sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Perguntou-se sobre o silêncio
Mas um turbilhão de vozes fez-se ouvir
Saciado de seus próprios conhecimentos 
O ouvido jamais escuta o que não sabe

Comentários Cotidianos



Os Sete Pecados Capitais

            Só há pecado quando se estabelece um padrão de conduta moral erigido por determinada divindade e quando o mesmo é quebrado devido à conduta de alguém. Em síntese, pecado significa agir de modo contrário ao que a divindade, em sua legislação divina, estabelece como certo. O pecador é aquele que não segue esse padrão moral. Como a base de toda e qualquer religião é o medo, estabelece-se para o infrator um castigo específico de acordo com a gravidade de sua ação. A divindade, portanto, nada mais é do que o juízo moral em sua forma mais abstrata e absoluta possíveis. Esse castigo pode se traduzir como o inferno ou um mau karma. Seja como for, o medo de uma pena futura e terrível é o norteador da ação e não o seu conteúdo de escolha pessoal. O livre arbítrio, tão preconizado pela maioria das religiões, é posto de lado quando se depara com uma rota que não permite colisão: é preciso seguir seus ditames ou ser exposto, no futuro, a sofrimentos monstruosos. Expurga-se o mal com o próprio sofrimento.
            A ideia religiosa de castigo sempre esteve presente nas mais diversas culturas: Egito Antigo, Grécia Antiga, Babilônia, Índia, etc. Essas civilizações criaram mitos específicos para tratar do castigo pós morte. O judaísmo, o cristianismo (seja ele católico, protestante ou espírita) e o islamismo também são correntes religiosas que possuem mitos correlatos. O mais importante para evitar o sofrimento além túmulo nessas religiões é seguir os preceitos morais trazidos por seus profetas e messias. Cria-se, então, uma moral de rebanho em que o diferente, o dissonante e a negação devem ser dizimados. Ora, como é possível a um simples ser humano ir de encontro ao dizer da divindade? Estranhamente, a divindade se mostra no plural, multifacetada e portadora de um dizer moral muito arraigado no seio da cultura em que a mesma surge. Religar-se com a divindade transforma-se em religar-se moralmente à mesma: a moral é a base, o alicerce, a salvação. Mas, de fato, devemos nos salvar de quê? Para a maioria das religiões, devemos nos salvar dos sofrimentos e tentações deste mundo. O mal está na carne, no corpo que é a entrada para os prazeres que devem, agora, ser evitados como a própria encarnação do mal. Mesmo uma religião agnóstica como o budismo segue essa poderosa vertente moral.
            Mas por que a moral ganha destaque na composição do dizer religioso? Simples: o lugar do prazer é o corpo e o maior prazer é o sexo. Ora, se atemorizo tanto um indivíduo a ponto do mesmo renegar a si mesmo e seu lugar de prazer, desenvolvo um poder de controle sobre ele quase absoluto. O velho Kant, apesar do ranço que o dever ganha em sua moral (o famoso imperativo categórico), percebeu as armadilhas dessa moral de rebanhos. Num pequeno texto – O que é o Esclarecimento? – Kant afirma que evitamos atingir a maioridade por preguiça e covardia. A menoridade significa que alguém me guia, me diz o que é certo e como devo agir. A maioridade significa ser guiado por seu próprio entendimento, desimpedido de amarras exteriores. A covardia faz com que eu não acredite em mim mesmo: se  já tenho uma doutrina pronta, por que deveria pensar? Ainda mais se essa doutrina é trazida por um iluminado, um santo, um profeta, um espírito superior, um extraterrestre ou um messias. Esses seres mágicos estão num patamar muito superior ao meu e a verdade deve, de fato, estar com eles. Será? Isso indica apenas a nossa covardia de acreditarmos em nós mesmos e nada mais. O mito ainda permanece em toda a sua potência originária.
A Igreja Católica foi uma das primeiras a sistematizar os conceitos relativos às diversas possibilidades de aparição do pecado. Esse é entendido como uma ação que não está de acordo com as leis divinas. Foi o monge Evagrius Ponticus, no século IV, quem primeiro elaborou uma doutrina sobre os pecados capitais. Inicialmente, tínhamos oito pensamentos pecaminosos que se transformaram, com o passar dos séculos, nos sete pecados capitais. Tomás de Aquino, na sua Suma Teológica no século XII, nomeou-os: vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia.  Mas é na obra De Malo que ele trata demoradamente sobre a questão. A Igreja reformulou essa lista e hoje temos: soberba, avareza, ira, luxúria, gula, preguiça e inveja. Esses pecados não finalizam o todo da discussão teológica sobre o assunto. Aquino chega a afirmar que esses pecados arrastam atrás de si um exército que compreende mais outros cinquenta pecados como traição, perversão, divagação da mente, tagarelice, curiosidade, etc.
            Aquino entende a soberba como a indevida apropriação de um bem, fugindo da busca da própria excelência e atingindo uma desordem ao recusar a superioridade da divindade: a soberba aparece como o pecado mega-capital, a fonte de todos os outros pecados. Pode-se entender a soberba também como uma apreciação imprópria de seu próprio valor e um direcionar-se às coisas que se reflete na admiração dos outros. O soberbo quer ser admirado pelo que possui, pelo valor em si dos objetos que tem a mão. A vaidade e o narcisismo são frutos da soberba. Acrescentamos o esnobe que pode ser entendido como o soberbo em seu mostrar-se exagerado:  acredita-se melhor do que realmente é. Aquino chega mesmo a falar da vanglória (vã-glória) como traço fundamental dessa atitude.
No seriado $#*!, My Dad Says há uma cena que retrata de modo cômico um soberbo. O pai está vendo o filho todo empolgado com seu iPad. O filho se vangloria do aparelho e quer ser admirado por possuí-lo. Aí o pai retruca: “Seu imbecil, fica aí se gabando de algo que você não criou. Qualquer idiota pode comprar essa m...”.
            A moderna psicologia trata da soberba em seu aspecto polarizado, ou seja, seu lado negativo e seu lado positivo. O lado negativo é chamado de soberba egoísta e que já definimos acima. O lado positivo é entendido como soberba hubrística e significa a busca por melhoras que surge da necessidade social de mostrar-se aos outros como uma pessoa de sucesso. Nestes termos, a soberba hubrística leva o indivíduo a melhorar sua situação, seja se exercitando para parecer mais saudável e belo, seja trabalhando duro para reformar sua casa ou comprar um carro mais novo. A relação com os objetos é fundamental e nem mesmo na teologia cristã essa dimensão é esquecida. O protestantismo inglês colocou na discussão do dia a necessidade do bem estar material que parecia desnecessário para os católicos mais radicais (como ocorre com a Ordem de São Francisco, por exemplo).
            A ostentação parece uma fuga do indivíduo ao seu vazio “espiritual”. Essa pessoa desloca para as coisas um sentido mais amplo e abrangente que ela mesma não consegue. O soberbo ostenta algo como um mecanismo de defesa diante de sua fragilidade psicológica ou de sua falta de conteúdo. São pessoas que sempre precisam mostrar o que possuem – as coisas as precedem sempre. Mas, como vimos, há o lado positivo: a fonte instigadora da ação que visa melhorias reais, concretas.
            Mas, seja como for, a lista dos pecados capitais encobre ainda o ranço judaico da tradição moral que os funda. O dizer moral – o lugar do certo e do errado – inicia-se com a elaboração dos conceitos de bom e mau. Na Antiguidade – assim nos atesta Homero na sua Odisséia e na figura do herói Ulisses – bom (ágathos em grego) significava o senhor, rico, poderoso, amado dos deuses, forte, corajoso, aquele que ama sua vida e realiza os desejos de seu corpo. Mau (kákos em grego) era o oposto: o escravo, plebeu, fraco e covarde, odiando sua vida e impossibilitado de realizar seus desejos. A Bíblia, segundo Nietzsche, realiza, por rancor, a inversão dessa moral: o Deus judeu ama, agora, o que antes era considerado mau: o fraco, o covarde (a base do amor a Deus, segundo a Bíblia, é o temor), o escravo, aquele que despreza seu corpo são considerados bons.
            Essa inversão, que se operou de forma definitiva no Ocidente quando Roma decide abraçar o cristianismo, é norteadora do dizer cristão ( é mais fácil um camelo – uma linha de lã grossa – passar pelo buraco de uma agulha do que um rico herdar o reino dos céus). Ainda mais: peca-se, agora, até mesmo em pensamentos. Mas o pecado possui como fonte aquilo que nessas religiões é considerado mau: os desejos do corpo, o mundo e sua potência. Deve-se, então, abandonar o mundo, o corpo, todos os prazeres. Esse dizer moral encontra em São Paulo sua maior expressão. Paulo, o pai da Igreja e dessa moral de rebanhos. Na Idade Média, como não poderia deixar de ser, a Escolástica encarregou-se de definir com clareza os pecados. A lista dos sete pecados capitais encerra um segredo: os seis primeiros pecados (soberba, avareza, ira, luxúria, gula e preguiça) são ações próprias do senhor, do rico, do forte. O senhor da Antiguidade é soberbo por ser rico, não distribui suas riquezas com os escravos (avareza), pode bater neles quando quer (ira), realiza os prazeres do corpo sempre de modo superlativo (luxúria e gula) e não precisa, assim como enaltecia Aristóteles, trabalhar (preguiça). Apenas a inveja encobre o sentimento inicial do escravo. O senhor não inveja a vida do escravo, mas este odeia seu senhor por ter a vida que ele jamais terá. Então, o escravo deve ter uma recompensa num mundo de ficção, o reino dos céus. Aqui, nessa terra de sofrimentos, o escravo nada realiza e apenas pelo temor – seu estado natural – ele pode se ligar a um ser superior e esperar uma recompensa futura.  A inveja encobre a razão por trás do dizer moral judaico-cristão.
Nietzsche gostava de dizer que faltava aos filósofos certo senso histórico. Esse senso nos ajuda a vislumbrar de modo claro determinados dizeres que trafegam entre nós. O olhar etimológico, histórico e filosófico nos ajuda a evitar armadilhas – quase sempre morais – que procuram negar a intensidade da vida. Se Kant despertou de seu sono dogmático ao ler Hume, posso afirmar que despertei através de Nietzsche. do meu sono particular. Golpes de martelo são úteis quando o espírito está confuso e amedrontado. Mas apenas para os fortes!

Meus Poemas

                         A flauta de Pã

A densidade é uma morte eterna
E eu, consumido no calor de teu corpo,
asfixio minha espera sobre a ilha de Cythera.
É branco o mar e as colinas
e me volto sobre esse céu violento -
a flauta de Pã toca e decifro sua música:
Aquele que quiser se perder
irá se encontrar em mim
pois são doces os meus sofrimentos
e amargos todos os meus amores”.
Um navio sem bandeira atraca
e o barulho dos homens
das cargas e dos guindastes
me transporta a um mundo mais próximo.
Eu sempre soube
e nem teus lábios e nem teu corpo feroz
calaram em mim esse fogo superlativo
de voltar sempre
e jamais olhar para trás.


Escritos dos Amigos

Superbia

É Satanás, o rei da prestidigitação e da soberba
ou qualquer um que imponha sofrimento,
demasiada vaidade ou vão desprezo,
como Cassiopéia valorizando a beleza
de sua filha a de Hera em detrimento,
amargando dela o furioso castigo.


Avaritia

Em quem pesa o erro da avareza
de Salomão se afasta do ensino,
que nos Provérbios com firmeza
disse tanto contra o viperino
mal dos que juntam tanta riqueza.


Luxuria

No Inferno, lá estão no segundo círculo,
os que se queimam num eterno cio sofrido,
só o prazer físico ocupa sua alma e com a idade
o sussurro da prece dá lugar ao cúpido gemido,
os réus que buscam os apetites da promiscuidade.

E na mesma Cartago onde reinou Dido,
Santo Agostinho se abrasou cedo,
clemente por continência e castidade,
logo vacilante e depois arrependido,
nas confissões dos excessos da juventude.


Gula

Na pintura de Bosch acima do Cristo
está representada ao lado dos demais,
embaixo como assinatura, gula escrito,
no círculo com todos os pecados capitais,
“Cave, Cave, Deus videt” posto ao centro.


Ira

Jesus lançou aos mercadores da frente do templo,
mas de outro jeito não se manifesta com sobriedade,
como o que levou Ájax a terminar na loucura
ou o dos deuses que levou a Belerofonte,
ele se manifesta na terra desde a tenra idade.



Invídia

O alvo é sempre o bem cobiçado,
Caim matou Abel por desgosto,
depois Esaú por Jacó foi enganado,
todos tristes pela glória do outro,

e pela beleza de Psique, Afrodite teve,
juntando Eros à Tristeza e à Inquietude,
mas Deus dá castigo a quem o vício reteve,
quem aqui ou ali não deu sinal de mansuetude.


Pigritia

O arcano cinco do tarô segura uma cruz,
e as sete pontas desta cruz que ele segura,
significam os pecados que o mal nos induz,
juntamente com os astros que estão lá na altura,
este aqui relacionado à Lua, um destes entes astrais.

Entre os hebreus com Belphegor é associado,
aqui com demônio, em outro lugar já o é com o burro,
sendo-o para que o povo se sinta horrorizado
e em sua consciência se bata como um murro,
introduzido, sofrido, refletido e amedrontado.


Flávio Minno
In: Os Círculos de Hades


Artes Visuais

Homem e mulher, 1998.


 O Casamento Arnolfini, 1978.

A Mona Lisa, 1963.

Fernando Botero é um escultor e pintor colombiano que ficou mundialmente conhecido por suas figuras rotundas.  A estética de Botero aponta não apenas para uma crítica ao consumismo, mas coloca as pessoas gordas num patamar diferenciado, pois a beleza de suas obras está diretamente atrelada à sua noção de que há beleza nas pessoas gordas.
Além do mais, sua arte faz referências constantes à arte pré colombiana e às influências da colonização espanhola na América Latina. Não deixa de ser também surpreendente como sua arte pictória parece alinhar, quase de maneira inconsciente, a estética literária de outro colombiano, Gabriel Gárcia Màrquez. No meu romance Diário de um Percurso Absurdo, citei que andar nas ruas de Cartagena – cidade litorêna colombiana – era como que gravitar nas páginas de Màrquez. Botero também possui esse poder: suas composições possuem detalhes, cores e figuras que nos remetem quase que imediatamente para esse universo onírico, mitológico e ancestral da Colômbia de Márquez.
Entretanto, Botero possui voz própria e sua arte parece uma extensão saída à força do livro Cem Anos de Solidão. De fato, a quietude, o silêncio auto imposto pelas pessoas, o movimento do vento, as árvores e os animais parecem corroborar esse universo particular e extremamente latino.
O monumental é alcançado em suas pinturas através de um domínio técnico em que a cor ganha destaque e se torna fundamental para compor seus conceitos e a amplitude de seu dizer artístico.
Botero também é reconhecido por suas versões de pinturas famosas como a Mona Lisa de Da Vinci e O Casal Arnolfini de Jan Van Eyck, entre tantas outras. Essas versões são fruto das pesquisas e visitas que Botero fez aos mestres quando visitou os museus da Europa.
Apesar da distância estética – principalmente no que se refere ao intuito da obra – parece haver  certa conexão entre Botero e Fonseca, o pintor recifense. Essa conexão se faz sentir na ancestralidade, já referida, que se faz presente na obra desses dois grandes mestres. Melhor ainda: parece que a arte latino americana encontrou uma voz única e se faz presente mais do que nunca. Assim podemos perceber quando nos deparamos com a beleza particular das pinturas desse grande mestre colombiano.

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Filmes

Assassinato em Gosford Park de Robert Altman

Assassinato em Gosford Park é uma celebração ao requinte de uma estória bem contada. Robert Altman, aqui, realiza de modo magistral o enlace entre um roteiro bom e bons atores, transformando essa simbiose num filme interessante e de extremo bom gosto.
Seguindo os passos de Agatha Christie, o filme de Altman se passa numa magnífica casa de campo da Inglaterra e está recheado de intrigas subterrâneas entre as personagens. As múltiplas intrigas desfilam passo a passo na tela para compor um quadro em que o tema central – um assassinato – possa surgir de maneira convincente. Os convidados, quando chegam à mansão, são recepcionados pelos empregados. Altman acentua de maneira inteligente a divisão entre as classes sociais: o requinte e distanciamento dos burgueses, os patrões, e a subserviência e respeito dos empregados.
O filme possui duas realidades que se cruzam constantemente: o mundo dos burgueses em que o luxo excessivo e os mimos exagerados estão sempre presentes em seus quartos gigantescos no andar de cima e o mundo dos empregados que transcorre quase que completamente entre seus minúsculos quartos e a cozinha no andar de baixo.
O ponto de encontro dessas duas classes sociais é na sala de jantar onde é servido um suntuoso jantar para os convidados. Em completo silêncio e reverência, os empregados escutam as conversas de seus patrões. Estes discutem sobre negócios, trivialidades e o clima.
O anfitrião, Sir William McCordle, é um homem estupidamente rico, mas igualmente estúpido em seu trato com as pessoas. Está sempre abraçado com seu minúsculo cão e o trata com mais carinho do que a todos na festa. Há certo clima geral de indignação contra o anfitrião, mas o seu poder financeiro fala mais alto e os convidados não querem perder a oportunidade de desfrutar de uma casa tão maravilhosa.
Há uma cena especialmente interessante no filme.  Lembrando a pintura A caçada de Claude Monet, os convidados seguem para uma caminhada na propriedade e vão caçar faisões. Após diversos tiros e muitos faisões abatidos, uma bala perdida termina por atingir, de raspão, a orelha do anfitrião. Ele fica indignado, mas não é revelado quem foi o autor do disparo e o clima de mistério começa no filme.
Quando o assassinato finalmente ocorre na biblioteca e o investigador aparece na casa, a trama está plenamente montada e as peças começam a se juntar e fazer sentido.
Uma obra prima de Altman que deve ser vista não apenas pelos leitores de Agatha Christie ou Conan Doyle, mas por qualquer um que se interesse por um cinema bem feito e de extrema qualidade.
Eis o link para baixar o filme no torrent:


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Citações

O cristão, essa ultima ratio da mentira, é o judeu mais uma vez – três vezes, até... A vontade fundamental de utilizar somente conceitos, símbolos e atitudes que convém à práxis sacerdotal, o repúdio instintivo a qualquer outra perspectiva e a qualquer outro método para estimar valor e utilidade – isso não é somente uma tradição, é uma herança: apenas como uma herança é capaz de operar com força natural. Toda a humanidade, mesmo as melhores mentes das maiores épocas (com uma exceção que, talvez, mal fosse humana –), deixou-se enganar. O Evangelho foi lido como um livro da inocência... certamente nenhuma modesta indicação do alto grau de perícia com que o truque foi feito. – Sem dúvida:  se pudéssemos de fato ver esses carolas e santos falsos, mesmo que apenas por um instante, a farsa seria posta a fim – e exatamente porque não leio nenhuma palavra sem ver gestos, eu lhes dou fim... Simplesmente não consigo suportar a maneira com que levantam os olhos. – Felizmente, os livros, em sua maioria,  não passam de literatura. – Que não nos deixemos induzir em erro: eles dizem “não julgueis”, mas condenam ao inferno tudo que fica em seu caminho. Ao fazerem Deus julgar, são eles próprios que julgam; ao glorificarem Deus, glorificam a si mesmos; ao exigirem que todos manifestem as virtudes para as quais são aptos – mais ainda, das quais precisam para permanecer no topo –, assumem o aspecto de homens em uma luta pela virtude, de homens engajados numa guerra para que a virtude prevaleça. “Nós vivemos, morremos, sacrificamo-nos pelo bem” (– “a verdade”, “a luz”, “o reino de Deus”): na realidade, simplesmente fazem o que não podem deixar de fazer. Forçados, como hipócritas, a serem furtivos, se esconderem nos cantos, se esquivarem pelas sombras, convertem sua necessidade em dever: é como um dever que surge sua vida humilde, e tal humildade converte-se em mais uma prova de devoção... Ah, essa humilde, casta e misericordiosa fraude! “A própria virtude deve testemunhar em nosso favor”... Leiam-se os Evangelhos como livros de sedução moral: essa gentinha insignificante se atrela à moral – conhecem perfeitamente suas utilidades! A moral é o melhor meio para conduzir a humanidade pelo nariz! – A verdade é que a mais consciente presunção dos eleitos disfarça-se de modéstia: desse modo colocaram a si próprios, a “comunidade”, os “bons e justos”, de uma vez por todas, de um lado, do lado da “verdade” – e o resto da humanidade, “o mundo”, do outro... Nisto observamos a espécie mais fatal de megalomania que a Terra já testemunhou: pequenos abortos de beatos e mentirosos começam a reivindicar direitos exclusivos sobre os conceitos de “Deus”, “verdade”, “luz”, “espírito”, “amor”, “sabedoria”, “vida”, como se fossem sinônimos deles próprios, e através disso buscaram estabelecer o limite entre si e o “mundo”; pequenos superjudeus, maduros para todo tipo de manicômio, viraram os valores de cabeça para baixo para satisfazerem suas noções, como se somente o cristão fosse o significado, o sal, a medida e também o juízo final de todo o resto... Todo esse desastre só foi possível porque no mundo já existia uma megalomania similar, de mesma raça, a saber, a judaica: uma vez que se abriu o abismo entre judeus e judeus-cristãos, a estes já não havia escolha senão empregar os mesmos procedimentos de autoconservação que o instinto judaico lhes aconselhava, mesmo contra os próprios judeus, ainda que judeus somente os tivessem empregado contra não-judeus. O cristão é simplesmente um judeu de confissão “reformada”.

Friedrich Nietzsche
In: O Anticristo