quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Comentários Cotidianos



Por uma Ética Digital Mínima

Ainda vivemos o clímax da Revolução Digital. Bilhões de imbecis dando bilhões de opiniões imbecis todos os dias. Despejando “informação” para todos os lados. Mas não sejamos tão rancorosos. O ser humano precisa se comunicar, precisa ser aceito e amado por seus pares. Está no nosso código genético essa necessidade.Não é à toa que as redes sociais se tornaram uma segunda vida – de fato, para alguns, tornou-se a primeira.
É no espaço dessas redes que as pessoas estabelecem um novo modelo de contato humano com um alcance jamais imaginado. Mas é preciso notar que há redes sociais abertas e redes sociais fechadas. Entendo por redes sociais fechadas aquelas em que você se comunica diretamente com a pessoa, de modo privado, numa relação mais direta, mais pessoal e menos pública. O Skype é um exemplo de uma rede social fechada. Por rede social aberta me refiro às redes em que a comunicação é feita de modo mais abrangente, para uma audiência maior e que, por isso, implica certo anonimato, já que as falas e os dizeres são mais abrangentes e atingem um público mais extenso como ocorre no Facebook e no YouTube.
A questão da ética sempre ocupou um lugar privilegiado na Filosofia. Platão, Aristóteles, Kant e Jonas, por exemplo, pensaram essa dimensão em que o homem se relaciona consigo mesmo, com o outro e com o mundo. Cada um estabeleceu princípios de conduta que deveriam nortear os indivíduos na sua vida social e privada.
As redes sociais também abrigam a necessidade de se estipular regras de relacionamento. Não se trata aqui de coibir aquilo que vulgarmente ficou conhecido como “liberdade” no século XXI. Está aí a Deep Web para demonstrar que nessa nova realidade não há limites e todos realizam a célebre afirmação de Agostinho e eternizada por Crowley: Faze o que tu queres é o todo da lei. Esqueceram-se apenas de acrescentar: mas o faze com amor ou o amor é o todo da lei.
Refiro-me às redes sociais aceitas, legais e que movimentam as relações interpessoais da maioria das pessoas ditas “civilizadas”. A Economia globalizada a muito que transformou a dicotomia entre Ocidente e Oriente numa questão para a Sociologia e a Antropologia, por exemplo. Logo, creio que se faz necessário estipular algumas regras ou imperativos categóricos que nos auxiliam a navegar por tais redes de modo mais civilizado. Por isso, estabeleço aqui uma Ética Digital Mínima. Longe de estar finalizada ou fechada, essa EDM possui como caráter essencial pensarmos a nós mesmos quando estamos envolvidos pela aura poderosa do mundo digital. Alguns pontos para serem considerados:

                1Age de tal forma que tudo o que tu postares o faze como se as pessoas estivessem diante de ti.
           2.  É preciso abolir o anonimato. (Note-se que as ofensas se tornam mais graves em redes que permitem com mais facilidade o anonimato. Basta ver os comentários estapafúrdios que aparecem regularmente no YouTube).
         3.   Jamais poste algo quando estiveres embriagado. (A embriaguez requer certa privacidade e a colaboração de bons amigos. A publicidade das redes sociais opera contra a auto liberdade daquele que bebe. Lembre-se: a epifania da embriaguez é impermanente. Tudo o que postares será permanente. Logo,evitas a aporia).
         4.     Ser tolerante é uma virtude. Meditas antes de criticar com veemência a postagem de teu próximo.  
                 5Desenvolves um pensamento crítico. O dizer das redes sociais é quase sempre efêmero.
          6.   Em matérias controversas ou de caráter moral, colocas sempre o teu dizer como se estivesses diante de uma audiência. Aceitas as críticas, mas não evites a contra-argumentação. (Corolário à proposição 1).
             7. Buscas compreender a ambiguidade das postagens. (Não há ainda um trabalho geral sobre a linguagem das redes sociais. O lugar do sarcasmo, da ironia, da blague quase sempre se perde em meio à rapidez e fluidez das postagens. Além do mais, usa-se de “emoticons” para expressar estados de ânimos quase sempre complexos).
                8. Intolerância gera intolerância. Tolerância gera harmonia. Procuras sempre ser tolerante com teu próximo (Corolário à proposição 4).

Estas simples 8 proposições aqui expostas devem servir como um mote inicial para que se possa discutir com mais acuidade o lugar de uma Ética Digital. Nem que seja, como foi colocado aqui, mínima.

Cantando a pedra


A razão instrumental possui o poder monumental de produzir um mundo novo através da tecnociência. Saltamos do Feudalismo para o Mercantilismo e nos deparamos com as fases da Revolução Industrial. A engenharia mecânica fomentou um admirável mundo novo que transformou a Economia, o Trabalho, as relações interpessoais, as artes e nossa perspectiva de futuro. Depois veio a Revolução Eletrônica. O rádio e a TV se tornaram objetos de consumo perene e necessários. Era impossível imaginar-se nos meados do século XX sem rádio e sem TV. A Revolução da Informação protagonizou uma mudança radical na vida das pessoas, na estrutura da sociedade. Estamos conectados pela Internet e as redes sociais ditam um comportamento heterodirigido que acentua as igualdades. Essa Revolução modificou o modo como produzimos e consumismo arte, como nos comunicamos, como trabalhamos e como nos fazemos diante do mundo.
No jogo de dominó há uma expressão que é “cantar a pedra”. Significa que o jogador calculou bem as jogadas e antecipa as pedras que vão surgir, “adivinhando” o que estava por vir. Assim, vou cantar minha pedra: a próxima grande revolução que vamos viver será denominada de Revolução Holográfica. Essa Revolução irá além do simples entretenimento como vimos em apresentações que envolveram o rapper Tupac ou os cantores Michael Jackson e Elvis Presley. Um desses exemplos pode ser visto nessa entrevista de Bill Murray:


Entretanto, como disse, entendo que a holografia irá além. Não apenas poderemos assistir aos jogos de qualquer campeonato de qualquer lugar ao vivo em nossa cidade – transmitido holograficamente. Essa Revolução trará grandes mudanças nas esferas acima citadas. As comunicações interpessoais não serão mais via MSN ou Skype. O YouTube não terá razão de ser, a não ser que tenhamos o YouHol – um YouTube que mostrará seus “vídeos” na tecnologia do futuro, o Holograma. Video conferência? Não, conferência holográfica. Aula presencial? Não, aula holográfica. Sexo virtual? Não, sexo holográfico. Livros digitais? Não, livros holográficos. Redes sociais digitais? Não, redes sociais holográficas. Hardware?Não, Tiny Hardware. E por aí vai...
Creio que não há como escapar daquele assertiva deixada pelo cientista Stephen Hawkings em seu livro O Universo numa Casca de Noz: Querendo ou não, a revolução científica acontece e muda tudo, até mesmo a moral de um tempo.
A dimensão ética, política, social e cultural será mudada com essa revolução. Ela bate à nossa porta, já que entendo que a Revolução Digital chegou ao seu ápice e dá sinais de cansaço no que se refere à sua criatividade em produzir novos produtos e novas realidades. Estamos no topo da onda. Porém, como toda onda, ela também terá seu declínio. Nessa área, declínio acontece quando se dá a repetição. Quem viver, verá.

Meus Poemas

O último Salmo


Hoje, todos estão proibidos de morrer.
Se há anjos, que estes invadam as igrejas
e entoem os hinos mais divinos.
Que os pássaros, tomados por uma ordem secreta,
tomem os campanários e cantem
elevando às alturas o que simboliza
a distância e a realização.

Hoje, é proibido verter lágrimas
cantar canções tristes e antigas
que trazem em si um sabor de derrota.
Os campos devem estar tomados de verde
- todos eles -
e possuir um odor próprio
das batalhas vencidas.

Hoje, as crianças só podem escutar sim,
os mendigos devem sorrir com a fartura
daquilo que alegremente lhes será dado.
Os doentes estão proibidos de sentir dor
e os amantes devem realizar seus desejos
assim como a tarde que, resoluta,
cai enfurecida sobre as pedras da cidade.

Hoje, o que há de antagônico
 deve ser celebrado
com goles largos, voluptuosos,
entre amigos de riso fácil.
É proibido ser menor
e amaldiçoar a vida
com palavras colhidas
impunemente.

Hoje, e apenas hoje,
serei mais do que qualquer deus
irei além de todo anjo
professarei minha humanidade
e retirarei, de onde parecia inaudito,
um cântico novo.
Sim, um cântico novo.

Eis a voz do salmista que se eleva
e celebra, com cítara, címbalos e incenso,
esse mistério que nos circunda
e nos empurra – sempre –
para mais longe.



Crônicas dos Amigos

Cultura de Massa
por Jairo Lima

Em um conjunto de ensaios muito conhecido, Apocalípticos e Integrados,Umberto Eco desenvolve uma ampla discussão sobre a cultura de massa (conceito genérico, ambíguo e impróprio, na sua própria opinião), que está longe de haver esgotado os seus problemas. Mas formula indagações e proposições ainda válidas para um debate como o que se propõe este artigo.
Começando por eximi-lo de formular o falso problema de se é bom ou mau existir a cultura de massa, e sim, perguntar, como o próprio Eco: qual a ação cultural possível a fim de permitir que esses meios de massa possam veicular valores culturais.
Logo se vê que o problema é mais filosófico e sério que a simples
História, para usar expressão de Aristóteles, na sua Poética. É de estética, portanto,que se trata. De fortalecer o pensamento, a educação dos sentidos. Neste campo, os recentes e ainda incipientes avanços dos meios tecnológicos contribuem em muito para rever e enriquecer diversos dos temas propostos por Eco e Abraham Moles, entre muitos outros estudiosos do assunto. A chamada cibercultura põe em xeque ou em choque a mídia.
Já não se trata de mero maniqueísmo que oporia os adeptos entusiasmados de uma cultura de massa a nostálgicos elitistas. Nem novos aristocratas contra uma massa heterogênea de burgueses e pobres. O que se observa nos dias atuais é o rumo para um tal estado de coisas em que esses conceitos e outros  como coletividade e individualidade sofrem uma transformação evidente, e,  dentro disto, a imprópria  e genérica cultura de massa.
Sabe-se que um dos divertimentos prediletos de artistas e teóricos, durante boa parte do século vinte, foi profetizar a morte da arte. Mas o que ocorreu foi justamente o inverso: uma superabundância de seus meios e o desenvolvimento de estéticas quase que na quantidade dos indivíduos. Sem que, na maioria das vezes, a arte tivesse nada a ver com isso. Tantos foram os rótulos que essa indústria produziu para as multinacionais do pensamento  que poderia perfeitamente se falar de uma era pós-estética, de uma pós-produção, numa época, a de hoje, em que termos como modernidade e originalidade estão passados, sem o caráter adjetivo ou substantivo, que tantos quiseram dar na tentativa de sua hegemonia, mas simplesmente histórico. A própria idéia de História sofre, como vem sofrendo há décadas, alterações significativas.
Deve-se falar no fim da hegemonia da tal cultura de massa. O esgotamento de uma era de passivos, para um período de ativos produtores e intérpretes de arte. Para isso, o próprio funcionamento da mídia  vai por assim dizer alterar-se. Até agora os meios estiveram muito aquém. Ou como diz com melhor ciência o filósofo Jacques Bouveresse: A única coisa de que se pode acusar a mídia é de não fazer o que deveria fazer, isto é, informar. Naturalmente, antes de mais nada, isso significa informar-se.
Há uma conhecida blague do escritor Oswald de Andrade, para quem a massa um dia consumiria o biscoito fino que ele dizia fabricar. Concluindo-se o século, a piada não se tornou profecia. Continua sendo uma piada. O trocadilho continuou também incólume. Mas não a massa, nem a cultura que ela representa. A despeito do escritor paulista não haver produzido biscoitos finos (nem no sentido literal, nem no metafórico), nem a massa os ter consumido.
Ambos alimentaram-se de produtos falsos, que começou por estabelecer um abismo entre o estético e o ético, e nesta última falta foi coerente, pois tentaram vivificar uma arte e um pensamento cimentados no engodo mútuo.
Falar do fim da tirania da cultura de massa parecerá estranho apenas a um indivíduo que ignore o que acontece no mundo, à sua volta, ou a um palmo adiante do nariz. Se a ele não for possível ainda vislumbrar ou enxergar um brave new world em que o gosto não seja ditado pela vulgarização (isto é, haja realmente gosto), talvez seja capaz de farejar um outro tempo e espaço, que há muito são engendrados, com a contribuição do avanço das novas tecnologias, quando já não há separação entre produção, difusão e interpretação das obras.
Embora na aparência seja o território da democracia o que fez a cultura de massa foi dissolver as ágoras, e não criá-las. Foi fraturar o coletivo, não afirmá-lo. O indivíduo longe esteve de ter voz. O que surge é um novo sentido coletivo e para o indivíduo. O que se teve até agora foi aquele tipo de "igualdade" atacada por Adorno: A comunicação providencia a igualitarização dos homens através do seu isolamento,  existindo num estado de coisas referido por Habermas, que fala na colonização do mundo vivido.
A chamada indústria cultural viveu a serviço dessa pulverização do
medíocre, ou mesmo de uma cada vez mais primária puerilização, com as bênçãos da estupidez togada. Até esgotar-se. Exaurir os seus vazios. Tudo guindado pelo  baixo nível de informação (e formação, uma vez que universidades e escolas são também parte da mídia).
Se a cultura de massa, na visão de Eco, é "anti-cultura", o seu esgotamento implica não simplesmente no seu fim, mas numa volta à cultura. Como os poemas de Homero que recuperam a Grécia para a cultura depois de séculos de trevas. Na ressurreição não do indivíduo, mas do homem; não somente do homem, da sua humanidade. Para isso, cumpre aceitar a provocação de René Garrighes,
antevista no Ensaio para fundar uma moral e uma política a partir da poética de J. S. Bach e de Brueghel, o velho. Em um novo classicismo, que se anuncia, obras como as de Bach não devem ser abandonadas aos especialistas. Elas escondem recursos que ainda não foram explorados e que poderiam trazer de volta a confiança ao homem moderno, contribuindo para que ele tenha fé em si mesmo.

Poemas dos Amigos


Por Leonardo Neves

alguns poemas se perderam
para sempre
nas cheias dos rios  inundações
do mar
nas panes das cpus
esquecidos em baús
e estão afeiçoados
a tantos homens
tão célebres
tão anônimos
que morreram para sempre
alguns poemas se perderam
enterrados em gavetas
macerados na lixeira
guardados em guardanapos
extraviados
feito cartas
e se afeiçoam
a tantos homens
que hoje olham pelas janelas
dos apartamentos
os antigos casarões desabitados
sonhando com cabarés
e estações de trem
abandonados
inúteis
?
Não, não foram inúteis
Apenas se perderam.

Artes Visuais






Milo Manara é um artista e desenhista italiano. Iniciou a carreira como arquiteto, mas depois se dedicou aos quadrinhos onde demonstrou sua enorme capacidade de elaborar personagens sensuais e capazes de chocar as mentes mais conservadoras.
Claramente influenciado pela pintura de Botticelli e de Klimt, Manara retira dessa influência uma capacidade de expressão estética que se alinha perfeitamente com suas mulheres elegantes, sensuais e quase sempre vítimas de enredos sexuais absurdos.
As linhas de seus desenhos são quase sempre simples e limpas. Isso é importante quando o desenhista quer acentuar a sensualidade de suas personagens. Sendo um voyeur nato, Manara consegue dar aos seus leitores cenas que buscam saciar esse desejo do olhar. Além do mais, ele enquadra num todo a dimensão do sadismo, da loucura e do sobrenatural como se estivesse batendo um papo com amigos no café da esquina.
O tom político e a crítica moral também estão presentes em suas estórias. Entretanto, esses elementos, apesar do peso que possuem, servem mais para dar um mote aos seus apetites sexuais.
Não há dúvida que Crowley ou Freud se interessariam por este artista. O sexo exposto na obra artística de Manara é livre de concessões e amarras morais. É o desejo, e apenas este, o grande senhor de sua arte. Não há limitações religiosas ou morais. A única limitação que encontramos em sua obra é de caráter estético, já que Manara tem um padrão de beleza fixo que se repete ao longo de sua obra.
Para quem quiser conhecer mais esse grande artista, eis o link para seu site oficial:


Filmes

Django Livre de Quentin Tarantino




Será que Tarantino está ficando velho e perdeu a pontaria certeira? Cães de Aluguel, Pulp Fiction, Kill Bill e Bastardos Inglórios são exemplos da sua verve sempre ácida, de sua capacidade de entremear diálogos bem estruturados com muito sangue e muita violência. Evidente que, como todo cineasta reconhecido, há momentos espúrios como, por exemplo, o terrível Um Drink no Inferno que só não é pior por contar com a presença de Salma Hayek, o Satânico Pandemonium.
Esse último filme de sua safra, Django Unchained (Django Livre), me pareceu um claro exemplo de certo declínio na sua produtividade e inventividade artísticas. O filme se pauta no famoso filme de Sergio Corbucci, Django, de 1966. Os italianos eram mestres naquilo que se chamou de Western Spaghetti – título ambíguo, já que pode indicar tanto um tom jocoso como o fato do spaghetti italiano ser delicioso - o que pode ser visto em clássicos como Keoma e Django spara per primo. No original italiano, temos o célebre Franco Nero interpretando o protagonista do filme. O início do filme é antológico: o velho Django surge carregando um caixão que é arrastado pela lama até chegar numa velha cidadezinha que está tomada pelo poder de um major em conflito com um revolucionário mexicano. Django toma partido em ambos os lados, mas no fim das contas só quer saber mesmo é do tesouro que permeia toda a trama.
Tarantino é conhecido por demonstrar suas influências em seus filmes. Pai Mei de Kill Bill é um grande exemplo de suas tiradas bem humoradas em relação às suas influências. Ou quando ele mesmo aparece em Balada de um Pistoleiro para contar uma piada. Mas seu Django Livre padece de certo equívoco em relação às suas influências. O roteiro original de Maesso e Vivarelli possui uma dinâmica muito mais viril do que o frouxo argumento de Tarantino. Até mesmo os textos de Bonelli para os quadrinhos de Tex são mais robustos.
O filme de Tarantino se inicia também numa região desértica. A música original de Bacalov está aqui presente – indicação direta da influência. Mas para por aí. O Django de Tarantino é negro, escravo, vivido por Jamie Foxx. A ideia de Tarantino até que é interessante inicialmente. Trata-se de discutir as atrocidades da escravidão levada a termo nos Estados Unidos. Infelizmente, Tarantino se perde quando a questão é discutir um tema de tal relevância. Num rompante de irreverência, ele coloca uma cena em que membros da famigerada Ku Klux Klan discutem sobre suas máscaras, ou melhor, sobre a impossibilidade de enxergar adequadamente com as aberturas para os olhos que são feitas nelas. Piada pobre, desnecessária e que só desvalorizou ainda mais a película.
Django está sendo transportado por vendedores de escravos quando a comitiva é subitamente interrompida pelo Dr. King Schultz,terrivelmente interpretado pelo excelente Christoph Waltz. Waltz protagonizou o magistral general Hans Landa em Bastardos Inglórios. Lá, Waltz falava com fluência inglês, francês, alemão e, num dos momentos mais cômicos do filme, italiano. Aqui, em Django, Tarantino se repete. E é nessa repetição que o personagem de Waltz se torna pobre.
Primeiro por ser uma mera cópia do que já havíamos visto em Bastardos Inglórios, mas sem o elemento gore tão presente em sua obra – há muito mais comedimento aqui. E segundo por uma simples questão de coerência da formação da personagem. No início do filme, o Dr. Schultz aparece como um caçador de recompensas destemido, arredio, inteligente e com extrema habilidade para matar quem  atrapalhe seu caminho. Já na fazenda do escravagista Calvin Candie (onde novamente Tarantino parece apressado e não consegue extrair o que há de melhor na força da interpretação de Leonardo DiCaprio) o velho Doc se mostra desconfortável e quase se comporta como uma garotinha quando alguns capangas de Candie soltam seus cães para matarem um negro que tentava escapar. Nessa trama, o único que consegue se salvar é o experiente Samuel L. Jackson que vive um negro defensor dos brancos.
O desfecho da trama é tão assombrosamente ruim que tive que me perguntar: Será que Tarantino realmente ficou velho? Desde um roteiro fraco até uma lista de músicas terrivelmente mal escolhidas, passando por interpretações pífias, é de se questionar se a Indústria do Cinema não colocou tantas indicações para um filme tão fraco apenas por se tratar de um dos figurões dessa mesma Indústria. Dessa vez, não recomendo. Muito melhor rever Django de 66 e entender de onde Tarantino, desde sempre, herdou a movimentação de sua câmera.

Citações



“O fato de uma opinião ser amplamente compartilhada não é nenhuma evidência de que não seja completamente absurda; de fato, tendo-se em vista a maioria da humanidade, é mais provável que uma opinião difundida seja tola do que sensata”.

Bertrand Russel
In: Matrimônio e Moral.


“O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo de morrer. E quem não tem medo da morte possui tudo”.

Leon Tolstoi
In: Guerra e Paz.

“Quão pouco é preciso para ser feliz! O som de uma gaita. – Sem música a vida seria um erro”.

Friedrich Nietzsche
In: Além do Bem e do Mal.

“Mesmo se me convenceres, não me convencerás”.

Aristófanes
In: Pluto.