quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Comentários Cotidianos


Capitalismo e a nova dimensão da luta de classes.


Numa aula na Universidade de Yale, o professor Paul Bloom se faz o seguinte questionamento: “A pergunta certa pode não ser: por que algumas coisas são inconscientes? Mas sim, por que este pequeno subconjunto da vida mental é consciente? Por que o inconsciente evoluiria?” A resposta dada por biólogos e psicólogos é bastante simples: enganação.
Enganar significa, antes de tudo, agir de uma maneira que os outros acreditem nisso ou naquilo. E qual a melhor maneira de enganar? Acreditando na própria enganação. Daí o consciente, neste processo de evolução, surgir como consciência de si mesmo, do ser enganador que se sabe enganando.
Esta pequena observação me levou a pensar nas assertivas marxistas contra o Capitalismo: suas crises internas provocadas pela acumulação contínua de produção e a possibilidade de construirmos um modelo econômico mais justo e humano.
O que a História nos mostrou – e isso mesmo a despeito de todas as revoluções religiosas, científicas ou econômicas que passamos – é que o velho Marx estava certo quando afirmou na sua obra O 18 Brumário de Luís Bonaparte: os fatos e personagens da História ocorrem primeiramente como tragédia e depois como farsa.
A farsa estaria fundamentada na enganação. Mas se a tragédia possui o a priori no processo histórico, qual o lugar da enganação neste percurso? Ora, a tragédia é a irrupção do inconsciente, daí sua dimensão incontrolável e terrível, enquanto a farsa é filha da enganação, da consciência.
O Capitalismo, diante de suas contradições internas e constantes, precisa lançar mão do engodo continuamente. Esta enganação precisa se amplificar numa razão instrumental capitalista capaz de diluir em aspectos ideológicos a luta de classes. A luta de classes, como definiram Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista, é, antes de tudo, uma luta política. Mas o Capitalismo do século XIX acentuou a luta de classes entre capitalistas e proletariado.
Marx, em Grundrisse, afirma que o Capitalismo não tolera limites. O processo de acumulação de capital tem que transcender essas barreiras, valendo-se do processo normal de acumulação, ou seja: toma-se algum capital, aluga-se trabalho, investe-se em infraestrutura, maquinário e matéria prima para produzir algo que é posto no mercado. A racionalidade capitalista estrutura os meios de produção com base no lucro e na exploração do trabalho, a famosa mais valia relativa e absoluta.
A obra O Capital foi um esforço monumental de traduzir as contradições inerentes a este processo de acumulação de riquezas e produção no Capitalismo. Entretanto, a enganação surge como uma farsa para uma tragédia anunciada. O processo dialético da História se insere, ele também, na razão instrumental capitalista. O que isso significa? Significa que o capitalismo sempre busca meios de vencer suas contradições.... criando novas contradições.
O movimento de consolidação do Capitalismo saltou dos primórdios da Revolução Industrial, atravessou a dicotomia entre bloco capitalista e comunista, criou a era da informação digital, anunciou a hegemonia dos mercados de capitais até se consolidar como um sistema universal, erroneamente chamado de globalizado. Erroneamente porque a globalização nada mais é do que – e este é o cerne de minha teoria – uma nova dimensão da luta de classes que se baseia na enganação inerente à razão instrumental capitalista.
As crises atuais do Capitalismo tiveram as mais diversas explicações como sempre indica David Harvey em suas palestras: a fragilidade humana segundo Alan Greenspan, o delírio e a ganância dos investidores, a falha crônica das instituições reguladoras ( e aqui deveríamos meditar sobre as razões destas falhas), a crença errada em teorias como a de Keynes e Minsk e que as crises são inerentes ao escopo próprio das culturas.
Seja como for – e Harvey assinala este ponto – as crises atuais do Capitalismo se movem geograficamente: Argentina, EUA, Grécia, Brasil, etc. Entretanto, esse movimento, assim entendo, traduz o sentido da expansão da luta de classes. A luta de classes do Capitalismo “Globalizado” se tornou a luta entre os países ricos e as agências reguladoras de um lado e os países emergentes e pobres do outro.
As agências reguladoras, Wall Street e os fundos internacionais começaram a ditar as regras da globalização do capital. Não foi o Capitalismo que foi globalizado, mas sim o alcance de suas determinações.
As agências classificadoras de risco de crédito – entre as quais a Standard & Poor’s – são empresas que avaliam produtos financeiros e ativos, bem como avaliam países e governos. Este poder traduz um controle do capital sobre qualquer dimensão política. A economia, aqui, regula as ações políticas e controla os caminhos de nações inteiras.
Não é de se estranhar as invasões ao Iraque e à Líbia. Petróleo, meu amigo, é ativo com poder. A China se construiu a partir de um PIB forte e seus ativos foram geridos de dentro. Bater de frente contra esses senhores do capital não é fácil. Novamente, não é de se estranhar quando o Nobel de Economia, Paul Krugman, tenha chamado os analistas da Standard & Poor´s de “palhaços”. Não são palhaços. São espertos fazendo política – e política nervosa, da especulação e extremamente perversa.
Novamente, não é de se estranhar que tenham “rebaixado” a nota do Brasil. A elite vibra com essa enganação. E os trabalhadores, atabalhoados, repetem o mantra do rebaixamento como se fosse uma verdade criada de dentro. Não, é uma verdade criada de fora. A consciência de classe se transformou na consciência da meritocracia. O pior é que, em um maniqueísmo infantil, polarizou-se toda a crise. A corrupção, no Brasil, é ambidestra. O problema da política econômica foram as confusões em administrar o crescimento econômico com a solução de um problema crônico nosso: a absurda desigualdade social que nos persegue por mais de cinco séculos. O erro do acúmulo absurdo da dívida pública, um PIB vergonhoso e alianças com as alas mais retrógadas do pais  dispararam – ao lado de uma corrupção que se tornou, pela primeira vez na História do Brasil, visível e punível – elementos que teriam que culminar com uma crise política e econômica. Muito mais política, assim creio.
Crise de 30 – e talvez consigamos, graças a essa incompetência econômica atual amargar, após 80 anos, dois anos de PIB negativo – crise da Ditadura, crise de Sarney, crise de Collor, crise de FHC ( alguém aí lembra que neste período, especialmente a partir de 99, atingimos uma taxa de desemprego de 38%, que os salários dos parlamentares subiram 59%, que o salário caiu por volta dos 20%, que o dólar bateu a casa dos R$ 4,00, que 76% do patrimônio público líquido do país estava nas mãos de capitais estrangeiros, que tomávamos dinheiro emprestado do FMI – 40 bilhões de dólares em 2002 - que a gasolina subiu de  R$ 0,54 para R$ 2,15 e que, por fim, a inflação atingiu uma média anual de  9,3%?) e agora a crise de Dilma. E alguém se lembra dos cargos que Levy e Meirelles ocupavam no governo Lula? E alguém se lembra da carta do FMI assinada por Lula, Garotinho, Ciro Gomes e Serra?
Pois é. O poder regulador do capital configurou o mundo numa nova modalidade de luta de classes. As discussões histriônicas que norteiam o campo da política nacional atualmente demonstram que precisamos entender que é impossível dissociar política e economia, interno e externo, crescimento e sociedade. E que a luta de classes está longe de ser um anacronismo marxista. Parece que não enxergamos mais os lobos maus. Cunha e Calheiros espreitam e berram. Como berram. Mas berram para quem mesmo?



Comentários Cotidianos II


Meu amigo Leonardo Neves faz uma clara distinção entre ciclista e ciclante. Ciclista pode ser definido em duas categorias: 1º O profissional de ciclismo que participa de Olimpíadas, campeonatos regionais e internacionais e é patrocinado por alguma grande empresa. Trata-se de um profissional da bicicleta. 2º O trabalhador da classe baixa que não possui poder econômico para comprar um carro e usa sua Barra Forte para se deslocar de casa para o trabalho todos os dias. Este, quando chega o final de semana, quer saber de tudo, menos de andar de bicicleta. Bebe sua cachaça em casa ou num bar próximo com os amigos escutando seu brega ou seu pagode. Quando anda de ônibus lotado é natural que amaldiçoe o sistema público de transporte.

Mas o ciclante, um brincante por natureza, por outro lado, é o pequeno burguês com consciência social, o estudante da Federal que tem carro, aquele que posta os quilômetros pedalados no Facebook com o maior de todos os orgulhos, o pai de família pequeno burguês que compra bicicletas caras, com pneus coloridos, cheias de estilo e personalidade, compra roupas e capacete para passear com sua bicicleta, leva a família e os amigos, fantasiados de ciclitas, para passear pela cidade aos domingos, sentido-se o mais justo dos homens, a consciência ecológica do planeta. O ciclista brincante tem o poder de ditar ideologias devido à sua classe social e acredita que andar de bicicleta é a solução para todos os males da humanidade. O ciclista ciclista, devido à sua classe social, não dita nada. Pois é. Esse meu amigo Léo é ligado.

Meus Poemas



Da beleza: antítese.


Somos escravos da beleza.
Uma beleza inaudita, é bem verdade,
que se esconde onde não sabemos.
E escravos, atônitos, perdidos
e quase loucos
procuramos esta mesma beleza
como se – uma flor, é possível –
ela fosse desabrochar ante nós:
impassível, verdadeira e robusta.

Pense no cristal dos dias –
Na agonia do desejo –
Ou na espera que não finda.

Pense para além da paisagem –
Para além das palavras (é possível?) –
Ou na filigrana do desespero.

Eis a perfeição que procuramos.
Nós, cavaleiros de outro tempo,
de outro mundo extorquido,
arrebatado, agora pobre,
demasiadamente pobre.

Celebramos a distância –
escolhemos as vozes mais perfeitas
o referencial do que queremos
desconstruindo aos poucos
para reconstruir logo em seguida
o que não nos pertence mais.

Pense na loucura do azul
que habita sobre sua cabeça –
no sexo que, foragido,
esculpe as pedras do dia –
ou no terror de saber-se presente,
senhor de nada e de tudo.

Somos escravos rebeldes –
filhos de uma revolução
que nunca termina e,
mesmo assim,
no volume da bebida
que consome mais um dia –
(O brado se faz ouvir, ó poeta!
Sim, a voz que tanto ansiavas...
Esse oceano cristalizado de dor
que insistes em chamar de beleza) –
retiramos o pó das roupas
singramos o mesmo mar,
velas desfraldas e velozes
que nos conduzem a lugar algum.

Pense na poesia que te espreita
na rua silenciosa tomada de terror –
Pense no espelho que te consome,
dizendo sempre o que não queres ouvir –
Ou na tarde, cansada e frágil,
que nega, mais uma vez,
o que estava pleno de sentido.

Somos escravos –
E isso já basta!






Poemas dos Amigos



Anunciação
Gustavo Pedrosa

Temo dormir quando a noite já deixou-me
E a música permanece
Temo dormir e acordar de um sonho
Que parecia realidade.

Temo esquecer a noite que finda
E anoitecer sonhos que brilhariam
O sono já pinta meus olhos de escuridão
A vida exige continuidade.

O feminino desfilou na ponta do céu
E ainda que perto da lonjura
Perfumou sorrisos e promessas
Não ditas percebidas
Na fina percepção do álcool
Na solidão apurada numa jornada longa de desencontros.

As garrafas ficaram a meio pau
Os copos meios cheios escarlates
O lúpulo secou as bocas
E prorrogou os risos para além do dia.

O sono percorreu o corpo
Estendido sobre a mesa da varanda
Prenúncio de mudança de estação
Anunciação.





Meus Contos


O antropólogo

A névoa se levanta; a névoa os faz tremer. Eu encho de névoa, a névoa se levanta; eu encho de névoa, a névoa que os faz tremer”.
                                    Encantamento do giyorokaywa


            A extraordinária influência que as obras de Franz Boas produziu no mundo acadêmico – círculos fechados de antropólogos ilustres – foi imensa e pode-se medi-la, como se possuíssemos um termômetro imaginário capaz de tal tarefa, pelo número de estudantes entusiastas que professaram a pesquisa de campo como ação basilar para suas pesquisas, abandonando os velhos documentos históricos e arqueológicos, passando a pesquisar in loco, num contato mais humano e realista com o conteúdo concreto de suas pesquisas. 
          Se a leva de obras da envergadura de pesquisadores como Spencer, Gillen, Seligman e Radcliffe-Brown – apenas para citar alguns dos nomes mais expressivos – corroboravam em definitivo essa tendência inovadora, dando ao trabalho de campo sua devida importância ao mesmo tempo em que o transformava na base de sustentação das novas teorias antropológicas, podemos afirmar que é exatamente a partir desse gênio da Cracóvia que usava óculos engraçados e que possuía um espírito humano de dimensões gigantescas que se opera uma revolução dentro da mentalidade do antropólogo: a observação participante. 
       A observação direta exigia a convivência diária do pesquisador com o grupo a que ele havia decidido estudar. Não se tratava mais de usar intermediários para se atingir diretamente um desvelar progressivo de um conhecimento específico, mas sim um tornar-se parte, um processo que envolve – e isso se levarmos em consideração todas as mudanças que podem se processar no espírito do pesquisador – uma gradação ontológica sempre cada vez mais expansiva e adstringente. O espírito humano necessita de uma mente forte que possa guiá-lo, ou melhor, a mente do homem deve tornar-se apta a organizar e compreender as erupções tempestivas e devastadoras do espírito, sempre onipresente e onisciente. 
           Quando o antropólogo submerge todo o seu ser num trabalho de pesquisa, ele deve estar sempre atento ao paradoxo latente que surge ante sua razão a todo tempo, ou seja, aspectos inconscientes que se mesclam com sua própria realidade fenomênica e as erupções de um inconsciente coletivo poderoso e obscuro a que ele se propõe estudar, muitas vezes mergulhando nesse mar sem a proteção providencial de um velho escafandro. Esse grande gênio a que nos referimos e a quem a Antropologia deve muito, apesar das inúmeras críticas que sofreu e que mais serviram para obscurecer o sentido profundo de sua contribuição como ser humano (quem, sendo original, não é criticado?) do que contribuir para uma leitura legítima e profunda de suas obras mais importantes, foi o responsável por uma nova onda de entusiasmo que afetou de forma definitiva certos centros acadêmicos. 
          Se pudermos concordar com Frazer e anuirmos que Malinowski  demonstrou grande sagacidade ao descobrir o Kula, instituição econômica interligada por rituais mágicos e mitos, afirmando que o homem como animal necessita de uma fundamentação material, portanto econômica, devemos estar propensos a intuir claramente sobre sua interação com os nativos das ilhas Trobriand a leste da Nova Guiné e sua capacidade de observação acurada, sensível e, além de tudo, profunda e de grande alcance. Nosso gênio cracoviano e de óculos engraçados lançou as bases definitivas para que novos pesquisadores abandonassem seus lares e famílias e,  imbuídos com um espírito de verdade e coragem, se deslocassem milhas e milhas através de oceanos tempestuosos, mares revoltos, rios virgens, desertos claudicantes e florestas misteriosas com o único intuito de realizar suas pesquisas etnográficas.
            Foi assim que na metade da década de 30, mais especificamente no ano de 1935, que Marcus Theophilus Boyle, aluno promissor da Faculdade Superior de Antropologia da cidade de Paris, decidiu seguir os mesmos passos de seu mestre intelectual e planejou sua longa viagem às Ilhas do Pacífico. Boyle havia lido e relido as obras principais de Malinowski. Seu anseio por pesquisar em campo assomou-se aos níveis mais elevados e, num outono ameno, em meio aos livros de sua biblioteca particular, decidiu que partiria o mais rápido possível para o distrito de Kulamata, uma vez que o escopo fundamental de sua pesquisa deveria ter como base física a aldeia Walela, pois sua intenção era se aprofundar no estudo das bruxas voadoras. 
        Os estudos de seu mestre já indicaram a importância que a feitiçaria e a magia assumiam na vida dos nativos e integrantes do Kula, envolvendo todos os campos da atividade humana. Apesar deste caráter universal da magia, Boyle desejava aprofundar-se na ação das bruxas voadoras e em todos os mecanismos que as tornavam possíveis, uma vez que sua intuição parecia-lhe indicar que neste ponto havia muito a ser descoberto. Após consultar seu professor e orientador, Dr. Konzmannoff, e compreender todos os processos burocráticos e técnicos necessários à sua empreitada, vagou anos em escritórios soturnos, gabinetes fastidiosos, conversou com várias pessoas de várias instituições, faculdades, departamentos e, por fim, após penosa peregrinação, conseguiu a documentação necessária e o apoio financeiro para dar vida ao seu sonho.
            - O senhor acredita que em quantos meses irei terminar esta tarefa, professor?
            Seu orientador olhava-o com certa surpresa, como se essa pergunta afrontasse diretamente sua inteligência.
            - Sabemos pela experiência, caro Theophilus, que a etnografia é uma ciência de mil armadilhas. Associados ao espírito científico, temos o aventureiro e o andarilho. Nada nesse campo é previsível. Podemos apenas elaborar metas e tentar dar o melhor de nós para cumpri-las.
            Isso era uma verdade. Boyle elevava seu olhar sobre a janela do gabinete do professor Konzmannoff e, divisando as ardósias tomadas pelo espírito do outono que dominavam o pátio oriental da faculdade, vislumbrava em sua mente essas ilhas tropicais consumidas pelo sal e pelo sol, e pensava com solenidade nesse povo tão distante e quase inalcançável. Seu espírito científico via-se envolvido por esse sentimento supranormal que revertia uma atmosfera de mito e magia em todas as coisas. Uma coisa, para sua mente e seu corpo, era certo: se enviássemos vinte diferentes pesquisadores para realizarem a mesma pesquisa no mesmo lugar – homens de retidão e caráter científico, todos cientes de um único objetivo – teríamos vinte diferentes teses sobre o mesmo problema. Essa psicologia movediça, capaz de confundir os mais desavisados, criava uma névoa densa sobre o objeto de seus futuros estudos, mesmo que ele estivesse armado com as melhores armas e ferramentas. Ainda mais – acrescentava o próprio Theophilus – quando estamos estudando uma coisa tão apaixonante e intrigante quanto a magia. Seu objetivo não era estudar a organização do Kula, o que já havia sido feito magistralmente por seu mestre, nem elaborar uma nova compreensão para a existência da magia e da feitiçaria no próprio Kula. Seu interesse extrapolava e muito a área de ação da Antropologia enquanto ciência: ele desejava compreender se através da existência das bruxas voadoras como fato para os nativos, seria possível compreender algum mecanismo ainda mais sutil da mente, algo ainda não descoberto pelo pensamento ocidental. 
            Como homem de ciência, Theophilus era um apaixonado por matemática e biologia, falava vários idiomas, preocupava-se com os avanços tecnológicos de seu século e amava, sobretudo, os meandros intermináveis da Antropologia. Mas seu espírito arredio não acreditava na imanência desse mundo como fonte fenomênica pura da matéria. Para ele, a matéria representava um grau específico - bem específico, aliás – de um mar único de vibração. Ele sabia que cada homem interpreta a realidade a partir de si mesmo, e jamais da própria realidade. Isso indicava, para ele, que só há uma única realidade: a realidade mental. Ele não queria apenas estudar as bruxas voadoras, ele queria conhecê-las, sabê-las enquanto nativo, vê-las com os olhos de um nativo, interagir com suas existências no que elas tinham de belo e grotesco. 
        Theophilus entendia a observação participativa como uma verdadeira entrega religiosa, uma concentração mental capaz de dissipar seu eu pessoal no inconsciente de um determinado grupo humano. Sua teoria, bastante original, afirmava que cada grupo gerava no tempo e no espaço um campo de vibração mental que só poderia atingir aqueles que foram educados no seio dessa emanação, daí a existência de um inconsciente coletivo comum a toda humanidade com suas leis estabelecidas e uma gradação fenomenológica desse mesmo inconsciente enquanto grupo social. Teríamos uma base e a expressão cultural dessa mesma base. Assim como os antigos egípcios que acreditavam que seus mortos iam para uma região específica, Seket-Aaru, Theophilus acreditava que as emanações psíquicas de um determinado grupo humano geravam um correspondente palpável nas realizações, interações e trocas mentais dos participantes desse grupo, como se pairassem numa região que de tempos em tempos era acionada por algum dispositivo desse mesmo inconsciente para sua manutenção e existência. 
        Um homem primitivo, por exemplo, teria que ser mentalmente treinado para compreender uma apreciação estética mais elevada, ou seja, de um artista civilizado que trabalha sua obra com mecanismos e relações complexas. Ou mais ainda, compreender questões de bons modos que nos pareceriam a coisa mais simples do mundo. A identificação, portanto, seria o fator principal para o aparecimento desses “fantasmas” residuais do inconsciente. O treinamento mental do homem  primitivo iria lhe capacitar entrar em sintonia com esse mar de criação mental deste novo grupo em que ele havia sido inserido. Isso não era uma crença, mas um fato constatável. Malinowski sabia que os processos mágicos e de feitiçaria não se resumiam a uma mera crença, uma vez que ele compreendia a relativa dificuldade em explicar certos fenômenos de cura que envolviam fé, oração e devoção. 
         Boyle, partidário dessa dúvida, levava-a, entretanto, a paragens mais impalpáveis, levantando para si mesmo a hipótese de uma interação mental entre o corpo e a alma, entre a matéria e a mente. Talvez a Percepção Sensível de Hegel – conhecer a si mesmo através do outro que se mostra como o mesmo, mas dá-se como diferente pela multiplicidade – ajudasse-o a compreender e viver as bruxas voadoras como uma realidade. Seu trabalho como antropólogo visava descobrir vários segredos da mente humana que permaneciam ainda intocáveis.
            Um ano mais tarde, após uma extensiva e exaustiva preparação, Boyle encetou definitivamente sua tão sonhada viagem. A bordo de um navio de bandeira norueguesa, ele navegou pelas águas sinistras e indomadas do Pacífico. Enquanto o navio cortava o oceano, ele pensava em sua vida e tudo o que estava sendo deixado para trás. Talvez, ele confabulava, entre esses nativos eu encontre a chave para compreender o mecanismo universal da mente humana. O vento marítimo excitava sua imaginação e acentuava sua capacidade natural de elaborar planos grandiosos. Se suas expectativas pudessem ser realizadas, ele retornaria à Paris pronto para ser aclamado, respeitado e amado por todos como um grande homem de ciência. Estávamos no ano de 1944 e Theophilus agradecia aos céus a oportunidade ímpar de livrar-se da Europa e de sua guerra ensandecida. Singrar aquele mar, aportar em portos distantes, ver rostos diferentes, ouvir línguas estranhas e a tudo aprender eram possibilidades que avultavam em seu espírito com força. Havia dois anos que seu mestre falecera. Seria uma honra enorme para ele dar continuidade às idéias principais de seu mentor intelectual. 
         Assim, num dia de sol enorme, Marcus Theophilus Boyle aportou no distrito de Kulamata. O branco intenso da areia, o balouçar constante dos coqueiros, o verde congestionado do mar, o vento que cortava seu rosto, a amplidão impensável daquele céu sempre azul, o gosto quase palpável de sal e espuma que aflorava em sua boca, a impressão lívida e intocável dos promontórios que se espraiavam pelas praias, os cumes das montanhas, os mundos de coral, tudo o transportava para um mundo distante de sua Europa devastada. Que prazer, ele pensava.
Com a experiência já há tempos adquirida, ele montou seu acampamento, freqüentou todos os seus apontamentos escritos com cuidado assombroso em seu escritório na faculdade, verificou as páginas de indicações lingüísticas do idioma nativo, folheou longamente as páginas escritas por seu mestre, traçou novamente seu plano de pesquisa e começou seu trabalho propriamente dito. Os nativos, como já havia sido fartamente indicado na literatura precedente, eram todos amistosos, tantos os homens, as mulheres e as crianças. Assim como havia sido assinalado por Malinowski, os nativos das Ilhas Trobriand não tinham realmente nenhum medo de fantasmas, de aparições espirituais. Nas suas realizações e consolidações sociais, o medo, o pavor e o terror mesmo estavam associados unicamente às bruxas, à magia negra e aos feiticeiros. O medo, de fato, corroborava ainda mais o poder que ambos detinham sobre todos os membros da sociedade.
As bruxas voadoras – chamadas na língua nativa de mulukwausi – representam um subgrupo social de extrema importância para a existência dos motivos concretos de consolidação do cotidiano dos nativos. São todas mulheres que treinam suas filhas desde o nascimento. As meninas tomam parte de cerimoniais mágicos desde que nascem. São consagradas, ensinadas a voar, a “ouvir” a morte de alguém, a comer carne humana, a transformar-se em pássaro noturno, morcego ou vaga-lume, a reconhecer e praticar todos os feitiços respectivos à sua função, a fazer projeção astral criando um “duplo”, entre outros pontos menores. 
   O objetivo principal de Theophilus era conhecer com profundidade esse universo único das bruxas voadoras. Como canibais, elas assombravam a população e representavam um fator nefasto em todo o Kula. Mas esse canibalismo mágico, especialmente relativo à carne de cadáveres, encontra um eco intrigante na história. Um exemplo bem conhecido está em Apuleio. Esse narra que Telefron teve que tomar conta de um cadáver durante a noite para que as bruxas não tomassem o corpo de assalto e arrancassem pedaços de sua carne que, certamente, seriam usadas em seus feitiços. Ele, de fato, não poderia dormir ou mesmo piscar, pois assim poderia ser vítima do poder mágico das bruxas e ser dominado e, ele também, ter seus órgãos e sua carne arrancados por seres tão singulares. Entre as bruxas voadoras de Wawela, por exemplo, era costume ensinar as crianças que seriam futuras bruxas a comer coral ou beber água do mar, o que aumentaria seu apetite por carne humana. 
  Essas práticas e esses ensinamentos tinham por objetivo manter a unidade da prática e da funcionalidade social de seu grupo. Seria possível, questionava-se Theophilus, a um observador de uma outra cultura realmente presenciar esses seres ou estavam relegados a conhecê-los apenas através dos relatos assombrados dos nativos? Seu objetivo inabalável, portanto, consistia em ver as bruxas e não apenas ouvir relatos fantásticos. Elas existiriam como realidade efetiva, palpável ou estariam gravitando apenas no inconsciente desse grupo social como fator de manutenção do mesmo?
Após vários meses de instalação e ambientação pessoal, Theophilus sentia-se já senhor de si, especialmente por poder por em prática a nova língua que havia sido estudada exaustivamente em Paris. Num belo dia de sol intenso, ele navegava numa grande canoa de um importante toliwaga quando este avisou que havia avistado algumas bruxas reunidas numa formação de coral logo adiante. As ondas espirravam o sal do mar por toda a canoa e o sol, em conjunto com o vento sul, adicionava um sabor de tempestade à sua viagem. Theophilus sentiu-se apreensivo, mas logo se dominou.
- Elas estão comendo um pouco de nada – afirmou o toliwaga.
Nada, assim o sabia Theophilus, era como os nativos chamavam um tipo especial de coral que era comido pelas bruxas para aumentar sua sede por carne humana. Eles estavam numa Kula wala, uma viagem marítima de pequeno porte. Mas, mesmo assim, os feitiços de proteção e evocação haviam sido exaustivamente preparados antes de sua partida. Os nativos acreditavam que os tubarões e todos os perigos do mar estavam diretamente associados às mulukwausi. Se algum tripulante cai ao mar, o perigo não é o naufrágio em si, mas o temor intransponível de serem devorados pelas bruxas através de todos os seus poderes. Portanto, mesmo tendo se preparado com o maior cuidado e atenção possíveis, os outros membros da canoa sentiram-se tomados de um terror espantoso quando o toliwaga havia informado sobre a proximidade das bruxas.
- Podemos vê-las? – perguntou Theophilos.
- Claro que sim. Elas estão mais próximas do que você imagina – disse um nativo de pele clara e olhos profundos.
- Onde? – inquiriu.
O toliwaga ergueu seu dedo indicador e apontou para uma pequena formação de corais a uns dois quilômetros de distância. Theophilus não conseguiu divisar com segurança o que ele realmente tinha visto. Percebeu duas sombras negras, ou algo assim, movimentando-se com extrema leveza sobre uma clara formação de corais vermelhos. Talvez a distância, o sol ou o movimento da canoa o impossibilitasse de ver com clareza o que realmente estava sobre os corais. Mas era um fato irrefutável que seus olhos haviam visto dois vultos sobre a formação de corais.
- São aquelas sombras? – ele perguntou novamente.
- Sim – respondeu o mesmo nativo.
- Podemos nos aproximar mais para vê-las?
A simples menção da possibilidade de uma aproximação com as bruxas deixou a todos na canoa exaltados, com olhos abertos pelo medo.
- Isso é impossível. Seríamos devorados – disse o toliwaga com espanto.
Theophilus percebeu que os nativos estavam conversando com um homem velho que os acompanhava com extremo respeito. Ele soube logo em seguida que se tratava de um velho e famoso feiticeiro que conhecia todos os feitiços usados pelas bruxas, pois sua mãe era uma bruxa também. Sentiam-se, dessa forma, menos atemorizados. O velho feiticeiro logo principiou um encantamento para que  o vento os levasse para longe dali e para que as bruxas permanecessem distantes; esse último era conhecido entre os nativos como a magia da névoa, o kayga’u. De súbito, e Theophilus não soube precisar como, uma das sombras parecia ter se aproximado bastante da canoa, a uma distância de quinhentos metros. 
    Um dos tripulantes deu um grito e apontou na mesma direção em que Theophilus havia registrado aquela estranha sombra. Tratava-se, de fato, de uma sombra compacta de uns dois metros de altura e um de largura. Um calafrio incomum percorreu sua espinha. Os nativos tentavam manter a calma, concentrando seus esforços na mudança rápida de direção da canoa. O velho feiticeiro continuava com seus encantamentos. Como pesquisador e cientista, Theophilus não poderia compartilhar desse medo. Mas quando um ameaçador tubarão começou a circundar a canoa, seu medo tornou-se cristalizado e dominou-o.
- Vejam – gritou um dos nativos – As bruxas.
Aquele terror durou por duas horas. Depois, em terra firme, todos contavam como o feiticeiro havia conseguido livrá-los da morte com seu poderoso kayga’u. Comentaram da loucura do homem branco que queria ver as bruxas de perto. Todos riram de sua ingenuidade e Theophilus também se riu. Que vida e que prazer em tudo, ele pensou.


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Após quatro anos de convivência com os nativos daquelas ilhas que trancavam a mente num mundo em que tudo era possível e realizável, Marcus Theophilus Boyle havia dado cabo a seu primeiro trabalho: As bruxas voadoras do sistema Kula. Seu trabalho não despertou o interesse desejado por ele. Ele reconhecia que sua obra fora ofuscada pelo lançamento de Magia, Ciência e Religião e outros ensaios do próprio Malinowski e isso, apesar de sua frustração inicial, não o deixou verdadeiramente triste, muito pelo contrário, seu espírito sentiu-se mais livre do que nunca com a coincidência – e ele não acreditava nelas – de seu trabalho ser lançado ao mesmo tempo em que aquela obra magnífica.
Depois de alguns anos não se ouviu mais falar em Theophilus; nem tampouco em suas teorias criativas que extrapolavam um pouco o âmbito estrito da ciência. Alguns navios de expedição ainda aportaram nas Ilhas Trobriand e inclusive seu professor Konzmannoff tentou encontrá-lo, mas não tiveram nenhuma pista do paradeiro daquele promissor antropólogo. Alguns nativos – e isso souberam através do professor Konzmannoff – afirmavam que Theuwana, como eles chamavam Theophilus, havia se tornado um dos mais importantes feiticeiros de um Kula distante e que era muito difícil encontrá-lo se ele mesmo não quisesse aparecer. Alguns expedicionários e missionários, inclusive, tentaram encontrá-lo no meio daquele universo particular de ilhas, mas todas as tentativas redundaram em um solene fracasso. Não sabemos e não podemos nem mesmo entender como Theophilus desapareceu dentro daquele povo de índole tão pacata e bondosa. O professor Konzmannoff ainda conseguiu coletar no antigo acampamento de Theophilus algumas folhas avulsas de um segundo trabalho que este estava começando a redigir. Eis um dos trechos mais interessantes:
“A lua iluminava o telhado das cabanas e a textura das palhas dos coqueiros. Eu me encontrava sentado à frente de minha tenda. Dois nativos me acompanhavam, conversando tranqüilamente sobre nossa última expedição e os preparativos para a grande festa do Kula. Eu os informei que havia visto uns tokway perambulando pelas árvores naquela mesma noite. Eles sorriram e disseram que eles estavam apenas de passagem. O tom da conversa, entretanto, mudou muito quando começamos a falar do triste naufrágio que havia ocorrido naquela manhã. Sabíamos que dois homens estavam desaparecidos e suas famílias pranteavam desde cedo. Todos receavam que as bruxas voadoras surgissem naquela mesma noite. Todos já estavam fechados em suas cabanas. Os dois nativos que me acompanhavam eram estudantes de feitiçaria e acreditavam que sua magia os protegeria de qualquer ataque das bruxas. Isso era um pouco incomum, uma vez que os nativos tentavam evitar as bruxas de qualquer maneira. 
   Eles me pareciam excessivamente intrépidos e confiantes em si mesmos, muito mais do que o mais experiente feiticeiro da tribo. Entretanto, um súbito lampejo de vento frio tomou a tribo toda de assalto. Os dois jovens tremeram quando pressentiram o que realmente se aproximava. Eram mais bravateiros do que eu pude conceber. Eu tentei divisar o céu e a luz que a lua refletia, mas fui ofuscado por uma dezena de sombras que voavam com destreza de um lado para outro. Pude ouvir claramente o som metálico que elas faziam. Os cabelos de minha nuca ficaram eriçados e quase dou um pulo da pedra onde estava assentado. Os dois jovens principiaram uma carreira desordenada até suas cabanas e logo desaparecem de minha vista. Apesar do pânico incontrolável que aquela situação e minha solidão causavam em meu espírito, senti-me impulsionado a ver o que realmente estava me apavorando. Levantei-me de uma vez e segui em direção ao centro da aldeia onde as sombras pareciam maiores e mais volumosas.  Quanto mais eu andava, mas as sombras se distanciavam. Contudo, e isso percebi devido a uma brusca luz que chegou até a clareira principal, toda vez que eu olhava para cima as sombras estagnavam seu bailado como se estivessem esperando algo. Percebi o que fazer: escalar as árvores mais altas. Agucei meus ouvidos, abri bem os olhos e procurei me manter calmo. 
   Escalei uma árvore de copa frondosa e bastante alta. A escuridão repentina não me ajudava a ver com segurança o que eram aquelas sombras. Evoquei mentalmente o ritual que me havia sido ensinado no caso de confronto direto com as bruxas e sem explicação alguma me senti fortalecido para aquele combate imaginário. Parecia-me muito certo que se elas eram de fato as bruxas voadoras, estariam ali acreditando que os corpos do homens desaparecidos no naufrágio deveriam estar na tribo. Esgueirei-me como pude entre os galhos da árvore e, por fim, me aproximei do centro em que as sombras estavam se concentrando. Percebi vozes femininas e um odor translúcido de um hálito que misturava sal e peixe ou algo assim. Quando uma das sombras se aproximou e chegou muito próximo a mim, senti como uma fisgada em meu rim direito, dando um grito de dor e quase caindo do cimo da árvore. Respirei profundamente e cuspi tão forte que senti um fio de sangue escorrendo em meus lábios. 
  Talvez movidas pelo odor do sangue – que naquele instante pareceu invadir toda a tribo – as sombras aproximaram-se e principiaram um ataque feroz contra mim. Foi então que vi a verdade: vi os rostos de todas aquelas mulheres, vi o sangue escorrendo em seus lábios e o torpor feroz de seus olhos brancos, quase distantes. Seus cabelos eram iguais aos das nativas que eu já conhecia e exceto por alguns adornos que eu ainda não havia visto desde então, elas eram mulheres comuns. Fiquei espantado comigo mesmo, pois eu estava vendo aquelas sombras como seres humanos. Elas revolteavam no ar com uma destreza assombrosa. Aproximaram-se de mim com as bocas escancaradas e tentaram arrancar pedaços de minha carne. Por algum mecanismo que naquele momento me pareceu completamente imaterial, eu conseguia afastá-la com uma certa facilidade. Mas isso não obliterava ou fazia o terror que eu me encontrava dissipar-se com facilidade. Tudo realmente aconteceu em poucos minutos. Disse-lhes que o cadáver que elas estavam procurando não se encontrava na tribo, e que seria melhor elas irem procurá-lo nos arrecifes de corais ou em alguma outra praia. Toda vez que uma delas se aproximava com a boca escancarada – e eu estava mais atento do que nunca – eu cuspia em seu rosto e isso as deixava com mais fúria ainda, muito provavelmente por se sentirem impotentes em suas tentativas de me devorar. Minhas pernas e braços tremiam, mas eu sabia que estava lutando por minha vida. 
  De súbito, e isso sem explicação alguma, a lua tornou-se mais brilhante, refletindo com um poder sublime a luz do sol. As bruxas, pude perceber com o maior alívio que eu já havia experimentado em vida, partiram voando para a formação de coral mais próxima. Desci da árvore ainda trêmulo e com um gosto terrível de sangue na boca. Passei um mês inteiro entre a vida e a morte, deitado na minha tenda e sendo atendido por um dos mais poderosos feiticeiros do distrito inteiro. Ele, na verdade, havia se oferecido a vir de longe para curar o que ele mesmo chamava de “o poderoso feiticeiro branco”. Quando retornei ao mundo dos vivos, todos na tribo começaram a me tratar com um respeito inigualável. Eu passei, então, a receber presentes de todos e a ser visitado por feiticeiros de várias ilhas que sempre me ensinavam algo novo. Foi assim que num dia tomado pelo sol e pelo sal, eu decidi ...”
O professor Konzmannoff havia desistido de procurar seu aluno dileto. Talvez fosse mesmo melhor deixá-lo viver sua nova vida. A realidade, ele pensou, está toda em nossa mente.


Citações


“Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência”.
Karl Marx

“O fator em última análise determinante da história é a produção e a reprodução da vida imediata”.
Friedrich Engels

“Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez consciente”.
Martin Luther King Jr.

“Pense em quão estranha é a situação atual. Há 30 ou 40 anos, nós ainda estávamos debatendo sobre como o futuro seria: comunista, fascista, capitalista, etc. Hoje, ninguém nem mesmo debate estas questões. Nós todos aceitamos silenciosamente que o capitalismo global está aqui para ficar. Por outro lado, nós estamos obcecados com catástrofes cósmicas: toda a vida sobre o planeta se desintegrando, por causa de algum vírus, por causa do choque de um asteroide, ou outra coisa. Então, o paradoxo é que é muito mais fácil imaginar o fim de toda a vida no planeta, que algo muito mais modesto, como uma radical mudança no capitalismo.”
Slavoj Zizek

“O elemento novo que o marxismo introduz na filosofia é uma nova prática da filosofia. O marxismo não é uma (nova) filosofia da práxis, mas uma prática (nova) da filosofia”.
Louis Althusser

“Um estranho paradoxo: as pessoas, quando agem, têm em mente o interesse privado mais mesquinho, mas ao mesmo tempo, no seu comportamento, são mais do que nunca determinadas pelo instinto das massas. E mais do que nunca, o instinto das massas tornou-se errado. O obscuro instinto do animal - como inúmeros episódios o comprovam - encontra a saída para o perigo iminente, mas ainda invisível. Em contrapartida, esta sociedade, onde cada um tem apenas em vista o seu próprio interesse mesquinho, sucumbe como uma massa cega, com estupidez animal, mas sem a estúpida sabedoria dos animais, a todo o perigo, ainda que muito próximo, e a diversidade dos objetivos torna-se insignificante, ante a identidade das forças determinantes”. 
Walter Benjamim