorriso diabólico surgisse do nada. Sua fisionomia, pude perceber, estava envolta por uma sombra compacta. Ele sentou-se calmamente no sofá laranja que estava à nossa frente: e isso como um indício. Olhei para N. e percebi que o homem estava olhando para seus olhos: forma nebulosa de pesadelo, pesadelo de nebulosa forma! “O que está ocorrendo?”, perguntei para N. “Nada, apenas esse idiota que fica me encarando”.
- Algum problema? – questionei ao homem.
- Não, nenhum problema – ele respondeu num tom tão desafiante e seguro que acreditei ser necessário quebrar a cara daquele patife. Contudo sua sombra e aura, bem como a da mulher que o acompanhava, tornaram-se ínfimas, quase como uma pequena névoa deambulante que começa a pairar furtivamente e depois some.
- Vou ao banheiro. Aguarde só um instante, certo?
- Certo – concordei com N., mas no fundo do meu ser eu não queria que ela se distanciasse muito de mim.
Percebi que o homem lançara um olhar furtivo para N. como se quisesse lhe dizer alguma coisa.
- O que você está querendo? – perguntei novamente.
Assustei-me bastante com o que ocorreu, uma vez que o homem simplesmente começou a desintegrar-se até desaparecer por completo. Tentei reavaliar meu sentido mais íntimo de realidade; talvez houvesse alguma categoria ainda nova no meu espírito. Contudo, de repente, o corredor torna-se tão vazio – antes ele estava repleto de pessoas soturnas em ternos velhos, todos concentrados em algo abstrato, como se houvesse um sentido único para todos estarem ali, todos murmurando frases ininteligíveis ou lamentos que preenchiam o lugar com uma atmosfera densa – que sinto uma leve inquietação pousando em minha alma. Sei que estava louco para que todas aquelas pessoas que estavam andando por ali sumissem, mas agora, quando estou só, sinto que há algo realmente errado no ar. Até que, para meu alívio, N. retorna do banheiro.
- Você não parece muito bem. Há algo errado? Você está se sentindo bem? - foram as perguntas de N.
- Não, não há nada de errado. Tudo bem - menti. Não queria que N. soubesse que eu estava muito... estranho.
- Esqueci de requerer o exame – ela exclamou – Volto já! – Tive vontade de gritar-lhe para não sair de meu lado, pois eu sabia que iria morrer logo mas, felizmente, consegui me conter. “Tudo bem”, foi o que respondi.
Não sei como não havia notado antes, mas havia uma sessão de fotografias em andamento numa das salas contíguas ao consultório do cirurgião dentista. Uma mulher, totalmente nua, estava deitada numa cama relativamente grande. Sobre sua cabeça havia uma estrutura de madeira que trazia coladas fotos de costumes da década de 70. O quarto era todo decorado com flores exóticas e quadros sinistros. O fotógrafo ordenou algo para a modelo: esta começou a masturbar-se com prazer. Levantei-me e fui sentar-me num sofá mais distante. N. retorna.
- Não sabia que havia estúdios fotográficos nesse prédio.
- Há vários – ela respondeu – Seguindo este corredor você vai encontrar muitos, cada um especializado num tipo de produção.
Ela sabia disto? Que estranho, pensei. N. nunca me falara nada a respeito deste lugar. Seguindo este corredor, foi o que ela disse. Olhei em frente e fiquei em pânico: o lugar era mais extenso e gigantesco do que eu poderia imaginar. Corredores infindáveis estendiam-se por várias direções.
- Não há mais ninguém por aqui a esta hora – observou N.
- Realmente – concordei. N. simplesmente sentou-se no meu colo e começou a excitar-me. Beijou-me longamente e disse que me amava e que queria ter uma filha comigo e que era a coisa mais especial que poderia acontecer em sua vida. Fiquei bastante excitado com sua voz e comecei a alisar-lhe os seios. Era uma situação quase absurda, mas como eu poderia me controlar?
Surgiu, então, uma negra no corredor e dirigiu-se, a passos largos e decididos, até nós.
- Essa mulher é uma infeliz – ela diz para N. – Eu posso ver em seus olhos. Quanto a você – disse apontando para mim – eu poderia dizer tudo sobre sua vida, mas não o farei, você está com uma mulher negra! – sentenciou com ferocidade e ódio.
N. começou a chorar como se as palavras daquela negra louca possuíssem algum sentido. Eu, particularmente, não conseguia vislumbrar nenhum sentido exato naquelas palavras.
- Do que você está falando? – perguntei.
- Você bem sabe. Você não queria compreender a realidade? Então, contemple-a!
Fiquei bastante atônito. A negra sumiu e N. continuou chorando até que seu rosto transformou-se no rosto da irmã de R.
- Nossa filha terá o nome de uma flor – disse a mulher que antes era N. e agora era a irmã de R.
- O quê? – falei perplexo.
- Eu disse que nossa filha terá o nome de uma flor especial. Tanto tempo estivemos esperando por isso, não é mesmo, querido?
Um desespero fulminante apossou-se de meu ser. Sentia-me desamparado e queria N. de volta. Uma saudade absurda voava na minha mente. Como eu, que tanto amava N., poderia ter uma filha com a irmã de R., uma mulher estúpida, imbecil e feia? Queria gritar pela presença de N., queria rogar por todos os cantos uma prece para achá-la. Senti-me tão fraco que queria chorar, talvez assim N. retornasse. A irmã de R. continuava falando até que consegui deitar-me no sofá e dormir. Sonhei que estava no banheiro de meu antigo colégio. Todavia, o que era quase um pesadelo, o banheiro estava disposto em vários labirintos e a saída era impossível.
- Não! – gritei bruscamente e estava numa rua sem calçamento, acompanhado de meu irmão que se despedia alegando urgência para que eu resolvesse minha vida e assim, tão repentino e misterioso, ele desapareceu.
Caminhei algumas horas por ruas de barro até que já era madrugada. Uma aglomeração de pessoas pobres surgiu numa esquina e todos gritavam que o touro estava vindo procurar-me.
- O que é isto? – indaguei para um dos homens.
- Não há tempo – foi sua única resposta.
Um barulho ensurdecedor e terrível é antevisto como coisa material na esquina. Um touro, enorme e negro, transpira sua violência pelas ruas e indica abstratamente que quer me destruir. Corro em pânico, tento desviar-me de suas investidas e descubro que a única solução é subir num poste que iluminava uma dessas ruas perdidas. O touro não desiste e tenta estraçalhar um anel que porto na mão direita e que contém uma inscrição com a figura de São Jorge. Tento gritar e correr: a morte, o terror, o desespero e o medo são os sentimentos únicos que consigo revelar.
Desperto suando, quase tremendo. Observo que uma figura – uma escultura, propriamente – de São Francisco está transfigurada no rosto passivo de um touro egípcio. Então eu soube: eu estivera lá!

.

Poesia


Poemas aos Homens do nosso tempo
por Hilda Hilst


Amada vida, minha morte demora.

Dizer que coisa ao homem,

Propor que viagem? Reis, ministros

E todos vós, políticos,

Que palavra além de ouro e treva

Fica em vossos ouvidos?

Além de vossa RAPACIDADE

O que sabeis

Da alma dos homens?

Ouro, conquista, lucro, logro

E os nossos ossos

E o sangue das gentes

E a vida dos homens

Entre os vossos dentes.

***********

Ao teu encontro, Homem do meu tempo,

E à espera de que tu prevaleças

À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras,

Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te conheças

E convides o poeta e a todos esses amantes da palavra, e os outros,

Alquimistas, a se sentarem contigo à tua mesa.

As coisas serão simples e redondas, justas. Te cantarei

Minha própria rudeza e o difícil de antes,

Aparências, o amor dilacerado dos homens

Meu próprio amor que é o teu

O mistério dos rios, da terra, da semente.

Te cantarei Aquele que me fez poeta e que me prometeu


Compaixão e ternura e paz na Terra

Se ainda encontrasse em ti, o que te deu.




Marcha fúnebre e vertical
por Kóstas Karyotákis


Vejo, no teto, ornatos de gesso.

a dança de seus meandros me captura.

minha felicidade há de ser, reconheço,

uma questão de altura.


Símbolos da vida em culminância,

rosas transubstanciadas, absolutas,

os alvos espinhos a cingir, em volutas,

um corno de abundância.


(Arte de modéstia sem igual,

quão devagar tua lição aprendo!)

Sonho em relevo, a ti ora me rendo

em pose vertical.


Dos horizontes sufoca-me o assédio.

Em todo clima, em qualquer estação

combates pelo sal e pelo pão,

amores, tédios.


Ah! quero ver se me enfeito

como essa bela e gípsea coroa.

Assim, com a moldura que o teto festoa,

ficarei perfeito.

.

Filmes



Control de Anton Corbjin

Control é um filme para quem é fã da banda inglesa Joy Division. Na verdade, apesar de tratar da banda, o filme centra-se na figura depressiva do vocalista Ian Curtis. Numa trajetória meteórica e velocíssima, Curtis imprimiu ao rock inglês um espírito existencialista que até então não se encontrava presente nas músicas dos jovens de sua época. Isso é tão verdade, que o filme abre com Curtis (Sam Riley) questionando-se: “A existência... bem... o que importa? Eu existo da melhor forma possível. O passado, agora, faz parte de meu futuro. O presente está fora de controle”. Mais existencialista é impossível.

O filme de Anton Corbjin foi filmado todo em preto e branco, o que acentua o caráter nostálgico e melancólico da película. O clima nebuloso de Manchester e seus cidadãos soturnos ganham relevância com esta escolha do diretor e o tom confessional com que o filme se desenrola – como se o próprio Curtis estivesse nos falando de suas angústias e dúvidas – além de agigantar a tristeza que foi a vida desse poeta do minimalismo inglês. Foram poucas letras deixadas por Curtis, mas todas com um alcance que impressiona por sua sinceridade e profundidade.

Control narra a trajetória do Joy Division desde o início como uma banda punk que se intitulava Warsaw até o trágico suicídio de Ian Curtis, então com 23 anos de idade em 1980. Para quem conhece a banda e assiste ao filme, parece quase impossível não ficar impressionado com a semelhança dos atores com os integrantes originais da banda. Além disso, são os próprios atores que tocam nas cenas em que a banda se apresenta. Para quem conhece a filmagem original do Joy Division tocando She´s lost Control na BBC e se depara com os atores interpretando esse momento, não há como não ficar admirado.

Mas o filme não se resume a uma versão bem feita do original. O roteiro se baseia no livro de memórias de Débora Curtis, a esposa de Ian Curtis. Ela narra o lado profissional do músico, suas crises de epilepsia (interessante notar que Curtis, vez ou outra, tinha crises epilépticas no palco e todos pensavam que era encenação e que fazia parte do show. Renato Russo, da Legião Urbana, não só se vestia idêntico a Curtis como dançava igual ao mesmo, quase como uma crise), sua infidelidade amorosa, suas depressões e, por fim, seu suicídio. Esse toque humaniza o mito e dá uma dimensão mais interessante à filmagem como um todo.

Indico apenas para quem conhece a banda ou para quem tem interesse nesse tipo de música. Digo isso porque o filme é recheado de poesias de Curtis e de apresentações do Joy Division – seja como for, fica a ressalva aqui.

Eis o link para baixar o filme no Blog MagrelusBlog:

http://magrelusblog.blogspot.com/2009/11/baixar-filme-control-joy-division.html

.

Livros


Ulisses, de James Joyce, é um livro que não admite meio termo: ou você o ama ou você o odeia. O único caso em que, assim acredito, não haja nem amor e nem ódio são daqueles “leitores” vencidos pelas mais de 800 páginas do livro e que o encostaram na prateleira de suas bibliotecas particulares apenas para enfeitar a mesma. Creio que haja uma explicação razoável para essa polaridade tão evidente.

Aqueles que odeiam o livro o acusam de um ocultamento hiperbólico de seu sentido mais essencial, de um exagero estético e estilístico nas escolhas de suas expressões literárias e na falta de uma filosofia ou de um dizer mais profundo que pudesse justificar a envergadura da obra.

Não concordo com essas opiniões. Isso não significa dizer que as mesmas carecem plenamente de sentido, mas são todas, elas mesmas, exageradas e hiperbólicas.

Joyce escolhe escrever sobre um dia na vida de Dublin, capital da Irlanda, através de algumas personagens chave: Leopold Bloom, Stephen Dedalus, Molly Bloom e Buck Mulligan. Na verdade, Ulisses é a Odisséia de Homero de modo inverso: narra a estória do anti-herói, Bloom, da infidelidade de sua esposa, seus conflitos pessoais e seu dia a dia. Ulisses também traduz os conflitos de Joyce nos mais diversos campos: ético, filosófico, religioso, sexual, social e emocional.

Não creio que haja tanta coisa oculta assim na obra de Joyce. O livro exige uma leitura atenta e rigorosa, isso é fato, mas aqui e ali, em personagens diferentes, pululam as angústias do escritor, suas certezas, seus conhecimentos, seus desejos e crenças. Sempre acreditei que os três irmãos da obra Os Irmãos Karamázov, de Dostoievski, representam as dicotomias do próprio autor. Do mesmo modo, as figuras de Ulisses representam a personalidade multifacetada de Joyce.

Ulisses trafega do inconsciente para o consciente, da fé para o ateísmo, do dogmatismo ao ceticismo, da esperança ao desespero, do sofrimento ao prazer. Mas para se alcançar esse dizer, essa verdade que pertence unicamente a Joyce, é preciso se entregar ao enredo de um longo dia e seus infinitos desdobramentos que acontecem em Ulisses.

Joyce dividiu esse longo dia em 18 seções que se estruturam em três partes maiores: Telemaquia, Odisséia e Nostos. Essas três divisões maiores bem que poderiam representar o ID,o Ego e o Superego freudiano.

Essa divisão maior,como dissemos, é dividida em 18 seções menores que portam o dizer da obra. Joyce dividiu cada seção em episódio, cena, hora, órgão, arte, cor, símbolo e técnica literária. Por exemplo, a seção 7 é subdividida em Éolo, o jornal, pulmão, retórica, vermelho, editor e entimemática. Nesta seção há um verdadeiro jorrar de fatos que ocorrem ao mesmo tempo em Dublin no dia em que transcorre a ação do livro: 16 de junho de 1904. Cada indicação acima dada surge na seção para fomentar o seu todo essencial, ou seja, o intuito específico de dizer a vida sobre determinado ângulo.

Cada seção possui vida própria, mas que se articula com o todo da obra. Mas o centro unificador é sempre o olhar de Bloom. Muitas vezes somos pegos lendo Joyce pensando através do pensamento de Bloom e de suas análises corriqueiras sobre o cotidiano. Por exemplo, na seção 13, Nausícaa que possui como símbolo a virgem, vemos Blomm admirando e pensando sobre a coxa Gerty MacDowell.Joyce narra essa experiência assim como o pensamento real ocorre, no seu tempo e fluxos próprios, numa linguagem quase privada.

Eu poderia citar diversas passagens que me influenciaram muito na escrita e que estão ali em Ulisses. Desde a célebre introdução (“Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha”), ou a catarse intelectual na seção 16, a mais longa de todas ( “Reuben J. Anticristo, o judeu errante, mão em garra aberta na espinhela, desloca-se à frente. Pelos lombos pendura-se-lhe um alforje de peregrino de que se arrebitam notas promissórias e títulos não honrados”), ou o famoso monólogo final de Molly (“Sim porque ele nunca fez uma coisa como essa antes como pedir para ter seu desjejum na cama com um par de ovos desde o hotel City Arms quando ele costumava fingir que estava de cama com voz doente”).

Ulisses é um livro múltiplo e de múltiplos dizeres. Como literatura não é religião, não quero pregar uma defesa da obra. Trata-se apenas de admiração pessoal. Tanto assim é que o poema meu desta postagem integra o livro de poemas que ainda estou escrevendo intitulado O Dia de Ulisses e que procura traduzir poeticamente cada seção de Ulisses. Logo, serão 18 poemas. Estou na terceira visita a esta obra prima e, assim como ocorre com as grandes obras de filosofia, sempre me surpreendo com a leitura nova e sempre profunda que faço de Ulisses. É um livro para poucos, isso é fato, mas quem o conquista e o ama, sai fortalecido. Não duvido disso.

Citações

Eu não me empenho por ter domínio próprio. O autocontrole significa a vontade de realizar-me a um certo momento fortuito nas radiações infinitas de minha existência espiritual. Mas se devo traçar tais círculos à minha volta, então farei isto melhor permanecendo passivo num simples estado de perplexidade ante este tremendo complexo, e nada levarei comigo a não ser o poder revigorante que aquela contemplação por contraste me oferece.

Franz Kafka
In: Aforismos


O tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição?

Raduan Nassar
In: Lavoura Arcaica

Paz não é nem um estado paradisíaco original, nem uma forma de convivência regrada. Paz é algo que não conhecemos, que apenas procuramos e pressentimos. Paz é um ideal. Algo indizivelmente complicado, frágil, ameaçado – um sopro basta para perturbá-la. É mais raro e difícil do que qualquer realização intelectual ou moral.

Herman Hesse
In: Sobre a Guerra e a paz

Antes de você entrar na coisa, decida onde está o espírito e onde ele estará quando a coisa tiver terminado. Eu não fecho com o Dos – CRIME E CASTIGO – que nenhum homem tem o direito de tirar a vida de um outro homem. Mas talvez mereça um pouco de reflexão antes. É claro, a porra é que eles tem tirado as nossas vidas sem disparar um tiro. Eu também trabalhei por salários aviltantes enquanto alguns garotos gordos estupravam virgens de quatorze anos em Beverly Hills.

Charles Bukowski
In: Notas de um velho safado.



.