Dor de amor é algo até compreensível. Que as lamúrias se transformem em poesia, música, raiva ou revanche, é extremamente aceitável. Mas quando o sofrimento descamba para a autocomiseração, para a pena de si mesmo, então algo está muito errado com essa pessoa. Pena de si mesmo é tão danoso quanto culpa. A culpa possui como alvo de destruição a própria pessoa que a sente, assim como a pena de si mesmo. Nestes casos, apenas o tratamento de choque parece dar resultado, já que a bajulação só tende a aumentar esse sentimento. Creio que é esse mesmo sentimento subterrâneo de culpa que acontece diante do luto. Penso que o passado serve como medida para nos avaliarmos constantemente e para nos conhecermos mais profundamente – tarefa incessante e sempre gratificante. O futuro, por seu turno, deve servir apenas como ponto de referência para a elaboração de metas concretas e palpáveis. (Certa vez, um amigo semi-analfabeto me disse que o pastor de sua igreja havia dito que através do poder de Deus nós podemos tudo, basta acreditar. Ele me disse que iria se tornar juiz de direito. Eu lhe perguntei: “Você tem 2º grau? Sabe que terá que terminar o 2º grau, depois fazer faculdade de direito, depois passar na OAB e por fim passar num concurso para juiz?”. Ele caiu na real e abandonou a igreja). Assim, resta-nos apenas viver com intensidade o nosso presente, já que o passado passou e o futuro sempre chega. Viver com intensidade a pena de si mesmo ou a culpa é apontar para um sentimento de autodestruição que, em minha opinião, deve ser evitado. Eros e Ananke, Thánatos e Zoé: forças descomunais que nos guiam e que a todo o momento cobram seus tributos.

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