O cristianismo é uma religião que afirma ser uma religião do amor. Jesus aparece como o mestre amoroso. Além disso, o deus cristão é entendido como um deus de amor: o amor em sua plenitude e Jesus é seu servo bem-amado (Mt 12:18). Quando perguntado sobre o perdão, Jesus afirmou que se deveria perdoar setenta vezes sete vezes (Mt 18:22). Essa expressão parece indicar que se deve perdoar indefinidamente. Estranhamente, essa exortação ao perdão feita aos humanos possui um tratamento diferente quando se trata do próprio deus cristão, já que é o próprio Jesus quem afirma que seu deus, na figura do Juízo e na presença do próprio Jesus, julgará aos homens e a uns levará para os céus e outros serão condenados ao “fogo eterno que foi preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25: 41). No Juízo Final não haverá um perdão que se articula no modo de setenta vezes sete. Esse deus irascível e juiz parece não reconhecer mais a regra que ele mesmo divulgou. O problema que quero trazer tem como raiz uma discussão de Santo Agostinho sobre os futuros contingentes, ou seja, se o deus cristão é criador do céu e da terra e é onisciente, então há espaço para a liberdade humana, para o livre-arbítrio? Se deus é onisciente, então parece que ele, ao criar mundo, já deveria saber que Adão e Eva iriam pecar, daí ser impossível haver um julgamento divino posterior àquilo que ele mesmo criou. Teríamos, então, um deus onisciente que não saberia a essência daquilo que ele mesmo criou. O livro do Gênesis ainda acrescenta que o deus hebraico pergunta a Adão e Eva o que eles fizeram (Gn 3:11-13). Se formos levar ao pé da letra essa mitologia, então a contradição é evidente. Outro ponto crítico está no livro do Apocalipse. Ali se fala sobre o julgamento e se afirma que os que não forem eleitos, os que não estiverem inscritos no livro da vida, serão precipitados no lago de fogo (Ap 20:15). O fogo do inferno é eterno, ou seja, há uma pena eterna para algo que, mesmo que haja algo como pecado, foi cometido numa temporalidade finita e humana. A questão dos futuros contingentes reaparece aqui: se o deus cristão é um deus de amor, criador do mundo e onisciente, então ele criou o mundo, os homens e saberia que os mesmos agiriam desse ou daquele modo, invalidando qualquer possibilidade de livre-arbítrio, já que qualquer decisão humana deveria ter sido conhecida previamente por esse deus onisciente. Ao criar mundo, esse deus também criou o pecado e, portanto, todos aqueles que arderão eternamente no inferno (Calvino chega mesmo a falar nos predestinados ao inferno). Sendo assim, só haveria diabo, inferno e sofrimentos eternos porque esse deus amoroso decidiu criar um mundo, o homem, o pecado e o próprio inferno. Logo, só há inferno não por causa do diabo, mas por causa desse deus amoroso. Em sua onisciência, ele já saberia quais homens estariam eternamente no inferno, o que implica que ele criou o mundo numa dicotomia entre aqueles que ele escolheu em sua criação para estar no céu e aqueles que estarão no inferno. Nestes termos, parece plausível questionar se há, realmente, amorosidade nesse deus ou se sua essência não é, em termos dados por sua própria existência, demoníaca. Talvez devêssemos meditar sem medo sobre essa questão que, assim me parece, não é definitiva e que está ainda longe de ser resolvida e que implica em entender se o cristianismo é realmente uma religião do amor. Não seria, ao contrário, uma religião da ameaça e do medo? O impulso aqui dado precisa ser questionado se quisermos entender a questão de modo lúcido e claro.

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