A praia
Um mar de assombros se abre gravemente
onde o horizonte desenha mais um dia
aberto, esplendidamente aberto para o sol
que eterniza o vôo das gaivotas
e fulmina de luz o branco das areias
das espumas e dos maiôs das crianças.
Odor volumoso de peixe assando
com muito alho e cebolas novas
transportando tudo à esfera do paladar
para que possamos nos consagrar
diante da própria eternidade
que se deita diante de nós.
Aqui, é um grito mais antigo
que se faz ouvir.
Sigo com o amargo da cerveja
que sorvo com parcimônia
pois não há pressa na praia
trafegada por navios silentes
que cortam os mares em desalinho
em um aviso aos mortos e aos vivos.
Assombro e luz culminam na existência
daquilo que somos e que não podemos negar
nem mesmo uma linha que seja
talvez cansados de tentarmos roubar
das nuvens um pouco de lucidez
e da terra um descanso derradeiro.
Aqui, é um grito mais antigo
que se faz ouvir.
Algumas pessoas transitam em silêncio
num atalho que não pude tomar
cheio de uma esperança nova
que logo me abandona –
Leste de tudo e de todos
anunciando o que já sabíamos.
Então, subitamente, o mar se eleva
as nuvens correm e o grito das gaivotas
cessa de modo abrupto, sem hiatos –
e mar e terra, deuses e mortais
abrem-se para o jogo dos castelos imaginários
outrora erigidos pelas crianças.
Aqui, é um grito mais antigo
que se faz ouvir.
E parti.
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