segunda-feira, 29 de junho de 2015

Comentários Cotidianos



Escrever ou não escrever, eis a questão.

Meu Hamlet não questiona o ser, questiona a escrita. Escrever ou não escrever, eis a questão. Se existe algo como uma crise pós 40, então muito possivelmente eu devo estar dentro dela.  Recentemente fui acometido por um questionamento avassalador: Para que continuar escrevendo? Para quem? Tão poucos leitores; quase ninguém, na verdade. Por que esta ânsia eterna de escrever, de querer ser admirado, de querer dizer algo e não ter reconhecimento nenhum?
Comecei a escrever aos 10 anos de idade. Foi um pequeno livro de poemas que minha mãe guardou como se fosse uma relíquia. Aos 12 escrevi meu primeiro romance, A Chuva. O livro foi escrito numa pequena máquina Olivetti verde. Depois veio a Filosofia e Nietzsche. Na torpeza de minhas esperanças vãs, me imaginava um escritor renomado, reconhecido pelo alcance e beleza de sua obra. Sei hoje que tudo isso não passa ou não passou de uma ilusão.
Tentei ler a carta de Rilke para o jovem poeta para tentar acalmar minha desilusão. Rilke, num tom confessional, afirma: “Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples ‘Preciso’, então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso”.
Terrivelmente, a resposta ainda não chegou até mim. Talvez seja a chuva que se debruça sobre o Recife, encharcando tudo com essas lembranças tão antigas. Ou talvez seja a crise mesmo, a náusea que pensava ser apenas literatura ou a angústia ontológica em seu sentido mais profundo. O terrível, aqui, é não ter a resposta, não saber dizer a mim mesmo se devo parar definitivamente de escrever ou não.
Duas vozes se fazem ouvir e ambas me confundem. A primeira diz que devo parar de escrever, que tudo isso é inútil, trata-se apenas de uma vaidade infantil alimentada há muito tempo e que não combina com a maturidade. Deixe de escrever, diz a voz, dando-me dezenas de motivos para que eu pare de escrever. Para que continuar escrevendo se ninguém irá ler seus escritos? Não há artista sem público. Todas as tentativas até agora foram apenas fracassos. Desista e pronto.
A outra voz, por seu turno, insiste em me mostrar que minha essência é ser escritor. Você nasceu pra isso, ela diz. Escreva nem que seja para você mesmo, mas escreva. A escrita é o que lhe mantém vivo. Jorge Luis Borges se gabava mais dos livros que leu do que dos livros que escreveu. Penso que sou diferente de Borges. Daí o pensamento natural desta categoria enquanto vaidade, enquanto um sonho irrealizável, mas necessário.
Fiz a contabilidade de minha produção ao longo desses 34 anos. Foram quatro livros de poesia (Auden: as palavras e as coisas, Os Círculos Tebanos, Elegias de Fogo e O dia de Ulisses – este último é uma leitura poética que fiz do Ulisses de James Joyce), cinco romances (A Chuva, Diário de um Percurso Absurdo, A Tempestade, O Livro Branco e Mauristaad), um livro de contos (Saga Cruciatus), um livro sobre a cabala hermética (A Cabala Hermética), um livro sobre o filme Matrix ( A Matrix Cabalística dos irmãos Wachowski), um romance que estou escrevendo sobre Hitler e o Nazismo na Argentina ( O Inverno de Hitler), participação e organização de uma antologia de poesia (Antologia da Novíssima Poesia Pernambucana), uma dissertação de mestrado ( A Negatividade em Mestre Eckhart e sua influência na Ontologia Fundamental de Martin Heidegger), uma tese de doutorado (A Tradição do Pensamento da Negatividade) e uma dezena de artigos filosóficos.
Lembrei-me dos livros dos amigos que ajudei a editar: Poemas de um Devoluto e Livro das Canções Embriagadas de Leonardo Neves, Os Círculos de Hades de Flávio Minno, Contos da Escuridão de Renata Carneiro Leão e O Terceiro Tomo de Gustavo Ogg.
Novamente, tanta coisa e tão poucos leitores. Novamente, vaidade das vaidades. Por que essa insistência? Qual a natureza real desta necessidade? Isso me define? Isso sou eu? A tempestade que se abate sobre mim é real. Trata-se de uma dúvida colossal que me coloca numa prisão.
Tratar-se-á de uma persistência inócua? De um sentimento erigido na infância e que não diz mais nada? Apenas crise? Interessante que é exatamente na escrita que encontro o refrigério para essa angústia. Ou, ao menos assim quero crer, é na escrita que consigo me enxergar melhor, expurgando esse fantasma aterrador da dúvida. E a questão fatídica: é possível parar de escrever?
O ciclo, assim como Uroboros, retorna sobre si mesmo, devorando a tudo. Estigma de uma existência alicerçada em livros. Por que não se tornar meramente leitor – o que fiz tão bem  minha vida toda – e reconhecer que o talento para a escrita é inexistente? Evadir-se em definitivo e reconhecer o que não se é. Talvez o silêncio seja uma benesse. Manter as velhas discussões com os amigos e pronto... basta.
Peso terrível, é verdade. Mas é preciso decidir: um homem dividido é um homem fraco! O caminho que a linguagem enceta não atinge apenas o próprio ser, ele busca um alcance maior de reconhecimento. Envergonhar-se com a vergonha do outro, amar com o amor do outro, viver a vida do outro, sonhar com o sonho do outro. Mas isso não é possível de ser alcançado sem a escrita?
O fantasma que aparece a Hamlet é o fantasma de minha dúvida. Angústia da vaidade ou vaidade da angústia. Tormento da dúvida ou a dúvida do tormento. Tomo o crânio entre minhas mãos, contemplo o céu de tempestades e diviso o fantasma que se aproxima. Escrever ou não escrever, eis a questão.



Citações



“Os homens deviam ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são.”
William Shakespeare

“Como é terrível conhecer quando o conhecimento não favorece quem o possui.”
Sófocles

“Os sofrimentos humanos têm facetas múltiplas: nunca se encontra outra dor do mesmo tom.”
Ésquilo

“Tem ideia de quanto mal nos fazemos por essa maldita necessidade de falar?”
Luigi Pirandello

“O sucesso está bloqueado se estivermos concentrado nele e a fazer planos para atingi-lo. O sucesso é tímido – só virá quando não estivermos a olhar.”
Tennessee Williams




sexta-feira, 26 de junho de 2015

Comentários Cotidianos


Barroco, Brasil Barroco.

O Barroco foi um movimento artístico europeu que floresceu logo após o Renascimento – entre os séculos XVI e XVIII. A Reforma e a Contrarreforma se engalfinhavam em batalhas ideológicas e pseudofilosóficas. Desde a formação de Estados nacionais, o fortalecimento do protestantismo e o desenvolvimento, nas ciências, do método experimental, até o advento do capitalismo mercantilista, não é difícil perceber que novos princípios ideológicos estavam em cena, marcando o homem da época.
Este novo estilo de vida que alicerça a estética das produções artísticas tem como característica essencial a contradição. A cosmovisão barroca é marcada pelo conflito entre pensamento cristão e pensamento secular, pelo culto ao que é contrastante, pela oposição radical entre homem e céu, mundanidade e sagrado, pelo pessimismo que surge do conflito entre eu e mundo. Ainda mais: a dimensão lúgubre da vida, fusão entre luz e trevas e pelo desejo gigantesco de se exprimir, de exprimir com a mais elevada intensidade o sentido da existência. Ao mesmo tempo, os artistas do Barroco cultuavam a solidão, o uso constante de paradoxos e hipérboles, o impulso pessoal, o niilismo temático,  bem como o uso de repetições e de paralelismos.
E o que tudo isso tem a ver com o Brasil atual? Simples: tudo. Como já disse algumas vezes, o Brasil não passou pelo Renascimento e tampouco foi visitado pelo Iluminismo. Saltamos da Idade Média para a Pós-Modernidade num salto tão desengonçado e abrupto que seguimos aquela velha frase tantas vezes repetidas: “Nos últimos anos não estou entendendo mais nada!”.
Interessantemente, saltamos sobre o Renascimento e adentramos a Pós-Modernidade como se estivéssemos travestidos de homens do Barroco. A aporia, o absurdo, o grotesco e contraditório disso é evidente. O espírito do Brasil ainda é o espírito do homem barroco.
A determinação mais evidente disto é o espírito de contradição tão abertamente deflagrado no Brasil neste século XXI. Do macrocosmo ao microcosmo das relações online, o contraditório salta aqui e ali como um fauno ou um sátiro reticente.
Vivenciamos isto recentemente. Vimos centenas de milhares caminharem nas ruas contra Dilma e, logo em seguida, votarem nela. Vimos estes mesmos que votaram nela defender o impeachment da presidenta. Vimos jovens defendendo uma intervenção militar em nosso país como maneira de garantir a democracia – a maior estupidez deste ano.  Vimos centenas de milhares de pessoas indo às ruas contra a Copa do Mundo – e quantas postagens trataram desta postura – para logo em seguida o país ficar mobilizado defendendo a Canarinha. Vimos o surgimento de uma ala religiosa tão reacionária que nos sentimos num filme que se passa na Idade Média. Uma oposição que defende a terceirização, um governo que escuta Lula afirmar que tem que brigar mais pelas antigas ideologias e não pelo poder e partidos nanicos se escorando nos mais abstrusos programas de governo.  Vimos a defesa de uma saída mais pela direita, mas se esqueceram que o último ano de governo dessa oposição foi sombrio: inflação acima dos 30%, dólar a R$ 4,00 e desemprego na casa dos 18 %. Enfim, vimos muita coisa.
No universo microcósmico não é diferente. Cito meu universo mais próximo: a sala de aula. Os discursos de defesa da ética, do compromisso profissional, da boa convivência e dos bons costumes se perdem quando interesses pessoais entram em cena. A velha fila se torna uma necessidade quase vital. Neste semestre, avisei meus alunos que era antiético se valer dos esforços alheios para amealhar sucesso. Todos concordaram e balançaram a cabeça positivamente. Fiz um teste: disse que teria que sair rapidamente da sala. Assim que fechei a porta atrás de mim, a balbúrdia se instaurou. Abri a porta sorrindo, de supetão. Os alunos riram e uma aluna vaticinou: “Se não tiver fiscalização, ninguém faz o que deveria ser feito”.
O pior se dá em relação às notas. Se a média é 7,0, por exemplo, significa que ela não é 6,9 ou 6,8. Depois das últimas provas, recebo uns dez milhões de e-mails pedindo para que eu “arredonde” a nota. A não aceitação de sua incompetência e a necessidade de expedientes escusos é o indicador desta dimensão da contradição: eu e mundo, luz e trevas: muito barroco.
É esta mesma contradição que invade as atitudes no trânsito, nas repartições públicas, nos hospitais, nas relações entre empresas e Estado, no dia a dia do cidadão mais comum. A contradição é a essência daquilo que convencionamos chamar de “jeitinho brasileiro”. Acrescento: “jeitinho barroco brasileiro”. Para além da corrupção ou da falta de educação, a contradição se revela como a essência do espírito brasileiro.
Quando Pero Vaz pisou em solo brasileiro e pediu troca de favores com o rei, isso já denotou estas possibilidades. De 1500 a 1808 fomos apenas um protopaís, uma protonação, uma protocultura. Quando o rei foge de Napoleão e aporta em terras brasileiras, esse país sentiu-se, num intervalo mínimo, um lugar decente. Mas apenas sentiu, vale lembrar.  A Monarquia se foi e os aproveitadores de plantão instauraram uma República do interesse. A democracia do século XX seguiu seus passos, mesmo depois da Ditadura Militar.
De 1500 a 1808 todos que viam pra cá queriam voltar. Os contratos eram de seis anos – tempo de enriquecer, fortalecer as terras do rei e voltar pra Europa. Bem diferente do espírito de colonização nos EUA, por exemplo. E esse exemplo culmina com a única nação que se libertou da poderosa Inglaterra com guerra.
Essa ideia de que esse país não nos pertence, de que a felicidade está em terras estrangeiras é própria desse sentimento contraditório de pertencer e não pertencer. Sentimento arcaico de nossa colonização e de nosso presente: sincronia e diacronia. De ser e não ser brasileiro, de amar e odiar, de querer e não querer, de saber e não saber, de fazer e não fazer, de governar e não governar.
Creio que nos resta apenas lembrar a introdução daquele velho soneto de Gregório de Matos: “Na confusão do mais horrendo dia, painel da noite em tempestade brava, o fogo com o ar se embaçava, da terra e água o ser se confundia”. Barroco, Brasil Barroco.



Poemas dos Amigos



Poema sem título

Gustavo Pedrosa


No fundo
Aquilo que nos move são emoções


Como números primos
São indivisíveis pelo olhar terceiro
Próprias, as emoções são ímpares
Entretanto e muitotanto contagiantes

São ondas sensoriais atravessando oceanos
Curvas esfacelando retas
Temor ao status quo


Emoções são rupturas instantâneas
Com resultados duradouros
O perfume da rosa desabrochada no impulso

A emoção é contrário do preto estático
Mas brotará de um preto sinfônico
As cores, os sons, as imagens, o paladar
São rubricas dos sonhos
Que a validam


Emoções não tem preço
São o alicerce para que a tornemos
Dia a dia menos monetárias
E mais libertárias.





Livros

Um dos grandes prazeres que sinto com a Internet é a possibilidade de comprar livros online. Vou ao site, pesquiso as possibilidades, antevejo o livro em minhas mãos, sinto o odor de papel madeira, a arte da capa e o que me espera em seu interior. Escolho os livros, faço o pedido e espero a autorização do pagamento. Pagamento autorizado, ok! Depois me evado, deixo de seguir o pedido. Não quero saber se ele saiu da editora, do estoque, de navio. Quero me surpreender com sua chegada.
Assim, num dia inopinado, sou abruptamente surpreendido com a chegada do livro pedido. Logo quando chego à entrada de meu prédio, o porteiro anuncia: “Sua encomenda chegou, professor”. Contemplo o livro embrulhado e sinto uma alegria quase infantil. Subo ao meu apartamento ansioso. Estraçalho a embalagem e ali está ele, o livro. Fetiche invertido que me alimenta desde sempre.
Lembro-me quando ainda possuía o cartão da saudosa Livro 7. Dia bom para o cartão significava dia de alegria, de júbilo intenso pela simples possibilidade de comprar novos livros, de elevar minhas estantes, de completar uma biblioteca que nunca estará completa.



Mês passado recebi o Anti-Édipo de Deleuze e Guattari. Livro que havia estudado na graduação. Pouca leitura de Freud na época. Hoje, tudo mudou e navego seguro por suas páginas. Que prazer imenso! Antes foi a biografia de H. P. Lovecraft que foi devorada em três dias. Depois o Wilt de Tom Sharpe em inglês, idioma que adoro ler e que me aproxima de uma nova experiência estética e linguística.
Hoje pela manhã recebi duas novas encomendas. O almanaque do Recruta Zero e o livro de poesias do amigo Samarone, O Aquário Desenterrado. Abro as embalagens e fico embevecido com os livros. Devo ser muito infantil quando o assunto são livros. Tenho um Kindle que está encostado na estante.
Folheio o almanaque de Zero. Histórias em quadrinhos que me levam direto para minha infância. Os quadrinhos sempre foram fonte de prazer e minha porta de entrada para a literatura. Rio com as piadas geniais de Mort Walker.  


Depois leio alguns poemas de Samarone. A emoção de receber os livros se alinha com a poesia e me emociono ainda mais. O livro de poesias trata da memória, da família, do passado. E são memórias arrancadas de álbuns de fotografia, esse passado congelado que insiste em ser presente. Daí a ideia do aquário. As fotos são desenterradas do armário e o passado compõe o presente. Depois, a constatação inevitável: “Não sei o que fazer com essas imagens./ Escavo-as, como quem encontra um aquário enterrado no quintal / um disco arranhado que ainda toca / saltando aos arranhões”.
Depois que ler cuidadosamente estas obras, a tarefa de compor novamente minha estante se iniciará. Visitar o site, pesquisar os livros, comprar, esperar a autorização do pagamento e esperar a entrega. Esperar ansiosamente.
Sempre concordei com esta afirmação de Borges: o paraíso deve ser uma biblioteca.



Séries


João Velasco (Leonardo Franco) é um rico empresário que mora na Vieira Souto em Ipanema com sua família: sua esposa burguesinha dondoca, Maria Isabel (Paloma Riani) e seus dois filhos: o playboy, bon vivant e traficante de drogas Fred (Hugo Bonemer) e Manu (Jéssika Alves), a menina alienada e tímida.
Tudo ia bem com essa família de classe rica até que Velasco faz uma jogada errada na Bolsa de Valores. Perde tudo e tem seus bens confiscados. Sem querer dizer à família esse desastre que os colocará num estado de miséria, ele decide, inicialmente, se suicidar. Está na varanda de seu apartamento à beira mar quando decide se jogar. Porém, antes de se suicidar, ele decide ir à praia e dar um último mergulho. É na praia que, por acaso, ele encontra uma nota de 50 reais. Faturando algo em torno de um bilhão por ano, o mercado da praia pode ser lucrativo. E o que um executivo experiente não poderia fazer com esse mercado?
Ele retorna com novas esperanças. Diz à família que não irá trabalhar aquele ano: será o seu ano sabático. Mas, na verdade, é o espírito do empreendedor quem fala mais alto. Mas agora, é evidente, um investimento nem um pouco glamouroso.
Essa é a trama que move Preamar, série produzida pela Pindorama e apresentada em 2012 pela HBO Brasil. Um apena que a HBO e a produtora não passaram da primeira temporada. Uma pena, também, que poucas pessoas tenham conhecido a série. Trata-se de “cinema” brasileiro de alta estirpe.
O que Preamar começa a revelar, a partir da empreitada de Velasco em investir no mercado da praia, é o contato entre a classe alta e os habitantes dos morros cariocas. Dois universos paralelos, tão próximos e tão distantes. Para entrar neste mercado, Velasco tem que ter a autorização do Xerife (Roberto Bonfim) que é o “dono” da praia. Vive na favela ao lado de Ipanema, o Pavãozinho, e conhece como ninguém os traquejos da praia. Para ser apresentado ao Xerife, entretanto, Velasco terá que ter como primeiro intermediário o porteiro de seu prédio, o nordestino Biu ( Sóstenes Vidal) que saiu do Piauí pra tentar a vida no Rio de Janeiro. O outro intermediário é Wallace (Mumuzinho), escudeiro do Xerife e malandro da gema, apesar de suas trapalhadas.


Neste mundo em que ricos e pobres se encontram na praia, Preamar desvela as celeumas de um país cortado pelas desigualdades sociais, por vidas com educação, cultura e experiências bem diferentes. Assim, o tráfico de drogas de Fred, que é auxiliado por seu amigo gay, Pepete (Thiago Amaral), se revela mais complexo e perigoso do que uma simples aventura de playboys. Tráfico, corrupção de juízes, chantagem, prostituição, baladas intermináveis, a vida na praia, os conflitos de uma família dilacerada pela crise financeira, as novas necessidades e o universo sempre ambíguo de classes sociais tão diferentes compõem o quadro deste Rio de Janeiro tão belo e aterrador a um só tempo.
Indicação certeira. Vale a pena demais. Não apenas pela trama bem amarrada e muito bem dirigida e escrita, mas também pelas excelentes atuações. Maturidade artística plena.

Eis o link para assistir online:



Artes Visuais


Vaidade, 1640.


Richelieu, 1639.


O sudário de Santa Verônica, 1654.

Philippe de Champaigne (1602-1674) foi um pintor barroco francês que ficou célebre pela força psicológica que conseguia imprimir em seus retratos. Sua enorme produção se concentrava em arte religiosa e retratos. Foi inicialmente influenciado pelo grande Ruben de onde retirou o vigor e rigor de sua composição. Entretanto, atingindo a maturidade artística, suas pinturas ganharam ainda mais em rigor.
Champaigne, ao seu tempo, pintou toda a corte francesa, bem como a nobreza, membros do Estado e do clero. O sucesso de seus quadros residia na sua capacidade incrível de capturar a essência psicológica de seus modelos. A sua capacidade artística lhe permitia alinhar a força do rigor de suas composições a mais elevada expressão da essência das pessoas retratadas.
Essa busca pela permanência, evitando a todo custo elementos transitórios, revela bem sua busca para alcançar uma expressividade artística que fosse além do Barroco.
O naturalismo que percorre suas telas assinala não apenas o rigor de sua composição, mas suas crenças pessoais, uma vez que Champaigne, em 1640, se associa ao Jansenismo do Convento de Port-Royal. O Jansenismo possuía caráter dogmático e moral, inserido numa corrente da antropologia pessimista da época que entendia o pecado como elemento da corrupção humana e a predestinação como possibilidade concreta dentro do catolicismo – e isso a partir de uma discussão medieval entre as posições de Agostinho e Tomás de Aquino.
Porém, para além dos retratos, Champaigne incorpora todos os elementos de um pintor Barroco. Assim o vemos nas suas naturezas mortas cheias de concepções filosóficas e teológicas.

Citações



Não há patriotismo sem oposição e criticismo permanentes”.
Hannah Arendt

“Nossa vida moderna é tal que, quando nos encontramos diante das repetições mais mecânicas, mais estereotipas, fora de nós e em nós, não cessamos de extrair delas pequenas diferenças, variantes e modificações”.
Gilles Deleuze 

“A angústia surge do momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção a um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reencontrar”.
Jacques Lacan

“Ele achava que um fotógrafo não é nada, que deve se fundir à paisagem e se tornar invisível para trabalhar melhor e captar – como ele dizia – a luz natural. Não se ouviria nem mesmo o clique da Rolleiflex. Ele gostaria de dissimular sua máquina. A morte de seu amigo Robert Capa se explicava justamente, segundo ele, por essa vontade, ou essa vertigem, de se fundir de uma vez por todas à paisagem”.
Patrick Modiano

“Todas as coisas já foram ditas; mas como ninguém escuta é preciso sempre recomeçar”.
André Gide

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Comentários Cotidianos


Pessoas, coisas e objetos.

Transformar pessoas em objetos descartáveis. Na articulação da existência pós-moderna, nos trâmites subterrâneos ou superficiais do capitalismo do consumo acelerado e da obsolescência de tudo, a linha que separa a coisa do objeto e o objeto da pessoa se perde, torna-se um nada.
Se não, como explicar a busca por relacionamentos online em que a imagem do outro é uma coisa objetificada, um desejo de uma idealidade não realizável, uma proximidade que não é familiar, mas distante? O obscuro que persegue essa busca – num desejo que muitas vezes nem mais se sabe desejo, mas apenas obrigação – é exatamente a impossibilidade do familiar. Na realização deste desejo-obrigação se dá uma aporia, o antagonismo da realização não realizada, a revelação que o desejo não era desejo e o outro não era o que se esperava. Após saciar-se, o outro pode ser descartado. O saciar-se, e não mais o desejo, confunde aquele que buscava.
Se não, novamente, como compreender a atitude de filhos e netos que depositam seus pais e avós em internatos sem nenhum parentesco com a casa, com o cotidiano, com a proximidade daquilo que se sabia seu? A construção da proximidade, da intimidade, dos percursos arduamente traçados em conjunto é dilacerada. Apenas o eu daquele que deseja o não-desejo, a realização da distância, sente-se bem. Entretanto, não se pode falar, aqui, de um bem em que se deseje sua presença. O bem, aqui, é exatamente a vontade de esquecer o esquecimento, abandonar-se num estado de letargia em que a ação em relação ao outro não seja posta sobre a mesa.
Se sim, pode-se falar, então, na objetificação contínua do ser humano enquanto objeto de consumo? O mundo heteróclito do capitalismo pós-moderno insere novas necessidades, novas construções do desejo que se dá não pela diferença, mas pela identidade e repetição. Interessantemente, mais do que simulacro e simulação, ele é a própria verdade. Não seria a verdade o que se busca em todo desejo que se quer plenitude? Este mundo, que cria mecanismos para que o ser insaciável seja o ser insaciável em si mesmo, rompe com tudo o que é humano (seja demasiado ou não) quando nega a possibilidade de outra via. O que era para ser liberdade, a autonomia e as múltiplas escolhas, torna-se prisão.
Se sim, pode-se afirmar que a metonímia que atua incessantemente nos discursos online e a capacidade incessantemente nova de erigir novos desejos pelo viés do consumo é a nova ordem mundial? O fim da História, preconizado por capitalistas apressados, sucumbiu diante do conflito das nações. Estratégias e interesses internacionais não conseguiram sobrepujar algo que aponta em outra direção: a necessidade de pertencer.
A nova ordem mundial abriga comportamentos heterodirigidos que asseguram sua sobrevivência, sua repetição em algo que não tem nada de simulacro ou simulação. É a verdade mesmo, a essência de um novo modo de ser que abriga e dirige o novo desejo. Ou não seria a nova ordem mundial nada mais do que uma nova ordem do desejo? Mas desejo de quem e por quem ou por quê?
No ato de descartar, o ato mais propriamente pós-moderno que existe, tenta-se criar uma zona de conforto em que a repetição não seja mais a do descarte, mas da permanência. O desejo pela impermanência, antes declamada como a salvação, inverte sua direção e aponta num sentido oposto. A radicalidade que habita nesta proposta é exatamente a possibilidade de esvaziar tudo, transformando absolutamente tudo em objeto. E o objeto, no universo capitalista pós-moderno, já nasceu predestinado ao descarte.
O que libertava, agora prende. O que prendia, agora liberta. O jogo, acima citado, se insere, ele também, na necessidade do consumo. A permanência deve ser medida e tudo, agora objetificado pela lente do desejo-consumo, deve se transformar em objetos. Como averiguar se meus amigos são meus amigos? Devo confiar neles? Como saber se x ou y me ama? Como realizar a compreensão do outro, de sua alteridade inalterável, pelo crivo da objetificação? Até onde suportar o amor, seja dos pais, do ser amado ou dos filhos?
A linha se parte sempre, mas Ariadne logo se prontifica para recompor seus fios e anelar uma perspectiva que surge como nova, mas que já é velha desde sempre. Não é exatamente esta a característica principal daquilo que nasce para ser consumido? O outro e o objeto ganham parentesco com as coisas. Não num mundo existencial em que o jogo se joga desde sempre. Não! Trata-se de novas regras que se insinuam constantemente por todos os poros, por todos os lados, por todas as possibilidades.
Não é de se estranhar que o sexo tenha se transformado em indústria pornográfica; os alimentos em indústria alimentícia; a religião em indústria ideológica; a literatura em indústria cinematográfica; as descobertas em indústria do turismo; a arte se transforma em indústria cultural. Os exemplos são diversos, quase intermináveis. O ser, então, que não pode se objetificar por essência, se ver incumbido de uma decadência que não lhe é própria. Assim, o mal-estar não é tanto a angústia ou o desamparo, a solidão ou o tédio, mas sim esse parentesco com o ignóbil, com a futilidade de tudo, o deserto do sem sentido, da busca criada para ser sempre busca de nada com sabor de tudo.
Seja líquido ou sólido, rarefeito ou denso, vulgar ou sagrado, bestial ou humano, o espaço do objeto parece querer adentrar tudo. E é naquela região em que o ser não pode ser contaminado, região própria de sua constituição, que nasce e permanece a revolta. Evidente que até mesmo a revolta se transformou, ela também, em revolta calculada, ou seja, a indústria do discurso da intransigência e do ódio. Novamente, o outro se objetifica.
Mas a revolta originária, aquela que não se engana e não se permite dormir, enxerga além e constrói uma afronta, um escárnio ao objeto enquanto consumo do vazio. As regras de castração, neste jogo, visam minar a potência que reside nesta revolta. Nada mais justo, portanto, do que permanecer na revolta.
“Alala!”, gritavam os antigos atenienses para evocar a deusa Atenas quando se dirigiam ao campo de batalha. Como canta Homero na sua Ilíada: “Com gritos corriam em direção às naus; sob seus pés se elevou no alto a poeira. Cada um chama pelo outro, para se acercar das naus e arrastá-las para o mar divino”. Um grito de guerra.... sim, um grito de guerra!


Poemas dos Amigos I



Poema sem título
Flávio Minno

O amor se acabou e eu fiquei na casa,
os sapatos das minhas andanças por longe estão espalhados por perto,
as meias, antes guardadas nas gavetas do zelo,
hoje acompanham aqueles sapatos em desalinho.

Na casa, assim como em mim, ficaram rachaduras,
quando foram arrancados das paredes os quadros para ela levar.
Os copos se acumulam vazios,
dos dias de comemorações de tristezas, achei que seriam poucas,
e de dias de comemorações de nadas.
Coincidentemente os amigos também se foram.

Clarice e Claraboia outro dia me esperavam em algum lugar perdido da casa.
Ontem não passei da primeira elegia de Rilke,
não consegui chegar onde “Todo anjo é terrível”
E agora estou lendo “Como ficar sozinho”.

Me pergunto todos os dias se ainda vai ser possível amar,
nos tornamos mais complexos à medida dos anos que se passam.
Cada um levou uma parcela do que era para se levar,
e às vezes acredito nisso que acabo de ver escrito.

O gato, que passa as madrugadas ao pé do meu sono,
só lambe os poemas que os vou ofertando,
e nisso, ele diz: não há mal, em parar e perder tempo escrevendo uns versos, eu acho.
Acho que o gato ficou doente de lamber os poemas.



Poemas dos Amigos II



DELÍRIOS
Jurandy Aquino 


Quando o brilho dos teus olhos invadiu minha solidão
Ocupou o vazio que existia no meu coração
Uma emoção sem igual tomou conta de mim
Teus olhos de leoa tua pele de cetim
Tua alegria sem igual teu cheiro de jasmim
Por um instante pensei que aquele instante nunca iria ter fim

Mas tudo acabou e cada um foi para o seu lugar para sua região
Só me restou a lembrança, a recordação
Do teu cheiro de jasmim acelerando minha circulação
Da tua imagem guardada no meu coração
Também ficou a saudade e a esperança

Esperança de um dia voltar a sentir a mesma emoção

Os dias vêm e vão os caminhos mudam de direção
As oportunidades se criam tudo depende da nossa decisão
Mas aquele vazio que existia no meu coração
Deu lugar a esperança de sentir novamente a mesma emoção
De olhar teus olhos de leoa, sentir o cheiro da tua pele

Compartilhar momentos de pura alegria e satisfação

Artes Visuais




Tom Wesselman (1931-2004) foi um pintor, escultor e designer comercial norte-americano que integrou a Pop Art americana numa linguagem extremamente pessoal, madura e variada. Wesselman incorpora em suas pinturas, fotomontagens e esculturas as ideias fundamentais da Pop Art: criticar o consumismo, retratar a vida cotidiana, romper a linha que separa arte erudita da arte popular, construir um imaginário de fácil acesso e valer-se de referências do dia a dia.
Wesselman começa sua carreira, realmente, em 1961, quando expõe sua série Great American Nude. De fato, o nu artístico será uma presença constante em suas obras. Wesselman, entratanto, mantinha contato com artistas das mais diversas estirpes e estilos: gravitava entre o minimalismo e a Land Art, bem como mantinha contato com artistas como Enric Bajo, Christo (que já foi tema de uma postagem neste blog), Yves Klein e Mario Schifano. Wesselman também tomou parte no movimento inglês denominado de novo realismo.
Sua estética pop, contudo, é o que dá virilidade à sua obra. Wesselman consegue transitar por temas os mais diversos e manter uma coerência de proposta estética que realça a vibração, as cores, as figuras, os objetos e as pessoas em suas composições.
Na década de 90, entretanto, o artista decide dar uma guinada em seu universo estético e se associa ao movimento dos expressionistas abstratos. O movimento, que surge nos Estados Unidos na década de 40, possui nomes de peso dentro do universo da pintura: Jackson Pollock, Phillip Guston e Willem de Kooning, por exemplo.
Mas é na Pop Art que Wesselman se destaca. Suas cores vibrantes e opacas a um só tempo, a dimensão claustrofóbica de seus banheiros, salas e cozinhas, bem como a excitante composição da fauna humana que ele erige, nos permitem vislumbrar um artista na plenitude de sua maturidade artística.
Objetos do cotidiano como garrafas de coca-cola, sanduíches, TVs, garrafas de uísque e latas de milho podem conviver pacificamente com símbolos fortíssimos do imaginário americano: a velha pintura da cara de velhos presidentes (Washington e Lincoln, por exemplo), estrelas e tiras. Além do mais, a fase erótica de Wesselman acrescenta ao universo Pop um tom inovador devido à maneira como ele a expõe.
Um grande pintor que nos inspira a tomar uma dose de uísque, fumar um cigarro e perambular pelas ruas sem compromisso com nada.



Séries e Música




A HBO está apresentando uma nova série brasileira, a Magnífica 70. O cinema brasileiro sempre foi profícuo em tratar da Ditadura Militar brasileira. Os exemplos são diversos: Pra frente Brasil, Eles não usam Blacktie, Ação entre amigos, O que é isso, companheiro? e Batismo de Sangue. 
O mérito da série Magnifíca 70 é seu enfoque sobre a Ditadura: a famigerada censura. A trama gira em torno da produção de filmes durante a Ditadura, especialmente o submundo da famosa Boca do Lixo – polo de produção de filmes eróticos na cidade de São Paulo durante o regime militar. O contrassenso da história é que um censurador, vivido por Marcos Winter, se torna diretor de um filme. O motivo? Ele se apaixona por uma das atrizes, a estonteante Simone Spoladore que quer ser uma grande atriz, apesar de trabalhar apenas em pornochanchadas.

O clima dos anos 70 é preservado com maestria. A direção de Cláudio Torres e Carolina Jabor conseguiu alinhar sensualidade – o que seria óbvio num filme que trata de filmes pornôs da época - com o clima pesado da Ditadura.
Interessante que o cinema é o centro da trama. E é na linguagem cinematográfica que o censurador encontra sua libertação. Crime, putaria, violência e censura compõem os elementos do enredo.
A trilha sonora de abertura ficou por conta da música Sangue Latino da banda Secos e Molhados. A letra diz: “Minha vida, meus mortos/ Meus caminhos tortos/ Sangue Latino/ Minha alma cativa”. Mais apropriado seria impossível.
A HBO Brasil sempre primou pela qualidade em suas produções. A série Mandrake com Marcos Palmeira e a excelente Preamar são um exemplo disso. Séries com cara de cinema. E cinema maduro. Vale a pena conferir.
Eis o link para assistir online os primeiros episódios:

Livros




Kadish - por uma criança não nascida é o último livro de uma trilogia elaborada pelo escritor húngaro e prêmio Nobel de literatura de 2002, Imre Kertész. Os outros dois tomos são Sem Destino e O Fiasco. Kadish é uma prece judaica que é recitada por aqueles que estão de luto. Kadish, aqui, é um soco no estômago. E, acrescente-se, um soco dado por um pugilista profissional e com muita experiência.

Kertész foi enviado para o campo de concentração de Auschwitz em 1944 e foi libertado em 1945, após ter sido enviado para Buchenwald. Sua narrativa – que parece mesclar subterraneamente o louco de Gogol, o holandês de Camus e o Molloy de Becket – traduz seu anseio de explorar a linguagem como lugar da história, da memória e do horror.

Kadish é um livro pequeno e com poucos parágrafos e todos começam com a expressão “Não!”. Este “não” é a resposta inicial de B. a um professor de Filosofia, o Doutor Oblath. O professor questiona se B. queria ou se alguma vez pensou em ter filhos. “Não!” como negação de um passado de terrores, de um presente atormentado por estas lembranças que insistem em permanecer e por um futuro sem grandes esperanças. Mas a força da negação se torna exígua diante do passado, diante das atrocidades vividas num campo de concentração nazista.

Meu Dasein considerado como possibilidade de teu ser” é uma frase que Kertész repete diversas vezes em seu livro. Ele usa uma expressão de Heidegger – filósofo alemão que se filiou ao partido nazista e defendeu abertamente o Führer – para tratar de uma impossibilidade existencial: não querer ter filhos. Imaginando como seria seus filhos, se os tivesse, escreve Kertész: “Se serias tu uma menina de olhos escuros com sardas desbotadas espalhadas ao redor do narizinho? Ou um menino teimoso com olhos tão alegres e duros como seixos azul-acizentados?”

A prosa deste escritor húngaro está carregada de uma poética comovente. Não apenas pelas vivências do autor que já bastariam para comover até as pedras, mas por tentar arrancar da linguagem uma nesga de salvação, de sentido, de alívio, de um refrigério que parece nunca vir. Ele afirma que “aquele que escreve tem que escrever [..] por outro lado não me deixa nessa, ora, como devo dizer, qualidade de insolubilidade”. Trata-se de buscar uma salvação para si mesmo, para que sua vergonha possa ser compartilhada, para que alguém – seja lá quem for – possa se envergonhar por ele.

Num monólogo devastador, B. descreve esse abismo que está a um passo de distância. E esse abismo se revela no livro quando ele está numa reunião de judeus que foram presos em campos de concentração nazistas ou da antiga URSS. Todos dizem de onde eram. B. fica apreensivo diante de sua vez, mas alguém se antecipa e diz “Auschwitz”. E, no meio destes judeus atormentados pelo passado, alguém chama os que sobreviveram a Auschwitz de “imbatível”! E logo surge a famosa frase: “Não há explicação para Auschwitz”.

Diante desta proposição, Kertész desenvolve sua ira e necessidade de atingir uma explicação racional para o Holocausto. Dizer que não há explicação já é dizer que está tudo explicado. Para Kertész, “Auschwit é quadro e ação das vidas singulares, visto sob o signo de uma certa organização. Quando a humanidade como um todo começar a sonhar, nascerá necessariamente Moosbrugger, o atraente assassino estuprador, como pode ser lido em Mussil, em Homem sem qualidades”. Auschwitz foi o horror de criminosos comuns, mas que foram vistos por uma lente distorcida a procura do interessante, original e extraordinário, acrescenta B.

Kadish destila esse paradoxo de um presente que é passado, de uma linguagem potência que é impotente, de uma salvação que não salva de nada. “Às vezes me esgueiro pela cidade como uma fuinha sarnenta que sobrou após o grande extermínio”, escreve Kertész. Um homem amargurado, decrépito diante do que lhe fizeram e que se vale da literatura para lembrar um pouco de sua humanidade. Nos livros, ele afirma, se estipula um diálogo. Antes, continua o autor, quando deus estava vivo, era com ele que falávamos. Agora que ele morreu, são com os homens que entabulamos o diálogo.

Caso você esteja preparado para receber um soco no estômago, recomendo.


Citações





“Indivíduos frágeis, destinados a conduzir suas vidas numa realidade porosa, sentem-se como que patinando sobre gelo fino; e ao patinar sobre gelo fino, observou Ralph Waldo Emerson em seu ensaio Prudence, ‘nossa segurança está em nossa velocidade’. Indivíduos, frágeis ou não, precisam de segurança, anseiam por segurança, buscam a segurança e assim tentam, ao máximo, fazer o que fazem com a máxima velocidade. Estando entre os corredores rápidos, diminuir a velocidade significa ser deixado para trás; ao patinar em gelo fino, diminuir a velocidade também significa a ameaça real de afogar-se. Portanto, a velocidade sobe para o topo da lista dos valores de sobrevivência.”
Zygmunt Bauman

“A autoconsciência substitui a consciência de classe, a consciência narcisista substitui a consciência política.”
Gilles Lipovetsky

“Nenhum artista está além de seu tempo. Ele é seu tempo; o que acontece é que os outros estão atrasados no tempo”.
Martha Graham

“O aparecimento, na História, de uma concepção escapista do ‘lazer’ coincide com a organização do lazer como uma extensão da produção de mercadorias.”
Christopher Lasch



segunda-feira, 15 de junho de 2015

Comentários Cotidianos


“Cerveja... cerveja...”

Parece que o Estado brasileiro só possui uma única função: infernizar a vida dos cidadãos. A terceirização universal que insiste em bater em nossas portas, a quantidade absurda de impostos que temos que pagar com uma contraparte ridícula, a precariedade crônica do atendimento do SUS, a desgraça cotidiana do transporte público, a desorganização imbecil daqueles que controlam o tráfego das grandes cidades, o atendimento hediondo em algumas repartições públicas e a fábrica imoral de multas que é o DETRAN são alguns destes pontos que nos aproximam do inferno.
Mas quero falar aqui de um ponto que se transformou num martírio para torcedores apaixonados por futebol e cerveja: a proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios. Aqui em Pernambuco, o caso se iniciou em 2009 com a aprovação quase que por unanimidade da lei 13.478 de autoria do deputado Alberto Feitosa do PR. O deputado estadual do PSDB, o senhor Antônio Moraes, propôs a revogação desta lei, mas a bancada evangélica e um punhado de deputados moralistas e sem argumentos válidos conseguiram barrar a votação. Resultado: nada de cerveja nos jogos aqui em nosso Estado.
O argumento de que a venda de bebidas aumenta a violência nos estádios só encobre a total incapacidade e incompetência do Estado em lidar com questões de segurança pública. A contradição gritante surgiu durante os jogos da Copa em que, pasmem, uma lei foi suspensa por alguns dias. Vemos que, em verdade, essa proibição não diminuiu em nada a violência entre as torcidas organizadas que, bebendo ou não, antes, durante ou depois, mantêm as atrocidades em dias de clássico. O caso do torcedor que jogou uma privada da arquibancada e matou outro torcedor ou as eternas brigas e depredações entre as organizadas em dia de jogo demonstram que o problema é mais complexo e exige atitudes mais inteligentes. Uma sugestão: tipificar as ações destes torcedores como um crime novo e com penas severas.
Lembro-me que desde a infância ia com meu pai assistir aos jogos do Santinha no Arruda. O ritual se repetia sempre: cachorro-quente na entrada do estádio (o melhor cachorro-quente do mundo, diga-se de passagem) e tomar chopp da Brahma dentro do estádio. Comprávamos uns espetinhos e ficávamos com um olho no jogo e outro no cara da cerveja que empunhava com todo orgulho seu isopor cheio daquelas garrafinhas gorduchas de cerveja.
Meu amigo Leonardo Neves parou de ir aos jogos. Rubro-negro apaixonado e sempre assíduo aos jogos, Léo ficou tão revoltado com essa ignomínia que decidiu jamais por os pés em qualquer jogo enquanto for proibido vender bebidas nos estádios. Prefere ir para algum bar onde possa assistir aos jogos pela TV e tomar sua cervejinha.
Um caso interessante ocorreu na última decisão do campeonato pernambucano entre Santa Cruz e Salgueiro. Fui com meu amigo Fábio Negão me encontrar com Samarone e Esequias no Poço da Panela. Era aniversário de Samarone e estava rolando uma festa imensa no Poço. Tomamos umas cervas no bar de seu Vital e havia uma festa organizada pela torcida do Santa numa casa: cachaça, feijoada e fruta à vontade. Tomamos todas antes do jogo. Comemorávamos o aniversário de Samarone e a chance de sermos campeões. Uma hora antes do jogo partimos.
Dentro do estádio, surgiu o desespero. Sem cerveja, ficamos de ressaca e de cara durante o jogo. Foi desesperador. Samarone andava de um lado pra outro e gritava: “Cerveja...cerveja...”. Lembrei-me de meu pai, de minha adolescência e do cara com o isopor. Era como se aquele apelo o fizesse aparecer de alguma maneira mágica, trazendo a cerveja salvadora. Mas a realidade nua e crua, estúpida e castradora apontava em outra direção. Nada de cerveja.... nada de prazer... nada de reminiscências.
Fui novamente com Samarone para o jogo entre o Santa e o Boa Esporte no Arruda. A série B e o péssimo time do Santinha. Salários atrasados, falta de zaga e ataque. Tomamos umas cervejas com Esequias em seu Abílio, bar que fica  nas dependências do estádio. Esequias seguiu pras sociais e Samarone e eu seguimos para as arquibancadas. Bola no travessão, torcida vaiando o time e nada de cerveja.
No intervalo fomos comer um cachorro-quente. O melhor do mundo, repito.  Samarone tinha um acesso vip e dei a ideia: vamos sair e comprar uma cervejinha. Fui barrado, mas ele conseguiu sair e voltou em cinco minutos. Seus olhos brilhavam. Seguimos para um lugar afastado dos olhares de todos e, escondidos, pegamos dois copos. Samarone retirou dos bolsos um latão de cerveja. Enchemos nossos copos como se fôssemos criminosos e voltamos para o jogo que já tinha se iniciado. Que prazer assistir ao jogo bebendo nem que seja um mísero copo de cerveja. Pensei em meu pai e uma alegria indescritível se abateu sobre mim. O velho e bom cachorro-quente do Arruda com cerveja. Porra, pai, você se sentiria orgulhoso de mim agora.
Que absurdo tipificar uma ação dessa natureza como criminosa. Que imbecilidade se abateu sobre este século que a castração é a regra. Que falta de bom senso. Uma pena que a hipocrisia que ronda essa proibição – e creio que minha voz, aqui, se faz a voz de milhares de torcedores sedentos – não consiga enxergar a essência das coisas. Meu pai ria com essas babaquices, esses seres canhestros que não sentem prazer na vida e querem condenar todos ao infortúnio.
Por enquanto, tomaremos todas antes e depois do jogo. Assistiremos aos jogos embriagados, mas intranquilos. Com uma raiva específica e um sentimento de pena pelos seres mal amados. Aquele grito ainda vai ecoar muito nos jogos: “Cerveja... cerveja...”.


Comentários Cotidianos II



Da velha e boa dose diária de religião. 

As novas religiões da pós-modernidade: ecologia e ciclismo. Sempre certos, absurdamente fanáticos e donos de toda intransigência possível. É melhor esquecer o diálogo, eis o mote de toda religião. Os sem ouvidos. 

Culinária




O Lula Navegador é o restaurante do meu amigo Antônio Araújo (que também é guitarrista das bandas Korzus e One Arm Away). A ideia do restaurante surgiu de seu pai, seu Luís, que sempre foi um amante da cozinha. Sempre que tem a oportunidade, seu Luís adora cozinhar para seus convidados. E ele cozinha bem demais, assim como o próprio Antônio, principalmente se o assunto for massas e molhos.
O restaurante possui uma culinária autoral de alto nível. Assim que abriram o restaurante, Antônio convidou o chef Alberto Bernardini para capitanear a cozinha do restaurante. Alberto trabalhou com Alex Atala e aprendeu bastante com o grande mestre. Só isso já dava pra dar todas as credenciais ao Lula Navegador. Alberto mudou-se recentemente para a Suécia e agora a cozinha é conduzida pelo chef peruano Alexander Jimenez Cruz que manteve o alto padrão da cozinha e, ainda melhor, acrescentou coisas novas e deliciosas.
Seu Luís é prático e trabalha no porto de Suape. Ama os navios e o mar e foi daí que surgiu o design do lugar: parece que adentramos num restaurante de um navio. Há boias, âncoras, nós de marinheiro e diversas fotos de navios e embarcações compondo a paisagem do ambiente. Extremamente aconchegante e inovador. Há uma imensa foto com seu Luís subindo a escada de um navio e a inscrição: Navegar é preciso, viver não é preciso. Famosa frase de Pompeu aos seus marinheiros: Navigare necesse, vivere non est necesse
Mas vamos ao que interessa: a comida. O cardápio é variado e compõe pratos que agradarão qualquer paladar, por mais rigoroso e exigente que seja. A peixada de Sirigado é sempre uma excelente pedida para quem quer sentir o sabor de nossa terra com um requinte único. Na Trattoria, e às vezes o próprio Antônio brinda seus clientes com os molhos, os pratos italianos são compostos sempre a partir de uma nova proposta estética e culinária. O filé marinado em cerveja preta é covardia. Uma delícia que deve ser degustada sem pudor. Se acompanhado de um bom vinho ou de uma cerveja, melhor ainda.
A dimensão da cozinha autoral permite que o chef componha um Red Velvet Cake como se fosse um bolo de rolo. Para quem é fanático por camarões, a dica é o Fettucini Alfredo com Camarões. Ceviche, Creme Brûllée, Risoto de Funghi, Filé Mignon Alto, Polpetone, o famoso Kobe Beef e o Risoni com polvo crocante (que está na foto acima) são algumas das delícias que podem ser degustadas no Lula Navegador.

Deu vontade? O Lula Navegador se situa na Rua Alberto Paiva, 174, no bairro das Graças, Recife. Funciona de terça a domingo nos seguintes horários: 3ª a sábado, jantar, a partir das 19h. Sexta a domingo, almoço, a partir das 12 h. Os preços dos pratos variam entre R$ 35 e R$ 70. Mais do que recomendo. Culinária de alto nível e feita com sabedoria e paixão. 

Poemas dos Amigos




Poema de amor em dias sem amor

Pietro Wagner


Eu que não tenho deus nem pátria
No meio do meu dia achei você
E desde então abandonei as lágrimas
O medo sincero, as dores, as mágoas
E me dei o perdão de te conhecer

Me dei também o que é
Uma vez ao menos levado
Pelas orações do eterno
Que eu não quero nem queria crer

Não creio em mim e em nada que
Arredonde a pedra das calçadas
Nem no verbo nem na elegia creio
Não creio em nada que me comove
Ou me alivia

Credo tão somente em ti e em ti meu creio basta

E o Jesus não crucificado
Na crucificação do Jesus de São Paulo
E as metrópoles todas orçadas
Nos evangelhos loucos
Que crucificam o amor
E nos impedem de orar
Pelo que se ora
Esse mundo não
Pode outra vez querer que amor
De novo seja fogo que arde e não se vê

Antes que nos calem as fogueiras
Destes dias
Te amo como amo a porta do inferno
Como adoro as tantas feições do que é mau e bom


Anima as almas desses sacerdotes da violência
Que um dia me proibirão de te gostar
E de gostar de gostar de ti
Sem deus e sem pátria
Anima essas almas algo
Que me um dia afastará
Amor de mim

Mas sempre restará
Eu e tu e nossa lida
Querendo ou não as cinzas
Que nestes dias se prenunciam




Artes Visuais






Zdzisław Beksiński foi um artista polonês. Transitando por universos paralelos como o gótico, o pós-surrealismo e o barroco, a obra de Beksiński possui um tom confessional que vai além da experiência pessoal. Confessa-se, antes de tudo, nossa proximidade com a morte, a solidão e a imaginação.
Seu surrealismo distópico não comporta, assim como as obras de Dali, o sonho. Aproxima-se mais do terror e do pesadelo de artistas como H. R. Giger e Francis Bacon. O terror que ele visita é o terror da imaginação. O temível, aqui, não tem caráter de real como é o caso da obra de Bacon. Possui, outrossim, o caráter do fantástico como a obra de Giger.Mas isso não quer dizer que Beksiński tenha sido influenciado por estes artistas. Sua obra possui voz própria, sintonizada com necessidades que transitam do particularismo mais radical ao universal mais abstrato. Beksiński compõe seu universo estético através de pinturas, fotomontagens e fotos.
A solidão que pervade suas obras, acionada por paisagens desérticas e personagens sombrios e taciturnos, conduz o pensamento a uma reflexão sobre esta mesma dimensão, ou seja, sobre o caráter sombrio da solidão.
A morte, outro tema tão caro a Beksiński, se revela como uma eterna companheira na vida do ser humano, desde o nascimento até nosso suspiro final. O entrelaçamento destes temas, em sua obra, parece apontar para uma característica bem própria do universo de H. P. Lovrcraft: loucura e solidão, amor e deserto, universo e sujeito.
Beksiński nasceu em 1929 e faleceu em 2005. Seu legado, entretanto, permanece vivo, extremamente vivo.

Livros


Tom Sharpe é um novelista satírico inglês. Ouvi falar de Sharpe pela primeira vez através de meu amigo austríaco, Nobert. Estava em sua casa quando ele trouxe um livro de Sharpe em alemão: Puppenmord. Traduzindo para português, o título do livro seria O Assassino de Bonecas. Nobert contou com tanta desenvoltura as aventuras loucas do professor Wilt – e o fato do professor “assassinar” uma boneca inflável, jogá-la numa construção abandonada e ficar aterrorizado quando, da janela de sua sala de aula, avistou alguns trabalhadores retornando as obras e na eminência de descobrirem o “cadáver” da boneca – que fiquei ansioso para encontrar uma edição em português ou inglês.
Pesquisei por algum tempo pelo título da obra, já que tinha esquecido completamente o nome do autor. Minhas pesquisas no Google foram infrutíferas com as possíveis variações do título em português ou inglês. Subitamente, decidi escrever em inglês no Google a ideia que tinha do livro. Então, quase que por mágica, surgiu a obra que passei tanto tempo procurando: Wilt.
Henry Wilt, a personagem central do livro de Sharpe, é um professor de literatura. Vive sua vida pacata no interior da Inglaterra. Entretanto, essa vida não é tão pacata assim. Wilt é aterrorizado por sua esposa, Eva. O assédio é tão agressivo que Wilt começa a sonhar em assassinar sua esposa. O que ocorre, de fato, é que ele termina por assassinar uma boneca inflável, imaginando-a como sua esposa. Daí o título em alemão.
Os fatos se seguem numa desordem absurda. Em meio ao caos que se transforma sua pacata vida, Wilt tenta descobrir um pouco de dignidade, de amor próprio. A história fica ainda mais interessante quando Wilt começa a ser perseguido pelo inspetor Flint. Não há um crime de fato, mas Flint suspeita das ações descabidas do professor e o persegue, antevendo os crimes hediondos que ele poderia cometer.
Sua esposa conhece um casal de americanos, os Prigsheim, que os convidam para um churrasco. Os americanos parecem modernos e avançados nas questões morais. Sally Prigsheim, para demonstrar que os homens são seres infiéis por natureza, se insinua para Wilt. É neste momento que Wilt se depara com a boneca inflável que lhe foi dada como provocação por Sally.
A absurdidade e o caos da relação entre Wilt e Eva é o tema desta obra de Tom Sharpe. Numa escrita rápida e certeira, satírica e ácida, ele desenvolve um olhar arguto sobre as dimensões mais obscuras das podridões humanas no que se refere a relacionamentos de longas datas. Da humilhação ao caos, da confusão ao conformismo, Sharpe destila sua linguagem corrosiva sem pudor algum. Bom para o leitor.

Infelizmente, creio que a única obra traduzida para o português (e de Portugal) foi A Aternativa Wilt. Há traduções das obras de Sharpe em francês e espanhol. Uma pena que esse escritor não tenha sido ainda descoberto em terras tupiniquins. Ler suas obras em espanhol ou inglês é melhor do que em português de Portugal, sinceramente. Mas seria muito melhor em português brasileiro. Vamos esperar.

Citações


"De alguma forma, nunca consegui me ajustar na sociedade. Não gosto da humanidade. Não tenho o menor desejo de me ajustar, nenhum senso de lealdade, nenhum objetivo de fato".

Charles Bukowski

"Viver os desejos, esgotá-los na vida, é o destino de toda a existência".

Henry Miller

“Um homem inteligente é por vezes forçado a embebedar-se ou isolar-se para conseguir aguentar idiotas com que se vai cruzando todos os dias”.

Ernest Hemingway

“Não há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade de seus semelhantes”.

Marquês de Sade

“Ah, vossa liberdade zelosamente a guardais, como sois usurpadores da liberdade dos demais?”

Manuel Bocage

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Comentários Cotidianos


Fantasmas do passado.

            Pedi para meu  amigo novo (expressão usada pelo próprio) Samarone Lima (escritor, poeta e jornalista) para fazer uma palestra na faculdade onde leciono. O tema foi Ditadura Militar na América Latina. Samarone sempre dedicou grande parte de sua vida jornalística à pesquisa sobre as Ditaduras Militares. Destas empreitadas surgiu sua obra Zé que trata da vida de um militante morto nos porões da Ditadura e o livro Clamor – movimento da arquidiocese de São Paulo que lidava com os filhos órfãos dos militantes torturados e assassinados na Ditadura do Uruguai.
            A palestra versou, também, sobre estes temas. Samarone contou sobre suas viagens à Argentina, Chile e Uruguai. Sempre em busca da entrevista certa, da personagem certa e do sentimento certo. Não se tratava tanto de uma denúncia dos horrores destes regimes, mas da dimensão aterradoramente humana que os envolve e isso sempre à luz do discurso daquele que sofre e é degredado. Uso o tempo presente porque os terrores do passado não se evolam como uma fumaça simples de uma chaleira de café. Ao contrário, são lembranças fantasmas sempre presentes. E pesadas, absurdamente pesadas.
            Foi no meio da palestra que Samarone narrou algo que chamou muito minha atenção. Ele contou que estava na Argentina pesquisando e entrevistando algumas figuras daquele tempo quando se deparou com uma notícia bastante peculiar no jornal: convocatória para o Escracho. Trata-se de um movimento que ocorre em Buenos Aires e Montevidéu onde os manifestantes se dirigem à residência ou local de trabalho de alguém que foi torturador no regime militar. No Chile, o movimento se chama funa. O objetivo é demonstrar para a população local quem realmente foi aquela pessoa.O termo é usado pelo coletivo de direitos humanos H. I.J.O.S. (Hijos por la Identidad y Justicia contra el Olvido e el Silencio)
          Samarone contou que leu o anúncio e se dirigiu, no outro dia, ao local marcado. De repente, ele se viu dentro de um ônibus com diversos jovens tocando violão e cantando. Então ele percebeu que estava cercado por jovens órfãos cujos pais foram torturados e assassinados pelo governo de Rafael Videla. Uma geração inteira de jovens sem passado, ou melhor, com um passado assombrado pela perda e a impossibilidade.
            Os militares argentinos sequestravam os  militantes e abandonavam seus filhos. Pior: muitas vezes as crianças eram criadas por militares para que não crescessem num ambiente revolucionário, uma vez que seriam educadas dentro dos ideais dos militares. Traduzindo: fascismo com requinte do mais alto grau.
No dia do escracho, os filhos órfãos se dirigiram ao consultório de um médico num dos muitos bairros de Buenos Aires. Arrancaram a placa do médico apregoada na entrada do edifício e, no lugar, colocaram uma nova placa onde estava inscrito que ali estava um torturador do regime de Videla. Samarone narrou que houve discursos acalorados e, por fim, a secretária do médico subiu ao palanque dos discursos e disse que estava pedindo demissão, pois era inaceitável trabalhar para um torturador. Não se trata, aqui, de perdoar. O perdão, neste caso, teria o poder incomensurável de uma mordaça eterna. Gritar, berrar, acusar e escrachar é, nestes termos, um ato de libertação.
            Entretanto, para além do peso histórico, o escracho me revelou uma atitude existencial e psicológica. Trata-se, antes de tudo, de uma acusação que quer expurgar os fantasmas do passado. O escrachador foi amarrado a um peso do passado que lhe sufoca, que lhe incomoda e o coloca em perigo. Como diria Heidegger, o homem é o único ser que, sendo, está em jogo seu próprio ser. O escrachador está no limite, na ponta do despenhadeiro de seus fantasmas. E estes fantasmas não param de assombrar.
            Diferentemente da moral cristã que exige o perdão a qualquer afronta - por mais absurda, agressiva e grotesca que seja – o escracho visa o desmascaro. A denúncia é reveladora, assim como a essência da verdade. A resignação cristã não cabe no espírito do escrachador. Apenas no ato da denúncia e da acusação é que seu espírito pode se libertar. O fantasma, acorrentado e gemendo como o fantasma de Jacob Marley no conto de Charles Dickens, traz o peso de mil grilhões e precisa ser expurgado.
            Se pensarmos em nossos fantasmas, em nossos terrores pessoais, parece plausível concluir que a metodologia do escracho pode nos auxiliar a nos libertar dessas correntes invisíveis. Para além da moral da resignação, o sabor da vingança do escracho (e aqui me lembro de Nietzsche e Cioran) coloca aquele que é assombrado numa situação de superioridade. Não tanto uma superioridade moral, mas uma superioridade de atitude.
            No seu artigo intitulado Odisseia do rancor, Cioran afirma: “Passamos a maior parte de nossas vigílias em despedaçar com o pensamento a nossos inimigos, em arrancar seus olhos e suas entranhas, em pressionar e esvaziar suas veias, em pisotear e machucar cada um de seus órgãos, deixando-lhes, unicamente por lástima, o prazer de seus esqueletos. O programa de nossas noites seria menos pesado se, durante o dia, pudéssemos dar livre curso a nossos instintos maus”. Parece que Cioran estava mirando o escracho com estas palavras.

            Desmascarar nossos fantasmas, expô-los à luz do dia, fazê-los sofrer e sentir o que sentimos é compartilhar. Compartilhamos o que nos aterroriza e, assim, nos libertamos. O outro, que somos nós mesmos, se escuta e faz falar. Um  discurso de peso, é bem verdade, mas que, se arduamente conquistado, conduz a um novo dia, muito mais leve e claro. Absurdamente claro.