segunda-feira, 29 de junho de 2015

Comentários Cotidianos



Escrever ou não escrever, eis a questão.

Meu Hamlet não questiona o ser, questiona a escrita. Escrever ou não escrever, eis a questão. Se existe algo como uma crise pós 40, então muito possivelmente eu devo estar dentro dela.  Recentemente fui acometido por um questionamento avassalador: Para que continuar escrevendo? Para quem? Tão poucos leitores; quase ninguém, na verdade. Por que esta ânsia eterna de escrever, de querer ser admirado, de querer dizer algo e não ter reconhecimento nenhum?
Comecei a escrever aos 10 anos de idade. Foi um pequeno livro de poemas que minha mãe guardou como se fosse uma relíquia. Aos 12 escrevi meu primeiro romance, A Chuva. O livro foi escrito numa pequena máquina Olivetti verde. Depois veio a Filosofia e Nietzsche. Na torpeza de minhas esperanças vãs, me imaginava um escritor renomado, reconhecido pelo alcance e beleza de sua obra. Sei hoje que tudo isso não passa ou não passou de uma ilusão.
Tentei ler a carta de Rilke para o jovem poeta para tentar acalmar minha desilusão. Rilke, num tom confessional, afirma: “Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples ‘Preciso’, então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso”.
Terrivelmente, a resposta ainda não chegou até mim. Talvez seja a chuva que se debruça sobre o Recife, encharcando tudo com essas lembranças tão antigas. Ou talvez seja a crise mesmo, a náusea que pensava ser apenas literatura ou a angústia ontológica em seu sentido mais profundo. O terrível, aqui, é não ter a resposta, não saber dizer a mim mesmo se devo parar definitivamente de escrever ou não.
Duas vozes se fazem ouvir e ambas me confundem. A primeira diz que devo parar de escrever, que tudo isso é inútil, trata-se apenas de uma vaidade infantil alimentada há muito tempo e que não combina com a maturidade. Deixe de escrever, diz a voz, dando-me dezenas de motivos para que eu pare de escrever. Para que continuar escrevendo se ninguém irá ler seus escritos? Não há artista sem público. Todas as tentativas até agora foram apenas fracassos. Desista e pronto.
A outra voz, por seu turno, insiste em me mostrar que minha essência é ser escritor. Você nasceu pra isso, ela diz. Escreva nem que seja para você mesmo, mas escreva. A escrita é o que lhe mantém vivo. Jorge Luis Borges se gabava mais dos livros que leu do que dos livros que escreveu. Penso que sou diferente de Borges. Daí o pensamento natural desta categoria enquanto vaidade, enquanto um sonho irrealizável, mas necessário.
Fiz a contabilidade de minha produção ao longo desses 34 anos. Foram quatro livros de poesia (Auden: as palavras e as coisas, Os Círculos Tebanos, Elegias de Fogo e O dia de Ulisses – este último é uma leitura poética que fiz do Ulisses de James Joyce), cinco romances (A Chuva, Diário de um Percurso Absurdo, A Tempestade, O Livro Branco e Mauristaad), um livro de contos (Saga Cruciatus), um livro sobre a cabala hermética (A Cabala Hermética), um livro sobre o filme Matrix ( A Matrix Cabalística dos irmãos Wachowski), um romance que estou escrevendo sobre Hitler e o Nazismo na Argentina ( O Inverno de Hitler), participação e organização de uma antologia de poesia (Antologia da Novíssima Poesia Pernambucana), uma dissertação de mestrado ( A Negatividade em Mestre Eckhart e sua influência na Ontologia Fundamental de Martin Heidegger), uma tese de doutorado (A Tradição do Pensamento da Negatividade) e uma dezena de artigos filosóficos.
Lembrei-me dos livros dos amigos que ajudei a editar: Poemas de um Devoluto e Livro das Canções Embriagadas de Leonardo Neves, Os Círculos de Hades de Flávio Minno, Contos da Escuridão de Renata Carneiro Leão e O Terceiro Tomo de Gustavo Ogg.
Novamente, tanta coisa e tão poucos leitores. Novamente, vaidade das vaidades. Por que essa insistência? Qual a natureza real desta necessidade? Isso me define? Isso sou eu? A tempestade que se abate sobre mim é real. Trata-se de uma dúvida colossal que me coloca numa prisão.
Tratar-se-á de uma persistência inócua? De um sentimento erigido na infância e que não diz mais nada? Apenas crise? Interessante que é exatamente na escrita que encontro o refrigério para essa angústia. Ou, ao menos assim quero crer, é na escrita que consigo me enxergar melhor, expurgando esse fantasma aterrador da dúvida. E a questão fatídica: é possível parar de escrever?
O ciclo, assim como Uroboros, retorna sobre si mesmo, devorando a tudo. Estigma de uma existência alicerçada em livros. Por que não se tornar meramente leitor – o que fiz tão bem  minha vida toda – e reconhecer que o talento para a escrita é inexistente? Evadir-se em definitivo e reconhecer o que não se é. Talvez o silêncio seja uma benesse. Manter as velhas discussões com os amigos e pronto... basta.
Peso terrível, é verdade. Mas é preciso decidir: um homem dividido é um homem fraco! O caminho que a linguagem enceta não atinge apenas o próprio ser, ele busca um alcance maior de reconhecimento. Envergonhar-se com a vergonha do outro, amar com o amor do outro, viver a vida do outro, sonhar com o sonho do outro. Mas isso não é possível de ser alcançado sem a escrita?
O fantasma que aparece a Hamlet é o fantasma de minha dúvida. Angústia da vaidade ou vaidade da angústia. Tormento da dúvida ou a dúvida do tormento. Tomo o crânio entre minhas mãos, contemplo o céu de tempestades e diviso o fantasma que se aproxima. Escrever ou não escrever, eis a questão.



Meus poemas


Solidão

                               Minha solidão é aterradora.                                               
                               Na sala,
                               tomada por pouca luz,
                               leio Heidegger
                               numa displicência enervante.

                               Aqui não há florestas.
                               Assombrada por gralhas negras
                               e pássaros invisíveis
                               que grasnam em angústia,
                               minha solidão deforma o dia,
                               revela o vazio do copo
                               que insisto, estupidamente,
                               em chamar de existência.

                               É inútil se agarrar a algo
                               compor, como se isso fosse fundamental,
                               a proximidade com as coisas:
                                                                      a janela
                                                                      a velha escrivaninha
                                                                      o sofá
                                                                      e a porta de saída.

                              A luz, que relutante invade o recinto,
                              corta, de uma ponta a outra,
                              os tentáculos de minha solidão –
                              concreta,
                                              absurdamente concreta.

                              Sei que estou desperto –
                              afirmo isso com voz grave –
                              mas minha solidão
                              adormece meus olhos
                              esfria o corpo reticente
                              e coroa a distância
                              com o peso do impossível.

                             É preciso perguntar: “Chegarás?”
                                                
                             O dia,
                                        encharcado de despedidas,
                                                                                   nega.

                            Talvez fosse melhor se evadir,
                            despertar um sentido definitivo
                            em tudo,
                            elucidar aquilo que traz o terrível.

                            A sala se torna pobre.
                            Toda as coisas se revestem de pobreza
                            e, de hora em hora,
                            ela, a pobreza, se avizinha,
                            espreita o mundo
                            e se aninha na minha solidão.

                            Essa constatação não é filosófica:
                           “Minha solidão é aterradora”.
                                                
                            É preciso deixar o livro de lado
                            olhar esse céu de tempestades
                            beber a taça de um só gole
                            e reconhecer
                            que não se é invencível.


Citações



“Os homens deviam ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são.”
William Shakespeare

“Como é terrível conhecer quando o conhecimento não favorece quem o possui.”
Sófocles

“Os sofrimentos humanos têm facetas múltiplas: nunca se encontra outra dor do mesmo tom.”
Ésquilo

“Tem ideia de quanto mal nos fazemos por essa maldita necessidade de falar?”
Luigi Pirandello

“O sucesso está bloqueado se estivermos concentrado nele e a fazer planos para atingi-lo. O sucesso é tímido – só virá quando não estivermos a olhar.”
Tennessee Williams




sexta-feira, 26 de junho de 2015

Comentários Cotidianos


Barroco, Brasil Barroco.

O Barroco foi um movimento artístico europeu que floresceu logo após o Renascimento – entre os séculos XVI e XVIII. A Reforma e a Contrarreforma se engalfinhavam em batalhas ideológicas e pseudofilosóficas. Desde a formação de Estados nacionais, o fortalecimento do protestantismo e o desenvolvimento, nas ciências, do método experimental, até o advento do capitalismo mercantilista, não é difícil perceber que novos princípios ideológicos estavam em cena, marcando o homem da época.
Este novo estilo de vida que alicerça a estética das produções artísticas tem como característica essencial a contradição. A cosmovisão barroca é marcada pelo conflito entre pensamento cristão e pensamento secular, pelo culto ao que é contrastante, pela oposição radical entre homem e céu, mundanidade e sagrado, pelo pessimismo que surge do conflito entre eu e mundo. Ainda mais: a dimensão lúgubre da vida, fusão entre luz e trevas e pelo desejo gigantesco de se exprimir, de exprimir com a mais elevada intensidade o sentido da existência. Ao mesmo tempo, os artistas do Barroco cultuavam a solidão, o uso constante de paradoxos e hipérboles, o impulso pessoal, o niilismo temático,  bem como o uso de repetições e de paralelismos.
E o que tudo isso tem a ver com o Brasil atual? Simples: tudo. Como já disse algumas vezes, o Brasil não passou pelo Renascimento e tampouco foi visitado pelo Iluminismo. Saltamos da Idade Média para a Pós-Modernidade num salto tão desengonçado e abrupto que seguimos aquela velha frase tantas vezes repetidas: “Nos últimos anos não estou entendendo mais nada!”.
Interessantemente, saltamos sobre o Renascimento e adentramos a Pós-Modernidade como se estivéssemos travestidos de homens do Barroco. A aporia, o absurdo, o grotesco e contraditório disso é evidente. O espírito do Brasil ainda é o espírito do homem barroco.
A determinação mais evidente disto é o espírito de contradição tão abertamente deflagrado no Brasil neste século XXI. Do macrocosmo ao microcosmo das relações online, o contraditório salta aqui e ali como um fauno ou um sátiro reticente.
Vivenciamos isto recentemente. Vimos centenas de milhares caminharem nas ruas contra Dilma e, logo em seguida, votarem nela. Vimos estes mesmos que votaram nela defender o impeachment da presidenta. Vimos jovens defendendo uma intervenção militar em nosso país como maneira de garantir a democracia – a maior estupidez deste ano.  Vimos centenas de milhares de pessoas indo às ruas contra a Copa do Mundo – e quantas postagens trataram desta postura – para logo em seguida o país ficar mobilizado defendendo a Canarinha. Vimos o surgimento de uma ala religiosa tão reacionária que nos sentimos num filme que se passa na Idade Média. Uma oposição que defende a terceirização, um governo que escuta Lula afirmar que tem que brigar mais pelas antigas ideologias e não pelo poder e partidos nanicos se escorando nos mais abstrusos programas de governo.  Vimos a defesa de uma saída mais pela direita, mas se esqueceram que o último ano de governo dessa oposição foi sombrio: inflação acima dos 30%, dólar a R$ 4,00 e desemprego na casa dos 18 %. Enfim, vimos muita coisa.
No universo microcósmico não é diferente. Cito meu universo mais próximo: a sala de aula. Os discursos de defesa da ética, do compromisso profissional, da boa convivência e dos bons costumes se perdem quando interesses pessoais entram em cena. A velha fila se torna uma necessidade quase vital. Neste semestre, avisei meus alunos que era antiético se valer dos esforços alheios para amealhar sucesso. Todos concordaram e balançaram a cabeça positivamente. Fiz um teste: disse que teria que sair rapidamente da sala. Assim que fechei a porta atrás de mim, a balbúrdia se instaurou. Abri a porta sorrindo, de supetão. Os alunos riram e uma aluna vaticinou: “Se não tiver fiscalização, ninguém faz o que deveria ser feito”.
O pior se dá em relação às notas. Se a média é 7,0, por exemplo, significa que ela não é 6,9 ou 6,8. Depois das últimas provas, recebo uns dez milhões de e-mails pedindo para que eu “arredonde” a nota. A não aceitação de sua incompetência e a necessidade de expedientes escusos é o indicador desta dimensão da contradição: eu e mundo, luz e trevas: muito barroco.
É esta mesma contradição que invade as atitudes no trânsito, nas repartições públicas, nos hospitais, nas relações entre empresas e Estado, no dia a dia do cidadão mais comum. A contradição é a essência daquilo que convencionamos chamar de “jeitinho brasileiro”. Acrescento: “jeitinho barroco brasileiro”. Para além da corrupção ou da falta de educação, a contradição se revela como a essência do espírito brasileiro.
Quando Pero Vaz pisou em solo brasileiro e pediu troca de favores com o rei, isso já denotou estas possibilidades. De 1500 a 1808 fomos apenas um protopaís, uma protonação, uma protocultura. Quando o rei foge de Napoleão e aporta em terras brasileiras, esse país sentiu-se, num intervalo mínimo, um lugar decente. Mas apenas sentiu, vale lembrar.  A Monarquia se foi e os aproveitadores de plantão instauraram uma República do interesse. A democracia do século XX seguiu seus passos, mesmo depois da Ditadura Militar.
De 1500 a 1808 todos que viam pra cá queriam voltar. Os contratos eram de seis anos – tempo de enriquecer, fortalecer as terras do rei e voltar pra Europa. Bem diferente do espírito de colonização nos EUA, por exemplo. E esse exemplo culmina com a única nação que se libertou da poderosa Inglaterra com guerra.
Essa ideia de que esse país não nos pertence, de que a felicidade está em terras estrangeiras é própria desse sentimento contraditório de pertencer e não pertencer. Sentimento arcaico de nossa colonização e de nosso presente: sincronia e diacronia. De ser e não ser brasileiro, de amar e odiar, de querer e não querer, de saber e não saber, de fazer e não fazer, de governar e não governar.
Creio que nos resta apenas lembrar a introdução daquele velho soneto de Gregório de Matos: “Na confusão do mais horrendo dia, painel da noite em tempestade brava, o fogo com o ar se embaçava, da terra e água o ser se confundia”. Barroco, Brasil Barroco.



Meus Poemas


Marina Infante

O mar abrigou-se em meu peito
e nos seus dias de fúria
constrói tempestades.

Nos tempos de calmaria
quando serenam as águas
respiro aliviado
e contemplo as rochas
o céu aberto e as nuvens límpidas.

Mas não é do mar
a fúria das marés?
Tudo se torna cinza
 e os ventos, em revolta,
trazem as nuvens negras
a chuva pesada
e trovões ensurdecedores.

O mar abrigou-se em meu peito
e me disse que nunca mais iria sair –
habitarei aqui, ele disse,
e assim sigo eu
com minhas tempestades.


Poemas dos Amigos



Poema sem título

Gustavo Pedrosa


No fundo
Aquilo que nos move são emoções


Como números primos
São indivisíveis pelo olhar terceiro
Próprias, as emoções são ímpares
Entretanto e muitotanto contagiantes

São ondas sensoriais atravessando oceanos
Curvas esfacelando retas
Temor ao status quo


Emoções são rupturas instantâneas
Com resultados duradouros
O perfume da rosa desabrochada no impulso

A emoção é contrário do preto estático
Mas brotará de um preto sinfônico
As cores, os sons, as imagens, o paladar
São rubricas dos sonhos
Que a validam


Emoções não tem preço
São o alicerce para que a tornemos
Dia a dia menos monetárias
E mais libertárias.





Livros

Um dos grandes prazeres que sinto com a Internet é a possibilidade de comprar livros online. Vou ao site, pesquiso as possibilidades, antevejo o livro em minhas mãos, sinto o odor de papel madeira, a arte da capa e o que me espera em seu interior. Escolho os livros, faço o pedido e espero a autorização do pagamento. Pagamento autorizado, ok! Depois me evado, deixo de seguir o pedido. Não quero saber se ele saiu da editora, do estoque, de navio. Quero me surpreender com sua chegada.
Assim, num dia inopinado, sou abruptamente surpreendido com a chegada do livro pedido. Logo quando chego à entrada de meu prédio, o porteiro anuncia: “Sua encomenda chegou, professor”. Contemplo o livro embrulhado e sinto uma alegria quase infantil. Subo ao meu apartamento ansioso. Estraçalho a embalagem e ali está ele, o livro. Fetiche invertido que me alimenta desde sempre.
Lembro-me quando ainda possuía o cartão da saudosa Livro 7. Dia bom para o cartão significava dia de alegria, de júbilo intenso pela simples possibilidade de comprar novos livros, de elevar minhas estantes, de completar uma biblioteca que nunca estará completa.



Mês passado recebi o Anti-Édipo de Deleuze e Guattari. Livro que havia estudado na graduação. Pouca leitura de Freud na época. Hoje, tudo mudou e navego seguro por suas páginas. Que prazer imenso! Antes foi a biografia de H. P. Lovecraft que foi devorada em três dias. Depois o Wilt de Tom Sharpe em inglês, idioma que adoro ler e que me aproxima de uma nova experiência estética e linguística.
Hoje pela manhã recebi duas novas encomendas. O almanaque do Recruta Zero e o livro de poesias do amigo Samarone, O Aquário Desenterrado. Abro as embalagens e fico embevecido com os livros. Devo ser muito infantil quando o assunto são livros. Tenho um Kindle que está encostado na estante.
Folheio o almanaque de Zero. Histórias em quadrinhos que me levam direto para minha infância. Os quadrinhos sempre foram fonte de prazer e minha porta de entrada para a literatura. Rio com as piadas geniais de Mort Walker.  


Depois leio alguns poemas de Samarone. A emoção de receber os livros se alinha com a poesia e me emociono ainda mais. O livro de poesias trata da memória, da família, do passado. E são memórias arrancadas de álbuns de fotografia, esse passado congelado que insiste em ser presente. Daí a ideia do aquário. As fotos são desenterradas do armário e o passado compõe o presente. Depois, a constatação inevitável: “Não sei o que fazer com essas imagens./ Escavo-as, como quem encontra um aquário enterrado no quintal / um disco arranhado que ainda toca / saltando aos arranhões”.
Depois que ler cuidadosamente estas obras, a tarefa de compor novamente minha estante se iniciará. Visitar o site, pesquisar os livros, comprar, esperar a autorização do pagamento e esperar a entrega. Esperar ansiosamente.
Sempre concordei com esta afirmação de Borges: o paraíso deve ser uma biblioteca.



Séries


João Velasco (Leonardo Franco) é um rico empresário que mora na Vieira Souto em Ipanema com sua família: sua esposa burguesinha dondoca, Maria Isabel (Paloma Riani) e seus dois filhos: o playboy, bon vivant e traficante de drogas Fred (Hugo Bonemer) e Manu (Jéssika Alves), a menina alienada e tímida.
Tudo ia bem com essa família de classe rica até que Velasco faz uma jogada errada na Bolsa de Valores. Perde tudo e tem seus bens confiscados. Sem querer dizer à família esse desastre que os colocará num estado de miséria, ele decide, inicialmente, se suicidar. Está na varanda de seu apartamento à beira mar quando decide se jogar. Porém, antes de se suicidar, ele decide ir à praia e dar um último mergulho. É na praia que, por acaso, ele encontra uma nota de 50 reais. Faturando algo em torno de um bilhão por ano, o mercado da praia pode ser lucrativo. E o que um executivo experiente não poderia fazer com esse mercado?
Ele retorna com novas esperanças. Diz à família que não irá trabalhar aquele ano: será o seu ano sabático. Mas, na verdade, é o espírito do empreendedor quem fala mais alto. Mas agora, é evidente, um investimento nem um pouco glamouroso.
Essa é a trama que move Preamar, série produzida pela Pindorama e apresentada em 2012 pela HBO Brasil. Um apena que a HBO e a produtora não passaram da primeira temporada. Uma pena, também, que poucas pessoas tenham conhecido a série. Trata-se de “cinema” brasileiro de alta estirpe.
O que Preamar começa a revelar, a partir da empreitada de Velasco em investir no mercado da praia, é o contato entre a classe alta e os habitantes dos morros cariocas. Dois universos paralelos, tão próximos e tão distantes. Para entrar neste mercado, Velasco tem que ter a autorização do Xerife (Roberto Bonfim) que é o “dono” da praia. Vive na favela ao lado de Ipanema, o Pavãozinho, e conhece como ninguém os traquejos da praia. Para ser apresentado ao Xerife, entretanto, Velasco terá que ter como primeiro intermediário o porteiro de seu prédio, o nordestino Biu ( Sóstenes Vidal) que saiu do Piauí pra tentar a vida no Rio de Janeiro. O outro intermediário é Wallace (Mumuzinho), escudeiro do Xerife e malandro da gema, apesar de suas trapalhadas.


Neste mundo em que ricos e pobres se encontram na praia, Preamar desvela as celeumas de um país cortado pelas desigualdades sociais, por vidas com educação, cultura e experiências bem diferentes. Assim, o tráfico de drogas de Fred, que é auxiliado por seu amigo gay, Pepete (Thiago Amaral), se revela mais complexo e perigoso do que uma simples aventura de playboys. Tráfico, corrupção de juízes, chantagem, prostituição, baladas intermináveis, a vida na praia, os conflitos de uma família dilacerada pela crise financeira, as novas necessidades e o universo sempre ambíguo de classes sociais tão diferentes compõem o quadro deste Rio de Janeiro tão belo e aterrador a um só tempo.
Indicação certeira. Vale a pena demais. Não apenas pela trama bem amarrada e muito bem dirigida e escrita, mas também pelas excelentes atuações. Maturidade artística plena.

Eis o link para assistir online:



Artes Visuais


Vaidade, 1640.


Richelieu, 1639.


O sudário de Santa Verônica, 1654.

Philippe de Champaigne (1602-1674) foi um pintor barroco francês que ficou célebre pela força psicológica que conseguia imprimir em seus retratos. Sua enorme produção se concentrava em arte religiosa e retratos. Foi inicialmente influenciado pelo grande Ruben de onde retirou o vigor e rigor de sua composição. Entretanto, atingindo a maturidade artística, suas pinturas ganharam ainda mais em rigor.
Champaigne, ao seu tempo, pintou toda a corte francesa, bem como a nobreza, membros do Estado e do clero. O sucesso de seus quadros residia na sua capacidade incrível de capturar a essência psicológica de seus modelos. A sua capacidade artística lhe permitia alinhar a força do rigor de suas composições a mais elevada expressão da essência das pessoas retratadas.
Essa busca pela permanência, evitando a todo custo elementos transitórios, revela bem sua busca para alcançar uma expressividade artística que fosse além do Barroco.
O naturalismo que percorre suas telas assinala não apenas o rigor de sua composição, mas suas crenças pessoais, uma vez que Champaigne, em 1640, se associa ao Jansenismo do Convento de Port-Royal. O Jansenismo possuía caráter dogmático e moral, inserido numa corrente da antropologia pessimista da época que entendia o pecado como elemento da corrupção humana e a predestinação como possibilidade concreta dentro do catolicismo – e isso a partir de uma discussão medieval entre as posições de Agostinho e Tomás de Aquino.
Porém, para além dos retratos, Champaigne incorpora todos os elementos de um pintor Barroco. Assim o vemos nas suas naturezas mortas cheias de concepções filosóficas e teológicas.

Citações



Não há patriotismo sem oposição e criticismo permanentes”.
Hannah Arendt

“Nossa vida moderna é tal que, quando nos encontramos diante das repetições mais mecânicas, mais estereotipas, fora de nós e em nós, não cessamos de extrair delas pequenas diferenças, variantes e modificações”.
Gilles Deleuze 

“A angústia surge do momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção a um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reencontrar”.
Jacques Lacan

“Ele achava que um fotógrafo não é nada, que deve se fundir à paisagem e se tornar invisível para trabalhar melhor e captar – como ele dizia – a luz natural. Não se ouviria nem mesmo o clique da Rolleiflex. Ele gostaria de dissimular sua máquina. A morte de seu amigo Robert Capa se explicava justamente, segundo ele, por essa vontade, ou essa vertigem, de se fundir de uma vez por todas à paisagem”.
Patrick Modiano

“Todas as coisas já foram ditas; mas como ninguém escuta é preciso sempre recomeçar”.
André Gide

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Comentários Cotidianos


Pessoas, coisas e objetos.

Transformar pessoas em objetos descartáveis. Na articulação da existência pós-moderna, nos trâmites subterrâneos ou superficiais do capitalismo do consumo acelerado e da obsolescência de tudo, a linha que separa a coisa do objeto e o objeto da pessoa se perde, torna-se um nada.
Se não, como explicar a busca por relacionamentos online em que a imagem do outro é uma coisa objetificada, um desejo de uma idealidade não realizável, uma proximidade que não é familiar, mas distante? O obscuro que persegue essa busca – num desejo que muitas vezes nem mais se sabe desejo, mas apenas obrigação – é exatamente a impossibilidade do familiar. Na realização deste desejo-obrigação se dá uma aporia, o antagonismo da realização não realizada, a revelação que o desejo não era desejo e o outro não era o que se esperava. Após saciar-se, o outro pode ser descartado. O saciar-se, e não mais o desejo, confunde aquele que buscava.
Se não, novamente, como compreender a atitude de filhos e netos que depositam seus pais e avós em internatos sem nenhum parentesco com a casa, com o cotidiano, com a proximidade daquilo que se sabia seu? A construção da proximidade, da intimidade, dos percursos arduamente traçados em conjunto é dilacerada. Apenas o eu daquele que deseja o não-desejo, a realização da distância, sente-se bem. Entretanto, não se pode falar, aqui, de um bem em que se deseje sua presença. O bem, aqui, é exatamente a vontade de esquecer o esquecimento, abandonar-se num estado de letargia em que a ação em relação ao outro não seja posta sobre a mesa.
Se sim, pode-se falar, então, na objetificação contínua do ser humano enquanto objeto de consumo? O mundo heteróclito do capitalismo pós-moderno insere novas necessidades, novas construções do desejo que se dá não pela diferença, mas pela identidade e repetição. Interessantemente, mais do que simulacro e simulação, ele é a própria verdade. Não seria a verdade o que se busca em todo desejo que se quer plenitude? Este mundo, que cria mecanismos para que o ser insaciável seja o ser insaciável em si mesmo, rompe com tudo o que é humano (seja demasiado ou não) quando nega a possibilidade de outra via. O que era para ser liberdade, a autonomia e as múltiplas escolhas, torna-se prisão.
Se sim, pode-se afirmar que a metonímia que atua incessantemente nos discursos online e a capacidade incessantemente nova de erigir novos desejos pelo viés do consumo é a nova ordem mundial? O fim da História, preconizado por capitalistas apressados, sucumbiu diante do conflito das nações. Estratégias e interesses internacionais não conseguiram sobrepujar algo que aponta em outra direção: a necessidade de pertencer.
A nova ordem mundial abriga comportamentos heterodirigidos que asseguram sua sobrevivência, sua repetição em algo que não tem nada de simulacro ou simulação. É a verdade mesmo, a essência de um novo modo de ser que abriga e dirige o novo desejo. Ou não seria a nova ordem mundial nada mais do que uma nova ordem do desejo? Mas desejo de quem e por quem ou por quê?
No ato de descartar, o ato mais propriamente pós-moderno que existe, tenta-se criar uma zona de conforto em que a repetição não seja mais a do descarte, mas da permanência. O desejo pela impermanência, antes declamada como a salvação, inverte sua direção e aponta num sentido oposto. A radicalidade que habita nesta proposta é exatamente a possibilidade de esvaziar tudo, transformando absolutamente tudo em objeto. E o objeto, no universo capitalista pós-moderno, já nasceu predestinado ao descarte.
O que libertava, agora prende. O que prendia, agora liberta. O jogo, acima citado, se insere, ele também, na necessidade do consumo. A permanência deve ser medida e tudo, agora objetificado pela lente do desejo-consumo, deve se transformar em objetos. Como averiguar se meus amigos são meus amigos? Devo confiar neles? Como saber se x ou y me ama? Como realizar a compreensão do outro, de sua alteridade inalterável, pelo crivo da objetificação? Até onde suportar o amor, seja dos pais, do ser amado ou dos filhos?
A linha se parte sempre, mas Ariadne logo se prontifica para recompor seus fios e anelar uma perspectiva que surge como nova, mas que já é velha desde sempre. Não é exatamente esta a característica principal daquilo que nasce para ser consumido? O outro e o objeto ganham parentesco com as coisas. Não num mundo existencial em que o jogo se joga desde sempre. Não! Trata-se de novas regras que se insinuam constantemente por todos os poros, por todos os lados, por todas as possibilidades.
Não é de se estranhar que o sexo tenha se transformado em indústria pornográfica; os alimentos em indústria alimentícia; a religião em indústria ideológica; a literatura em indústria cinematográfica; as descobertas em indústria do turismo; a arte se transforma em indústria cultural. Os exemplos são diversos, quase intermináveis. O ser, então, que não pode se objetificar por essência, se ver incumbido de uma decadência que não lhe é própria. Assim, o mal-estar não é tanto a angústia ou o desamparo, a solidão ou o tédio, mas sim esse parentesco com o ignóbil, com a futilidade de tudo, o deserto do sem sentido, da busca criada para ser sempre busca de nada com sabor de tudo.
Seja líquido ou sólido, rarefeito ou denso, vulgar ou sagrado, bestial ou humano, o espaço do objeto parece querer adentrar tudo. E é naquela região em que o ser não pode ser contaminado, região própria de sua constituição, que nasce e permanece a revolta. Evidente que até mesmo a revolta se transformou, ela também, em revolta calculada, ou seja, a indústria do discurso da intransigência e do ódio. Novamente, o outro se objetifica.
Mas a revolta originária, aquela que não se engana e não se permite dormir, enxerga além e constrói uma afronta, um escárnio ao objeto enquanto consumo do vazio. As regras de castração, neste jogo, visam minar a potência que reside nesta revolta. Nada mais justo, portanto, do que permanecer na revolta.
“Alala!”, gritavam os antigos atenienses para evocar a deusa Atenas quando se dirigiam ao campo de batalha. Como canta Homero na sua Ilíada: “Com gritos corriam em direção às naus; sob seus pés se elevou no alto a poeira. Cada um chama pelo outro, para se acercar das naus e arrastá-las para o mar divino”. Um grito de guerra.... sim, um grito de guerra!


Meus Poemas


Anti-Édipo

Não tenho pai e nem mãe.
Nunca os tive.
Foram-me jogados na cara
numa cusparada abrupta
sem me perguntarem nada.

Aceite, gritou a voz universal.

A criança, assombrada
- como todas as crianças –
brincava nos pátios,
corrigia suas lágrimas
e observava os crepúsculos.

Desejo, sombra e distância.

Um pouco mais de tormento,
meu filho.
Um pouco mais de dúvida,
dizia a voz.

Máquina-ânus, máquina-pênis,
a buceta universal do sentido,
o outro do mesmo,
o céu no seu cu, na retina,
no esôfago, nos intestinos.

]]]]]]]]]]]]]]]]]]

Fluxo de tudo e nada
o corpo pleno de terra,
pus, solidão e excrementos.
O corpo-vida, o corpo-morte,
o corpo-corpo, o corpo-nada.

O triângulo da neurose,
o teatro de Édipo demônio
do que não somos.

Corpo pleno de luz,
Akasha não-inferno
do que poderíamos ter sido.

Não! Silente a voz.

A noite caiu pesadamente sobre Viena
já que a morte retorna sempre
e é sentida em plenitude.

Sem nome do pai, do filho
e do espírito não-mãe.


Poemas dos Amigos I



Poema sem título
Flávio Minno

O amor se acabou e eu fiquei na casa,
os sapatos das minhas andanças por longe estão espalhados por perto,
as meias, antes guardadas nas gavetas do zelo,
hoje acompanham aqueles sapatos em desalinho.

Na casa, assim como em mim, ficaram rachaduras,
quando foram arrancados das paredes os quadros para ela levar.
Os copos se acumulam vazios,
dos dias de comemorações de tristezas, achei que seriam poucas,
e de dias de comemorações de nadas.
Coincidentemente os amigos também se foram.

Clarice e Claraboia outro dia me esperavam em algum lugar perdido da casa.
Ontem não passei da primeira elegia de Rilke,
não consegui chegar onde “Todo anjo é terrível”
E agora estou lendo “Como ficar sozinho”.

Me pergunto todos os dias se ainda vai ser possível amar,
nos tornamos mais complexos à medida dos anos que se passam.
Cada um levou uma parcela do que era para se levar,
e às vezes acredito nisso que acabo de ver escrito.

O gato, que passa as madrugadas ao pé do meu sono,
só lambe os poemas que os vou ofertando,
e nisso, ele diz: não há mal, em parar e perder tempo escrevendo uns versos, eu acho.
Acho que o gato ficou doente de lamber os poemas.



Poemas dos Amigos II



DELÍRIOS
Jurandy Aquino 


Quando o brilho dos teus olhos invadiu minha solidão
Ocupou o vazio que existia no meu coração
Uma emoção sem igual tomou conta de mim
Teus olhos de leoa tua pele de cetim
Tua alegria sem igual teu cheiro de jasmim
Por um instante pensei que aquele instante nunca iria ter fim

Mas tudo acabou e cada um foi para o seu lugar para sua região
Só me restou a lembrança, a recordação
Do teu cheiro de jasmim acelerando minha circulação
Da tua imagem guardada no meu coração
Também ficou a saudade e a esperança

Esperança de um dia voltar a sentir a mesma emoção

Os dias vêm e vão os caminhos mudam de direção
As oportunidades se criam tudo depende da nossa decisão
Mas aquele vazio que existia no meu coração
Deu lugar a esperança de sentir novamente a mesma emoção
De olhar teus olhos de leoa, sentir o cheiro da tua pele

Compartilhar momentos de pura alegria e satisfação

Artes Visuais




Tom Wesselman (1931-2004) foi um pintor, escultor e designer comercial norte-americano que integrou a Pop Art americana numa linguagem extremamente pessoal, madura e variada. Wesselman incorpora em suas pinturas, fotomontagens e esculturas as ideias fundamentais da Pop Art: criticar o consumismo, retratar a vida cotidiana, romper a linha que separa arte erudita da arte popular, construir um imaginário de fácil acesso e valer-se de referências do dia a dia.
Wesselman começa sua carreira, realmente, em 1961, quando expõe sua série Great American Nude. De fato, o nu artístico será uma presença constante em suas obras. Wesselman, entratanto, mantinha contato com artistas das mais diversas estirpes e estilos: gravitava entre o minimalismo e a Land Art, bem como mantinha contato com artistas como Enric Bajo, Christo (que já foi tema de uma postagem neste blog), Yves Klein e Mario Schifano. Wesselman também tomou parte no movimento inglês denominado de novo realismo.
Sua estética pop, contudo, é o que dá virilidade à sua obra. Wesselman consegue transitar por temas os mais diversos e manter uma coerência de proposta estética que realça a vibração, as cores, as figuras, os objetos e as pessoas em suas composições.
Na década de 90, entretanto, o artista decide dar uma guinada em seu universo estético e se associa ao movimento dos expressionistas abstratos. O movimento, que surge nos Estados Unidos na década de 40, possui nomes de peso dentro do universo da pintura: Jackson Pollock, Phillip Guston e Willem de Kooning, por exemplo.
Mas é na Pop Art que Wesselman se destaca. Suas cores vibrantes e opacas a um só tempo, a dimensão claustrofóbica de seus banheiros, salas e cozinhas, bem como a excitante composição da fauna humana que ele erige, nos permitem vislumbrar um artista na plenitude de sua maturidade artística.
Objetos do cotidiano como garrafas de coca-cola, sanduíches, TVs, garrafas de uísque e latas de milho podem conviver pacificamente com símbolos fortíssimos do imaginário americano: a velha pintura da cara de velhos presidentes (Washington e Lincoln, por exemplo), estrelas e tiras. Além do mais, a fase erótica de Wesselman acrescenta ao universo Pop um tom inovador devido à maneira como ele a expõe.
Um grande pintor que nos inspira a tomar uma dose de uísque, fumar um cigarro e perambular pelas ruas sem compromisso com nada.



Séries e Música

video



A HBO está apresentando uma nova série brasileira, a Magnífica 70. O cinema brasileiro sempre foi profícuo em tratar da Ditadura Militar brasileira. Os exemplos são diversos: Pra frente Brasil, Eles não usam Blacktie, Ação entre amigos, O que é isso, companheiro? e Batismo de Sangue. 
O mérito da série Magnifíca 70 é seu enfoque sobre a Ditadura: a famigerada censura. A trama gira em torno da produção de filmes durante a Ditadura, especialmente o submundo da famosa Boca do Lixo – polo de produção de filmes eróticos na cidade de São Paulo durante o regime militar. O contrassenso da história é que um censurador, vivido por Marcos Winter, se torna diretor de um filme. O motivo? Ele se apaixona por uma das atrizes, a estonteante Simone Spoladore que quer ser uma grande atriz, apesar de trabalhar apenas em pornochanchadas.

O clima dos anos 70 é preservado com maestria. A direção de Cláudio Torres e Carolina Jabor conseguiu alinhar sensualidade – o que seria óbvio num filme que trata de filmes pornôs da época - com o clima pesado da Ditadura.
Interessante que o cinema é o centro da trama. E é na linguagem cinematográfica que o censurador encontra sua libertação. Crime, putaria, violência e censura compõem os elementos do enredo.
A trilha sonora de abertura ficou por conta da música Sangue Latino da banda Secos e Molhados. A letra diz: “Minha vida, meus mortos/ Meus caminhos tortos/ Sangue Latino/ Minha alma cativa”. Mais apropriado seria impossível.
A HBO Brasil sempre primou pela qualidade em suas produções. A série Mandrake com Marcos Palmeira e a excelente Preamar são um exemplo disso. Séries com cara de cinema. E cinema maduro. Vale a pena conferir.
Eis o link para assistir online os primeiros episódios:

Livros




Kadish - por uma criança não nascida é o último livro de uma trilogia elaborada pelo escritor húngaro e prêmio Nobel de literatura de 2002, Imre Kertész. Os outros dois tomos são Sem Destino e O Fiasco. Kadish é uma prece judaica que é recitada por aqueles que estão de luto. Kadish, aqui, é um soco no estômago. E, acrescente-se, um soco dado por um pugilista profissional e com muita experiência.

Kertész foi enviado para o campo de concentração de Auschwitz em 1944 e foi libertado em 1945, após ter sido enviado para Buchenwald. Sua narrativa – que parece mesclar subterraneamente o louco de Gogol, o holandês de Camus e o Molloy de Becket – traduz seu anseio de explorar a linguagem como lugar da história, da memória e do horror.

Kadish é um livro pequeno e com poucos parágrafos e todos começam com a expressão “Não!”. Este “não” é a resposta inicial de B. a um professor de Filosofia, o Doutor Oblath. O professor questiona se B. queria ou se alguma vez pensou em ter filhos. “Não!” como negação de um passado de terrores, de um presente atormentado por estas lembranças que insistem em permanecer e por um futuro sem grandes esperanças. Mas a força da negação se torna exígua diante do passado, diante das atrocidades vividas num campo de concentração nazista.

Meu Dasein considerado como possibilidade de teu ser” é uma frase que Kertész repete diversas vezes em seu livro. Ele usa uma expressão de Heidegger – filósofo alemão que se filiou ao partido nazista e defendeu abertamente o Führer – para tratar de uma impossibilidade existencial: não querer ter filhos. Imaginando como seria seus filhos, se os tivesse, escreve Kertész: “Se serias tu uma menina de olhos escuros com sardas desbotadas espalhadas ao redor do narizinho? Ou um menino teimoso com olhos tão alegres e duros como seixos azul-acizentados?”

A prosa deste escritor húngaro está carregada de uma poética comovente. Não apenas pelas vivências do autor que já bastariam para comover até as pedras, mas por tentar arrancar da linguagem uma nesga de salvação, de sentido, de alívio, de um refrigério que parece nunca vir. Ele afirma que “aquele que escreve tem que escrever [..] por outro lado não me deixa nessa, ora, como devo dizer, qualidade de insolubilidade”. Trata-se de buscar uma salvação para si mesmo, para que sua vergonha possa ser compartilhada, para que alguém – seja lá quem for – possa se envergonhar por ele.

Num monólogo devastador, B. descreve esse abismo que está a um passo de distância. E esse abismo se revela no livro quando ele está numa reunião de judeus que foram presos em campos de concentração nazistas ou da antiga URSS. Todos dizem de onde eram. B. fica apreensivo diante de sua vez, mas alguém se antecipa e diz “Auschwitz”. E, no meio destes judeus atormentados pelo passado, alguém chama os que sobreviveram a Auschwitz de “imbatível”! E logo surge a famosa frase: “Não há explicação para Auschwitz”.

Diante desta proposição, Kertész desenvolve sua ira e necessidade de atingir uma explicação racional para o Holocausto. Dizer que não há explicação já é dizer que está tudo explicado. Para Kertész, “Auschwit é quadro e ação das vidas singulares, visto sob o signo de uma certa organização. Quando a humanidade como um todo começar a sonhar, nascerá necessariamente Moosbrugger, o atraente assassino estuprador, como pode ser lido em Mussil, em Homem sem qualidades”. Auschwitz foi o horror de criminosos comuns, mas que foram vistos por uma lente distorcida a procura do interessante, original e extraordinário, acrescenta B.

Kadish destila esse paradoxo de um presente que é passado, de uma linguagem potência que é impotente, de uma salvação que não salva de nada. “Às vezes me esgueiro pela cidade como uma fuinha sarnenta que sobrou após o grande extermínio”, escreve Kertész. Um homem amargurado, decrépito diante do que lhe fizeram e que se vale da literatura para lembrar um pouco de sua humanidade. Nos livros, ele afirma, se estipula um diálogo. Antes, continua o autor, quando deus estava vivo, era com ele que falávamos. Agora que ele morreu, são com os homens que entabulamos o diálogo.

Caso você esteja preparado para receber um soco no estômago, recomendo.