sexta-feira, 17 de julho de 2015

Comentários Cotidianos



Há, no Recife, três times principais: Santa Cruz Futebol Clube, Sport Club do Recife e Clube Náutico Capibaribe. O Santa Cruz possui esse nome devido à sua origem no Pátio da Santa Cruz no centro do Recife. O Sport Club tem o nome em inglês por ter sido fundado por um estudante que veio da Inglaterra e estava apaixonado pelo esporte bretão. O termo náutico se refere ao fato deste clube ter se originado a partir de esportes náuticos e não do futebol – no caso, o remo.
Ora, Futebol Clube, Sport Club e Clube Náutico não são, de fato, os nomes destes clubes, mas definições genéricas de associações esportivas. Logo, no Recife, temos os seguintes principais clubes: Santa Cruz, Recife e Capibaribe. Simples assim. E em bom português e sem generalizações vazias. 

Comentários Cotidianos II


América Latina e Pós-Modernidade.

No seu artigo Puede hablarse de postmodernidad en America Latina?, George Yudice principia citando a constatação limitadora imposta por Juan Corradi. Para Corradi, não se poderia falar de pós-modernidade na Argentina. Logo, por extensão, não seria correto afirmar esta tal de pós-modernidade por aqui; para ele, o correto seria falar em pseudomodernidade. Nós, latinos americanos, estaríamos fadados ao selo da cópia e do atraso. Acima de tudo, o atraso.
Segundo Yudice, Carlos Waisman, na mesma linha, compreende que o discurso da pós-modernidade é mera reprodução, assim como todo discurso proveniente dos países centrais. Corradi, ainda segundo Yudice, pontuou que esse caráter de simulacro do discurso pós-moderno acentua a perda do pensamento crítico que é inerente ao espaço público. Além do mais, nesta discussão, Nelson Osorio constata que é impossível analisar a cultura latino americana a partir de uma perspectiva  pós-moderna. Insiste que o conceito de pós-modernidade é estrangeiro e que precisamos construir, cientificamente, conceitos que se possam adequar melhor à nossa realidade.
A tese de Yudice aponta em outra direção. Yudice, que estudou com Silvia Molloy e trabalhou com o grupo de Fredric Jameson, afirma que é preciso compreender a pós-modernidade em dois sentidos: 1º Heterogeneidade das formações econômicas, sociais e culturais e 2º A possibilidade de participação democrática nestas formações heterogêneas. Neste sentido, a tese de Yudice é oposta: fomos pós-modernos antes mesmo dos EUA e dos países da Europa.
Octávio Paz já havia assinalado algo parecido quando afirmou em seu O Ocaso dos Vanguardistas que nós, latinos americanos, sempre vivemos na periferia da História. Agora, com a pós-modernidade, não há mais centro, não há país ou países centrais. Todos são periferia agora. A estética proposta por Paz, neste contexto, é a estética do agora. Deve-se soerguer uma moral, uma política, uma erótica e uma poética do agora. Mas tudo na periferia de tudo, já que o centro não é mais.
O agora, o tempo presente, este turbilhão que é e já passou se torna o cerne de toda a questão.  Yudice, diante deste problema, entende que a pós-modernidade não é uma nova epistemè que surge após a modernidade. Deve-se entender a pós-modernidade como a compreensão de que a modernidade consiste em múltiplas “respostas/respostas”, ou seja, que há “múltiplas modernidades, múltiplas formações sociais e culturais que constituem a modernidade”.
 Trata-se, então, de uma condição. Que condição? Sobre Yudice, escreve Tânia Ramos: esta condição é a própria condição “[...] na qual se pensa a modernidade para se ler a multiplicidade de modos de ser moderno ou para se rever os termos que a define. É bom lembrar que quando uma certa época atribui a si mesma o adjetivo moderna, produz, por contraste, um passado arcaico e estabilizado. Afinal, o tempo clássico é linear e a sua apreensão é sempre feita pelas concepções de mudança e variação”.
No âmbito político ou artístico, insere-se o conceito de articulação criadora. Ernesto Laclau e Chantal Mouffe – apontando, em certo sentido, para as teorias de Foucault, Lyotard, Baudrillard, Bordieu e Bauman - entendem que a existência de diversos atores sociais indica um contraste ao perigo do totalitarismo que “impõem articulações imutáveis de maneira autoritária”. A democracia deveria, portanto, ser o espaço de reconhecimento da multiplicidade de lógicas sociais e da necessidade de poder articulá-las.
A articulação criadora não seria uma lógica da reprodução cultural ou da separação entre autêntico e postiço. Esta postura nega a existência, como entende Subercaseaux, de um núcleo cultural endógeno não contaminado, centro e fonte de um purismo cultural, dos mitos de essencialismos de qualquer tipo. Ao contrário, propõe a noção de uma cultura ecumênica, aberta e não endogâmica.
A originalidade de Yudice, assim creio, reside em alinhar estes pensadores e propor uma tese interessante. O autor se foca na concepção de capacidade libertadora. Para a maioria dos estudiosos, este poder se dissipou diante das aberrações do Fascismo e do Nazismo. No mundo capitalista, as vanguardas são absorvidas pelo mercado consumista. Toda neovanguarda ou transvanguarda, aqui,  nada mais é do que repetição.
O poder libertador está na própria cultura. Yudice segue de perto o pensamento de Habermas aqui. Para o filósofo alemão, a pós-modernidade se trata de um impasse político-cultural à espera da correção da Modernidade. Para Habermas, a pós-modernidade desvincula o mundo da vida (Lebenswelt na teoria de Husserl) do sistema, bem como acentua sua racionalização nas esferas da ciência, moral e estética. Trata-se da colonização da Lebenswelt pelo Estado e pela Economia.
Jameson, entretanto, aponta num percurso diferente. Para ele, o mundo atual está totalmente colonizado a tal ponto que é quase impossível reconhecê-lo. Ainda mais: não há autonomia crítica da esfera cultural ou estética, uma vez que  a vida social – valores da economia, estrutura estatal e suas práticas – tornou-se, ela também, cultural em certo sentido.
Surge, portanto, a nossa questão central: como se manifesta a cultura nos países da América Latina? Para o citado Jameson, todo texto latino americano é uma alegoria do nacional, oriunda da leitura, o que não se passa nos países de primeiro mundo, uma vez que, nestes países, as alegorias são inconscientes devido à sua maior complexidade e abstração.
Yudice critica severamente Jameson. Ele não defende um modelo ocidental-eurocêntrico de cultura. Na crítica de Yudice, Jameson tem que construir seu modelo de pós-modernidade para compor sua compreensão da cultura do terceiro mundo. Trata-se de entender que não há um racionalismo universal, uma verdade platônica absoluta pairando sobre as outras culturas.  
São as situações de aprendizagem, de existir, das múltiplas possibilidades e contradições da racionalidade que permitem compreender os contextos e suas interações. Seria como a causa e efeito em Hegel. Citando José Brunner, Yudice nos faz ver que a pós-modernidade destrói as repetições coletivas, causa confusão de horizontes, descentraliza tudo, numa implosão de sentidos consumidos, produzidos e reproduzidos.
Por fim, a resposta de Yudice é afirmativa. Sim, podemos pensar em pós-modernidade na América Latina. E ele se vale do exemplo de nossos modernistas. A proposta de antropofagia da cultura europeia não tinha apenas a tarefa de “devorá-la”. Tratava-se de inventar o passado e criar o futuro a partir de uma arqueologia estética: uma apropriação criadora. Nossos modernistas acreditavam nos princípios dos futuristas, na sociedade da máquina e da velocidade, mas quando se debruçaram sobre o Brasil o fizeram voltados para o Brasil Colonial.
Sobre o projeto de uma construção nacional por parte de nossos modernistas,  Mário de Andrade confessou que o movimento modernista era o preparador para a criação de um novo estado de ser nacional. O que ocorreu após o auge do movimento? O Estado Novo! Contínua aspiração de ser moderna. Mais pós-moderno é impossível. Mas se trata de pensamento acrítico.
Nossos hermanos, como Paz, por exemplo, se aferraram numa tradição mais crítica. Por aqui, entretanto,  devemos nos lembrar de Affonso Sant´Anna que fala em a-propriação, ou seja: a apropriação paródica inverte o sentido ideológico e estético, enquanto a apropriação parafrásica o prolonga. Pós-modernidade, sim, pós-modernidade.





Meus Poemas



Ateologia

As mulheres negras são as mais belas.

Deus não existe –
por  isso
a beleza
foi punida
com a escravidão.

Deus não existe –
por isso
a beleza
foi punida
com a humilhação.

Deus não existe-
por isso
a beleza foi punida
com a tortura.

A beleza nega Deus
e Deus nega a beleza.



Meus Poemas II



La salle de bain – Despertai!

Toussaint era meu grande livro –
soterrado no banheiro
destruindo o mundo ao redor
ser ninguém em meio ao caos.

Abandonando Milosz e Oe
para reencontrá-los sempre à frente
nas estantes das tentativas
de saber-se mais do que se é.

Michael Meade e filho, 159 –
o maior de todos
sem condolências ou histerias
apenas o peso que há
em absolutamente tudo.

Para o sentido da economia – Grundrisse
mas não é bem isso
não é onde encontro paz
ou conforto algum.

Observar Beksinsk e retirar –
ao menos –
um gosto de juventude
de uma fortaleza já conquistada
e devidamente destruída.

                                        Tempo –
                                                        e
                                                              mais
                                                                         e depois ?

Witchcraft,
                        Laibach
                       or
                                          Krisiun?

Hiato em tudo – Kadath
para os mortos )
)
)
E – Campânia
para os vivos.
Névio e a ordem:
senatus consultum ultimum.

Por fim,
                          clorofórmio -
                           azimuth
                                         no banheiro.


           






Poemas dos Amigos

                      



SONETO AUSENTE
Pietro Wagner


nem todas eram sonolentas vaidades de outono
nem mesmo era outono aqueles dias
havia corpos mutantes no ar da estação que não havia
depositando som na linha curva dos sentidos

árvores amaciando o escuro imóvel das telhas
deitando silêncio na casa de si mesma vazia
nem um único sopro de existência
vagas noites de nuvens argentinas

corpos mortos no vagão do dia
o trem imóvel à espera dos trilhos
na cabeça um olho que não vê


na mão a caneta esculpindo o branco
na mente mortas satisfações e nostalgias
o poema acaba ausente dele mesmo



Poemas dos Amigos II


               Conflitos
                                                              Samarone Lima

Brigo com Buda
Brigo com Krishna
Brigo com o retrato de Gandhi
Com meu cão de estimação.

Brigo com minha coleção de santos
com meu coração.

Brigo com meus soluços
Meus muros
Minha aflição.

Brigo e peço perdão
E me entrego.

E deixo incompleto
O desejo de ser são.




Meus Contos



O Escritor
           

Encontrei Borges debruçado sobre um antigo exemplar do De Verbo Mirifico de Reuchlin. Ao seu lado, debruçada sobre a mesma mesa e em completo silêncio, encontrava-se sua bela secretária. A pequena sala não possuía nenhum espelho, vasos para lavar as mãos, portas de ferro ou cortinas compridas e sujas. Uma enorme janela, supostamente construída para trazer a luz adequada ao recinto, permitia que um fortuito raio de sol adentrasse a sala e construísse uma composição geométrica sólida e bem aparatada. Estávamos no ano de 1971 e uma primavera desajeitada tentava se impor no centro de Buenos Aires. Aproximei-me em reverência. Havia poucas pessoas na Biblioteca Pública e não era meu intuito interromper a concentração de leitores tão dedicados. Mas, e isso eu sabia como uma categoria inevitável do tempo, eu deveria interromper a leitura de Borges e chamar sua atenção para o livro que estava em minhas mãos. Percebi que ele também pressentira minha aproximação, uma vez que sua bela secretária erguera seus olhos levemente e pude, assim, contemplar a grandiloqüência e beleza daqueles olhos magníficos. Borges depôs ao lado do livro seus imensos óculos negros e tentou me fitar. Percebi a hesitação em seus movimentos, muito provavelmente ele deveria estar retornando de uma longa viagem pelos meandros cabalísticos de Reuchlin e isso, com toda certeza, levara sua mente a pontos impalpáveis. Fitou-me novamente com gravidade e teve a gentileza de me reconhecer.
            - Caro J. – disse da maneira mais amável possível – O que o traz a tão aconchegante lugar?
            - Olá, Borges – respondi – Desculpe-me pelo transtorno. Sei que você está mergulhado em suas pesquisas para seu próximo livro, mas trago aqui comigo um livro que mui provavelmente você desconhece por completo.
            - E isso será possível? – inquiriu sem modéstia alguma.
            Eu bem sabia do seu poder incomum de reter na memória títulos e títulos de cor, bem como fazer referências profundas às mais diversas obras. Entretanto, e isso era um grande ponto a meu favor, o livro que eu trazia era realmente surpreendente.
            - Acredito que sim – respondi incisivamente. Sua secretária esboçou um leve sorriso. Ele, por seu turno, parecia me levar muito a sério.
            - Bem, então do que se trata afinal?
            Falávamos quase sussurrando para não perturbar a leitura de nossos vizinhos. Tomei de uma cadeira de madeira e me sentei ao seu lado. Nesse átimo de movimento, pude observar suas rugas proeminentes e sua miopia crescente que se estampava com alarde nas expressões de seus olhos. Eu estava ali, ao lado de um dos maiores escritores de todos os tempos, tomado pela iconoclastia surreal do céu de Buenos Aires e dragado pelo poder temporal da Biblioteca Pública e seus corredores de livro.
            - Aqui está – disse sem demora. Derramei sobre a mesa um grosso volume encadernado com couro de carneiro. Uma fita esverdeada e velha enlaçava o exemplar. Desatei-a com calma e entreguei-lhe o livro. Ele segurou o tomo com paixão, acredito que da mesma forma que um ourives seguraria uma pedra mais que preciosa. Seus olhos percorriam cada centímetro da capa, as nuances do couro e a textura mesma da encadernação. Trouxe o livro até as narinas e respirou profundamente como se fosse um enólogo de livros. Sua secretária o observava como se já estivesse há acostumada com suas esquisitices.
            - Do que se trata? – ele perguntou.
            - Você terá que abri-lo para saber.
            Ele segurou com firmeza o livro e abriu-o na primeira página. Pudemos ler com ele: Jorge Luis Borges, Obras Completas.
            - Mas esse livro deve ter mais de três mil páginas – ele exclamou.
            - Trago aqui, nessa bolsa, os outros dois volumes que restam. O número de páginas triplicará.
            - Mas isso não é possível. Nunca escrevi tanto assim.
            Soergui a bolsa que trazia comigo e coloquei sobre a mesa os outros dois volumes. Ele parecia absorto.
            - Trata-se de uma brincadeira, não? – falou ao modo dos ingleses.
            - Claro que não. Abra o livro, por gentileza.
            Ele folheou longamente os três volumes. Sua bela secretária permanecia em silêncio. O ar abafado da sala de leitura começou a esmaecer-se, fomentando uma atmosfera mais translúcida e objetiva.
            - Isso realmente não é possível. Aqui estão reunidos textos em letras minúsculas de vários escritores do passado e alguns que realmente não conheço.
            - Como assim? – falou pela primeira vez sua secretária.
            - Bem, querida – ele disse – temos aqui textos de Esopo, Sófocles, Cícero, Petrarca, Leão Hebreu, Leroux e alguns escritores que jamais ouvi falar e, o que me é totalmente estranho, toda minha obra, minha obra completa, só que com livros que ainda não escrevi.
            - Como assim? – ela repetiu.
            - Temos aqui um exemplar do Livro de Areia, um suposto livro que ainda escreverei e tantos outros. O que mais me intriga é que ele é exatamente como eu estava pensando, quero dizer, ele é o aspecto concreto de um livro que estava apenas em minha mente. Como isso é possível? – ele me perguntou.
            - Bem, esse não é um livro comum, como você pode ver. Ele não tem começo e nem fim. É um Livro do Tempo. Aqui estão registrados todos os livros que você escreveu em vidas passadas, os que você irá escrever nessa vida presente e ainda alguns poucos que serão escritos no futuro.
            Temos que concordar com Nietzsche quando esse afirma que quando uma coisa é verdadeira não precisa de demonstração, pois basta por si mesma. Borges sentia que aquele livro era verdadeiro. E isso lhe bastava.
            - O mais curioso é que ele realmente parece não ter início e fim.
            - Não podemos saber com certeza quando você começou a escrever. E tampouco poderemos saber quando você irá parar de escrever. Suas escolhas não podem ser violentadas ou alteradas.
            - Então você estava errado – ele me disse.
            - Não entendo – exclamei.
            - Você afirmou que esse era um livro que eu desconhecia por completo. Ninguém melhor do que eu para conhecê-lo.
            Era verdade. Sorri-lhe para lhe ser agradável. Ele folheou ainda algumas páginas das obras que iria escrever e afirmou que não poderia mais passar daquele ponto. Perguntamos o porquê de tal atitude.
            - Não há prazer mais caro para mim do que desvirginar uma folha em branco com um novo universo. Se eu souber o que escreverei nessa vida, que finalidade a mesma terá? Isso seria pior que a cegueira que há tanto tempo me persegue.
            Concordamos com ele.
            - Mas esse livro só a você pertence e a ninguém mais – afirmei num tom tão convicto que até eu mesmo fiquei um pouco espantado.
            - Você o quer vender, então? - Borges parecia um pouco exasperado com aquele presente.
            - Não – respondi – de forma alguma. Trata-se de um presente.
            - Mas por quê?
            - Nascerei nesse ano – afirmei – Esse livro é meu presente por todas as páginas que lerei escritas por você. Serão lindas – eu disse – Disso eu tenho certeza.
            Ele não demonstrou nenhuma emoção ante minhas palavras.
            - Está bem – finalizou – Aceito o presente.
            - Obrigado – disse.
            Muito tempo depois eu saberia que Borges havia se desfeito do livro e eu, um simples anônimo, entraria para a história da literatura mundial como um personagem de um de seus contos. Borges chamava o infinito do tempo de...  areia.





Citações



“Os andarilhos sempre incomodam, mexem, arrebentam estruturas. – O que você está estranhando, Frajola? É assim mesmo! Quem tem medo do ridículo são os homens-pregos, sempre ridículos, com seus medos idiotas. Sempre com seus empregos”.
Plínio Marcos

“O que põe o mundo em movimento é a interação das diferenças, suas atrações e repulsões; a vida é pluralidade, morte é uniformidade”.
Octávio Paz

“Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias”.
Mário Vargas Llosa

“Devo confessar preliminarmente que não sei o que é belo e nem sei o que é arte”.
Mário de Andrade

“Alguns doutos em ciências descobriram que quanto maior o intestino, mais místico o indivíduo. E quem mais místico que Deus? Grande Intestino, orai por nós”.
Hilda Hilst



quinta-feira, 9 de julho de 2015

Comentários Cotidianos


Escrever, sim. E o nada, também sim.

Minha última postagem relatava uma crise. Questionava-me se deveria parar de escrever ou não. A primeira motivação de meu questionamento, assim pensei, se referia aos meus poucos leitores. Por que escrever tanto para tão poucos? Lembrei-me do poeta grego Eggonópoulos: ‘É por isso que meus poemas são tão amargos (e quando – de resto – não o foram?) / por isso é que são – sobretudo – tão poucos”. Não são poucos poemas, mas, sim, poucos leitores. Eggonópoulos invertido, um espelho.
Mas como a Filosofia corre em meu sangue, lancei-me à tarefa de descobrir a razão mais profunda dessa crise. Quais motivos me levaram a desesperar e querer parar de escrever? Era preciso meditar, vasculhar os escombros dessa guerra inglória, de tantas batalhas perdidas, e conquistar algum sentido. A razão, neste sentido, deveria me fornecer o caminho para entender. É papel da Filosofia tornar pensamentos vagos e obscuros em claros e bem delimitados.
Então as coisas se alinharam para que, como numa sequencia onírica infalível, o sentido me fosse revelado. Estranhamente, o disparo da descoberta se deu a partir de uma situação aparentemente desconectada com esse questionamento. Deu-se a partir de uma publicação que fiz no Facebook sobre o racismo sofrido por um grande amigo meu num bar de classe média no Recife. Fiz a postagem movido pela minha indignação e para compartilhar a vergonha e humilhação de meu amigo. Marquei uns poucos conhecidos.
Para minha surpresa, a postagem se espalhou rapidamente. Mais de 1300 compartilhamentos. Evidente que o racismo, para pessoas sãs e educadas, é algo inadmissível e deve ser combatido sempre. A proporção se avolumou quando a denúncia saiu nos principais jornais de Pernambuco. Uma emissora de TV ligou para meu amigo. Fui ver os comentários nas páginas destes jornais. Fiquei surpreso com a opinião de uma elite branca retrógrada, arcaica em todos os sentidos. E fiquei feliz com as pessoas que se solidarizaram com meu amigo e repudiaram qualquer atitude racista.
Mas o que isso tem a ver com minha crise de escrever? Tudo. Inicialmente, foi pela escrita que a denúncia ganhou tanta proporção. Depois, fiquei surpreso com tantas pessoas querendo dar opinião. Percebi que todos querem ser ouvidos. O anonimato é a doença da pós-modernidade. Ou melhor: o anonimato é o sintoma mais violento de uma doença mais complexa: o não reconhecimento de que não somos nada.
A necessidade de comentar seja lá o que for é a necessidade mais primeva de ser alguém. Se fazer ouvir é marcar território, é afirmar que a existência é real, que o nada não pode ser o todo do que somos. Não queremos reconhecer a transitoriedade, a fugacidade de nossas vidas, a finitude radical que nos persegue dia e noite.
Assombrados pela aproximação do nada, nos refugiamos na esperança da fama, do reconhecimento, sonhando com uma eternidade que não é eternidade, como uma imortalidade que não é imortalidade. Como disse Molière: “Prefiro dois dias na terra do que a eternidade”. Mas quem quer reconhecer essa limitação? Quem quer assumir sua totalidade e seu nada, seu presente e destino?
No Tractatus, Wittgenstein afirma na proposição 6.4311: “Se por eternidade não se entender a duração infinita do tempo mas a atemporarildade, vive eternamente quem vive no presente”. Mas é exatamente no chamado inequívoco da finitude radical, do ainda-não da morte, do fim absoluto inelutável que nos encontramos que sabemos quem somos. Assim, essa dicotomia – presente e futuro – nos arrasta para uma ambiguidade enervante. Percebi que os xingamentos que encontramos nas redes sociais não se tratam apenas de raiva direcionada – trata-se de raiva mal direcionada. O xingamento é contra si mesmo, contra o anonimato que nos empurra para o nada, contra a impossibilidade de existir eternamente.
Minha crise, então, foi entendida. Escrever é minha essência. Nesta essência, e isso é um fato inegável, reside a necessidade de reconhecimento. Mas são duas coisas distintas. Melhor: são co-pertencentes. Não ter reconhecimento trafegaria, então, na esfera das coisas, a esfera ôntica. A necessidade de escrever, por seu turno, trafega na esfera ontológica, daquilo que realmente sou.
Que sejam poucos, muitos ou nenhum. Antes de tudo, escrevo para mim mesmo. O outro, tão fundamental nessa equação, surge como uma ponte entre presente e futuro, entre eu e mundo, eu e o mesmo. Minha crise tinha um sentido: minha fuga da finitude radical, do anonimato que a tudo coloca em igualdade, da transitoriedade que a tudo domina.
Mas não se pode fugir do que se é. Antes de ser escritor, sou absolutamente nada. Não há como fugir disso. A impermanência que há em toda ação e que revestimos com ares de infinito nada mais é do que a nossa essência. Meu medo – ou minha crise – era uma tentativa tosca de encobrir o inevitável. O assomo do terror com o peso do anonimato é um momento fundamental na equação da existência. Reconhecer, sem subterfúgios inúteis, quem se é – e não se trata de uma tarefa fácil – deve nos conduzir a admitir essa transitoriedade leve e pesada.
Na escrita crio minha verdade, meu mundo, a mim mesmo. Na escrita afeto minimamente a vida dos meus poucos leitores. Assim como sou afetado por tudo aquilo que li e leio. Na escrita se erige o sentido, se age no e pelo mundo, para e pelas pessoas. Eis o que sou e que me faz. Novamente Wittgenstein: “O mundo dos felizes é diferente do mundo dos infelizes”. Sempre decidi me colocar no primeiro mundo.
O reconhecimento necessário de nosso nada, da dinâmica de nossa existência, nos obriga à ação. A vida, em si, é o combate entre estas duas extremidades, entre o nada e o ser, entre eu e outro, entre mundo e tempo. É no recolhimento daquilo que somos verdadeiramente que tudo vale a pena. Qual a solução? No seu livro Nexus, Henry Miller discute longamente, logo no início, com um amigo. Este amigo trata do cosmos, de deus, do infinito, da mente como refúgio, da morte como vunerabilidade e da vida eterna. Depois de muito debate, conclui Miller: “Com isto cessei de me preocupar acerca da mente como refúgio. A mente é tudo. Deus é tudo. E daí?”.
“E daí?” é a resposta. Tornou-se a minha resposta. Morte, finitude, limite, sentido, existência, escrita, nada. E daí? Finalmente entendi em plenitude o que o poeta Fernando Pessoa cantou no início de sua Tabacaria: “Não sou nada. Não serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. E daí?




Meus Poemas




Requiem para mim mesmo

Todos aprenderam com ele
E ele ensinou a todos.

Beberrão
Egoísta
Arrogante
Falastrão
Mutante
Ansioso
Revoltado
Pervertido
Inquieto
Agressivo
Insano
e teimoso.

“Peraí, gritou alguém da plateia,
Esse cara não tem virtude, não?”
Sua esposa se levantou e disse:
“Essas são as virtudes, meu filho,
as virtudes”.

Ela havia compreendido:
As virtudes
são o sal da terra.


Poemas dos Amigos




Poema Ébrio
Leonardo Neves


Posso.

              Em tudo      
              eu posso.


              Realmente não interessa
o sangue dos prédios ou das árvores
ou ao menos dizer que esta merda não interessa.

Não sou mais poeta:
              nenhum orgulho me enche o saco.


Acordo e desperto nas mesas.
As mulheres vem e vão:
                                    Oh, mundo embucetado!
                                    É buceta pra todo lado!

Queria uma dúzia de louras
pra provar que o amor não é nada!

( descarta Descartes
         e segue teus instintos mais torpes )


Oh, a generosidade:
                   a melhor coisa
                           que pode o dinheiro comprar.


Uma saideira pra todo mundo!
E põe na minha conta!




Livros


Associação Robert Walser para sósias anônimos é o primeiro romance publicado do escritor Tadeu Sarmento. A obra foi vencedora do II Prêmio Pernambuco de Literatura.
Sarmento é, como diria meu amigo Leonardo Neves, um escritor de grandes arrancadas. Este é um dos méritos desta obra. Logo de início lemos: “Logo na entrada da sala lemos a placa de ouro gravada com as ilustres e engraçadas palavras de um de nossos patronos: ‘Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como membro’. Isso porque nós, da Associação Robert Walser para Sósias Anônimos, estamos aqui para reaprender a ser nós mesmos, isto é: ninguém. Queremos de volta a tranquilidade fria do anonimato que certa vez trocamos pelo canto de sereia de uma fama a qual, não só nunca existiu de fato como, mesmo não existindo, só atrapalha nossas pobres vidas”.
A Associação foi construída na cidade paraguaia Nueva Königsberg. Evidente que o patrono maior é o filósofo alemão Immanuel Kant que passou a vida toda sem arredar pé de sua terra natal, Königsberg. De fato, no romance, Nueva Königsberg é pautada pelos imperativos categóricos kantianos. A Fundamentação da  Metafísica dos Costumes de Kant se torna a Bíblia da cidade tomada por sósias, por pessoas que abandonaram suas vidas para ser outra pessoa.
As grandes arrancadas aparecem aqui e ali, pontuando quase sempre o início dos capítulos. Lemos no capítulo intitulado Artigos de 1,99 para fantasias:  "Sósias não são cópias. Também não são como espelhos. Não. Sósias são extensões. Os bons sósias são como maus atores de si mesmos. Ou como sonâmbulos. Sim, o sósia é o sonho que o original tem quando está dormindo. Pensar assim facilita muito pouco. No fundo devemos ser todos idiotas".
Como se trata de uma cidade onde os sósias perambulam de lá pra cá, os nazistas que escaparam da forca no pós-guerra foram morar em Nova Königsberg. Fingir ser um sósia de si mesmo, sendo você o mesmo e não o sósia, ou seja, fingir ser quem você mesmo é. Prossegue Sarmento: “Todos chegam a um ponto da vida no qual não sabem mais quem são. A diferença é que o sósia é o primeiro a atingir esse ponto, onde permanece por gosto. E – vocação”.
O universo da Associação é habitado pelos sósias mais loucos, todos em busca do reconhecimento – ou seria a busca pelo anonimato mais brutal? Os exemplos são esdrúxulos: “Ainda não consegui contar todos os Charles Chaplins espalhados, que se confundem, graças ao bigode idêntico, com os Hitlers presentes”. E mais: “Curioso que temos apenas um Raul Seixas até o momento: magro, áureo, satânico, leitor de Aleister Crowley. Já Aleister Crowley não temos  nenhum, pois aquele baixinho ao lado de Tim Maia lembra bem mais o careca enfezado dos The Three Stooges”.

Reconhecimento e anulação, identidade e perda, absurdo e existência, humor e terror. Eis alguns dos elementos que compõem este livro. Bastante interessante. Recomendo. 

Meus Contos


A Lista Maldita


Que outros se jactem das páginas que escreveram;
a mim me orgulham as que tenho lido.
                                                                Borges


            Sempre acreditei no indivíduo e não no coletivo. Isso não quer dizer, contudo, que eu acredite no individualismo. Não é isso. Nenhuma sociedade chegou a evoluir, e por isso mesmo revolucionar seus antigos preceitos, graças a ações fomentadas no seio do coletivo. Não, foi o indivíduo, essa força deslumbrante da Natureza quem rompeu com os grilhões que o esmagava, doando-se ao coletivo que tinha a partir de então uma referência superior, um novo modus operandis capaz de guiá-lo e conduzi-lo, ou não, às suas aspirações superiores. O mundo é um lugar interessante e está cheio dessas almas capazes de solidificar suas vontades sobre todo um bloco concreto denominado coletivo. E isso somos obrigados a afirmar mesmo em frente ao mais irascível materialista ou revolucionário, seja lá o que esses dois termos possam significar. Se nossa teoria repercutir de forma negativa, somos obrigados a evocar as figuras de Marx, Mao, Fidel, Lenin, Guevara e Stalin que são a imagem invertida deste espelho sublime que é o indivíduo pleno de si mesmo. Tudo o que é pleno em si mesmo é luz e transformação.
            Foi imbuído com esse espírito longevo que cheguei à casa de Delanno. Sua esposa, Maria de Lourdes, recebeu-me com seu irredutível bom humor, solícita por natureza e dona de um sorriso esparso.
            - Seja bem-vindo, caríssimo Carlos. Delanno o espera na sala assim como os outros convivas.
            Que vocabulário maravilhoso! Agradeci e segui para a sala. A casa de Delanno ficava encravada na beira-mar. Imensos e preguiçosos coqueiros engalanavam aquela paisagem tropical, quente, convidativa ao  descanso e sono. A casa era suntuosa, extremamente branca e limpa. Assim que adentrei a imensa sala de madeira, todos saudaram-me com entusiasmo.
            - Caríssimo Carlos. Que prazer imenso! – falou o anfitrião.
            De certa forma eu me sentia envergonhado com tanta cerimônia. Cumprimentei a todos com o mesmo entusiasmo e alegria: Pablo Castilha, o professor de grego; Ana Andaluzia, a pianista; Fernando Pers, o contador; Allejandro Florêncio, o arquiteto; Joaquim Esteván, o geólogo; Ana Maria FuenteNueva; a pintora cubista; George Graquillos, o representante do Partido; Tatiana DeRyhs; judia e mitóloga e, por fim, eu mesmo inserido nesse contexto surreal.
            - Saudações calorosas a todos! -  Eu era bom com as palavras. Havia sido educado, polido e, o que era mais importante, havia economizado um tempo enorme.
            Ficamos conversando amenamente durante todo o início daquela noite infernalmente quente. Castilha bebia o vinho tinto que era servido com tanta fúria que suas palavras pareciam começar a saltar de seus lábios. DeRyhs servia-me pequenas porções de queijo argentino como se estivesse colhendo o néctar dos deuses.
            - É, absolutamente, a coisa mais deliciosa que já saboreei em toda a minha vida.
            Achei que esse culto exacerbado ao paladar era um pouco descabido, mas não gosto de julgar aos outros e, por isso mesmo, permaneci em silêncio. Ela, por seu turno, atacava os petiscos como se esses fossem desaparecer a qualquer instante. Todos os outros convivas – para usarmos a expressão da senhora Delanno - pareciam, assim como eu, satisfeitos com a festa. Como é agradável encontrar pessoas sadias, civilizadas e inteligentes para compartilhar uma noite dionisíaca como aquela.
            Foi por volta da meia-noite que o próprio senhor Delanno veio nos anunciar que o jantar estava sendo servido e pedia a todos para que se dirigissem à mesa. Seguimos com entusiasmo para a imensa mesa de mogno que dominava sua sala de jantar. Sentados, todos a postos, esperávamos o jantar conversando sobre temas – ao menos para mim – de uma estranheza ímpar. Discutíamos sobre riqueza, miséria, revolução, políticos, partidos e fidelidade, situações econômicas e financeiras de vários países, possíveis soluções, meandros do mercado, conjuntura internacional e não sei o que mais. O jantar surgiu de súbito e nem mesmo aquela dádiva da cozinha mexicana foi capaz de corroer a falácia intempestiva dos convivas – novamente a senhora Delanno. Tudo ia muito bem quando o velho Allejandro teve uma idéia diabólica.
            - Senhoras e senhores – falou de seu posto – Proponho uma discussão das mais interessantes
            - O que é, Allejandro? Vamos, diga-nos – implorou a boa senhora FuenteNueva.
            - Bem, Ana, sei que todos aqui são pessoas letradas e que não há conhecimento na terra que não possamos discutir ou emitir uma opinião adequada. Proponho, então, que cada um diga em boa voz quais são os dez livros mais importantes de suas vidas.
            Todos aplaudiram tal iniciativa de maneira entusiástica. Eu, de minha parte, sabia que estava perdido. Que idéia mais absurda. Isso era mexer com a pior ferida do ser humano: sua vaidade!
            - Como anfitrião – disse o gracioso Delanno – sugiro que você mesmo, ó bom Allejandro, inicie essa maravilhosa lista.
            Maravilhosa? Não era possível que ninguém ali percebesse o equívoco que poderia residir nessa brincadeira. Mas, mesmo assim, surda aos meus apelos silenciosos, a brincadeira começou. Um por um, cada conviva – aqui não vou mais citar a bondosa senhora Delanno – elaborou sua bendita lista. Marx, Hegel, Gramsci, Trotsky, Engels, Adorno, Marcuse, Foucault, Althusser, entre tantos outros, foram citados e celebrados como os arautos da única e bendita verdade. Eu estava perdido, repito. O ciclo foi se fechando por mais que eu me esquivasse. Quando todos já haviam emitido suas opiniões e comentários, pediram-me que elaborasse minha lista. O calor, o vinho, o excesso de comida talvez afetasse o julgamento de meus doces amigos. Pedi para não participar daquela brincadeira, pois naquela hora eu deveria estar sofrendo de um lapso de memória.
            - Não, de forma alguma. Você vai participar, sim – arrematou Castilha.
            - Isso mesmo. Vamos, homem, diga sua lista – sentenciou Andaluzia.
            Vi-me encurralado qual um animal estúpido. Sei que sou humano e, portanto foi inevitável que minha vaidade falasse mais alto e dominasse  todos os meus pensamentos. O som dos violinos que emergiam do aparelho de som conseguia colocar-me ainda mais em estado de alerta. Eu deveria enfrentar aquilo de uma forma ou de outra.
            - Está bem – falei calmamente – Aí vai.
            Todos aplaudiram minha decisão e ficaram em silêncio. A lista que eu falei foi a seguinte:

              O Nuctemeron de Apolônio de Thyana;
               Mysterium Magnum de Jacob Boheme;
               O  Sêfer Yetsirá;
               Kabbalah Denudata de Rosenroth;
               A Doutrina Secreta de Blavatsky;
               Ulisses de Joyce;
               A Divina Comédia de Dante;
               Inferno de Strindberg;
               A Odisséia de Kazantzákys e
               O Processo de Kafka.

            Mas dez era um número impossível aqui. Nada de Agrippa, Sartre, o Ser e Tempo de Heidegger, Valla, Plotino, Borges, Kant, Nietzsche e suas maravilhas, a própria Bíblia, meu Deus, eu havia esquecido a Bíblia, o Alcorão, os Vedantas,  o Caibalion, Milton, Stevens, Frazer, Strauss, Jung, Malinowski,  Chaucer e Goethe. Ainda residia um universo lá fora. Senti-me um traidor. Dez, nesse caso, era uma heresia. Porém, como era esperado, minha lista causou furor. Não havia nenhum brasileiro, nem mesmo Castro, Cunha,  Freire ou Nassar. Que tristeza!
            - Isso é a lista mais burguesa que eu já vi em toda minha vida – praguejou minha adorada anfitriã.
            - Concordo plenamente – aduziu o velho e bom Esteván.
            - Isso deve ser uma piada de mau gosto, não, meu caro? – questionou-me Graquillos.
       - Não, estou falando sério. Mas ainda há tantos escritores que eu deveria render minha sincera homenagem.
            O resultado foi pior do que eu esperava. Todos pareciam enfurecidos com minhas palavras.
            - Seu burguês estúpido – praguejou novamente Esteván.
            - Isso é uma insânia – assomou o transtornado Pers.
            Repito, todos pareciam lunáticos insaciados, loucos por sangue.
            - Calma, pessoal – tentei abrandar os ânimos que estavam mais do que exaltados – Só falei o nome de dez obras e nada mais. Só isso.
            - Só isso?! Seu burguesinho, seu almofadinha – berrou meu anfitrião – Você deve estar louco ao dizer “só isso”!
            Que fúria e que mau hálito!
            - Pelo amor de Deus – eu implorei – Tenham calma.
            Um alvoroço infernal já  estava instalado. Foi quando levei um tapa na cara. Surgiu do nada, aquela mão. Um pouco de sangue começou a escorrer de meu lábio inferior.
            - Calma, pessoal – tentei argumentar – Assim vocês estão se excedendo.
        Que sentimento de estranheza quando aquela faca perfurou meu abdômen. Não sei como aquilo ocorreu, mas era certo que a fúria assomava-se ao vinho, ao calor e ao excesso de comida. Somos seres muito frágeis ainda. Tombei no chão e em vez de receber socorro só escutei impropérios e mãos que estalavam com fúria no meu rosto ensangüentado. Será que havia alguma explicação para o que estava ocorrendo? Talvez uma, duas, três horas, não posso dizer com certeza, mas o certo era que aquele martírio, emoldurado por gritos, ganidos, gemidos e estertores de ódio levou todos a um estado mental tão alterado que ninguém mais se reconhecia. Foi quando gritaram.
            - Ele está morrendo! Ele está morrendo!
         Pensei que eu estava salvo e que a razão iria voltar às suas mentes. Mas, novamente, eu estava enganado. Ergueram-me, um mar de mãos, e conduziram-me para a praia. Os gritos e as tapas não cessavam. O corte aberto em meu abdômen expelia mais sangue do que eu poderia suportar. Seguiram esse ritual macabro até me lançarem na areia. O mar, sombrio e gélido, umedecia meus cabelos. Meus lábios estavam encharcados de sangue e areia.
            - Por favor, ajudem-me – implorei.
            Os gritos de burguês, estúpido, facínora e assassino cortavam o ar com fúria. Deixaram-me sozinho, envolvido com meus pensamentos e minha morte. Provavelmente iriam voltar ao delicioso jantar mexicano. Era um fato, eu não poderia culpar ao calor, ao vinho ou à comida por meu infortúnio. A Lua, em silêncio, parecia zombar de mim.