sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Contemporâneas


Recentemente fui a uma livraria procurar alguma literatura contemporânea interessante. Vasculhei pacientemente todas as estantes e, subitamente, fiquei espantado. A literatura do século XXI quase que se resume a quatro itens básicos: 1. Literatura histórica onde encontramos narrativas canhestras sobre cavaleiros templários, sacerdotes e sábios do Egito Antigo, pensadores medievais, etc.; 2. Vampiros e suas absurdidades tratadas como mitologia profunda e reveladora de nosso tempo; 3. Romances policiais que para quem conhece Dashiell Hammett, Friedrich Dürrenmatt e Raymond Chandler, por exemplo, parecem coisas de criança e 4. Romances que alinham fantasia e seres imaginários como se estivessem tratando das coisas mais importantes do mundo. Não me espanta que, aqui no Brasil, José Saramago seja tão lido. Diante de um quadro tão deplorável desses, recolhi-me à minha insignificância de leitor e procurei os clássicos. Terminei comprando Gente de Hëmso de Strindberg e um livro de Filosofia, Hinos de Hölderlin de Heidegger. Tenho que admitir: fiquei com uma grande saudade do tempo em que livro bom contemporâneo era como O Nome da Rosa de Umberto Eco. Paciência.

Contemporâneas I





Muitas vezes creio que mais importante do que “o que é” algo, é saber o “porquê” desse algo. Desde Kant, Schopenhauer e Nietzsche que a questão do inconsciente humano é discutida. Freud surgiu para resolver muito dos problemas suscitados pela questão e nos legou uma estrutura – depois seguida por Lacan e Winnicott, por exemplo – em que trata do inconsciente e seus desdobramentos no aparelho psíquico humano: o Id, Ego e Superego. Entretanto, a questão até agora estava centrada em explicar o que realmente é o inconsciente. Filósofos com base fenomenológica como Husserl, Merleau-Ponty e Heidegger trouxeram novas contribuições para o debate, mas a perspectiva permanecia a mesma: “O que é”. Creio que o porquê da existência do inconsciente – em sua dinâmica psicológica – se deve a uma sabedoria própria da natureza. Ao mesmo tempo em que o desconhecido nos atemoriza, ele também nos fascina. Somos naturalmente atraídos para esse limite de nosso conhecimento e é nessa atração que reside nossas buscas religiosas, místicas, artísticas, filosóficas ou científicas. Sempre queremos ir além. Mas imagine um universo em que tudo já estivesse presente em nossa consciência. Não restaria nenhum mistério e tudo estaria definitivamente resolvido. Logo, qual seria a força impulsionadora de nossa existência? Morreríamos aos milhões e a humanidade como a conhecemos hoje não existiria. Creio que não existiria humanidade nenhuma. O mistério toma parte em nossa existência e nos impulsiona... para o bem  ou para o mal. O “porquê” do inconsciente reside num mecanismo natural para evitar o tédio. Entediados continuamente, já que nada haveria para ser descoberto, nossa existência perderia o sentido. Assim, a natureza colocou o maior mistério de todos bem ao nosso alcance: nós mesmos. Impossível se entediar diante de uma tarefa tão gigantesca e infindável.

Contemporâneas II



Dor de amor é algo até compreensível. Que as lamúrias se transformem em poesia, música, raiva ou revanche, é extremamente aceitável. Mas quando o sofrimento descamba para a autocomiseração, para a pena de si mesmo, então algo está muito errado com essa pessoa. Pena de si mesmo é tão danoso quanto culpa. A culpa possui como alvo de destruição a própria pessoa que a sente, assim como a pena de si mesmo. Nestes casos, apenas o tratamento de choque parece dar resultado, já que a bajulação só tende a aumentar esse sentimento. Creio que é esse mesmo sentimento subterrâneo de culpa que acontece diante do luto. Penso que o passado serve como medida para nos avaliarmos constantemente e para nos conhecermos mais profundamente – tarefa incessante e sempre gratificante. O futuro, por seu turno, deve servir apenas como ponto de referência para a elaboração de metas concretas e palpáveis. (Certa vez, um amigo semi-analfabeto me disse que o pastor de sua igreja havia dito que através do poder de Deus nós podemos tudo, basta acreditar. Ele me disse que iria se tornar juiz de direito. Eu lhe perguntei: “Você tem 2º grau? Sabe que terá que terminar o 2º grau, depois fazer faculdade de direito, depois passar na OAB e por fim passar num concurso para juiz?”. Ele caiu na real e abandonou a igreja). Assim, resta-nos apenas viver com intensidade o nosso presente, já que o passado passou e o futuro sempre chega. Viver com intensidade a pena de si mesmo ou a culpa é apontar para um sentimento de autodestruição que, em minha opinião, deve ser evitado. Eros e Ananke, Thánatos e Zoé: forças descomunais que nos guiam e que a todo o momento cobram seus tributos.

Meus Poemas

 
                         Diálogos

Duas crianças brincavam no cimo da montanha
o mar da Grécia era o mar do mundo e dos homens
e elas, esquecidas de tudo, perdiam-se em seus risos.

Um céu de tempestades elevou-se fortemente
e seus olhos, centrados em suas brincadeiras,
silenciaram-se para escutar a fúria dos trovões.

“Será que Deus existe?” – perguntou uma das
crianças com olhos amedrontados e plenos
de admiração, uma devoção branca de catedrais.

Claro que não” – respondeu a outra criança
ainda mais amedrontada. Seus olhos, esparsos,
profundos, refletiam o branco e a revolta do mar.

Como você pode provar que ele não existe?”
Eu sei que ele não existe e isso me basta!”
Seus lábios calaram-se e uma luz prenunciou-se


Um trovão estrondou nos céus com fúria
e Dialética e Razão calaram-se para admirar
toda a magnificência do espetáculo da Natureza.




Escritos dos Amigos

pós-goya: digit adversa
Delmo Montenegro

tensão
sob
a pele: nenúfares
(corpo lejano
traço gris)
sol-miosótis
: tatuagem
olho
: ônfalo
céu-horror
: parakleitos
sob a hora-polén:
(
o peso
do morto
em
si
)


Contemporâneas III


Creio que qualquer pessoa com bom senso trataria uma pessoa esquizofrênica e delirante de modo reservado, seja de maneira afetuosa ou não. Do mesmo modo, essa mesma pessoa não levaria muito a sério o que essa pessoa afirmasse como sendo uma revelação máxima de uma verdade profunda. Sendo assim, por que ainda insistimos em acreditar em contos de fadas bem estruturados e que, na verdade, não possuem qualquer evidência? Nossa mente, me parece, precisa da fantasia assim como um bebê precisa de sua mamadeira: alimento e prazer andam de mãos dadas. Só que agora dizemos “alimento para a alma”. Delirantes coletivos não sabem que estão delirando e teimam em acreditar fortemente na natureza de seu delírio.

Contemporâneas IV



A moral medieval está tão arraigada em nosso modelo mental que quase sempre entendemos as coisas e julgarmos as pessoas a partir desse prisma. O mais intrigante, contudo, ocorre quando o comportamento avaliado é o meu. Creio que a velhice está me deixando impaciente com as pessoas e o mau humor começa a aparecer aqui e ali. Certos comentários vazios de pessoas vazias, atitudes infantis em adultos, crenças absurdas e sem sentido, medos idiotas e histerias desnecessárias me exasperam. Julgo severamente a mim mesmo e digo que preciso controlar meu mau humor, já que o mesmo não parece ser digno de uma pessoa que se acredita equilibrada. A desculpa da velhice é fajuta e começo a acreditar que não sou tão equilibrado assim. Eis que o espírito da Filosofia vem em meu socorro e ponho tudo numa balança para análise. Neste sentido, mau humor significa uma agressividade direcionada a um ponto objetivamente dado e bem delimitado. Meço esse ponto e percebo que só há duas situações possíveis, deixando de lado, é claro, qualquer traço de moral medieval: 1. Ou descer a porrada, o que não é do meu feitio ou 2. Ficar mal humorado, já que também não é do meu feitio xingar as pessoas (nesse ponto, deveria ter aprendido mais com meu amigo Pietro Wagner). O mau humor está atrelado, em seu sentido negativo, à crença medieval cristã na superioridade dos mansos. Mansidão é importante em certos casos, mas em outros, sou obrigado a reconhecer, a ira é bem melhor.

Poesia


Pássaros Matinais
Tomas Tranströmer

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agourento.
E o melro que se move em todas as direções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto

Livros


André Gide foi um escritor francês que possuía um enorme talento para escrever livros pequenos, mas com uma essência grandiosa. Paludes, livro que anunciaria a obra prima Os frutos da terra de 1987, é uma dessas pequenas maravilhas do universo de Gide.
Paludes trata do próprio Paludes. Um livro que trata da arte de escrever e do pensamento do escritor enquanto tomado pela inspiração literária, seus desdobramentos e descobertas. Paludes trata de Títiro, figura central do pequeno romance: um homem que ama a solidão, passando seus dias observando pântanos e charnecas, suas plantas e movimentos. Explica o próprio Gide: o autor de Paludes conversa com uma amiga burguesa, Angèle, e diz que a vida de flaneur é insossa e medíocre. A amiga discorda e o autor explica Paludes: “É porque você não pensa nisso. Esse é justamente o assunto do meu livro; Títiro não está insatisfeito com a vida; sente prazer ao contemplar os pântanos; uma variação do tempo os faz mudar de aspecto; mas Angèle, olhe para si mesma! Olhe para sua história! Está bem pouco variada! Há quanto tempo você mora neste quarto? Aluguéis baratos! Aluguéis baratos! E você não é a única! Janelas para a rua, janelas para os fundos; olhamos para muros ou para outras pessoas que nos olham... Mas será que eu vou agora envergonhá-la de suas roupas... e você acredita realmente que soubemos nos amar?”.
Paludes é uma obra que quer glorificar o olhar atento, o poder de observar o mundo e sempre se surpreender. Gide parece antecipar todas as besteiras do século XXI quando afirma que “... não pode se convencer de que um autor não escreva para distrair, desde que não escreve mais para informar”. A literatura que nos obriga a pensar, parece dizer Gide, é a que importa... e apenas esta.
Gide fala de mediocridade  e cegueira em contraposição à contemplação inútil. Num tom que se assemelhe ao Zaratustra de Nietzsche, escreve Gide: “Títiro à beira das lagoas vai colher as plantas úteis. Encontra borragem, malvisco eficaz e centáurea muito amarga. Volta com um feixe de ervas medicinais. Por causa da virtude das plantas, procura pessoas para curar. Em volta dos lagos, ninguém. Pensa: é uma pena. Então vai para as salinas, onde há febres e operários. Vai para junto deles, fala com eles, aconselha-os e lhes prova sua doença; mas diz que não está doente; outro, a quem Títiro dá uma flor medicinal, planta-a num vaso e vai olhá-la crescer; outro enfim sabe que está com febre, mas acredita que ela é útil à sua saúde. E como enfim ninguém desejava curar-se e as flores murchariam, Títiro fica ele próprio com febre para poder pelo menos curar a si mesmo”.
Gide, autor do célebre O Imoralista, compõe um quadro poético e sarcástico sobre a sociedade burguesa de seu tempo, sua moral e religiosidade, buscando uma voz própria que só foi alcançada quando ele mesmo rompeu com essas correntes. Prêmio Nobel de Literatura em 1947, Gide é um escritor maior que não pode deixar de sempre ser revisitado.

Artes Visuais

 O beijo, 1907-8.

 Danae, 1907.

 Beech Grove I, 1902.

Schloss Kammer on the Attersee. 1910.
 
A obra de Gustav Klimt transpira as mais diferentes influências: neoclassicismo, impressionismo, arte em vitrais, figurativismo e design. Entretanto, essa avalanche de influências não se concretizou num sentido de domínio de sua expressão artística. Klimt possui uma voz própria, personalíssima e forte que emana do sentido estético alcançado por sua pintura e pelos conceitos que a mesma revela.
A formação de Klimt nos ajuda a entender essa dinâmica multidimensional de sua arte: decorador de grandes edifícios culturais, estudante de Filosofia, conhecedor da Teologia e da Medicina. Seus quadros transpiram as diversas vozes que essas ciências portam e nada mais natural do que termos um pintor que a partir desse universo tão diverso consiga atingir uma expressividade única na própria diversidade de suas composições.
Klimt, na sua fase dourada, já começa a expressar sua sexualidade de modo incisivo e direto. Essa latência sexual começa a trafegar de modo harmônico em suas obras e o exemplo mais conhecido dessa fase é o quadro O Beijo que retrata o próprio artista com sua amante Emilie.
Essa fase encontra na mitologia uma grande amplitude conceitual, já que o quadro Danae retrata uma lenda grega em que Zeus se transfigura numa chuva dourada. Danae eleva ao máximo a autonomia da sensualidade feminina e nos lega um olhar histórico sobre a beleza da mulher.
A grande quantidade de informações pictóricas que Klimt usa em seus quadros acentua ainda mais esse mundo conceitual que sua arte domina tão bem. Moedas de ouro, olhos, espermatozóides, rostos e arte grega, por exemplo, tomam parte em sua pintura para ampliar o horizonte das possibilidades interpretativas que o artista quer comunicar.
Dono de um domínio magnífico sobre as cores – dourado, amarelo e vermelho se contrapõem ao azul e branco numa orgia de beleza – Klimt alinha essa dinâmica com um traço refinado e composições que instigam o pensamento, alvoroçam os sentimentos e aguçam nossa apreciação estética.
 

Citações

A Falsa Igualdade entre os Homens debaixo de toda a vida contemporânea encontra-se latente uma injustiça profunda e irritante: a falsa suposição da igualdade real entre os homens. Cada passo que damos entre eles mostra-nos tão evidentemente o contrário que cada caso é um tropeção doloroso.

Ortega y Gasset

"Não podes ensinar o caranguejo a caminhar para frente."

Aristófanes

“É possível que a religião da solidão seja de certa maneira superior à religião social e formalizada. O que é certo é que ela apareceu mais tarde no decurso da evolução. Além disso, os fundadores das religiões e seitas historicamente mais importantes têm sido todos, com exceção de Confúcio, solitários. Talvez seja verdade dizer-se que, quanto mais poderosa e original for uma mente, mais ela se inclinará para a religião da solidão, e menos ela será atraída no sentido da religião social ou impressionada pelas suas práticas. Pela sua própria superioridade a religião da solidão está condenada a ser a religião das minorias. Para a grande maioria dos homens e das mulheres a religião ainda significa, o que sempre significou, religião social formalizada, um assunto de rituais, observâncias mecânicas, emoção das massas. Perguntem a qualquer dessas pessoas o que é a verdadeira essência da religião, e eles responderão que ela consiste na devida observância de certas formalidades, na repetição de certas frases, na reunião em certos tempos e em certos lugares, da realização por meios apropriados de emoções comunais”.

Aldous Huxley

"Só tem convicções aquele que não aprofundou nada."

E. Cioran


"Família, tu és a morada de todos os vícios da sociedade; tu és a casa de repouso das mulheres que amam as suas asas, a prisão do pai de família e o inferno das crianças."

August Strindberg

“A inveja é a sombra obrigatória do gênio e da glória, e os invejosos não passam. de forma odiosa, de admiradores rebeldes e testemunhas involuntárias. Não custa muito perdoar-lhes, quando existe o direito de me comprazer e desprezá-los. Posso mesmo estar-lhes, com frequência, gratos pelo fato de o veneno da inveja ser, para os indolentes, um vinho generoso que confere novo vigor para novas obras e novas conquistas. A melhor vingança contra aqueles que me pretendem rebaixar consiste em ensaiar um voo para um cume mais elevado. E talvez não subisse tanto sem o impulso de quem me queria por terra. O indivíduo verdadeiramente sagaz faz mais: serve-se da própria difamação para retocar melhor o seu retrato e suprimir as sombras que lhe afetam a luz. O invejoso torna-se, sem querer, o colaborador da sua perfeição”.

Giovanni Papini

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Contemporâneas




Alguns cientistas políticos se equivocam ao definir, no Brasil, corrupção como sinônimo de falta de educação. Alguns afirmam que a corrupção está no DNA do brasileiro, uma vez que é comum em nosso país presenciarmos alguém jogando lixo no chão, furando fila, estacionando em lugar proibido, etc. Corrupção, em seu sentido mais demoníaco, está atrelada ao abuso de poder, suborno, roubo, extorsão e troca de favores a partir de funções políticas públicas, além do desvio de verbas destinadas ao interesse coletivo que acabam no bolso de alguns poucos particulares. Os professores Carraro, Fochezzato e Hillbrecht – no artigo O Impacto da Corrupção sobre o Crescimento Econômico do Brasil -  reconhecem que a corrupção, na esfera política, mina as riquezas de um país e, numa análise em relação ao Brasil de 94, afirmam que “uma elevação dos gastos do governo em 20% em 1994, geraria uma maior atividade de corrupção que, em 1998, seria responsável por aproximadamente R$ 60 bilhões de reais. Em termos per capita, este resultado representaria um custo de aproximadamente R$ 357,00 por brasileiro/ano. Este valor pode e deve ser considerado como um novo imposto incidente sobre a população brasileira”.  Em 2010, a FIESP indicou que os desvios de corrupção no Brasil chegam a R$ 84, 5 bilhões por ano, o que significa algo em torno de 2,3% do PIB nacional – o equivalente ao PIB da Bolívia. Em termos de desigualdade social, somos o 10º colocado no ranking do PNUD. Esses dados parecem indicar a discrepância entre aqueles que realmente podem ser corruptos e os brasileiros que são mal educados. A distribuição de renda e o estado de pobreza que a mesma gera conduzem não apenas à corrupção eleitoral e toda sua estrutural infernal, mas também indicam a estrutura mesma em que a corrupção pode se desenvolver. Numa pseudodemocracia como a nossa, é um equívoco imperdoável comparar brasileiros sem educação com corruptos expertos que sabem usar a máquina a seu favor. A corrupção não está no DNA do brasileiro, mas sim na formação histórico-política de nosso país e nas estruturas vigentes que só funcionam à base de um único combustível: mais corrupção.

Contemporâneas I



Ultimamente me peguei com o seguinte questionamento: para que serve o Facebook mesmo? Fala-se muito em revolução da informação e a liberdade de expressão e blá, blá, blá, blá. O que presencio ultimamente no Facebook são quatro tipos de comportamentos que se repetem ad infinitum: bandas, escritores (olha eu aí) e artistas que divulgam seus trabalhos num tom quase de desespero (“Amem minha obra, por favor!”); 2. Tentativas de flertes; 3. Piadas e mais piadas (são, de fato, infindáveis) e 4. Pessoas sem noção alguma que ficam postando as coisas mais esdrúxulas possíveis (“Fui almoçar”, “Estou de ressaca”, “Ninguém me ama”, “Sou feliz”, etc. - Quem, em sã consciência, quer saber disso?). Foi inevitável: fiquei muito intrigado com o sucesso descomunal do senhor Mark Zuckerberg. Pós-modernidade do vazio.

Contemporâneas II



Não sei se a frase é do ator Carlos Alberto Pereio – como indicou meu amigo Jamerson Kemps – mas cada vez me estarrece mais a possibilidade de que a expressão “a burrice é invencível” seja, de fato, uma realidade incontrovertível.  Já são 20 anos lecionando – idiomas, Filosofia e Arte – e nunca me deparei com um tempo em que se admite abertamente, e quase com um orgulho brilhando nos olhos, que se é ignorante. O professor Sérgio Barreto diz sempre para seus alunos: “Se vocês querem ainda permanecer no mar da ignorância em que estão mergulhados, o problema é de vocês”. Creio que o problema é do Brasil como um todo. O MEC e as secretarias de educação trabalham apenas com o intuito de manter índices visíveis para o mundo exterior e conseguir investimentos para nosso país. Mas a educação, em seu caráter mais essencial e fundamental, é quase inexistente por aqui. Mesmo as escolas particulares e as públicas de referências ainda são canhestras na tarefa de preparar cidadãos com consciência política, pensamento crítico e visão estrutural da realidade. Somos educados para a vida profissional e nada mais. Na esfera das escolas públicas o absurdo ainda é maior. Já alfabetizei diversas crianças e adolescentes que estavam entre a antiga 8ª série e o 3º ano e que nem sabiam ler. Um adolescente que termina o ensino médio sem saber ler já dá o que pensar. O SINTEPE criticou de maneira dura a empolgação com que a secretária de educação de PE tratou o  Índice de Desenvolvimento da Educação.De fato, os números indicados se referiam apenas às escolas de referência no Estado, algo em torno de 5,4% do total da rede. E o restante? Faz-me rir. :)

Contemporâneas III



Kant afirmou que Hume o havia despertado de seu sono dogmático. Creio que Nietzsche realizou a mesma tarefa em relação ao meu pensamento. Quando começamos a entender o caráter moral que há por trás do dizer científico e religioso, parece inegável que nossa mente sente-se liberta de uma corrente pesadíssima, uma vez que esses dois dizeres trazem consigo um conceito ainda mais pesado, a verdade. A diferença é que o dizer científico não se pauta pelo medo, algo tão presente no dizer religioso. Contudo, a partir da compreensão do lugar do sagrado em Heidegger, pude compreender como mesmo a esfera da mística contém muita coisa mítica. A mitologia, algo que creio que nunca nos abandonará, ganha na mística contornos sutis de verdade através de outra palavra ainda mais pesada, revelação. A experiência imediata é algo ambíguo em si mesmo, já que carece de evidência, demonstração e validade quando o assunto é o traço fundamental da linguagem, a comunicação. Não é de se estranhar que a  mística lance mãos de termos como incognoscível, negatividade, consciência apofática, vazio, nadificação, Nirvana, unidade, etc. Tais expressões podem ser traduzidas pela seguinte proposição: “De fato, não sei do que estou falando, mas acredito que deva ser assim; ou melhor, quero que seja assim”. Nunca devemos nos esquecer: ao lado do medo está o apego e suas dúvidas.

Contemporâneas IV



O Rock in Rio 2011 me provou duas coisas: 1. O metal atual quase que se resume ao som de guitarras que mais se parecem com berimbaus. A estrutura das composições beira o ridículo e é preciso, então, cobrir tanta besteira com baterias e tambores monstruosos, performances apoteóticas (chego a pensar que tudo, hoje em dia, resume-se apenas ao sentido da visão), apelos gritantes ao senso mais comum possível e pouca criatividade em termos de elaboração dos arranjos (parece que campo harmônico e composição não fazem mais parte desse universo). O metal padece de um problema grave: a repetição. As bandas se parecem demais entre si e seus álbuns são uma coletânea de músicas idênticas. Os músicos se esmeram tanto na apresentação que parecem esquecer a composição em si que é o fundamental na arte a que se dedicam, a música. Sepultura e Slipknot deveriam tocar na África (com todo o respeito que esse continente maravilhoso merece, já que de lá saíram civilizações como o Egito, Marrocos, os Benin, etc.) devido ao caráter percurssivo de suas músicas: tambor, tambor, tambor, tambor e guitarra berimbau (mi-mi-mi-mi-sol-mi!); 2. A música pop se alimenta tanto da imagem que acredito que a era do videoclipe está transformando a música – e isso inclui o referido metal -numa arte performática visual e não mais na arte dedicada ao sentido da audição em sua essência mais “abstrata”. Creio que a indústria fonográfica descobriu o x do problema: em vez de religião e templos, damos “música” e shows. A atitude religiosa dos fãs é uma atitude muito próxima do pensamento evangélico brasileiro atual: beira o fanatismo. Minha geração, que presenciou o Rock in Rio de 85 – sem Claúdia Leite ou Ivete Sangalo – e teve a oportunidade de escutar bandas como Iron Maiden, Judas Priest, AC/DC, Queen, Scorpions, Whitesnake e Yes, chegou a acreditar que o futuro seria promissor como aquela edição, ou seja, repleta de diversidade. Grande engano!

Meus Poemas

A Rosa


A rosa,
            que ora tomo entre as mãos,
            foi arrancada de seu habitat
            violentada em sua essência
            sequestrada da natureza
            e morta para a beleza do sublime.

Assim,
            arrancada, violentada,
            sequestrada e morta
            a rosa não mais é –
            tornando-se humana,
            demasiadamente humana.

Os girassóis
            que habitam no quadro
            gritam esse apelo iridescente
            monumento de toda solidão
            de toda dor e desespero
            que carregamos conosco -
            nós, os detratores.

A rosa
            responde por nosso anseio
            de parentesco com tudo
            onde os deuses dormitam gravemente
            e todo suave é posto de lado
            diante do peso que essa esperança traz.

A rosa e os girassóis
            gravitam nesse campo único
            onde construímos mundo e verdade
            na terra sobre a qual trabalhamos
            erigindo aquilo que é mais sagrado
            e que sempre nos espreitou.

A rosa
            - mais do que os girassóis –
            é minha e apenas minha
            nessa ilha criada em minhas mãos
            que a mente a tudo aparta
            divide e se espanta.

A rosa
            é o espanto mais grave
            o deus mais alto
            a dor mais superior
            e o silêncio que domina.

Assim,
            espanto e deus,
            dor e silêncio,
            terra e trabalho
            me consagram mais uma vez
            para além do humano
            que há na rosa.
           

           
           

Escritor dos Amigos

Poema Ébrio
Leonardo Neves

Posso.
                        Em tudo
                        eu posso.

                             Realmente não interessa
o sangue dos prédios ou das árvores
ou ao menos dizer que esta merda não interessa.

Não sou mais poeta:
               nenhum orgulho me enche o saco.

Acordo e desperto nas mesas.
As mulheres vem e vão:
                                Oh, mundo embucetado!
                                 É buceta pra todo lado!

Queria uma dúzia de louras
pra provar que o amor não é nada!

( descarta Descartes
       e segue teus instintos mais torpes )

Oh, a generosidade:
               a melhor coisa
                                   que pode o dinheiro comprar.

Uma saideira pra todo mundo!
E põe na minha conta!


Citações

“Posso resistir a tudo, menos à tentação."

Oscar Wilde

“Somente pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que um outro vê desse universo que não é o mesmo que o nosso e cujas paisagens permaneceriam tão desconhecidas para nós quanto as que podem existir na lua. Graças à arte, em vez de ver um único mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se, e quantos artistas originais existiem tantos mundos teremos à nossa disposição, mais diferentes uns dos outros do que aqueles que rolam no infinito e, muitos séculos após se ter extinguido o foco do qual emanavam, chamasse ele Rembrandt ou Ver Meer, ainda nos enviam o seu raio especial”.

Marcel Proust

“Para que os homens possam sentir-se felizes com a minha companhia, é necessário antes de tudo que eu tenha a grande força de ver como prováveis as opiniões a que aderiram, desde que as não venham contradizer os factos que posso observar; não devo supor-me infalível; não devo considerar-me a inteligência superior e única entre o bando de pobres seres incapazes de pensar; cumpre-me abafar todo o ímpeto que possa haver dentro de mim para lhes restringir o direito de pensarem e de exprimirem, como souberem e quiserem, os resultados a que puderam chegar; de outro modo, nada mais faria de que contribuir para matar o universo: porque ele só vive da vida que lhe insufla o pensamento poderoso e livre”.

Agostinho da Silva

“Não nos enganemos: os fortes aspiram a separar-se e os fracos a unir-se; se os primeiros se reúnem, é para uma ação agressiva comum, que repugna muito à consciência de cada qual; pelo contrário, os últimos unem-se pelo prazer que acham em unir-se; porque isto satisfaz o seu instinto, assim como irrita o instinto dos fortes. Toda a oligarquia envolve o desejo da tirania; treme continuamente por causa do esforço que cada um dos indivíduos tem que fazer para dominar este desejo”.

Friedrich Nietzsche