quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

FÉRIAS


Meus amigos: o Blog Ars Diluvian entrou de férias. As postagens voltarão em fevereiro de 2012.
Um grande abraço e até lá.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Comentários Cotidianos


Tradição, sabedoria e bem-estar.



O nascimento de um filho é, para a maioria das pessoas, um acontecimento único e extraordinário. Assim aconteceu com o nascimento de Pedro Henrique, filho do meu grande amigo cearense Chico Borges. Chico, um hedonista crítico por excelência e natureza, decidiu comemorar de modo dionisíaco a vinda de seu filho. Ele convidava um casal de amigos a cada final de semana. Esta artimanha, além de estender o período de celebração por um evento tão maravilhoso, acentuava ainda mais a força que uma nova vida pode ter.
No sábado em que fui para o apartamento de Chico, eu e minha esposa fomos recepcionados por meu amigo – eufórico e transbordando alegria – e por Kátia, uma mãe extremamente coruja – e não poderia ser diferente tamanha era a simpatia e beleza de Pedro Henrique. Minha esposa se derreteu com o menino e eu entendia que ali estava um divisor de águas para o velho cearense, mas um divisor de águas sempre para o melhor.
Chico, um amante do rum e do whisky, abrira mão de sua preferência a favor de minha paixão pela cerveja. Sempre considerei os assírios e os egípcios uma grande civilização por inventarem e aperfeiçoarem essa maravilha da criação humana. A cerveja não apenas representava um elemento sanitário – modo de purificar a água – mas também possuía elementos míticos: a cor do deus sol e a espuma do Nilo. Além do mais, diversos cultos no Egito Antigo eram celebrados em estado de embriaguez como modo de atingir uma esfera mais profunda de nossa mente, prática essa que surgiria na Grécia Antiga como culto ao deus Dionisius.
Seja como for, Chico havia comprado diversas cervejas importadas e algumas nacionais (incluindo aí uma de fabricação cearense, é claro). Passamos o dia bebendo cerveja – ou apreciando as diferenças de sabor de uma cerveja para outra. Cerveja, tábua de frios e muito papo sobre cultura, literatura, música, amizade, vida e morte, amor, conhecimento e filosofia foram a tônica do dia.
À noite, saímos para comer algo. Na verdade, queríamos comer comida japonesa – essa tal de pós-modernidade tem lá suas coisas boas – mas tivemos que nos contentar com comida chinesa mesmo, já que o restaurante japonês perto da casa de Chico estava fechando. O jantar no restaurante foi terrível: yakisoba com talharim (aí está o lado negativo e trágico da pós-modernidade). Entretanto, resolvemos o problema dessa pequena digressão parando na frente da piscina do prédio de Chico. Abrimos uma garrafa de vinho do porto e pegamos alguns charutos cubanos (novamente, o lado bom da pós-modernidade). Eu, Chico e seu cunhado (ainda jovem e tentando nos acompanhar em nossa intensidade para beber e pensar) nos sentamos tranquilamente e continuamos a celebração. Chico trouxe seu violão e toquei uma peça de Villa-Lobos.
Quando a madrugada já ameaçava nos vencer, entramos e decidimos onde cada um iria dormir. Foi aí que percebi uma coisa que achei muito singular: Chico dormia numa rede.
Quando os colonizadores chegaram aqui no Brasil se depararam com essa sabedoria: dormir em redes. Os índios, assim acredito, não deveriam sofrer com um problema tão próprio ao homem ocidental: dor nas costas. O Nordeste manteve esse costume que se arraigou em nossa cultura e tomou parte em nossas vidas. Em todos os estratos sociais, por aqui, é possível se deparar com pessoas que tiram uma soneca na rede ou lêem um livro ou simplesmente dormem na tranquilidade dessa tecnologia de ponta que foi criada para o bem-estar do ser humano.
Depois de algum tempo, decidi comprar uma rede para mim. Incrivelmente, os problemas crônicos que sofria de coluna começaram a desaparecer. Somos tão atacados cotidianamente por nossa falta de postura adequada – algo que o Aikido começou a me educar de modo mais racional e claro – que terminamos por sofrer desse mal sem saber exatamente a causa: uso excessivo do computador, o modo como dirigimos ou ficamos sentados nos bancos dos ônibus, etc.
Essa tecnologia indígena muitas vezes é subestimada simplesmente porque o nosso processo de colonização – de caráter acentuadamente católico – terminou por soterrar as outras culturas de que somos originários. Estabeleceu-se um padrão equivocado de entendimento sobre as culturas não brancas: devem ser inferiores e só podem melhorar na medida em que se aproximação da civilização branca. No Nordeste, felizmente, creio que essa dicotomia imposta a ferro e fogo não conseguiu atingir totalmente seu intento. A nossa intelectualidade está tão voltada para esse solo ocidental que quase sempre não conseguimos enxergar as dimensões mais profundas e coerentes de outras culturas.
Interessantemente, foram brancos como Frazer, Malinowski e Lévi-Strauss que nos ajudaram a desconstruir esse mito ou essa ignorância. Estruturas profundas e tão complexas quanto a nossa estão presentes em todas as culturas conhecidas. De fato, o hibridismo cultural nunca foi um acontecimento isolado dentro da pós-modernidade. Marco Pólo assim o pode confirmar.
De qualquer modo, fiquei duplamente feliz com aquela experiência na casa de meu grande amigo. Primeiramente, porque pude reconquistar um hábito a muito perdido e que restabeleceu minha saúde. Segundo, porque, sem saber, o pequeno Pedro Henrique, na inocência e poder de sua vida, havia me dado uma grande lição: é a própria vida que faz tudo acontecer. Esse rumo, assim pude entender, era como uma dádiva, algo novo e transformador. Senti-me mais jovem, mais perto de mim mesmo e das pessoas; e isso, não havia dúvidas, me bastava. O nascimento, então, havia me dado mais um outro grande sentido para tudo. Um brinde ao pequeno Pedro Henrique!



Meus Poemas

A praia

Um mar de assombros se abre gravemente
onde o horizonte desenha mais um dia
aberto, esplendidamente aberto para o sol
que eterniza o vôo das gaivotas
e fulmina de luz o branco das areias
das espumas e dos maiôs das crianças.

Odor volumoso de peixe assando
com muito alho e cebolas novas
transportando tudo à esfera do paladar
para que possamos nos consagrar
diante da própria eternidade
que se deita diante de nós.

Aqui, é um grito mais antigo
          que se faz ouvir.

Sigo com o amargo da cerveja
que sorvo com parcimônia
pois não há pressa na praia
trafegada por navios silentes
que cortam os mares em desalinho
em um aviso aos mortos e aos vivos.

Assombro e luz culminam na existência
daquilo que somos e que não podemos negar
nem mesmo uma linha que seja
talvez cansados de tentarmos roubar
das nuvens um pouco de lucidez
e da terra um descanso derradeiro.

Aqui, é um grito mais antigo
          que se faz ouvir.


Algumas pessoas transitam em silêncio
num atalho que não pude tomar
cheio de uma esperança nova
que logo me abandona –
Leste de tudo e de todos
anunciando o que já sabíamos.

Então, subitamente, o mar se eleva
as nuvens correm e o grito das gaivotas
cessa de modo abrupto, sem hiatos –
e mar e terra, deuses e mortais
abrem-se para o jogo dos castelos imaginários
outrora erigidos pelas crianças.

Aqui, é um grito mais antigo
          que se faz ouvir.


E parti.


Uma questão teológica


O cristianismo é uma religião que afirma ser uma religião do amor. Jesus aparece como o mestre amoroso. Além disso, o deus cristão é entendido como um deus de amor: o amor em sua plenitude e Jesus é seu servo bem-amado (Mt 12:18). Quando perguntado sobre o perdão, Jesus afirmou que se deveria perdoar setenta vezes sete vezes (Mt 18:22). Essa expressão parece indicar que se deve perdoar indefinidamente. Estranhamente, essa exortação ao perdão feita aos humanos possui um tratamento diferente quando se trata do próprio deus cristão, já que é o próprio Jesus quem afirma que seu deus, na figura do Juízo e na presença do próprio Jesus, julgará aos homens e a uns levará para os céus e outros serão condenados  ao “fogo eterno que foi preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25: 41). No Juízo Final não haverá um perdão que se articula no modo de setenta vezes sete. Esse deus irascível e juiz parece não reconhecer mais a regra que ele mesmo divulgou. O problema que quero trazer tem como raiz uma discussão de Santo Agostinho sobre os futuros contingentes, ou seja, se o deus cristão é criador do céu e da terra e é onisciente, então há espaço para a liberdade humana, para o livre-arbítrio? Se deus é onisciente, então parece que ele, ao criar mundo, já deveria saber que Adão e Eva iriam pecar, daí ser impossível haver um julgamento divino posterior àquilo que ele mesmo criou. Teríamos, então, um deus onisciente que não saberia a essência daquilo que ele mesmo criou. O livro do Gênesis ainda acrescenta que o deus hebraico pergunta a Adão e Eva o que eles fizeram (Gn 3:11-13). Se formos levar ao pé da letra essa mitologia, então a contradição é evidente. Outro ponto crítico está no livro do Apocalipse. Ali se fala sobre o julgamento e se afirma que os que não forem eleitos, os que não estiverem inscritos no livro da vida, serão precipitados no lago de fogo (Ap 20:15). O fogo do inferno é eterno, ou seja, há uma pena eterna para algo que, mesmo que haja algo como pecado, foi cometido numa temporalidade finita e humana. A questão dos futuros contingentes reaparece aqui: se o deus cristão é um deus de amor, criador do mundo e onisciente, então ele criou o mundo, os homens e saberia que os mesmos agiriam desse ou daquele modo, invalidando qualquer possibilidade de livre-arbítrio, já que qualquer decisão humana deveria ter sido conhecida previamente por esse deus onisciente. Ao criar mundo, esse deus também criou o pecado e, portanto, todos aqueles que arderão eternamente no inferno (Calvino chega mesmo a falar nos predestinados ao inferno). Sendo assim, só haveria diabo, inferno e sofrimentos eternos porque esse deus amoroso decidiu criar um mundo, o homem, o pecado e o próprio inferno. Logo, só há inferno não por causa do diabo, mas por causa desse deus amoroso. Em sua onisciência, ele já saberia quais homens estariam eternamente no inferno, o que implica que ele criou o mundo numa dicotomia entre aqueles que ele escolheu em sua criação para estar no céu e aqueles que estarão no inferno. Nestes termos, parece plausível questionar se há, realmente, amorosidade nesse deus ou se sua essência não é, em termos dados por sua própria existência, demoníaca. Talvez devêssemos meditar sem medo sobre essa questão que, assim me parece, não é definitiva e que está ainda longe de ser resolvida e que implica em entender se o cristianismo é realmente uma religião do amor. Não seria, ao contrário, uma religião da ameaça e do medo? O impulso aqui dado precisa ser questionado se quisermos entender a questão de modo lúcido e claro.

Escrito dos Amigos

Crônica de saudades das coisas simples do meu Recife
                                               por Gustavo Pedrosa

Elegante
O dia resplandece sob o som dos Dj´s
Prossecos gotejam o último gole
Táxis abrem às portas trôpegas.

O filme termina
A cortina inibe a sensação de dia
A noite mais uma vez queimou o cérebro
De forma nada elegante.

A TV negra suga as forças que restam
O táxi branco toca The  Black Eyed Peas
Um motel vermelho luminoso o recebe
Um corpo nu, pesado, revira-se na cama.

A banheira de hidromassagem cuida do jovem casal
The Doors abrevia o breakfast de mais uma noite sem fim
Aninha me espera no mercado da Madalena
Macaxeira com charque.
Estou na Vila Romana,
Aipim com carne seca
No mercado da Lapa,
E Aninha?

Dois táxis saem daquele motel
São brancos
Não há mais maquiagem nem brilho
A mesma cor da tela de TV daqui
Uma criança negra com dentes brancos
Sorrir para um deles.
Só eu vejo,
Com a boca cheia de aipim
E cadê tu Aninha?
Tua música?
Teu sorriso contagiante?


Artes Visuais




Cao Guo-Qiang é um artista chinês contemporâneo que extrapola os limites da arte minimalista, pós-minimalista e da Land Art. Apesar de tomar parte no grupo de artistas que seguem a preocupação ecológica da Land Art, Guo-Qiang desenvolveu um trabalho radicalmente inovador – inclusive atingindo a obsessão pela morte de Damian Hirst – e que nos fala das diversas matizes que habitam nosso cotidiano: consumo, distanciamento da Natureza que passa a ser encarada apenas como fonte de recursos, bioética, tecnologia e humanidade.
O trabalho de Guo-Qiang pode parecer, num primeiro olhar, mais apelativo ou exagerado do que deveria ser. Contudo, creio que essa sensação inicial se esvai quando trafegamos por suas obras despojados de qualquer entendimento estabelecido; especialmente se o mesmo estiver carregado de uma visão canhestra sobre questões ecológicas ou de bioética.
Apontando para a morte, entendo que as obras de Guo-Qiang falam sobre a vida, ou melhor, sobre a real dimensão de nossa vida diante da Natureza. O vínculo que o homem possui com a Natureza – vínculo de amor e cuidado – torna-se cada vez mais tênue numa sociedade em que tudo se agita ao sabor da objetificação, do pensamento que a tudo calcula e que só pode pensar em termos de lucro, controle e poder.
Não se pode negar a importância do lucro, do controle e do poder, mas é preciso entender a dimensão mais profunda dessas esferas e atingir um olhar claro sobre as mesmas.
O século XXI, parece querer dizer Guo-Qiang, pode se arvorar em diversos direitos, mas não lucrar, controlar e ter poder sobre a vida. É a vida a fonte dessas dimensões e não o contrário. A tecnociência não pode ser a dominadora do homem – a arte, aqui, expressa essa linha entre a vida e a morte e o modo como nós encaramos essa ruptura através de um olhar antropocentrado.
A angústia, tão própria de uma cultura antropocentrada, pode não surgir numa cultura biocentrada. A arte de Guo-Qiang demonstra essa junção entre a ação humana e o fazer da Natureza. Há um desespero em suas obras que se traduz por um desespero eminentemente nosso. Não é um apelo da Natureza, mas sim um apelo a partir da Natureza. As flechas, então, estão apontadas para nós e apenas isso.

Filmes


Para quem realmente aprecia cinema e literatura, o filme O Desprezo (Le Mepris) de Jean-Luc Godard é imperdível. Não apenas por trazer uma Brigite Bardot deslumbrante e na melhor fase de sua juventude – ou um Jack Palance vigoroso – mas por alinhar diversas linguagens e discursos numa única película.
O filme trata, inicialmente, de um casamento em ruínas. O existencialismo inicial de Godard é aqui novamente acentuado, mas de um modo mais maduro e bem resolvido. A trama gira em torno do roteirista Paul que quer filmar a Odisséia de Homero. O diretor do filme, Fritz Lang (um gênio do cinema alemão) aparece interpretando a sim mesmo – uma sacada genial de Godard.
Os problemas começam quando o produtor Prokosh (Jack Palance) descarrega toda a sua arrogância em cima de Paul. Conflitos ideológicos surgem quando é preciso tomar decisões sobre a película: arte, entendimento, poder e indústria cultural trafegam nesse banquete grotesco.
Além do mais, Paul está em crise com sua linda esposa Camille (Brigite Bardot). Ela despreza o marido e as discussões intermináveis dos dois em nada ajudam a situação do casal. Paul ainda sente que a ama e seu isolamento diante de um amor que começa a naufragar acentua sua crise existencial.
Godard nos coloca a todo instante diante de paradoxos que a vida pode nos conduzir. Esses paradoxos não nascem apenas de nossas escolhas, mas estão presentes no seio da estrutura existencial mesma – uma dimensão própria do lado irracional de nossas vidas.
Mas, voltando ao contexto do filme, há uma cena que bem pode traduzir a junção entre cinema e existência. Numa audição, Lang é questionado sobre o que será visto e este responde: “Cada filme deve ter uma razão crítica. Aqui, temos a luta do indivíduo contra as circunstâncias. O velho problema dos gregos...”.
Noutra cena, em que Bardot toma banho numa banheira, ela discute com o marido e diz: “Necessito silêncio, escuro. De hoje em diante, quero dormir sozinha”. A distância se instaura em definitivo entre o casal e o tom mais existencial dá ao filme um caráter denso que se une às belas imagens – aliás, a fotografia é outro atrativo à parte.
Por muitos admiradores de Godard, esse filme não é considerado um dos seus melhores filmes - o que pode ser controverso. Mas, seja como for, vale a pena conferir. Godard alinhou elementos novos nessa produção e Lang, Bardot e Palance merecem ser vistos juntos.
Eis o link para baixar o filme:

Citações


Sem pecado, nada de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História.

Soren Kierkegaard

Em ciência lê os livros mais novos, em literatura lê os mais antigos.

Edward Bulwer-Lytton

Se você pegar no mais ardente dos revolucionários, e der poder absoluto a ele, dentro de um ano ele será pior do que o próprio czar.

Mikhail Bakunin

Quando, alguma vez, a liberdade irrompe numa alma humana , os deuses deixam de poder seja o que for contra esse homem.

Jean-Paul Sartre

Falam da dignidade do trabalho. Bah! A dignidade está no ócio.

Herman Melville

Quem tem a sorte de nascer personagem vivo, pode rir até da morte. Não morre mais... Quem era Sancho Panza ? Quem era Dom Abbondio ? E, no entanto, vivem eternamente, pois - vivos embriões - tiveram a sorte de encontrar uma matriz fecunda, uma fantasia que soube criá-los e nutri-los, fazê-los viver para a eternidade!

Luigi Pirandello