sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Livros


André Gide foi um escritor francês que possuía um enorme talento para escrever livros pequenos, mas com uma essência grandiosa. Paludes, livro que anunciaria a obra prima Os frutos da terra de 1987, é uma dessas pequenas maravilhas do universo de Gide.
Paludes trata do próprio Paludes. Um livro que trata da arte de escrever e do pensamento do escritor enquanto tomado pela inspiração literária, seus desdobramentos e descobertas. Paludes trata de Títiro, figura central do pequeno romance: um homem que ama a solidão, passando seus dias observando pântanos e charnecas, suas plantas e movimentos. Explica o próprio Gide: o autor de Paludes conversa com uma amiga burguesa, Angèle, e diz que a vida de flaneur é insossa e medíocre. A amiga discorda e o autor explica Paludes: “É porque você não pensa nisso. Esse é justamente o assunto do meu livro; Títiro não está insatisfeito com a vida; sente prazer ao contemplar os pântanos; uma variação do tempo os faz mudar de aspecto; mas Angèle, olhe para si mesma! Olhe para sua história! Está bem pouco variada! Há quanto tempo você mora neste quarto? Aluguéis baratos! Aluguéis baratos! E você não é a única! Janelas para a rua, janelas para os fundos; olhamos para muros ou para outras pessoas que nos olham... Mas será que eu vou agora envergonhá-la de suas roupas... e você acredita realmente que soubemos nos amar?”.
Paludes é uma obra que quer glorificar o olhar atento, o poder de observar o mundo e sempre se surpreender. Gide parece antecipar todas as besteiras do século XXI quando afirma que “... não pode se convencer de que um autor não escreva para distrair, desde que não escreve mais para informar”. A literatura que nos obriga a pensar, parece dizer Gide, é a que importa... e apenas esta.
Gide fala de mediocridade  e cegueira em contraposição à contemplação inútil. Num tom que se assemelhe ao Zaratustra de Nietzsche, escreve Gide: “Títiro à beira das lagoas vai colher as plantas úteis. Encontra borragem, malvisco eficaz e centáurea muito amarga. Volta com um feixe de ervas medicinais. Por causa da virtude das plantas, procura pessoas para curar. Em volta dos lagos, ninguém. Pensa: é uma pena. Então vai para as salinas, onde há febres e operários. Vai para junto deles, fala com eles, aconselha-os e lhes prova sua doença; mas diz que não está doente; outro, a quem Títiro dá uma flor medicinal, planta-a num vaso e vai olhá-la crescer; outro enfim sabe que está com febre, mas acredita que ela é útil à sua saúde. E como enfim ninguém desejava curar-se e as flores murchariam, Títiro fica ele próprio com febre para poder pelo menos curar a si mesmo”.
Gide, autor do célebre O Imoralista, compõe um quadro poético e sarcástico sobre a sociedade burguesa de seu tempo, sua moral e religiosidade, buscando uma voz própria que só foi alcançada quando ele mesmo rompeu com essas correntes. Prêmio Nobel de Literatura em 1947, Gide é um escritor maior que não pode deixar de sempre ser revisitado.

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