quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Comentários Cotidianos


Brasil: Iluminismo e derrotismo.

            O Iluminismo foi um movimento filosófico, político e cultural que surgiu na Europa no século XVIII, tendo como representantes mais célebres os pensadores Espinosa, Locke, Newton, Diderot, Voltaire e Montesquieu. Defendiam o poder da razão como ferramenta para criticar os abusos da Igreja e do Estado e conduzir o homem a um progresso em todos os campos, melhorando a sociedade e libertando os homens de seus preconceitos e superstições. Kant escreve um pequeno artigo sobre o esclarecimento/iluminação (Aufklärung) afirmando a ousadia de usarmos nosso entendimento – Sapere aude! – para atingirmos a maturidade e, assim, sairmos da menoridade. Ele entende a menoridade como a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. A preguiça e a covardia são as causas pelas quais a maioria continua, de bom grado, ainda na menoridade.
            Entretanto, o projeto iluminista culmina com a Revolução Francesa e seus desdobramentos subsequentes. A razão, inicialmente crítica, transforma-se em razão instrumental. Este termo foi alcunhado por dois frankfurtianos – Adorno e Horkheimer – que criticavam o domínio racional sobre a natureza e o domínio irracional sobre o homem numa sociedade capitalista com novas regras e configurações. O projeto iluminista culmina com a dialética positiva de Hegel e Marx onde tudo tende ao campo absoluto da identidade. A dialética negativa de Adorno defendia a não-identidade, ou seja, o reconhecimento do diferente, do dissonante e da negação. A revolução eletrônica deu lugar à revolução digital. Aqui, após as indústrias cultural, alimentícia, pornográfica e de entretenimento, vemos surgir a indústria da informação. Isso indica que o conhecimento é nivelado por baixo, por uma superfície onde a maioria dos discursos gira em torno das “verdades” indicadas pelo Google. O Facebook torna-se a voz dos mudos socialmente, onde cada vez mais se conquista uma visibilidade digital, um mundo paralelo ao mundo real que propicia segundos de audiência: simulacro e simulação. Entretanto, é inegável certo poder de mobilização que as redes sociais possuem – e isso trabalha a favor da disseminação de ideais democráticos.
            Mas a minha questão é: o Brasil passou por um Iluminismo? Parece-me que saltamos do primeiro estágio do Iluminismo – a razão crítica – diretamente para o segundo estágio – a razão instrumental. Não houve momento de uma razão crítica em nossas terras. Num país em que a diversidade dita sua essência, trafegamos por um mundo em que ainda somos surpreendidos por ideias que beiram a Idade Média. Seja na esfera política, social, religiosa, cultural, etc., ainda estamos num pré-iluminismo quando a questão se refere à maturidade de nossa gente. A nossa política é regida por um populismo exasperante. O embate político transforma-se em politicagem. Cria-se uma pseudodemocracia em que o voto obrigatório é defendido como a única estância de poder popular. Socialmente, apesar de caminharmos para o posto de 5ª economia do globo, há um fosso enorme entre ricos e pobres que nos remete naturalmente – com certo exagero, é claro – ao feudalismo. Celebra-se o poder aquisitivo da classe D, mas se esquece dos indicativos de educação, saúde e bem estar. Neste quesito, caímos para a 84ª posição – o nosso famigerado IDH. No campo da religião se vê a proliferação de práticas medievais – criticadas pelo próprio Lutero e que assombram a qualquer um que tenha o mínimo de bom senso. Os dogmas religiosos se transformam em moeda política e de cerceamento social. Lava-se muito dinheiro e muitos cérebros. Culturalmente é inegável a proliferação de uma expressão gritantemente de mau gosto, terreno próprio de uma indústria cultural que tem como lema a cafonice. Não há espaço para o pensamento crítico.
            Por outro lado, há uma dimensão impressionante no inconsciente e consciente coletivo brasileiro: nossa tendência ao derrotismo. Quando queremos entender o Brasil, apelamos para Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Darcy Ribeiro, Ubaldo Ribeiro, DaMatta, Roberto Gomes e para os artistas da semana de 22, por exemplo. Contudo, não encontramos uma genealogia clara desse nosso derrotismo. As redes sociais estão abarrotadas desse sentimento. Quatro horas de apagão nas regiões Norte e Nordeste e o derrotismo é acionado: “Tenho vergonha de ser brasileiro”, “Não vamos conseguir realizar a Copa”, “Nada nesse país funciona”, etc. Diante dos problemas e desastres não falamos em reconstrução e não conseguimos olhar para  a frente.
            Creio que uma das fontes atuais de nosso derrotismo foi herdado de nossos pais. Eles viveram num período de transição. Vivenciaram a Ditadura Militar e a inflação alarmante do período de abertura democrática. O discurso era sempre da impossibilidade e da incapacidade. Fomos criados acreditando na nossa inferioridade. Todo discurso que quer falar sobre o Brasil aponta necessariamente para os EUA e os países ricos da Europa. “Ora, nos EUA é assim”. “Na Alemanha teriam feito de outro modo”. Blá, blá, blá! Negar o derrotismo não significa adotar um otimismo ingênuo. Significa, ao contrário, manter um pensamento crítico, mas acreditando em nossa capacidade de transformar as coisas. Os exemplos de sucesso em nosso país são tratados com descaso e desconfiança. É preciso começar a pensar nessa atitude mental específica que nos governa. Os modelos mentais, como ensina Peter Senge, são ideias arraigadas, profundamente colocadas em  nossas mentes. Quando um modelo mental nos arrasta para o fracasso – como é o caso do derrotismo – é preciso entendê-lo com profundidade e encontrar mecanismos que possam modificá-lo. De outro modo, estaremos fadados a um IDH tão baixo.
Uma dica: a mudança mais radical sempre começa pelo próprio indivíduo. Será que sempre iremos responder negativamente quando indagados se podemos escolher e modificar nosso trabalho, nossa família, nossa comunidade e o mundo? Enquanto a resposta for não, estaremos realmente condenados ao fracasso. Quando tomarmos ciência de que a resposta deve ser positiva, creio que estaremos dando um passo enorme em direção ao sucesso coletivo.
                        




Meus contos




                                                    A mística da escuridão e da verdade

                                                                  (Conto de terror)


            Talvez esta seja a mais terrível de todas as verdades. Talvez pior do que a morte e a loucura – isto é algo que cada um poderá decidir por si. Muitas coisas deveriam permanecer ocultas, mas há um poder nas coisas, no Universo que obriga tudo a se revelar. A revelação é a base da verdade e, ao mesmo tempo, da escuridão, daquilo que permanece velado e à espreita. Podemos não querer enxergar as coisas como elas são, mas o tempo e o movimento infinito do mundo nos obrigarão, um dia, a encarar tudo à luz da certeza.
            Há um célebre princípio hermético que afirma que assim como é em cima, é embaixo. Esta lei rege todas as coisas e participa de tudo. No ritmo do retorno de todos os fenômenos, na repetição cadenciada dos acontecimentos, o que é gigante é guiado por esta lei, pela mesma obrigação em que participa tudo o que é infinitamente pequeno. Para os hermetistas, se o sol e os planetas obedecem a determinado princípio, então este mesmo princípio estará presente no meu corpo ou em qualquer célula do mesmo. Não há escapatória: a lei é imparcial e onipresente. E isto nos lembra o famoso fragmento de Anaximandro: tudo está em tudo e nada existe isolado. Ad infinitum, diriam os mais atentos.
            Esta constatação – desta terrível verdade – surgiu através de outra busca (já que toda verdade é quase sempre derivada de uma busca) e seu resultado, ao menos para mim, foi de um impacto tão tremendo que levei muito tempo até tomar coragem de narrar o que se segue. Podem me acusar do que quiserem; já não ligo, diante de tais fatos, para nenhum julgamento e posso apenas lamentar que esta verdade seja tão desconhecida da maioria das pessoas que quase nada pode ser feito. A alcunha de louco, fantasista, visionário ou místico pode ser usada, mas isto é o que menos importa neste momento. Os fatos se revelaram com tal potência ante mim que me sinto na obrigação de, ao menos, tentar externar o que aprendi sobre tudo o que segue.
            Um verão impiedoso invadia as ruas do Recife. A cidade parecia derreter diante de tão grande fúria. Eu vestia uma bermuda longa, tênis com meias e uma camisa de botão branca para ajudar no meu confronto com o calor. Johannes Dean, um americano que já estava no Brasil há quinze anos, me acompanhava, bem como Alexandra, a linda menina de cabelos ruivos; Diogo “Zapata” – sempre de calças jeans, sandálias de couro e camisa de algodão; Vincent, com seus olhos pintados, roupa escura e longos cabelos bem tratados; Anna Bella, a gordinha de óculos e portadora de um sorriso eterno e Clarice, a professora de piano. Estávamos caminhando pela avenida Conde da Boa Vista em direção ao estacionamento onde pegaríamos o carro de Joahannes e a moto de Vincent. Fomos eu, Joahannes, Alexandra, Anna e Clarice no carro, enquanto Zapata e Vincent seguiram de moto.
            Era domingo e poucas pessoas caminhavam pelas ruas. Isto era ótimo, já que o Recife é quase sempre tomado por uma multidão enlouquecida que aumenta ainda mais o calor das ruas. Os prédios, todos cinzas e altos, pareciam corroborar esta paz provisória que habitava nossa capital. Seguimos em silêncio até o bairro de Apipucos, a área nobre e burguesa da cidade. Cruzamos a lagoa e quase todos demonstraram certo bem estar ao contemplar suas águas calmas. Olhei em meu relógio e comentei que já era meio-dia em ponto.
            - Chegaremos bem na hora do almoço – comentou Anna.
            - Vocês acham que isto chateará o velho Antônio? – questionou Clarice.
            - Você se preocupa demais – disse.
            - Ele não liga para estas coisas, apenas que estejamos todos lá – acrescentou Joahannes com seu sotaque engraçado.
            - É verdade – tranquilizou Anna – Além do mais, sua esposa disse que nos prepararia uma deliciosa peixada.
            Pensei no peixe, no odor da cebola, do alho, pimentão, coentro, tomate, azeite e pimenta. Seguimos até o portão imenso de sua casa. Vicent já estava na calçada esperando por nós. Zapata estava ao seu lado fumando um cigarro. Anna saiu do carro, dirigiu-se calmamente até o interfone e tocou duas vezes. Logo em seguida, após ela dizer algo, o portão se abriu e adentramos a casa. Palmeiras seguiam ao lado da estrada de pedra. Papoulas, roseiras, musaendros e colônias compunham não apenas as cores da entrada da casa, mas também o seu cheiro particular. Tratava-se de uma mansão em estilo colonial, com um imenso terraço em L, largas colunas de madeira e cadeiras de bambu serpenteando a construção. Antônio, com sua longa barba branca e sua corriqueira expressão de calma, nos recepcionou da melhor maneira possível.
            - Sejam todos bem vindos – ele disse – Vamos logo para a cozinha que Clara já vai servir o nosso almoço.
            - Como ela está? – perguntei.
            - Muito bem... muito bem... – ele disse – Vamos, vamos logo entrando.
            Uma grande cozinha, tomada pelo odor volumoso de peixe e pimenta, se abriu ante nós. Aquela casa nos transmitia uma paz especial, quase como se estivéssemos circulando pelas alas de um antigo mosteiro. Uma forte lembrança de um velho passeio que fiz ao mosteiro dos franciscanos em Olinda veio à tona: azulejos portugueses, pinturas vermelhas, escuras, um órgão secular e paz, muita paz em todos os aposentos. Eu estava quase que hipnotizado por aquele clima quando Clara, a esposa de Antônio, nos convidou a sentar. Era uma verdadeira celebração.
            - Vocês sabem que os rosacruzes modernos sempre benzem o que comem? – perguntou Vicent para todos.
            - Sim, sim – respondeu Alexandra – Você não sabe que Zapata é rosacruz?
            - É verdade?
            - Sim, é verdade – respondeu Zapata.
            - E qual é o segredo dos rosacruzes, meu velho? – perguntou Vincent.
            - O segredo é simples – ele suspendeu suas palavras no ar – Torne-se um.
            Todos riram de sua resposta. Clara começou a nos servir. Além da peixada, havia arroz, salada verde, farofa de ovo e suco de abacaxi e limão. Antônio não permitia que bebida alcoólica entrasse em sua casa e todos respeitavam isso. Comemos tranquilamente. A pergunta inicial de Vincent nos fez enveredar pelo assunto das Escolas de Mistério.
            - A magia sexual é uma coisa muito perigosa – opinou Antônio – Não que isto seja um juízo moral, não é nada disso, mas é preciso que o indivíduo esteja muito centrado para não se perder em meio às suas práticas.
            - Mas você está falando da magia branca ou negra? – inquiriu Clarice com seus grandes olhos verdes e sua pele negra como a noite.
            - Branca, é claro. A magia negra é algo tão vil e baixo que não merece nem mesmo comentários. Talvez apenas uma advertência, e nada mais.
            - Discordo – disse Vincent – Cada um deve saber o que lhe serve ou não. Todo o resto é julgamento moral, são os códigos sociais que adquirimos no seio de uma determinada cultura.
            - Acredito que você mudará sua opinião após nossos trabalhos de hoje, caro Vincent – a voz de Antônio soou tão firme e branda a um só tempo que todos estremeceram um pouco.
            - Quer dizer que nosso encontro de hoje tratará de magia sexual? – todos perguntaram.
            - Não exatamente. Estudaremos a energia sutil e seu uso. Neste Universo, em que um canibalismo cósmico generalizado é a regra, saber captar, armazenar e usar energia é uma arte. Tudo – em sua essência – se baseia nisso. Precisamos, constantemente, nos alimentar, seja de comida, bebida, arte, diversão, seja lá o que for; estamos nos alimentando e gastando a energia ganha todo o tempo.
            - Mas não há as escolas que ensinam magia sexual negra? – continuou Vincent.
            - É verdade – respondi para entrar na conversa – Mas o que impede que um ignorante seja instrutor de outro ignorante? A escolha de um caminho, quando estamos tratando desta área, muitas vezes repousa na busca por prazer, poder ou diversão. A busca sincera pelo conhecimento – em que o indivíduo combate constantemente sua vaidade – não é uma coisa simples e fácil. Tomar ciência da natureza de nossa busca, muitas vezes, é mais difícil do que seguí-la.
            - Concordo – riu Antônio – Por isso que há sempre uma parcela de filosofia e misticismo nestes caminhos. A razão deve andar de mãos dadas com nosso coração. São irmãos que se completam.
            - E a questão da energia? – perguntou Zapata no claro intuito de nos fazer retornar ao princípio de nossa conversa.
            - Podemos pensar na energia como algo palpável – disse Antônio – A ciência tenta entender o que ela realmente é. A matéria já não responde totalmente por esta busca. A energia parece fundar a matéria e ir além dela. Não se trata apenas de movimento, de trocas atômicas, de um estado latente. É algo ainda maior. Pensemos num ser humano – Antônio sempre gostou de usar exemplos bem claros para suas explanações – Você pode correr daqui até Olinda se for um maratonista. Seu corpo manuseia muito bem a energia retida em suas células, seja lá o que isso for. Mas Anna, por exemplo, morreria tentando chegar lá.
            Todos rimos de sua comparação.
            - Vamos para o terraço conversar lá – propôs Clara quando todos terminaram de comer.
            - Ótima ideia – todos concordaram. Seguimos para o terraço e nos espreguiçamos nas cadeiras de bambu com confortáveis almofadas sobre seus assentos.
            - Bem – continuou Antônio – Neste caso, parece muito claro como a energia é gasta: através de um esforço físico. Mas  e o estresse mental? Será que a recuperação de um cansaço físico é o mesmo que a recuperação de um cansaço mental? Não nos parece que uma pessoa estafada mentalmente leva muito mais tempo para se recuperar?
            - Sim, parece – concordou Joahannes.
            - Veja quando você está ansioso para que algo ocorra de certo jeito e esta coisa transcorre de modo completamente diferente. Não há aí uma perda considerável de energia?
            - Sim, sim – ajuntei.
            - Mas esta energia é a mesma que a energia da corrida? Ora, claro que não. Ambas, entretanto, possuem algo em comum: são mentais.
            - Como assim? – disse Vincent.
            - Sabemos que o Universo é mental, já estudamos isto há três anos, não?
            - Estudamos – ele respondeu.
            - Então... mental não quer dizer a mente objetiva ou subjetiva do homem, mas sim tudo o que é consciência e memória, e tudo no Universo é consciência e memória, certo? Como a energia pode ser mental? Seria ela um tipo de consciência? Então teríamos duas palavras para falar da mesma coisa? O que vocês acham?
            - E assim com relação à memória também – ajuntou Clara.
            - Também – Antônio respondeu rindo.
            Ficamos alguns segundos em silêncio. Nos entreolhamos e rimos um pouco. “Esta é uma questão difícil”, disse Zapata. “Muito difícil”, acrescentou Alexandra que parecia um pouco sonolenta devido ao seu processo digestivo. “E então?”, Antônio disse.
            -  Me parece – começou Vincent – que tanto a consciência quanto a memória são processos e estados. Como processo, tenho consciência ou memória de algo ou de mim mesmo, de meu ser. Enquanto estado, é o ser que se mostra enquanto consciência, ele sabe que é. O saber, portanto, é o mesmo que o ser e isto também quanto ao sentir.
            - Mas aí teríamos várias palavras para falar do ser, não? – falou Joahannes.
            - Justamente – arguiu Vincent – o ser é múltiplo e uno a um só tempo. Este é o grande absurdo. Ele participa de tudo e nada é, ou seja, ele é o próprio nada, já que o ser não pode ser coisa alguma. Mas sem o múltiplo nem pensar ser existiria. As coisas encontram seu fundamento no ser que nada é.
            Todos riram desta afirmação filosófica de Vincent. O grande absurdo de tudo ser uno e múltiplo, o paradoxo, a grande aporia de tudo isto é algo realmente intrigante. Platão, no seu Diálogo O Sofista, havia dito na boca do estrangeiro que há uma forma única manifesta por toda parte através de muitas formas, cada qual existindo isoladamente, depois que há uma multiplicidade de formas diferentes entre si e envolvidas exteriormente por uma forma única e, por fim, uma forma única que é manifestada através de numerosos todos e legada a uma unidade. Kant, na sua célebre Crítica da Razão Pura, afirmou que o ser é simplesmente a posição de uma coisa, não sendo um predicado real, sendo o real aquilo que contém o simplesmente possível. Heidegger, em Ser e Tempo, avança na idéia de que o ser e o nada são o mesmo numa comum pertença, indo um pouco além ou aquém de Hegel quando este afirma a igualdade entre os dois termos. Em filosofia, nada se resolve, tudo é sempre um ir além. E continuamos.
            - E a energia? – sabiamente perguntou Antônio.
            - Para mim – concluiu Vincent – é o movimento da memória e da consciência. Sem movimento não há energia.
            - Além do mais – disse Johannes – parece-me que a energia é uma unidade que se funde com outras unidades e adquire novas formas.
            - Seriam os pacotes de energia de Planck? – perguntou Alexandra.
            - Sim, só que no nível das sete esferas da Mente – prosseguiu Antônio - Não podemos nos desvencilhar desta idéia norteadora. Se só houvesse um nível em tudo – o Uno estacionário, o não-movimento – não haveria movimento e, portanto não haveria energia. O movimento do ser é a energia... o movimento da Mente. Mas só há movimento sobre o que é imóvel. Os níveis falam da estrutura de algo que em si mesmo é móvel e imóvel a um só tempo, mas sempre resguardando a natureza de cada um, sem participação, ao menos neste caso.
            - Isto está muito complicado para mim – confessou Zapata – Como podemos pensar em um ser que é movimento e inércia a um só tempo? Isto não só é absurdo, como ilógico. Tudo bem, nada aqui tem  relação com a lógica – nosso mundo é realmente ilógico – mas como posso me assegurar que este modo de pensar é seguro? Nada me garante isto.
            - Você está certo, Diogo – respondeu Antônio – Mas só há, para cada um de nós, uma única certeza.
            - Qual é?
            - A da nossa impecabilidade com aquilo que nos propomos. Poderemos discutir a verdade e o ser a vida toda e ser pecáveis frente aquilo que nos propomos. E poderemos jamais discutir estas coisas e ser impecáveis com nós mesmos. Trata-se, apenas, de uma escolha. E aqui a questão se complica se você me pergunta se somos livres ou não, se podemos decidir algo ou se já está tudo determinado. Sentir o caminho certo a trilhar é algo difícil, mas quando ele surge, parece que nada pode nos deter. É simplesmente incrível. Naquilo que temos amor, naquilo que nos dedicamos de coração há energia transbordante, já que tudo é mental, e escassez naquilo que não gostamos de fazer.
            - Ah! – exclamou Alexandra – por isso você sempre nos exortou a fazermos aquilo que gostamos, não?
            - Parece que sim. Não podemos dizer a um aluno do ensino médio o conteúdo de uma filosofia profunda ou os meandros contemporâneos da física quântica. Sua mente não está pronta ainda. Temos que entender que não são as coisas que nos escolhem, mas nós que as escolhemos.
            - E o conteúdo de nossos trabalhos de hoje – falou Clarice rompendo seu silêncio – O que você nos reservou?
            - Bem, acredito que agora vocês estão prontos para ver o que eu tenho para lhes mostrar. Por mais absurdo que seja o que vocês verão, procurem manter a mente tranquila e o espírito livre. Não se preocupem tanto. Só posso dizer que todas as crenças de vocês sobre o que é real ou não irá desaparecer a partir de agora. Espero realmente que todos estejam preparados.
            Todos nós possuíamos uma grande confiança na seriedade de propósitos de Antônio e ficamos um pouco apreensivos. De fato, foi a primeira vez que o vi assim tão ansioso quanto ao nosso bem-estar. Que revelação tremenda seria essa? Haveria mais escuridão neste mundo do que luz? Há sentimento pior do que ser enganado, de ter passado a vida inteira acreditando numa mentira? Esta idéia de canibalismo cósmico – já preconizada por G. O. Mebes – fincou-se com força na minha mente. Eu quase não conseguia pensar em outra coisa e não sabia exatamente o porquê disso.
            - Bem – disse Antônio com uma voz mais tranquila – Vamos começar.
            Todos se ajeitaram em seus assentos. Clara surgiu com uma bandeja com copos e uma jarra de água. Todos se serviram.
            - Primeiro – instruiu Antônio – vamos respirar profundamente. Procurem deixar a mente relaxada. Respirem calmamente. Relaxem o corpo todo.
            Depois de alguns minutos, começamos a entoar um mantra escrito pelo próprio Antônio e a balançar nosso corpo para frente e para trás. Após dez minutos, Clara surgiu trazendo uma bandeja com nove copos americanos cheios até a metade com um chá feito à base de Mariri e Chacrona. Tratava-se de uma beberagem alucinógena. Bebemos em silêncio. Ao fundo, percebemos que a música suave de Elomar – o cantador bahiano – tocava advinda do som da sala. Me senti leve, relaxado e em paz.
            - Concentrem sua atenção no plexo solar. Imaginem que uma luz rosa purifica esta área de seu corpo – disse Antônio com voz firme.
            Nas escolas místicas, há a idéia de que nosso Universo, sendo mental, está dividido em diversas esferas interconectadas e só através do desenvolvimento de nossas glândulas – aquilo que o Oriente chama de Chakras – é que podemos ter acesso a este nível de realidade. Aleister Crowley fez vários trabalhos neste sentido. Em sua magia, ele denominava estes níveis de Aetyrs. Este trabalho foi desenvolvido pela magia goética e enochiana de John Dee e Edward Kelly, atingiu Mathers e Yates e chegou até nós. Entre os rosacruzes, há a idéia de que nosso Universo pode ser representado por um imenso teclado – o que eles chamam de Teclado Espírito – e que a Mente se manifesta em 144 níveis diferentes de vibração. É crença – ou conhecimento – dos rosacruzes de que um dia iremos descobrir que de fato há 144 elementos atômicos na Natureza. Nossa consciência objetiva, portanto, terá que adentrar todas estas teclas e, só assim, estar apta a conhecer o Todo. A iluminação, para um rosacruz, significa a junção de sua consciência com aquilo que eles denominam Consciência Cósmica. A Franco-Maçonaria há muito que perdeu as chaves para este conhecimento e só se articulam – como nos diz Papus – na esfera terrena. Não há nenhuma ligação mais com o invisível – e isto me lembra uma carta de Blavatsky sobre o tema.
            Mas o fato era que estávamos ali para conhecer uma dessas esferas. Em termos cabalísticos, poderíamos dizer que viajaríamos pelas Sephiroth, as manifestações de Deus. Mas uma viagem desta natureza pode nos levar a lugares realmente insólitos. Para os leigos – para os homens que acreditam que o Universo é uma simples manifestação física – é impossível até mesmo imaginar que há um mundo paralelo. Trata-se de uma terrível ignorância, uma vez que eles vivem apenas uma ínfima parcela da realidade. E, o mais estranho de tudo, são muito arrogantes e prepotentes diante de sua pretensa sabedoria. Mas cada um recebe o que merece, e isto é um fato.
            - Vamos nos concentrar no centro de nossas cabeças – continuou Antônio – Nas glândulas pituitária e pineal. Imaginem seus corpos como uma esfera de luz.
            Durante alguns minutos, Antônio foi nos dando instruções e guiando nossa mente pelas esferas do real. Meu corpo caminhava por um campo muito vasto. Eu tentava manter o ritmo cadenciado de minha respiração. Contemplei meus amigos e percebi que todos estavam com as feições mudadas. Havia certa calma e apreensão ao mesmo tempo. “Vamos seguindo”, ordenou Antônio. O terraço de sua casa desaparecera por completo. Havia apenas o campo imenso. Foi então que vi várias pessoas caminhando por ali, centradas em suas vidas. Eram pessoas como eu. Pareciam absortas em seus afazeres. Então, algo se descortinou ante mim e pude ver mais além daquela manifestação. Havia diversos seres pairando sobre estas pessoas. Não se tratava, de modo algum, de obssessores como estes são entendidos pelo Espiritismo. Eram seres de outra espécie. Não eram humanos. Eu muito bem poderia classificá-los como alienígenas. Percebi que eles poderiam mudar de forma ao bel prazer, ou seja, poderiam assumir a forma de um cachorro, um gato, uma árvore ou até mesmo de uma pessoa. Havia certa malignidade irradiando de seus corpos etéreos. Foi então que, além de ver, eu entendi e me espantei. Estes seres – que algumas tradições denominam Fagos – estavam cultivando aquelas pessoas. Os seres humanos que caminhavam por ali eram suas fontes de alimentação. Pude notar, com bastante assombro, que eles se alimentavam como vampiros, sugando a energia das pessoas através do campo de ação de suas auras. 
            Assim como nós criamos gado, estes seres criavam humanos. E este imenso campo em que eles estavam sendo mantidos era o nosso planeta, a Terra. Fiquei apavorado. Quase todos os homens eram mantidos sob a tutela destes seres. Apenas uns poucos escapavam de sua ânsia por mais energia. Estes poucos, pude constatar, eram os Iniciados. Os outros, as pessoas comuns, eram incitadas em seu dia-a-dia  a terem as mais diversas emoções e quanto mais descontroladas elas fossem, mais energia era produzida para alimentá-los. Depois de anos se alimentando de tão absurdo repasto, quando as pessoas já não conseguiam em suas vidas produzir energia suficiente para alimentá-los, eram imediatamente sacrificadas, assim como fazemos com nossas vacas quando estas não produzem mais leite. Na morte dos homens, mulheres e crianças, estes seres se alimentavam da energia desprendida de suas células em decomposição. Era terrível.
            - Pelo amor de Deus – gritou Clarice – Isso não é possível!
            - Tenham calma – Antônio falou para todos – respirem fundo e tenham confiança. Estamos protegidos.
            Mas era um fato: todos nós estávamos aterrorizados. Nós, os seres humanos, que sempre acreditamos ser a mais alta expressão do Cósmico, a imagem e semelhança do Criador, nada mais éramos do que gado para outros seres. Todos, nas suas vidas cotidianas, com seus afazeres e preocupações, produziam energia para alimentar estes seres absurdos. O que tudo isto significava? O que havia por trás de tudo isto? Não estaríamos ficando loucos e perdendo de uma vez por toda a razão?
            Então, como que por um passe de mágica, uma comissão destes seres aproximou-se de mim. Havia duas cadelas da raça dobermann ao meu lado e seres que se assemelhavam a humanos.
            - Você – disse uma das cadelas – poderá se associar a nós, se assim o quiser.
            - Mas terá que ser iniciado em nossa Ordem. E para isto é necessário que participe do sacrifício – disse a outra cadela.
            Um homem alto, de pele muito escura e olhos em chamas aproximou-se de mim com um sorriso sarcástico nos lábios.
            - Não adianta – ele disse – nunca irão acreditar em você. Você não é o primeiro a chegar até nós e não será o último. Alguns se associaram a nós e se tornaram aquilo que vocês ridiculamente chamam de vampiros. Outros, imbuídos daquilo que vocês chamam de boas intenções, tentaram alertar os outros de nossa presença – neste ponto, ele soltou uma estrondosa gargalhada – mas são tentativas vãs. Nenhum ser no cósmico se presta melhor ao desequilíbrio do que vocês, humanos.
            Eu o encarava sem medo. Não sei como, mas me senti extremamente poderoso naquele momento. Então entendi: aquilo que a Tradição chama de Fraternidade Branca ou Egrégora nada mais era do que homens e mulheres cientes do Todo e dos desdobramentos do real. Cientes de si mesmos e do Universo, poderiam trafegar em qualquer esfera e auxiliar aqueles que comungassem com seus ideais. Lembrei-me do filme Matrix e do Inferno de Dante e senti vontade de vomitar. Antônio estava, agora, ao meu lado. Pude ver como havia muita luz ao seu redor e isto me acalmou. Os seres infernais circulavam por todos os lugares, mas não conseguiam chegar muito perto de mim. Então me lembrei do pentagrama que carregava no pescoço. Certas formas geométricas – e isto não soube porquê – criavam campos ao redor daquele que o carrega, um campo benéfico de proteção. Achei tudo aquilo um pouco ridículo, já que eu mesmo não acreditava nestas coisas. Mas é preciso uma mente aberta para encarar a verdade.
            Talvez a verdade fosse uma metáfora: somos o céu do inferno e o inferno do céu. Senti-me triste por participar de uma esfera tão pouco desenvolvida e tão ignorante de sua realidade. Vi meus amigos observando aquele imenso pasto. Zapata permanecia sereno, assim como Joahannes. Vi que dois ou mais seres daquela espécie estavam grudados em Vincent. Anna chorava copiosamente e Clarice berrava em pânico. Alexandra, para minha surpresa, também possuía muita luz e estava ao lado de Antônio e Clara. Eu queria voltar e esquecer tudo aquilo. Mas como esquecer cena tão monstruosa? Passamos duas horas contemplando o desenrolar daquela aberração. Por fim, quando todos estávamos exaustos, Antônio nos convidou para voltar.
            - Vamos, meus irmãos, já vimos o bastante.
            No terraço, após o retorno às nossas consciências objetivas, nos sentimos aliviados por estarmos de volta ao nosso mundo comum.O hábito é uma condição imperiosa em nossas mentes. A música de Elomar ainda tocava na sala. Eram seis horas. Fiquei espantado com a velocidade com que o tempo havia passado.
            - Estes seres – explicou Antônio – os Fagos, se alimentam de nós. Libertar-se da ilusão é, também, libertar-se desta condição. Só um Iniciado pode transpor este limiar absurdo e ir além da ilusão, tornando-se senhor de si mesmo, adquirindo o domínio de sua vida. Somos escravos, meus irmãos, e não sabemos disso. Na nossa vida diária, gastamos nossas energias com as coisas mais ridículas possíveis. Somos vaidosos, ciumentos, implicantes, mesquinhos, egoístas e vis. E tudo isso, quando nós acreditamos que somos o centro do Universo e que tudo gira em torno de nós, nada mais é do que uma grande armadilha. Vejam uma vaca no curral, por exemplo. Nós, os homens, amarramos um bezerro ao seu lado e ela libera leite, acreditando estar alimentado seu filhote. Mas na verdade, nós estamos ludibriando a vaca para nos alimentarmos dela. Assim estes seres fazem todos os dias conosco. Nos ludibriam, fazendo-nos acreditar senhores de tudo, a coisa mais importante do mundo e o mundo, por si só, não segue este ritmo, daí nossos conflitos, nossos desequilíbrios e nossas perdas energéticas. Vocês entendem, agora, a seriedade do que estamos fazendo? E, o que é pior, como vocês se preocupam com tantas bobagens?
            Estávamos atônitos e em completo silêncio. Duvido muito que alguém conseguisse dizer algo naquele instante. Todos haviam contemplado a mesma realidade e isto era terrível. Como a verdade pode ser amarga, eu pensei. Eu, Vincent e Alexandra ainda tomamos um banho de piscina na casa de Antônio à noite. Por volta da meia-noite nos despedimos e fomos embora, ansiosos pelo nosso próximo encontro. Trinta dias nos separavam de novas descobertas. Mas nem todos voltaram. O impacto de uma cena tão violenta quanto aquela não era para todo mundo. Anna Bella tornou-se evangélica. Certo dia, quando a encontrei na rua, no centro do Recife, ela esquivou-se e evitou falar comigo. Clarice afundou-se no mundo da música e, apesar de ainda manter contato com nosso grupo, não permitia que falássemos mais sobre estes assuntos com ela. Vicent desgarrou-se completamente e desapareceu de vez. Zapata me disse que certa vez o encontrara no Recife Antigo à noite. Ele estava mais denso do que nunca, Zapata disse. Só usava roupas negras e suas feições estavam adquirindo parentesco com algo doentio. Assim, eu, Zapata, Joahannes e Alexandra continuamos no grupo de Antônio. Percebemos que o conhecimento não era realmente algo fácil e que exigia uma busca intensa, uma força de vontade descomunal e uma crença inabalável em si mesmo.
            Meditei por alguns dias e entendi que se o Universo é realmente mental, então ele também deve ser movimento, impermanência e ilusão. Assim, toda aquela experiência possuía como transfundo a essência desta mesma ilusão; e só o conhecimento pode nos libertar dela. Lembrei-me do mestre Boehme e então entendi. O verdadeiro desprendimento, a verdadeira busca, o coração puro. Como tudo aquilo era, agora, claro para mim. Senti-me muito bem de saber-me pertencente a uma corrente poderosa. Mas o trabalho é sempre muito árduo e nos caminhos tortuosos que o mundo coloca sempre ante nós, e isto eu soube após anos de batalha, é muito fácil perder-se. Havia, então, uma única palavra-chave: vontade! Assim como é em cima é embaixo! E achei aquilo tudo muito justo.
           



Bares e restaurantes



O Wadamon é um restaurante de comida japonesa situado na Rua Afonso Celso,100, Parnamirim, no Recife – fica próximo ao Fiteiro e ao Bar do Neno. O restaurante é capitaneado pelo chef Wada, japonês autêntico e que defende a cozinha de Osaka como a melhor do mundo.
Foi meu amigo Leonardo Neves que me apresentou ao recinto e ao chef Wada – que também é proprietário do lugar. Sua esposa e filha trabalham lá e o auxiliam na cozinha e no atendimento aos clientes.
Para quem está habituado a comer sushis e sashimis nos restaurantes recifenses, o Wadamon é uma grata surpresa. O chef Wada não cansa de repetir: “Brasileiro não sabe fazer comida japonesa. É preciso estudar cinco anos só para fazer o arroz. Vocês comem fast-food e não comida japonesa verdadeira, né?”.
E prossegue: “Sunomono, em japonês, significa vinagrete, né? Vou mostrar o verdadeiro sunomono”. E ele descamba num preparo disciplinado e harmonioso de um sunomono que é espetacular e totalmente diferente do que se come nas casas “japonesas” do Recife. Num ambiente simples e acolhedor, o chef Wada vai explicando os detalhes da riquíssima culinária japonesa. Ensina desde o significado e a tradição de cada prato até o modo tradicional de comê-lo. “Não se molha o arroz no molho shoio, né? Grande erro. É pra molhar o peixe. Não é pra perder o sabor do arroz”, diz sorridente.
Praticante do Bushido, o chef mantém como um tesouro a tradição de seu país e consegue com grande mestria transmitir esse conhecimento aos pratos que elabora. Tudo é meticulosamente trabalhado e o resultado é inacreditável. É impossível ficar indiferente a tanta qualidade.
Mas só há um grande problema quando se conhece o restaurante Wadamon. Depois que você visitá-lo e saborear as delícias dessa culinária ancestral, vai ser impossível sentir o mesmo prazer nos outros restaurantes “japoneses” da cidade. Tudo vai parecer pobre, sem sabor e medíocre. Mestre é mestre.
Kampai!

Meus poemas


A porta estreita

Minha sabedoria é incomunicável
e me arde um fogo superlativo
- uma benesse dos deuses
uma dádiva só minha.

São muitos os aflitos
os fracos e medrosos
aqueles que vagam
com olhos de cansaço e assombro.
Não mais! - grita vossa alma.

Mas o medo secular
        que habita vossas dúvidas
              estremece as montanhas
                     paralisa a mente
                          e congela o coração.

Do cimo deste vale
contemplo tudo e  todos
celebro tudo e todos – coração insaciável!
embriagado  de mundo e ciência
de luz e distância
de mundos –
                        ... e mais.

No banquete que se abre
a voz se faz estrondosa
são proposições de aço e força
de primaveras e verões
sol incomum que se deleita
em meu peito aberto.

A porta é sempre estreita
pirâmide desertificada pelo medo -
habitada agora por minha coragem
de renegar a tudo
e aceitar a mim mesmo.

Choram por iluminação
e não enxergam a própria luz
que doce, canora e suave
se esprai como um mar sedento
sobre as torrentes
de cada coração.

Então, entendi:
o jogo, o medo, as regras,
as crenças, as dúvidas e o apanágio
que circulam por esta Tebas sonhada
por esta terra conquistada
com disciplina e amor.

[ - Sigam, viajantes!
Minha distância é imensa
vejo a todos ao longe
e nada mais pode ser feito
... não por outrem.
Aqui,
          minha sabedoria é incomunicável!
... ]






Escrito dos Amigos


O sol se põe na fronteira
                        Gustavo Pedrosa

Definitivamente não sou um poeta fotográfico
Os maus amigos diriam, nem fotogênico,
Mas vou arriscar escrever sobre o óbvio
Para aqueles poucos, apreciadores do pôr do sol da Sé de Olinda.

Dezembro, tempo de manga espada em flores
Coqueiros verdes de frutos amarelinhos
Igrejas vestidas, igrejas despidas
Sempre a escada que leva ao não sei onde de cada um.

O porto ao longe,
Sob telhas rotas onde ancoram navios
De tantos mares, de tantas luas mudadas
E tantos amores distantes.

Por trás da fábrica Tacaruna
A cidade autofágica
Engole a própria cidade
Com seus arranha-céus
Esconde-sóis.

Recife, Olinda, vão ganhando luzes
Perdendo vida
Enquanto o sol se põe
E as ruas espremem-se ou alargam-se
Para os carros passarem
Sobre a poesia esquecida.




Artes Visuais








O minimalismo foi um movimento que trafegou entre a pintura e a escultura como uma transvanguarda do século XX. Na pintura figurativa há alguns elementos essenciais que a compõe: cor, forma e conceito. A pintura abstrata se desvencilha da forma e do conceito centrando-se na cor. É a própria tinta o centro da expressão artística. Com o minimalismo temos a busca pela forma em seu elemento mais essencial, mínimo. Os artistas minimalistas queriam encontrar esse terreno em que é possível fazer arte com o mínimo de expressão, valendo-se do mínimo de formas.
Carl André – ao lado de Donald Judd, Robert Morris e Tonny Smith – integra o time dos expoentes do movimento minimalista. Suas obras procuram equacionar a forma com o conceito numa harmonia mínima, mas capaz de provocar uma experiência estética muito própria.
A luz, tão importante no Impressionismo, aqui ganha um lugar de destaque por propiciar a análise mais apurada da forma. Expurgando o conceito de tudo aquilo que lhe é somado apenas com o intuito de ilustrar e ampliar a sua essência, Carl André consegue visitar o âmago da ideia numa arte leve, equilibrada e forte.
O despojamento e a simplicidade que permeiam sua visão estética causam uma impressão de paz num ambiente que consegue traduzir o essencial do seu dizer artístico. A neutralidade de suas composições é rompida quando se atinge o mais profundo do discurso do artista, ou seja, o conceito em si mesmo. Numa atitude meditativa e filosófica – aquela mesma buscada por Rothko – Carl André aborda o silêncio e o movimento numa intensidade bem medida.
O olhar estético, aqui, requer também despojamento e o abandono de conceitos pré-estabelecidos. A beleza que se conquista quando o olhar torna-se profundo e despojado é mais do que uma merecida recompensa.


Filmes



                                                          Intocáveis de Eric Toledano


O filme Intocáveis narra a história verídica do milionário francês Phillippe e o senegalês Driss. Paraplégico após um acidente de parapente, Phillippe precisa de cuidados especiais. Move apenas a cabeça. Seu corpo inerte e sua fortuna lembram e muito a estória do romance A Morte Feliz do argelino Albert Camus. Mas aqui não há um abandono da vida como o personagem Zagreus do livro de Camus. Phillippe gosta de música erudita, ópera, bons vinhos e carros esportivos. Está entediado com a normalidade das pessoas que cuidam de seu corpo enfermo.
É assim que numa entrevista de emprego aparece Driss. Vindo de uma antiga colônia francesa, ele está mais interessado na assinatura da secretária de Phillippe para obter mais seguro desemprego do que no trabalho em si. Debocha da secretária e do próprio Phillippe. Insinua-se e brinca com tudo. E é exatamente esse jeito despojado e irreverente que faz com que o aristocrata o contrate.
É aí que realmente começa o filme. Driss não segue as regras e torna a vida de Phillippe mais aceitável. Este só sente prazer sexual nas orelhas. Numa noite, Driss contrata duas prostituas e numa festa regada a muita bebida e maconha, os dois se divertem.
Há uma cena muito legal. Phillippe vai a uma ópera e Driss o acompanha. Estão de fraque - um francês branco milionário e um negro africano pobre. Quando se inicia a ópera, Driss zomba do cantor vestido de árvore. Ele cai na gargalhada: “O cara está vestido de árvore e canta em alemão? Hahahahaha”.
A amizade dos dois cresce até o momento em que Driss consegue fazer com que Phillippe se encontre com uma antiga paixão que mantinha contato apenas através de cartas românticas.
Na vida real, Driss volta para o Senegal onde monta seu próprio negócio. Porém, a amizade continua.
O filme, assim creio, quer traduzir a situação atual da Europa, ou seja, os ricos e as cabeças pensantes estão no velho continente, mas que não possui mais braços e pernas para andar e trabalhar por si só, dependendo da força e da ignorância dos colonizados. Neste ponto eles podem conviver juntos, mas são intocáveis a partir mesmo da diferença e das impossibilidades históricas e culturais que cada um possui. Estão fadados a viver em seus próprios mundos – tão perto e distantes.
Eis o link para assistir online:
http://www.filmefacil.com/filme/21/intocaveis.html

Citações


A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem, não obstante, de bom grado menores durante toda a vida. São também as causas que explicam porque é tão fácil que os outros se constituam seus tutores. É tão cômodo ser menor!
Immanuel Kant
 In: Que é “esclarecimento”?

A morte não é acontecimento da vida. Não se vive a morte. Se por eternidade não se entender a duração infinita do tempo mas a atemporalidade, vive eternamente quem vive no presente. Nossa vida está privada de fim como nosso campo visual, de limite.

Ludwig Wittgenstein
In: Tratctaus-Logico-Philosophicus


Liberdade significa que os instintos viris, os alegres instintos de Guerra e de vitória predominam sobre os demais, por exemplo, sobre o da felicidade. O homem livre, e muito mais o espírito livre, pisoteia essa espécie de bem-estar desprezível com que sonham os merceeiros, os cristãos, as vacas, as mulheres, os ingleses e demais democratas. O homem livre é guerreiro.

Freidrich Nietzsche
In: Crepúsculo dos Ídolos

Quem já viu ação mais delicada e mais grata que a praticada por dois bons e honestos burros que se coçam mutuamente? É a esse mútuo auxílio que se dirige em grande parte a eloquência, muito a medicina e ainda mais a poesia. Deve acrescentar que essa adulação é o mel, o condimento de toda a sociedade humana. Dizem os sábios que é um grande mal estar enganado; eu, ao contrário, sustento que não estar é o maior de todos os males
Erasmo de Roterdam
In: Elogio da Loucura


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Manifesto Brasilis


O Ars Diluvian, pelo menos até às eleições 2012, terá como foco os textos que vou publicar no Blog Manifesto Brasilis que nada mais é do que um espaço para mostrar minha indignação com nosso país e sua política corrupta e perversa. Divulgarei os posts via Facebook e Hotmail. Quem quiser colaborar fique à vontade para me enviar textos. Um grande abraço.