quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Comentários Cotidianos


Tradição, sabedoria e bem-estar.



O nascimento de um filho é, para a maioria das pessoas, um acontecimento único e extraordinário. Assim aconteceu com o nascimento de Pedro Henrique, filho do meu grande amigo cearense Chico Borges. Chico, um hedonista crítico por excelência e natureza, decidiu comemorar de modo dionisíaco a vinda de seu filho. Ele convidava um casal de amigos a cada final de semana. Esta artimanha, além de estender o período de celebração por um evento tão maravilhoso, acentuava ainda mais a força que uma nova vida pode ter.
No sábado em que fui para o apartamento de Chico, eu e minha esposa fomos recepcionados por meu amigo – eufórico e transbordando alegria – e por Kátia, uma mãe extremamente coruja – e não poderia ser diferente tamanha era a simpatia e beleza de Pedro Henrique. Minha esposa se derreteu com o menino e eu entendia que ali estava um divisor de águas para o velho cearense, mas um divisor de águas sempre para o melhor.
Chico, um amante do rum e do whisky, abrira mão de sua preferência a favor de minha paixão pela cerveja. Sempre considerei os assírios e os egípcios uma grande civilização por inventarem e aperfeiçoarem essa maravilha da criação humana. A cerveja não apenas representava um elemento sanitário – modo de purificar a água – mas também possuía elementos míticos: a cor do deus sol e a espuma do Nilo. Além do mais, diversos cultos no Egito Antigo eram celebrados em estado de embriaguez como modo de atingir uma esfera mais profunda de nossa mente, prática essa que surgiria na Grécia Antiga como culto ao deus Dionisius.
Seja como for, Chico havia comprado diversas cervejas importadas e algumas nacionais (incluindo aí uma de fabricação cearense, é claro). Passamos o dia bebendo cerveja – ou apreciando as diferenças de sabor de uma cerveja para outra. Cerveja, tábua de frios e muito papo sobre cultura, literatura, música, amizade, vida e morte, amor, conhecimento e filosofia foram a tônica do dia.
À noite, saímos para comer algo. Na verdade, queríamos comer comida japonesa – essa tal de pós-modernidade tem lá suas coisas boas – mas tivemos que nos contentar com comida chinesa mesmo, já que o restaurante japonês perto da casa de Chico estava fechando. O jantar no restaurante foi terrível: yakisoba com talharim (aí está o lado negativo e trágico da pós-modernidade). Entretanto, resolvemos o problema dessa pequena digressão parando na frente da piscina do prédio de Chico. Abrimos uma garrafa de vinho do porto e pegamos alguns charutos cubanos (novamente, o lado bom da pós-modernidade). Eu, Chico e seu cunhado (ainda jovem e tentando nos acompanhar em nossa intensidade para beber e pensar) nos sentamos tranquilamente e continuamos a celebração. Chico trouxe seu violão e toquei uma peça de Villa-Lobos.
Quando a madrugada já ameaçava nos vencer, entramos e decidimos onde cada um iria dormir. Foi aí que percebi uma coisa que achei muito singular: Chico dormia numa rede.
Quando os colonizadores chegaram aqui no Brasil se depararam com essa sabedoria: dormir em redes. Os índios, assim acredito, não deveriam sofrer com um problema tão próprio ao homem ocidental: dor nas costas. O Nordeste manteve esse costume que se arraigou em nossa cultura e tomou parte em nossas vidas. Em todos os estratos sociais, por aqui, é possível se deparar com pessoas que tiram uma soneca na rede ou lêem um livro ou simplesmente dormem na tranquilidade dessa tecnologia de ponta que foi criada para o bem-estar do ser humano.
Depois de algum tempo, decidi comprar uma rede para mim. Incrivelmente, os problemas crônicos que sofria de coluna começaram a desaparecer. Somos tão atacados cotidianamente por nossa falta de postura adequada – algo que o Aikido começou a me educar de modo mais racional e claro – que terminamos por sofrer desse mal sem saber exatamente a causa: uso excessivo do computador, o modo como dirigimos ou ficamos sentados nos bancos dos ônibus, etc.
Essa tecnologia indígena muitas vezes é subestimada simplesmente porque o nosso processo de colonização – de caráter acentuadamente católico – terminou por soterrar as outras culturas de que somos originários. Estabeleceu-se um padrão equivocado de entendimento sobre as culturas não brancas: devem ser inferiores e só podem melhorar na medida em que se aproximação da civilização branca. No Nordeste, felizmente, creio que essa dicotomia imposta a ferro e fogo não conseguiu atingir totalmente seu intento. A nossa intelectualidade está tão voltada para esse solo ocidental que quase sempre não conseguimos enxergar as dimensões mais profundas e coerentes de outras culturas.
Interessantemente, foram brancos como Frazer, Malinowski e Lévi-Strauss que nos ajudaram a desconstruir esse mito ou essa ignorância. Estruturas profundas e tão complexas quanto a nossa estão presentes em todas as culturas conhecidas. De fato, o hibridismo cultural nunca foi um acontecimento isolado dentro da pós-modernidade. Marco Pólo assim o pode confirmar.
De qualquer modo, fiquei duplamente feliz com aquela experiência na casa de meu grande amigo. Primeiramente, porque pude reconquistar um hábito a muito perdido e que restabeleceu minha saúde. Segundo, porque, sem saber, o pequeno Pedro Henrique, na inocência e poder de sua vida, havia me dado uma grande lição: é a própria vida que faz tudo acontecer. Esse rumo, assim pude entender, era como uma dádiva, algo novo e transformador. Senti-me mais jovem, mais perto de mim mesmo e das pessoas; e isso, não havia dúvidas, me bastava. O nascimento, então, havia me dado mais um outro grande sentido para tudo. Um brinde ao pequeno Pedro Henrique!



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